terça-feira, 29 de agosto de 2017

6 de abril

Título: 6 de abril
Autor: Sveva Casati Modignani
Páginas: 302

Lendo as primeiras páginas, tem-se a impressão de tratar-se de um livro de espionagem, tendo em vista o estilo enigmático da história. Mas a realidade é bem diferente.

O livro nos apresenta a saga das mulheres de uma família italiana, mostrando as dificuldades e os percalços encontrados para tentar sobreviver e dar continuidade à sua família. Apesar de Irene ser a personagem que aparece no início do livro, a personagem principal da história é sua avó, Agostina, que, devido ao seu gênio contestador, só conheceu dificuldades durante sua vida.

Trechos interessantes:

"-Tem a certeza que sabe como é que eu me sinto? Estou aqui há sete dias e ninguém se apresentou para dizer: sou o marido, ou o namorado, ou o filho, ou a mãe, ou o amigo do peito, ou o colega de trabalho. Ninguém me procurou. De onde venho? O que será que fiz de tão terrível para ninguém me procurar?" (pág. 19)

"-E resume-se a isso, aquilo que deseja da vida?
-Oh, não! Desejo muito mais - declarou sorrindo.
-Por exemplo?
-Quero ficar rica e ser admirada, cortejada, bajulada e venerada.
-Pensava que sonhava com o Príncipe Encantado. Normalmente, na sua idade, as moças sonham com o amor.
-O amor, como diz a minha avó, dura um dia. A riqueza e o poder duram toda a vida.
-Irene, Irene, quando é que vai crescer? - suspirou Angelo, enquanto despenteava os seus cabelos.
-Se crescer significa contentarmo-nos com aquilo que temos e deixar de sonhar com os olhos abertos, eu nunca vou crescer." (pág. 41)

"-Posso fazer alguma coisa por você? - perguntou-lhe alguém em surdina. Francesca teve um sobressalto. Achou-se ao lado de uma freira que a olhava com simpatia. As outras tinham ido embora e a igreja estava deserta.
-Estou à procura de Deus - sussurrou.
-Procura-o em você - respondeu a monja." (pág. 88)

"-É preciso que você saiba. A tua vida, o teu futuro, são coisas que me preocupam. Vive-se mal no meio dos equívocos. Na nossa família há muitos equívocos para uma menina como você. Sabe, Irene, a vida não é fácil para ninguém. Mas para as mulheres é dificílima. O mundo muda muito depressa e nunca para melhor, pelo menos para nós." (pág. 117)

"Durante dias e dias, da madrugada até o anoitecer, andou dobrada colhendo flores. Agostina aprendeu rapidamente a fazer raminhos de vinte, quarenta e sessenta violetas. Uma mulher passava e colocava os ramos em grandes caixas de cartão que eram logo despachadas para as grandes cidades: Paris, Lion, Londres. Eram presentes para mulheres cortejadas e elegantes que, ao recebê-las, sorririam satisfeitas sem saberem nada sobre a dor e o cansaço, as privações e as lágrimas de outras mulheres menos afortunadas." (pág. 123)

"Agostina pensou que as mulheres vivem toda a vida numa condição de perene submissão: primeiro ao pai e depois ao marido. Enquanto a mulher respeitasse essa regra, garantindo ao homem o direito de supremacia, gozava do respeito dos outros. Agostina não tinha conseguido aceitar essa situação." (pág. 163)

"-Hoje de manhã estava no estábulo e apareceu um delegado sindical de Cuneo - contou Agostina. -Disse-me que eu não devia ordenhar as minhas vacas porque ao domingo não se trabalha. Não é que está tudo maluco? São animais e não sabem que ao domingo não podem produzir leite. Se não as ordenho apanham uma mastite e depois tenho que mandá-las para o matadouro. Aquele é um dos tais que acreditam que o leite é o leiteiro que o faz." (pág. 196)

"-O que foi que eu fiz de mal? - perguntou Agostina.
-Só fez aquilo que a apeteceu fazer. O mal e o bem não têm nada a ver com isso. Deixa as coisas acontecerem, sem se atormentar. Só o Senhor é onipotente. Quer competir com Ele?" (pág. 217)

"Muitas fazendas pequenas agonizavam. Os jovens trabalhavam na indústria, única saída para a sobrevivência, enquanto os pais conseguiam com dificuldade tratar das pequenas propriedades.
Onde morria uma fazenda, nascia uma pequena fábrica. As instalações fabris, da periferia das cidades, invadiam os campos. O novo avançava com a arrogância do vencedor, e o velho, apesar de ter já perdido o fôlego, não se decidia a morrer." (pág. 228)

"-Quem é que quer derrubá-lo?
-Todos aqueles que me invejam. E são muitos. Cada operação comercial, cada transação, cada nova aquisição, cada nova empresa é como uma batalha em campo aberto entre dois exércitos opostos. Vence quem for mais forte, quem for mais destro, quem conseguir levar para o seu lado gente da facção adversária. Muitas vezes, quem perde não se conforma e continua a combater. Se não consegue através das vias legais, tenta com a difamação ou, pior ainda, com a intimidação - explicou, calmamente." (pág. 256)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O arroz de Palma

Título: O arroz de Palma
Autor: Francisco Azevedo
Páginas: 362

O livro é um relato de Antonio, um velho de 88 anos que se emociona ao relembrar a sua história e de sua família. Seus pais eram portugueses e, quando se casaram receberam de presente de sua Tia Palma, o arroz que foi jogado sobre eles depois da cerimônia, com a crença de que era um arroz abençoado e que lhes trariam felicidade e harmonia.

Esse arroz acompanha toda a trajetória da família, passando de um para outro, menosprezado por uns, desejado por outros e assim vai. Os pais de Antonio vieram para o Brasil, tiveram aqui quatro filhos e, durante todo esse tempo, o arroz de Palma teve a sua influência sobre o desenvolvimento dessa família.

Trechos interessantes:

"Sim, ainda tenho momentos de lucidez. Meu nome é Antonio. Antonio de quê? Antonio de tudo o que vivi e passei, vivo e passo. Depois, é fácil. Passarei, como tantos já passaram, para dar espaço às vidas incontáveis que virão - certo dia, por boas maneiras, o velho vivido agradece a atenção dispensada, fecha os olhos educadamente, levanta-se e cede o lugar para o bebê que chega, qualquer um que chega. Família somos todos." (pág. 15)

"-Já é tarde. Você jantou. Viu alguma bobagem na televisão. Veio para o quarto, leu mais uns capítulos do livro de cabeceira. O sono bate. As pálpebras começam a pesar. Agora, você quer é dormir. Está de banho tomado, dentes escovados, camisola limpa, nova muda de roupa de cama. O colchão com o lençol esticado apetece. Podem convidá-la para o que for, a melhor festa, o programa mais animado, ver o amigo ou o filho mais querido, conhecer a cidade que você sempre sonhou, comer o doce especial, fazer a antiga extravagância, o sexo mais arrebatado. Nada seduz. Nada será capaz de lhe tirar aquele soninho gostoso. Você se dá por satisfeita, está de bem com a vida. Tem certeza de que será uma noite tranquila. Enfim, quer mesmo é apagar a luz e dormir. E você dorme. E você se entrega ao desconhecido sem nenhum medo." (pág. 63/64)

"Quando conto ao meu neto casos vividos por mim, e por pessoas que me são queridas, ou que me foram passados por meus pais ou Tia Palma, não aspiro à posteridade. Bem ou mal falado, meu nome não irá além de umas poucas gerações. Pretendo apenas cuidar do meu jardim. Depois, será a vez de o mato tomar conta. Mas tudo a seu tempo.
Coleciono alguns guardados preciosos que, quando eu morrer, serão jogados fora, porque só fazem sentido para mim. A memória material deles começa e acaba em mim. Só a mim eles emocionam. Só eu lhes estimo o valor." (pág. 82)

"Acontece que família é prato difícil de preparar. Mesmo nas mãos do cozinheiro mais experiente, o doce desanda de uma hora para outra. A fofoca, súbito faz o estrago. O mexerico surpreende e desperta a fúria de quem parecia o mais pacato. Nada a fazer - há dias em que o mundo amanhece de ovo virado. O caldo entorna. E aí, mesmo em casas onde há fartura e sobra pão, todos berram sem razão. Por isso, quando há bolo na família, nunca ponho fermento. Deixo passar o tempo. E o que hoje parece tão sério, breve passará a fazer parte das reminiscências, das conversas de mesa, da horinha da saudade. Mas que, no momento, machuca, ah, machuca." (pág. 108/109)

"Breve tocará o sinal e o Professor Deus tomará a minha prova. Tantas questões por responder." (pág. 124)

"Tia Palma acha engraçado o nome 'Pão de Açúcar'. Que ideia! De onde será que tiraram isso?! Espanta-se por eu saber que foram os tupinambás, primeiros habitantes da região, que o batizaram de 'Pau-nh-açuquã' que, em tupi-guarani, quer dizer 'morro alto, isolado e pontudo', mas que os portugueses traduziram erradamente para 'Pão de Açúcar'. Tia Palma discorda: 'erradamente, não. Poeticamente'. Está certíssima.Já começo até a achar que o morro se parece mesmo com um bico de pão. Agora, é só esperar um pouco de neve no topo e o nome estará perfeito." (pág. 180/181)

"A felicidade desperta mais inveja que a riqueza." (pág. 250)

"Jovens, queremos o impossível, e isso é bom, porque o desatino nos dá preparo físico e fôlego para a realização de nossos sonhos. Adultos, aprendemos aos poucos a nos contentar com o possível - o sucesso possível, a saúde possível, a beleza possível, a ousadia possível - e isso é bom, porque a moderação nos vai ensinando o desapego necessário para, chegada a hora, podermos deixar a vida que é vigorosa e linda demais." (pág. 265)

"Palavra mete medo, assusta. Toda palavra. A mais inofensiva, súbito, causa estrago. Uma combinação equivocada, um tom infeliz, uma vírgula precipitada ou omissa podem significar o desastre. Palavra machuca, deixa marca. Palavra mata. Palavra deveria ficar guardada bem no fundo, no alto dos armários. Longe do alcance das crianças. E dos adultos. Palavra é arma. É preciso ter porte para usá-la." (pág. 292)

"Digo que não faz ideia do que era a vida antes da internet, da emoção ao abrirmos um envelope com notícias vindas de longe. Hoje, nem existe longe! Tudo é ali na esquina! [...] Mas, cá entre nós - e não vou falar isso para o Bernardo, que é até maldade -, é triste ser de uma época em que a única correspondência que nos chega ao escaninho são extratos bancários, contas, avisos de débito automáticos e propagandas inúteis." (pág. 312)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Entre assassinatos

Título: Entre assassinatos
Autor: Aravind Adiga
Páginas: 340

O autor descreve uma cidade fictícia, num período entre o assassinato de Indira Gandhi e o assassinato de seu filho, Rajiv. Os acontecimentos dessa cidade mostram os sentimentos e anseios da população em meio ao caos político existente na Índia.

O livro apresenta várias histórias independentes que retratam principalmente a situação da classe pobre do país. O mais estranho é que, apesar da extrema pobreza da população e situação desumana vivenciada pela maioria, não deixa de existir alegria e esperança.
 
Trechos interessantes:

"-Sabe aquele rapaz que vai de casa em casa oferecendo vinte rupias para quem lhe vender as caixas velhas de Johnnie Walker Red label? - perguntou Abbasi. - Para quem ele vende essas caixas depois?
[...]
-É claro que ele vende para o falsificador. É por isso que o Johnnie Walker Red que você compra na loja, mesmo que venha numa garrafa genuína e numa caixa genuína, é falsificado.
Abbasi falou devagar, desenhando círculos no ar com o dedo:
-Quer dizer que eu vendi a caixa ao homem que vai vender ao homem que vai falsificar a bebida e vender de volta para mim? Isso quer dizer que eu enganei a mim mesmo?" (pág. 33/34)

"Aqueles homens eram contrabandistas, ladrões de carro, gângsteres e coisas piores; mas enquanto tomassem chá juntos, nada iria acontecer com Abbasi. Essa era a cultura do Bunder. Um homem podia ser esfaqueado à luz do dia, mas nunca à noite, e nunca enquanto estivesse tomando chá. De qualquer forma, o senso de solidariedade entre os muçulmanos do Bunder havia se aprofundado desde os conflitos." (pág. 36)

"-Eu não quero causar nenhum problema para o senhor nem para os editores; eu apenas adoro livros: adoro fazer livros, segurar os livros nas mãos e vender. Meu pai ganhava a vida limpando bosta, senhor: não sabia ler nem escrever. Ele ficaria tão orgulhoso se pudesse ver que eu ganho a vida com livros." (pág. 48/49)

"Vamos simplesmente escrever toda a verdade, e nada além da verdade, no jornal de hoje. Só hoje. O dia da verdade plena. É tudo o que eu quero fazer. Pode ser que ninguém perceba. Amanhã poderemos voltar com as mentiras de sempre. Mas só por um dia eu quero comunicar, escrever e editar a verdade. Por um dia na minha vida quero ser um jornalista propriamente dito. O que o senhor diz disso?" (pág. 160)

"-Pare de dar lições na gente, seu filho da puta! - gritou.
-Quem nasce pobre neste país está fadado a morrer pobre. Não há esperança para nós, e a gente não precisa de piedade. Certamente não de você, que nunca mexeu um dedo para nos ajudar; eu cuspo em você. Cuspo no seu jornal. Nada nunca muda. Nunca vai mudar." (pág. 187/188)

"Uma placa na porta mostrava Indira Gandhi com a mão levantada e o slogan: 'Mãe Indira vai proteger os pobres.' Chenayya abriu um sorriso forçado.
Será que eles tinham enlouquecido completamente? Realmente achavam que alguém poderia acreditar que um político ia proteger os pobres?" (pág. 194)

"Numa entrega na estação ferroviária, foi beber água numa torneira; ali perto, ouviu motoristas de autorriquixá falando do colega que havia batido no cliente.
-Ele tinha direito de fazer aquilo - disse um deles. - A condição dos pobres neste lugar está ficando intolerável.
Mas eles não eram pobres, pensou Chenayya, deixando cair bastante água em seus antebraços secos; eles moravam em casa, tinham veículos. A pessoa tem que juntar alguma riqueza para poder reclamar que é pobre, pensou. Quando a gente é pobre assim, não tem nem o direito de reclamar." (pág. 197)

"-Vou lhes dizer dos ricos. Em Bombaim, no Hotel Oberoi em Nariman Point, existe um prato chamado 'Beef Vindaloo' que custa quinhentas rupias.
-Impossível!
-Sim, quinhentas! Estava no jornal em inglês de domingo. Agora vocês sabem dos ricos.
-E se você pedir o prato e depois perceber que cometeu um erro, que não gosta da comida? Pode pegar o dinheiro de volta?
-Não, mas isso não importa se você for rico. Você sabe qual é a grande diferença entre ser rico e ser como a gente? Os ricos cometem erros muitas e muitas vezes. A gente comete só um, e já era." (pág. 249)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Desculpem, sou novo aqui

Título: Desculpem, sou novo aqui
Autor: Carlos Moraes
Páginas: 240

O livro narra as peripécias de um ex-padre que foi tentar a vida em São Paulo. De forma romanceada o autor descreve sua própria história ao abandonar a batina, de preso político no Sul até a solidão da cidade grande.

Nessa aventura, sempre recheada de humor, o autor vai se lembrando dos conselhos dos amigos que deixou em Porto Alegre enquanto tenta se adaptar à sua nova rotina já que, para ele, tudo é novidade, desde procurar emprego até se aventurar na noite paulistana.

Trechos interessantes:

"Uma tarde, depois de mais uma entrevista frustrada, fui ao banheiro da empresa onde procurava emprego e vi no espelho um cara bastante assustado com umas franjinhas tipo pega-rapaz caindo pela testa, obra da chuva. Tive que reconhecer: eu também não contrataria aquele sujeito." (pág. 22/23)

"Nos PROCURA-SE dos jornais as vagas mais abundantes eram, por exemplo, para overloque e fresador. Por que não?, pensei. Por que não? O mundo aí se danando e eu ali, quieto no canto, fresando, overloqueando. Nem sei bem o que é isso, mas por que não?" (pág. 27)

"'Confissão de homem é como derramar um saco de pedra no chão: é abrir a boca que cai tudo. Já a de mulher é como derramar um saco de farinha: sacudindo, sempre vem mais um pouco.' O que, imagino, vale tanto para a confissão como para a vida em geral." (pág. 55)

"-Qual é, pô?
Eu só falei:
-Pois é, cara.
Não sei o que ele quis perguntar, nem direito o que eu respondi. Felizmente a comunicação moderna nos propicia esses confortos. E eu nem poderia assim sem mais citar para o Jéfferson meu salmo preferido, aquele que diz que de nada adianta levantar antes da aurora e até alta noite laborar porque o Senhor dá aos que ama enquanto eles dormem." (pág. 87)

"Um dos meus terapeutas dizia que a felicidade é silenciosa, o que muito tilinta é porque está um pouco fora de lugar." (pág. 164/165)

"-Sabe o que é um turista no fundo? Um panaca que sai por aí pra ver se alguma coisa acontece numa vida em que não está acontecendo porra nenhuma." (pág. 198)

"Lembrou que faltavam menos de 30 anos para o ano 2000 e que, segundo um amigo dele, o Bastos, as três coisas mais escassas no próximo milênio hão de ser água, silêncio e caráter." (pág. 203)

"-O que as mulheres mais sonham na vida é que a gente leve elas à loucura. Só que, no auge da loucura, o que que elas mais querem? Que você case, tenha filhos, abra um crediário no Mappin e, pelo resto da vida, não chegue em casa depois das sete. Se isso é que sonham no auge da loucura, o que não pediriam, me diz, no auge da normalidade?" (pág. 233)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Não espere pelo epitáfio!

Título: Não espere pelo epitáfio!
Autor: Mario Sergio Cortella
Páginas: 138

Como o próprio autor afirma, é um livro de provocações filosóficas. São vários textos publicados pelo autor, agora reunidos num único volume.

Vale pelas citações de diversas figuras ilustres da história. Minha opinião pessoal (veja bem, opinião e não crítica, não tenho capacidade para criticar ninguém) é que alguns textos se perdem num emaranhado de personagens e citações. De A para B, B para C, C para D, são tantas as ramificações que, no final, acaba perdendo o sentido da discussão inicial.

Trechos interessantes:

"[...] o dramaturgo espanhol Jacinto Benavente [...] foi tão enfático ao dizer que 'ninguém aprende a viver pela experiência alheia; a vida seria ainda mais triste se, ao começarmos a viver, já soubéssemos que viveríamos apenas para renovar a dor dos que viveram antes'." (pág. 21)

"Voltaire, um dos grandes pensadores iluministas e hóspede eventual da prisão na Bastilha dos começos do século 18 por seus artigos contra governantes e clérigos, escreveu em Cândido que 'o trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade'." (pág. 29)

"É clássica uma pequena história, de muitos e diferentes modos recontada, que diz ter um sábio chinês adormecido e sonhado que era uma borboleta; nesse sonho, a borboleta também dorme e sonha ser um sábio chinês. Quando acordam, quem acorda? Quem acorda o quê? Quem era quem ao despertar? Qual era a realidade e qual o sonho?" (pág. 80)

"A novidade, mesmo aleatória, continua sendo o obscuro desejo de muita gente." (pág. 89)

"'Quem cora já está culpado; a verdadeira inocência não tem vergonha de nada' [Jean-Jacques Rousseau]" (pág. 96)

"Talvez G. B. Shaw estivesse certo ao propor que o homem razoável adapta-se ao mundo; o homem que não é razoável obstina-se a tentar que o mundo se lhe adapte. Qualquer progresso, portanto, depende o homem que não é razoável." (pág. 101)

"[...] Henry Ford dizia: 'a democracia de que sou partidário é aquela que dá a todos as mesmas possibilidades de êxito, segundo a sua capacidade. Aquela que repudio é a que pretende confiar ao número aquilo que pertence ao mérito'." (pág. 125)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O mundo ao lado

Título: O mundo ao lado
Autor: Arthur Simões
Páginas: 328

Dar a volta ao mundo de bicicleta, passando por mais de 40 países, cruzando os cinco continentes em pouco mais de 3 anos. Esta foi a aventura de Arthur Simões, um jovem paulista que, cansado da vida rotineira e sem perspectiva, resolve conhecer novas culturas, costumes e ampliar seus horizontes.

No livro são retratados os trechos da viagem, com comentários detalhados e imagens, mostrando as dificuldades encontradas, a ajuda de pessoas desconhecidas, os momentos tensos em países em guerra ou com grupos fanáticos, a miséria e a pobreza e também as belezas naturais. Enfim, uma grande viagem na qual o leitor pode se sentir também um viajante.

Trechos interessantes:

"A vida na cidade havia perdido completamente o sentido para mim. Ainda mais numa cidade como São Paulo, onde, até para os mais urbanos, muitas coisas não fazem sentido algum. Viver o momento e não se apegar a muitas coisas parecia ser o oposto do que a sociedade pregava. Eu não tinha planos de comprar um apartamento, nem um carro, nem de me endividar, nem de parecer mais inteligente, bonito e endinheirado do que eu realmente era nos círculos sociais da cidade. Eu apenas era eu, vivendo cada momento, e isso incomodava muita gente." (pág. 20)

"As casas eram pequenas e muito simples, feitas de adobe e sal, com telhados de zinco, cuja finalidade era apenas bloquear o vento e o frio, já que nunca chovia naquela região, uma das mais secas do mundo. Os trabalhadores haviam se acostumado com a vida salgada e, literalmente, insalubre. Não esperavam durar muito, já sabendo que dificilmente alcançariam os 50 anos de idade. No entanto, cada um deles tinha uma doçura que se opunha à árida paisagem. Eram pessoas tranquilas, serenas e muito hospitaleiras, capazes de oferecer o pouco que tinham para mim, em trocas de algumas histórias e informações do mundo, o que eles geralmente conseguiam apenas por meio de rádios de pilha." (pág. 65)

"A cultura valia pouco no lugar do qual eu vinha e isso começava a me conduzir a uma maior compreensão da terra onde eu nasci e do que era ser brasileiro. Infelizmente, essa constatação foi apenas a semente do que futuramente se tornaria uma grande decepção com a cultura do meu país." (pág. 72)

"Em Lima fiquei hospedado na casa de Micky [...]. Ela vivia com suas duas filhas, Cielo e Luna, em um bairro bacana de Lima. Numa manhã, ao conversar com Cielo, de apenas nove anos, percebi numa resposta infantil o que eu ainda não havia notado. Ela me perguntou: 'Arturo, por qué nunca cambia de pantalones?' ('Arthur, por que nunca troca de calças?'). [...] ...achando graça na pergunta, respondi: 'Cielo, quando moramos num só lugar, nos acostumamos a trocar de calças e ficar ao lado das mesmas pessoas, mas quando não temos um lugar fixo, como eu, trocamos de pessoas e apenas ficamos com as mesmas calças, pois ninguém terá tempo suficiente para notar que você tem apenas um par delas'." (pág. 89)

"Cerca de 200 quilômetros depois da fronteira, eu cheguei a Varanasi, também conhecida como Benares, cidade com mais de 5.000 anos de história. Ela é considerada sagrada entre os hindus, que deviam visitar a cidade pelo menos uma vez na vida. Assim como se banhar nas águas sagradas do Ganges. O sonho de todo indiano é ser queimado em uma das fogueiras à beira do Ganges e ter seus restos mortais jogados nesse rio sagrado. E, como na Índia há centenas de milhões de hindus com o mesmo sonho, diariamente, em um processo ininterrupto, são queimados milhares de corpos à beira do Ganges." (pág. 169)

"Ao final de meus dias na capital indiana, estava com tudo pronto para seguir para países que ainda eram incógnitas para mim. Informações confiáveis sobre Paquistão e Irã pareciam ser muito raras. Ao sair de Delhi, passei por uma banca de jornal e vi que a capa da Newsweek daquela semana era justamente sobre o Paquistão, com o título: 'O país mais perigoso do mundo não é o Iraque, é o Paquistão!'. E era para lá que eu seguia." (pág. 175)

"Países como Mianmar, Bangladesh, Índia, Nepal e Paquistão eram tão miseráveis que mal forneciam energia elétrica para seu povo. Quem quisesse ter esse luxo deveria ter um gerador de energia próprio em casa ou em seu negócio. Por isso, iluminação pública era algo simplesmente inexistente nesses países." (pág. 196)

"Fugindo de crianças e das pedras que elas jogavam em mim quando viam que eu não daria dinheiro algum, atravessei o país pedalando, ora ao lado de paisagens incríveis, ora ao lado de uma imensa miséria. O que havia de famoso e mais atrativo na África quase sempre já havia sido depredado pelo turismo em massa, que conseguia modificar praticamente qualquer lugar e deixar as pessoas acostumadas apenas a pedir esmolas e a viver de doações. Muitas vezes, evitava ir a alguns lugares classificados como 'atrações' quando descobria que não havia mais nada de original no local, mas apenas um teatro para atrair turistas e tirar o dinheiro deles. Era um mundo para inglês ver, e não era isso que me interessava." (pág. 246/247)

"Eu não era uma pessoa de briga, muito pelo contrário, no Brasil eu nunca me envolvia em nenhum conflito, mas, naquele continente, algo havia mudado em mim. Havia me tornado uma pessoa agressiva e sem paciência. Não deixava nenhuma provocação de lado e logo respondia à altura de quem quer que fosse. Não levava nenhum desaforo em minha mochila e sempre fazia questão de resolver tudo no momento. Não era algo bom, mas talvez fosse um efeito colateral daquele estilo de vida, nômade, sem lugar. Sabia que não podia deixar nada para amanhã." (pág. 268/269)

"Havia conseguido o que buscava, estava prestes a concluir a volta ao mundo que eu havia proposto anos atrás. No entanto, nunca havia pensado no que faria depois que tudo tivesse acabado. Isso não estava em meu projeto e a simples ideia de voltar para casa já me causava certa apreensão." (pág. 298)

"Neve é algo bonito de se ver, especialmente quando se está longe dela. Estar num lugar no qual não para de nevar só é bom quando se está numa estação de esqui, fora isso, pode ser algo realmente frustrante, particularmente quando mal se pode sair de casa." (pág. 314)

"Enquanto viajava pelo mundo, escutava que o Brasil estava mudando rapidamente e que ele seria, em poucos anos, uma potência mundial. Uma das maiores. Entretanto, ao chegar às terras brasileiras, eu via outra coisa. Vi o mesmo Brasil de sempre, com seu jeitinho malandro, suas festas, seus problemas sociais, suas trocas de favores, seus 'Você sabe com quem está falando?', sua corrupção e simplesmente não conseguia entender como um local desses poderia se tornar um país desenvolvido." (pág. 323/324)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Pássaro raro

Título: Pássaro raro
Autor: Anna Whinston-Donaldson
Páginas: 240

Este é um livro sobre perda e a maneira de tentar adaptar sua vida após esta perda. Jack, um garoto de doze anos, sai para brincar com os amigos num riacho próximo de sua casa. Uma tempestade se inicia e, o que era antes um pequeno riacho, se torna um caudaloso rio e Jack morre por afogamento.

Anna, sua mãe, se desespera pois era uma brincadeira comum, por diversas vezes sem nenhum incidente e, de repente, acontece uma tragédia dessas. O livro tenta mostrar o sentimento de perda que a mãe sente. Como a vida pode se transformar, de um momento para o outro, sem que você possa fazer nada para modificar a situação.

Trechos interessantes:

"Não sei como sei, parada ali na margem, que Jack se foi para sempre. Como uma marcha pode ser mudada tão de repente, ao se chamar pelo filho numa tarde tranquila e perceber, horrorizada, que ele está morto ou agonizando?" (pág. 46)

"Margaret diz algo, no escuro, que chega a ela como uma revelação: 'Todas as vezes em que Jack e eu dissemos: Este é o pior dos dias!, não era verdade. Este é o pior de todos os dias'." (pág. 57)

"Ninguém nunca me contou que o luto é tão parecido com a vergonha." (pág. 82)

"Margaret me conta que ela às vezes imagina que, no final do dia, Jack passará por ela, abrirá a porta do carro e sentará no seu lugar, obrigando-a a pular por cima dele, como costumava fazer. Porém, ela está parada sozinha no lugar deles na frente da escola. Abre a porta do carro, iça sua mochila pesada para o lugar de Jack e salta por cima dela. O assento está vazio, mas ela não senta ali. Fico imaginando quantas vezes por dia ela ainda para e pensa, assim como eu: Isso aconteceu mesmo? Parece tão chocante, impossível e estranho. Como alguém pode morrer, quando seu cereal predileto está no armário, as roupas da escola, guardadas na gaveta, ou quando ainda recebe correspondência?" (pág. 99)

"Todos já ouviram falar que é difícil um casamento sobreviver à perda de um filho. Não sei quais são as estatísticas e não tenho pressa em descobrir. Digamos que, mesmo fazendo pouco tempo da morte de Jack, tenho consciência de que a contagem regressiva para o fim de nosso casamento já começou." (pág. 134)

"Acho que eu não entendia que não se pode aplicar matemática ao luto. Perda é perda. Evidentemente, me dei conta de que tenho uma filha e um marido sadios. Eu os amo profundamente, mas a presença dos dois aqui não anula a perda do outro 'lá'." (pág. 160)

"É claro que, lá no fundo, só sou moralmente contra qualquer pai ou mãe ter de homenagear o local onde o filho está enterrado, porque não acho que mães deveriam ter de enterrar filhos. Nunca. Então, o túmulo de Jack em branco é, de certa forma, meu protesto silencioso." (pág. 190)

"Quando Jack tinha seis anos, certo dia, estacionamos na entrada e ele disse: 'Acho que talvez eu queira ser um missionário, mas acho que sou muito tímido'.
[...]
Fico imaginando, pela maneira como ele ainda toca a vida das pessoas, mesmo um ano após a morte, se Jack não se tornou missionário sem precisar dizer uma única palavra." (pág. 215)

domingo, 18 de junho de 2017

As piores invenções da História

Título: As piores invenções da História
Autor: Eric Chaline
Páginas: 256

A história da humanidade é contada pela evolução de suas invenções. Porém, nem sempre as invenções foram a salvação da humanidade e, mesmo assim, muitas "contribuições" que elas ofereceram, poderiam ser melhor aproveitadas.

O livro apresenta uma relação de invenções que não deram certo, por um motivo ou outro, apresentando as falhas e os principais responsáveis por elas. O objetivo principal não é crucificar os "inventores" mas discutir as principais razões pelas quais a invenção não emplacou.

Trechos interessantes:

"No contexto deste livro, 'piores invenções' pode ter vários sentidos. O primeiro é de fracasso, seja heroico, trágico ou ridículo - embora às vezes as invenções tenham conseguido ser essas três coisas." (pág. 8)

"Se apenas uma fração dos trilhões de dólares gastos no petróleo e nas indústrias a ele relacionadas tivesse sido investida em outras tecnologias menos poluentes, poderíamos agora não estar enfrentando a catástrofe planetária que é o aquecimento global, além de uma série de outros problemas sociais, econômicos e ambientais. Contudo, uma combinação de ganância e visão de curto prazo por parte das grandes empresas e corrupção e falta de vontade dos governos permitiu que um recurso limitado e não renovável se  tornasse a principal fonte de energia para o planeta e a matéria-prima para muitos de nossos bens de consumo." (pág. 22)

"Embora muitos países tenham abolido ou suspendido a pena de morte, ela ainda é praticada em certas nações, notadamente Estados Unidos, China e Irã. Nos dois últimos, é às vezes imposta por atos não considerados crimes em outras partes do mundo, como a execução de homens no Irã por serem homossexuais e de dissidentes políticos na China. Nessas circunstâncias, a pena de morte não é um instrumento de justiça, mas de opressão arbitrária do Estado." (pág. 31)

"Para uma pessoa comum, em particular nas culturas mais dependentes dos automóveis dos Estados Unidos e Europa, incluir o motor de combustão interna na lista das 'piores invenções' deve parecer absurdo. Afinal, a indústria automobilística tem sido um setor de vanguarda, impelindo o desenvolvimento econômico e tecnológico desde o início do século XX. Infelizmente o próprio sucesso criou um legado de desastres para a humanidade: engarrafamentos, poluição, recursos petrolíferos reduzidos e mudanças climáticas." (pág. 111/112)

"Se a indústria do fast-food precisa servir de bode expiatório por produzir e vender lixo comestível barato e delicioso, nós temos que aceitar nossa parcela de culpa por comprá-lo e comê-lo." (pág. 154)

"Embora muitos animais matem e comam membros de sua própria espécie, e às vezes seus próprios parceiros e crias, os seres humanos são únicos no reino animal pela capacidade de arriscar o extermínio de toda a sua espécie e, por extensão, de todas as demais espécies do planeta." (pág. 204)

"Muitos profetas são mal entendidos e insultados em sua época e, de fato, desde o tempo de Jesus, ser rejeitado e desprezado parece ser um pré-requisito para o cargo. talvez a medida de qualquer ideia ou sistema de crenças seja o homem ou a mulher que o criou. Abraão foi um pastor. Jesus, um carpinteiro, e Maomé, um condutor de camelos, mas as religiões que fundaram perduraram." (pág. 212)

"Os leitores com menos de 30 anos talvez não se lembrem dos cerca de 5 mil anos em que a civilização humana sobreviveu sem as contribuições vitais do e-mail, mecanismos de busca e pornografia on-line, mas tal época lendária existiu deveras." (pág. 227)

terça-feira, 6 de junho de 2017

Em busca da América

Título: Em busca da América
Autor: Anne Tyler
Páginas: 320

Dois casais estão no aeroporto aguardando a chegada de bebês que adotaram, vindos da Coreia. Um casal é iraniano e o outro, americano. Devido à similaridade da situação, acabam se conhecendo e se relacionando com o objetivo de trocar experiências na criação das crianças.

Logo passam a ser amigos inseparáveis e todos sempre acabam se reunindo para as intermináveis comemorações durante o crescimento das crianças. Com isso, o modo de ver a vida e as relações humanas das duas famílias são colocados em discussão, mostrando os pontos de vista dos americanos e daqueles que ali tentam construir sua vida.

Trechos interessantes:

"Pela experiência de Maryam, as esposas costumavam se adaptar mais rapidamente. Quase da noite para o dia, elas decodificavam os costumes nativos, dominavam os 'ins' e 'outs' dos supermercados e rodízios de carona, ganhavam confiança e segurança enquanto seus maridos, enterrados no trabalho, limitavam seu novo inglês a termos médicos ou ao vocabulário de salas de reuniões. Os homens dependiam das mulheres, naquela época, para lidar com o mundo prático para eles; mas no caso dos Hakimi, a situação parecia ter sido invertida." (pág. 50)

"Bom, certamente uma pessoa pode ter defeitos piores do que estes. Não eram suficientes para justificar o divórcio. Mas o fato era que eles tinham se casado sem muito mais do que um conhecimento superficial prévio. Ela percebeu isso tardiamente. Eles tinham se enamorado pela mera ideia um do outro - duas crianças obedientes tentando ao máximo agradar aos pais - e passaram quatro anos se mantendo em lados opostos do campus só para não ter que descobrir como eram pouco compatíveis." (pág. 64)

"Ziba uma vez lhe contou que seus pais acreditavam que as pessoas que não podiam ter filhos não deveriam ter filhos; não estavam destinadas a ter. 'Destino!', Ziba tinha dito com uma risada, mas Bitsy não riu com ela. Em vez disso, estendeu a mão e cobriu a de Ziba, e os olhos de Ziba de repente se encheram de lágrimas." (pág. 73)

"Mas sob nenhuma circunstância ela teria cogitado em deixar Jin-Ho por uma noite. Ficaria louca de preocupação! As crianças eram tão frágeis. Ela entendia isso agora. Quando se pensava em tudo que podia acontecer, as tomadas elétricas, os cordões das venezianas, a salmonela do frango, o verniz tóxico dos móveis, os pedaços de comida do tamanho da traqueia, os vidros de remédio destampados e os cinco centímetros letais de água na banheira, parecia um milagre que qualquer criança conseguisse chegar à idade adulta." (pág. 81)

"'Eu sei que Ziba acredita que estaremos salvando alguém', ele disse. 'Alguma criança que nunca terá uma oportunidade, um órfão destituído. Mas não é tão simples quanto ela pensa, mudar uma vida para melhor! É tão fácil fazer o mal neste mundo, mas tão difícil fazer o bem, é o que eu acho. É fácil bombardear um edifício e fazê-lo em pedaços, mas é difícil construir um; é mais fácil causar um dano a uma criança do que ajudar uma que tem problemas[...]'" (pág. 106)

"Eu costumava pensar que se alguém viesse a mim de repente e me dissesse, 'Seu marido acabou de morrer', quando ele estava perfeitamente saudável, eu teria achado mais fácil. Foi vê-lo ir se acabando devagar, devagar, devagar que tornou tudo muito mais difícil." (pág. 136)

"Era como caminhar por um tapete vermelho e então se virar para ver que os subordinados estavam enrolando-o atrás de você." (pág. 139)

"Já não aceitava convites para aquelas festas inúteis e superficiais que ela e Kiyan tinham suportado. Suas amigas ocasionalmente questionavam isso. Ou pelo menos, Danielle. Danielle estava sempre procurando por novos conhecidos e novas experiências. Mas Maryam dizia 'Por que me incomodar? Esta é a única coisa boa de ficar velha: eu sei do que gosto e do que não gosto'." (pág. 298)

domingo, 7 de maio de 2017

Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose

Título: Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose
Autor: Stephen Rebello
Páginas: 254

É de conhecimento geral que Psicose é um dos maiores (se não o maior) trabalhos de Hitchcock e o livro conta justamente isso: a elaboração do filme, desde a ideia inicial até a distribuição comercial. Mas não foi uma tarefa fácil já que a maioria era contrária à realização do filme, considerando-o simples e sem interesse para o público.

Hitchcock tinha tanta certeza do resultado que, diante da recusa de produtores, colocou seu próprio dinheiro para que o filme fosse em frente. Escolheu os atores a dedo, usou sua própria equipe de filmagem, não mostrava as cenas a ninguém e, utilizando um baixo orçamento, fez uma das maiores obras-primas do cinema.

Trechos interessantes:

"Fiquei imaginando como esse homem, que nunca foi suspeito de qualquer delito, numa cidadezinha onde, se uma pessoa espirrasse no lado norte, alguém no lado sul diria 'Saúde', de repente foi revelado como um assassino em série. Também fiquei intrigado com o quanto seus vizinhos estavam pouco dispostos a falar sobre esses crimes. Disse para mim mesmo: 'Tem uma história aí'." (pág. 26)

"Lew Wasserman vinha esperando por uma oportunidade de capitalizar o carisma excêntrico que a aparência de querubim macabro de Hitchcock proporcionava. O diretor tinha aceitado recentemente ceder seu nome para a Alfred Hitchcock Mystery Magazine, um empreendimento fundado por um ricaço da Flórida, no qual ele não colaborava na seleção de textos nem na edição. Mesmo as introduções das histórias narradas na primeira pessoa eram escritas pelo advogado-romancista Harold Q. Masur. Só o nome de Hitchcock, porém, era suficiente para colocar a circulação nas alturas." (pág. 44)

"O sangue-frio do diretor não chegou a surpreender o roteirista, que achava a equipe de Hitchcock 'uma estranha organização'. Segundo Stefano: 'Eles não faziam elogios. Era como a realeza. O elogio era o fato de você ter sido convidado'." (pág. 61)

"Marshall Schlom explicou: 'Ele estava preocupado com o fato de os primeiros espectadores contarem o final logo que saíssem do cinema. Isso prejudicaria o filme'. De forma a combater essa possibilidade e reforçar a aura de mistério que envolvia o filme, optou por não o exibir previamente para críticos e formadores de opinião, uma atitude que contrariou o que era considerado tradição e privilégio da indústria." (pág. 166)

"Um desesperado gerente de cinema ligou para a Paramount de Chicago: as pessoas na fila para ver o filme foram pegas por uma chuva e ameaçavam desmantelar o Woods Theater se não as deixassem entrar. Hitchcock entrou na linha. 'Compre guarda-chuva para todos', instruiu como se fosse Maria Antonieta, e os guarda-chuvas foram comprados. O caso e a citação renderam ao diretor resmas de publicidade gratuita ao virar assunto de primeira página nos jornais da manhã seguinte." (pág. 179/180)

"E, quanto à primeira onda de críticas desencontradas, o diretor tinha aprendido a seguir a atitude do 'esperar para ver'. Afinal, filmes anteriores como Correspondente estrangeiro, A sombra de uma dúvida, Interlúdio, Intriga internacional e Um corpo que cai - hoje reconhecidos como grandes trabalhos - também despertaram reações variadas dos críticos quando foram lançados. O fenômeno da 'reviravolta' que ocorreu com vários de seus trabalhos levou o diretor a comentar: 'Meus filmes passam de fracassos a obras-primas, sem nunca terem sido sucessos'!" (pág. 182)

"Eu acho que ele [Hitchcock] estava amedrontado e um pouco ofendido por ter feito esse filme de baixo orçamento e conseguido uma resposta como nunca teve, mesmo tendo gasto tanto dinheiro e feito coisas tão impressionantes antes. Era como servir banquetes extraordinários com frequência e aí quando você faz um cachorro-quente as pessoas dizem: 'Isso é a melhor coisa que eu já provei!' E todas aquelas excelentes refeições que ele preparou antes?" (pág. 193)

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A elegância do ouriço

Título: A elegância do ouriço
Autor: Muriel Barbery
Páginas: 350

Renée Michel é a zeladora de um prédio luxuoso em Paris. Mas ela não é como a maioria das zeladoras. Ela não vê televisão, tem um gato chamado Leon e uma paixão incrível pela leitura. Renée é uma zeladora culta mas a última coisa que ela quer é mostrar isso, para todos ela quer passar a ideia de que é uma zeladora comum.

Quando um novo morador muda-se para o hotel seu plano ameaça ruir já que o Sr. Ozu (o novo morador) suspeita que ela é muito mais que uma simples empregada. Será que vale a pena continuar fingindo ser uma pessoa comum ou seria melhor entregar os pontos e desfrutar de uma amizade conjunta?

Trechos interessantes:

"Aparentemente, de vez em quando os adultos têm tempo de sentar e contemplar o desastre que é a vida deles. Então se lamentam sem compreender e, como moscas que sempre batem na mesma vidraça, se agitam, sofrem, definham, se deprimem e se interrogam sobre a engrenagem que as levou ali aonde não queriam ir." (pág. 19)

"Aprendi a ler sem ninguém saber. A professora ainda repetia as letras para as outras crianças, e eu já conhecia havia muito tempo a solidariedade que tece os sinais escritos, suas infinitas combinações e os sons maravilhosos que tinham me investido naquele local, no primeiro dia, quando ela dissera meu nome. Ninguém soube. Li como uma alucinada, primeiro escondido, depois, quando o tempo normal da aprendizagem me pareceu superado, na cara de todo mundo mas tomando o cuidado de dissimular o prazer e o interesse que tirava daquilo." (pág. 45)

"Os que sabem fazer fazem, os que não sabem fazer ensinam, os que não sabem ensinar ensinam aos professores, e os que não sabem ensinar aos professores fazem política." (pág. 57)

"O gato, dorme.
Repito, para que não fique nenhuma ambiguidade: O gato vírgula dorme.
O gato, dorme.
A senhora poderia, receber.
De um lado, temos este fantástico uso da vírgula que, tomando liberdades com a língua, pois em geral não se põe vírgula antes de locução conjuntiva aditiva, magnifica a forma." (pág. 116)

"Todas as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes o são cada uma a seu jeito é a primeira frase de Ana Karenina, que, como toda boa concierge, eu não deveria ter lido, assim como não me é conferido o direito de ter estremecido por acaso ao ouvir a segunda parte dessa frase, num momento de graça, sem saber que era de Tolstoi, pois, se as pessoas do povo são sensíveis à grande literatura sem conhecê-la, a literatura não pode pretender ter essa visão abrangente em que as pessoas instruídas a colocam." (pág. 144)

"A sra. Michel tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes." (pág. 152)

"Mamãe anunciou ontem à noite, no jantar, como se fosse um motivo para o champanhe correr a rodo, que fazia dez anos exatos que ela havia começado sua 'aanáálise'. Todos concordarão em dizer que é ma-ra-vi-lho-so! Acho que só mesmo a psicanálise para concorrer com o cristianismo em matéria de amor aos sofrimentos que duram. O que mamãe não diz é que também faz dez anos que toma antidepressivos. Mas, visivelmente, não liga uma coisa à outra. Acho que não é para aliviar suas angústias que toma antidepressivos, mas para suportar a análise." (pág. 176)

"Há sempre a via a facilidade, embora eu repugne tomá-la. Não tenho filhos, não assisto televisão e não acredito em Deus, e são esses todos os sendeiros que os homens pegam para que a vida lhes seja mais fácil. Os filhos ajudam a diferir a dolorosa tarefa de enfrentar a si mesmo, e depois os netos que se virem. A televisão distrai da extenuante necessidade de construir projetos com base no nada de nossas existências frívolas; embaindo os olhos, ela livra o espírito da grande obra do sentido. Deus, enfim, acalma nossos temores de mamíferos e a insuportável perspectiva de que nossos prazeres um dia chegam ao fim. Assim, sem futuro nem descendência, sem pixels para embrutecer a cósmica consciência do absurdo, creio poder dizer que não escolhi a via da facilidade." (pág. 187)

"Então, de repente pensei: Théo talvez tenha vontade de queimar carros, mais tarde. Porque é um gesto de cólera e de frustração, e talvez a maior cólera e a maior frustração não seja o desemprego, não seja a miséria, não seja a ausência de futuro: seja a sensação de não ter cultura, porque a pessoa está dilacerada entre culturas, símbolos incompatíveis. Como existir se não sabemos onde estamos?" (pág. 276/277)

sábado, 22 de abril de 2017

A king in hiding

Título: A king in hiding
Autor: Fahim Mohammad, Sophie Le Callennec e Xavier Parmentier
Páginas: 228

Este foi o primeiro livro em inglês que li até o fim. Dadas as minhas limitações e dificuldades com o idioma, considerei o resultado satisfatório. Para estimular a leitura, escolhi um livro com uma linguagem não muito complexa e com um assunto que me agradava.

O livro conta a história de Fahim, um garoto de Bangladesh que, devido aos problemas em seu país, torna-se um refugiado político e vai viver na França com seu pai. Ali, mesmo sendo um excelente jogador de xadrez e vencendo alguns torneios, encontra dificuldade em se estabelecer legalmente no país, dependendo dos favores de muitos e sonhando o dia em que poderia ter a cidadania reconhecida.

Trechos interessantes:

"A man came up to me:
'Would you like me to teach you?'
I didn't dare disappoint him.
'Yes...', I whispered.
He went off to fetch a large wooden board, put pieces on it one by one, according to some mysterious rule, and started to explaim. I listened, but it was complicated. So I said nothing and stifled my yawns so as not to be rude." (pág. 3)

"My father explained to Nagy and Diana that we had to carry on to Madrid. They found us a bus, but it didn't go to Madri direct: it stopped in France and we would have to change in Paris. I didn't want to go to France, I didn't even want to travel through France. A friend in Bangladesh had told me that in france they eat dogs. I tried to reassure myself by thinking about Zinedine Zidane: perhaps it was eating dog that made him so good? But Zidane or no Zidane, there was no way I was going to eat dog." (pág. 35)

"Like me, my father goes to school: he has French lessons. He never misses a lesson, and is absolutely determined to learn the language in order to 'integrate'. But he makes lots of mistakes and gets his words muddled up. For instance, one lunchtime in the canteen he hears someone say:
'Bon appétit!'
So after that he says it all the time to everyone, in the lobby, on the stairs, in the garden:
'Bon appétit! Bon appétit! Bon appétit!'
He thinks it means 'hello'. It makes me laugh." (pág. 78/79)

"Xavier, tell us the story of Nimzowitsch and the cigar.
'At a tournament, Nimzowitsch's opponent rested a cigar on the edge of the chessboard. Nimzowitsch, who detested the smell of tobacco, demanded that the referee should enforce the ban on smoking. The player with the cigar protested that he hadn't lit the cigar and therefore wasn't smoking, and the referee was force to concede that he was in the right. Whereupon Nimzowitsch retorted:'You know very well that in chess the threat is more powerful than its execution!" (pág. 148)

terça-feira, 14 de março de 2017

História na sala de aula

Título: História na sala de aula
Autor: Leandro Karnal (org)
Páginas: 216

Livro indicado, preferencialmente, para os professores da cadeira de História, já que trata com detalhes sobre esta disciplina em específico. O livro é uma coletânea do trabalho de quatorze profissionais que apresentam suas opiniões e ideias sobre o ensino de história, tanto no ensino fundamental como no ensino médio.

A obra é dividida em duas partes específicas. A primeira parte (Abordagens) apresenta ideias gerais e reflexões teóricas sobre a disciplina e, na segunda parte (Recortes) é discutida a metodologia de trabalho e as diferentes propostas para o ensino de história na prática.

Trechos interessantes:

"Ora, a presença do homem civilizado neste planeta tem poucos milhares de anos e tem causado terríveis males: destruímos sem dó a natureza, submetemos os mais fracos, matamos por atacado e a varejo, deixamos um terço da população mundial com fome, queimamos índios e por aí afora. Mas nossa presença não foi escrita apenas com sangue. Escrevemos poesia sublime, teatro envolvente e romances maravilhosos. Criamos deuses e categorias de pensamento complexos para compreender o que nos cerca." (pág. 20/21)

"Um país cuja população não sabe ler, que, quando sabe, lê pouco, e quando finalmente lê, pouco entende (segundo a constatação insuspeita de um órgão da própria ONU), não tem muitas chances num mundo competitivo e exigente de qualificação de sua força de trabalho." (pág. 21)

"Introduzir no ensino as preocupações mais agudas da sociedade atual não significa deslocar as matérias curriculares, embora a vigência e a adequação de muitos dos seus conteúdos sem dúvida deverão ser revisadas, em alguns casos porque são de valor formativo duvidoso e em outros porque contradizem claramente os princípios subjacentes aos temas transversais (não se pode valorizar a paz e exaltar a guerra ao mesmo tempo, nem fomentar a igualdade entre os sexos destacando apenas as ações realizadas por homens, por exemplo)." (pág. 65)

"Ensinar a edificar o próprio ponto de vista não significa ensinar as soluções,nem significa mostrar aonde se chegou num determinado momento histórico,nem sequer significa dar algumas explicações sobre como e por quê se chegou naquele ponto." (pág. 77)

"Nada mais estranho do que valer-se exclusivamente do escrito para se ter acesso ao modo de vida de uma época em que a maioria das pessoas era analfabeta. Por isso, houve quem defendesse tratar-se a Idade Média de uma 'civilização dos gestos', ou de uma 'civilização da palavra e da voz'. Um bom caminho para se compreender essas proposições é, segundo pensamos, explorar no ensino outras possibilidades de comunicação, como a imagem e a oralidade." (pág. 118)

"Para estudar o passado de um povo, de uma instituição, de uma classe, não basta aceitar ao pé da letra tudo quanto nos deixou a simples tradição escrita. É preciso fazer falar a multidão imensa dos figurantes mudos que enchem o panorama da história e são muitas vezes mais interessantes e mais importantes do que os outros, os que apenas escrevem a história. [Sérgio Buarque de Hollanda]" (pág. 185)

"A regra para um bom trabalho é que ele não possa ser copiado integralmente de fonte alguma, pois apresenta um desafio, que, é claro, deve ser proporcional à faixa etária do aluno." (pág. 213)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A curiosidade

Título: A curiosidade
Autor: Stephen P. Kiernan
Páginas: 388

Comprei o livro aproveitando uma promoção e não esperava muita coisa dele, mas ele me surpreendeu. Achei a história muito bem engendrada, com um tema plausível e onda não há abundância de histórias do tipo. Prende a atenção e, apesar do final já ser esperado, não há como não torcer pelo personagem.

Uma equipe de cientistas descobre nas geleiras do Ártico, um homem congelado. Uma gigantesca operação é montada para preservar e reanimar o homem. Apesar das boas perspectivas no campo científico, no campo moral há alguns inconvenientes. Algumas pessoas são favoráveis à reanimação do homem (agora chamado Sujeito Um) e outras acham que o homem está brincando de Deus. E em meio a tudo isso o Sujeito Um desperta.

Trechos interessantes:

"Desde então, descobri que a vida de uma mulher solteira urbana na casa dos trinta se parece muito com um baile do ensino médio: você torce as mãos esperando que os bons partidos venham convidá-la, mas diz sim a todos os outros porque está cansada de ser invisível." (pág. 15)

"As implicações, que eu havia negado implacavelmente até hoje, são extraordinárias. Há em torno de quarenta mil pessoas ao redor do mundo criogenicamente preservadas, esperando o dia em que a tecnologia lhes possibilite reviver. Há outras sessenta mil pessoas em qualquer dado momento deitadas nas UTIs dos hospitais, sofrendo de doenças incuráveis. Imagine se elas pudessem ser congeladas em gelo maciço até que se encontrasse a cura, ou algum remédio antienvelhecimento, e então fossem reanimadas. Há quase cem mil pessoas aguardando um transplante de órgão. Imagine se você pudesse congelar o corpo de pessoas falecidas recentemente, e então descongelar as partes de que você precisasse mais tarde. Isso faria o transplante ser tão fácil quanto ir à geladeira buscar uma cerveja." (pág. 46)

"O grande Albert Szent-Gyorgyi disse certa vez: 'O que direciona a vida é uma pequena corrente elétrica que se mantém em frente por causa do sol'. Se o Sujeito Um despertar, entretanto, podemos nos aventurar a dizer que o primeiro catalisador para a criação da vida pode não ter sido elétrico, mas magnético." (pág. 66)

"Não era a respiração dele. Era o coração. O homem estava chorando.
Então fiz - com a certeza de que me traria um novo round de recriminações no dia seguinte - o que, acredito, qualquer ser humano deveria fazer quando um companheiro de jornada neste planeta é invadido pela tristeza. Corri até ele e o abracei." (pág. 102)

"Há algo nesta terra mais divertido, realmente, do que um inglês? Desde os dias em que tinham colônia na Índia e Hong Kong, eles são possuídos por um estranho senso de superioridade, que acreditam ser um tipo de honra cavalheiresca, mas você reconhece como tolice. Nobreza para eles; vaidade para você. Por que um norueguês venceu um britânico na corrida ao polo sul? Porque Scott, o inglês, se recusou a usar cães para puxar seu trenó. Não era apropriado a um cavalheiro confiar em animais para tal aventura, ele escreveu em seu diário, como se estivesse puxando uma cadeira para se juntar à Távola Redonda. E assim Amundsen não só chegou ao polo primeiro e voltou inteiro, como o diário de Scott acabou sendo retirado de seu cadáver." (pág. 160/161)

"Provavelmente toda mulher se pergunta em algum ponto da vida: que porção do amor confessado em meus ouvidos era baseada em desejo, e qual era verdadeiramente para mim?" (pág. 230)

"Mas,em sua animosidade descarada, Steele havia me trazido à mente uma velha sabedoria de tribunal: Se um homem lhe chamar de 'amigo', ele não é. Se declarar 'confie em mim', não confie. Se ele disser 'estou falando a verdade', esconda a carteira." (pág. 263)

"-O sinal de um homem estúpido é quando ele se sente livre demais com os insultos." (pág. 307)

"Devemos deixar nossos feitos serem nossos embaixadores. Nosso desafio é viver com toda a sinceridade que há em nosso coração e esperar que aqueles que duvidam enxerguem a verdade." (pág. 385)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A pequena guerreira

Título: A pequena guerreira
Autor: Giuseppe Catozzella
Páginas: 222

Samia Yussuf sempre gostou de correr. Junto com Ali, vizinho e colega de infância, passava o dia treinando, procurando melhorar suas marcas. O problema é que ela era uma garota somali, um país que, além de estar em guerra, tinha muitas restrições às atitudes e vestimentas das mulheres.

O grande sonho de Samia era vencer uma prova dos Jogos Olímpicos. Participou da Olimpíada da China em 2008, mas chegou em último lugar. Decidida a mostrar o seu talento nos Jogos Olímpicos de 2012, a pequena guerreira procura, de todas as formas, sair de seu país para conseguir um treinador e melhores condições de treinamento.

Trechos interessantes:

"Ali e eu nunca nos importamos com a guerra. Que atirassem uns nos outros na rua; a gente não tinha nada a ver com isso. Porque a guerra não afetava a única coisa que importava: o que ele era para mim e o que eu era para ele." (pág. 12)

"-Papai, mas você não tem medo da guerra?
-Você nunca deve dizer que tem medo, pequena Samia. - Ele ficou sério. -Nunca. Caso contrário, as coisas das quais tem medo parecerão grandes e acharão que podem vencê-la." (pág. 32)

"-Mas aonde você quer chegar, hein? - perguntou, apertando as minhas bochechas com uma de suas mãos grandes e mexendo meu rosto de um lado para o outro.
Ele estava brincando, mas eu levei a coisa a sério, como sempre fazia quando se tratava de corrida.
-Aabe, hoje tenho dez anos.
-Sim, é por isso também que, se vencer...
Não o deixei terminar.
-Tenho dez anos e você vai ver que, quando eu tiver dezessete, vou estar disputando uma prova nos Jogos Olímpicos. É lá que eu quero chegar." (pág. 41)

"Gostava das aulas, principalmente de educação física, em que eu era a melhor, mas também de aritmética e contabilidade. O que eu preferia, porém, eram os teoremas da geometria. Era maravilhoso saber que existiam leis escondidas no interior dos nossos terrenos, nos retângulos dos pátios e nos buracos dos banheiros. Ou, por exemplo, dentro do círculo que os burgico deixavam no chão depois das refeições. Parecia algo mágico e me dava uma sensação de segurança. Se haviam regras que o explicavam, o universo não podia ser tão perverso. Quem sabe um dia poderíamos descobrir as leis que levavam os homens a fazer guerra, e, nesse dia, nós a eliminaríamos para sempre. Seria o dia mais bonito da história da humanidade." (pág. 57)

"De um dia para o outro, todos os cinemas foram fechados. Não que eu jamais tivesse tido dinheiro para ir a um, mas a esperança de que isso fosse acontecer, essa existia, e por si só já valia a espera. E, além disso, sempre havia uma colega de turma mais rica que ia às sextas com a família e voltava com aquelas histórias maravilhosas e mágicas. O cinema criava e alimentava sonhos e por isso foi fechado. (pág. 74/75)

"A Viagem é uma coisa que todos nós temos na cabeça desde que nascemos. Cada um tem amigos e parentes que a fizeram ou que, por sua vez, conhecem alguém que a fez. É como uma criatura mitológica que pode levar à salvação ou à morte com a mesma facilidade. Ninguém sabe o quanto pode durar. Se a pessoa tiver sorte, dois meses. Se tiver azar, até um ano, ou dois. (pág. 114)

"O hotel também era lindo. Nada a ver com o de Djibuti.
Colunas e pisos de mármore, portas automáticas. O quarto grande e limpo. Havia televisão e telefone. A cama mais macia que eu já tinha experimentado. Carpete. Um armário para guardar minhas poucas coisas. Toalhas de vários tamanhos no banheiro. Duas pias maravilhosas, uma superfície grandíssima com cremes, xampus e condicionadores de vários tipos. No chão, sobre o mármore, um tapete com as cores do Oriente. E a banheira.

Teríamos a tarde toda livre. Duran só nos havia pedido que não nos afastássemos muito. Mas eu não tinha a mínima intenção de sair. Havia um banheiro bonito demais para ser desperdiçado dando voltas pela cidade." (pág. 126/127)

"Eu tinha chegado por último, mas, ainda assim, e isso foi incrível, menos de dez minutos depois eu também fui afogada pelos jornalistas de todo o mundo. A garotinha de dezessete anos magra feito um prego que vem de um país em guerra, sem um campo e sem treinador, que luta com todas as suas forças e chega por último. Uma história perfeita para espíritos ocidentais, entendi naquele dia. Eu nunca tinha visto as coisas por este ângulo." (pág. 135)

"Éramos 86, ancorados à tecnologia de um GPS.
Não existem ruas no Saara. Não existem trilhas. Cada traficante, cada Viagem, segue sua rota específica. De manhã, as marcas dos pneus são cobertas pela areia. Apagadas para sempre. Não há Viagem igual à outra.
Fica-se durante dias nas mãos de traficantes de pessoas que, por sua vez, estão nas mãos de uma caixinha que se comunica com um satélite." (pág. 181)

"Por que tinha me reduzido a esse estado? Só queria ser uma campeã dos 200 metros. A ninguém no mundo, durante a breve duração de uma vida, devia ser consentido passar por esse inferno." (pág. 194/195)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Explicando Deus numa corrida de táxi

Título: Explicando Deus numa corrida de táxi
Autor: Paul Arden
Páginas: 126

Está claro que o título do livro é uma falácia: nada é explicado, muito menos num período de uma corrida de táxi.

Na verdade trata-se de uma apresentação de frases e ideias para que o leitor faça a conexão e as interprete da maneira que achar melhor. Livro curto, com pouco texto e muitas imagens. Estilo outdoor.

Trechos interessantes:

"Darwin diz que não existe algo como Deus.
Só existem ciência e evolução.
Isso é árido demais para a maioria de nós. Precisamos de uma alma gêmea: olhamos para cima à procura dela.
A maioria de nós precisa de algo espiritual em que acreditar. O homem não pode viver só de pão." (pág. 10)

"Todos temos nossa própria linha direta com Deus.
Não precisamos de pregadores ou profetas.
Precisamos apenas acreditar que existe um poder, ou uma força, que é em si perfeito.
Mas algumas pessoas não aceitam isso.
É simples demais. Precisamos tornar as coisas complicadas.
E Deus sabe como a Igreja sempre torna as coisas complicadas!" (pág. 18)

"Como você pode ter uma fé cega em algo de que não se tem qualquer vestígio de prova?
Pois bem, a resposta é: você não pode.
Se pudesse provar, não se trataria de fé.
Você pode ter fé naquilo que não conhece.
Isso é fé." (pág. 36)

"Brigamos com nossos vizinhos porque não os entendemos, não por discordarmos deles." (pág. 59)

"Nossa recusa a entender as crenças dos outros é a razão de ainda termos guerras religiosas até hoje." (pág. 60)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Jogando xadrez com os anjos

Título: Jogando xadrez com os anjos
Autor: Fabiane Ribeiro
Páginas: 396

Livro que deve agradar ao público juvenil já que sua história é da mesma linha de Pollyanna, onde o otimismo é a tônica principal. Claro que há dificuldades e tropeços, mas a protagonista sempre procura ver o lado bom, apesar das adversidades.

Anny é uma menina de 8 anos cujos pais a entregam aos cuidados de uma vizinha, só a visitando uma vez por ano. Para se consolar a menina conta com uma boneca de pano e um jogo de xadrez que ganhou do pai. Longe dos pais, a menina é tratada como escrava e, para minorar seus sofrimentos, usa o jogo de xadrez para criar um mundo imaginário. Lentamente, mas bem lentamente, as coisas vão mudando...

Trechos interessantes:

"Em seu interior tratava-se de uma disputa, como em uma partida infinita de xadrez. O que o confortava era pensar que todas as pessoas, assim como ele, têm o bem e o mal em seus corações. Era um duelo sem-fim." (pág. 23)

"-A vida é como uma partida de xadrez, se não se consegue em um dia, deve-se tentar no dia seguinte, e nunca deixar de acreditar - Anny dizia para Tiara." (pág. 26)

"Não podemos esperar das pessoas mais do que elas estão prontas para nos entregar - ela pensou -, papai me disse isso uma vez." (pág. 62)

"-Sabe, Anny, nunca se esqueça de sorrir e nunca se esqueça de como é ser criança.
-Mesmo quando eu for adulta? - ela indagou, confusa.
-Principalmente quando você for adulta - falou o rapaz. -Preste atenção no que eu vou lhe dizer. A diferença entre os adultos e as crianças é que, quando crescemos, aprendemos a usar palavras difíceis, achamos que entendemos tudo, aprendemos a nos distanciar dos sonhos e fingimos, fingimos muito. Porque sempre nos preocupamos em manter as aparências, e não em fazer coisas que nos deixam realmente felizes. Deixamos de nos encantar, de dar valor ao que tem valor, de fazer o mundo ao nosso redor sorrir e de sorrir de volta para ele. Não nos permitimos fazer coisas diferentes, porque seguimos regras o tempo todo. Aí, cada vez mais pensamos que podemos controlar tudo e a todos; e ensinamos as crianças, quando, na verdade, elas é que deveriam nos ensinar." (pág. 80)

"Hermes carregava profundas mágoas e arrependimentos; era nítido. Era como se ele assistisse à vida passar, como se assiste a uma peça de teatro - ele era um mero espectador da vida, e não um ator; não era o protagonista de seus dias. Estava sempre na plateia e nunca nos palcos. Era essa a diferença entre viver ou simplesmente existir." (pág. 106)

"-Sabe, pequena, há muita gente aí fora no mundo. Cada um com uma vida diferente, com problemas e alegrias diferentes. Mas todos deveriam ter a oportunidade de ouvir você falar, para que aprendessem a dar valor a tudo na vida, porque as coisas mais simples são as que mais importam." (pág. 144)

"Quando tomamos uma decisão em nossa vida, qualquer que seja, ela deve se tornar a nossa razão de viver. Se a dúvida ou o arrependimento existirem, nunca viveremos em paz, nunca honraremos a nossa escolha e, dessa forma, é como se não tivéssemos feito escolha alguma." (pág. 173/174)

"-Nunca se esqueça que aqueles que amamos não nos deixam verdadeiramente." (pág. 236)

-Puxa! - exclamou Anny. -Deve ser legal. Mas você não sente falta de enxergar com os olhos?
-Como se pode sentir falta de algo que nunca se teve? Eu nunca enxerguei com os olhos, desde que nasci aprendi a ver o mundo com as mãos." (pág. 277)

"Ela sabia que na existência de qualquer pessoa há espinhos e flores pelo caminho. No entanto, ela escolheu ver somente as flores, sem importar-se com os espinhos. Aí residia toda a diferença do mundo." (pág. 392)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Almanaque das curiosidades matemáticas

Título: Almanaque das curiosidades matemáticas
Autor: Ian Stewart
Páginas: 314

Como o próprio título sugere, o livro está repleto de curiosidades matemáticas. Algumas curiosidades são simples, outras mais complexas e algumas requerem um bom entendimento da matemática. Ao longo do livro, inúmeros desafios são apresentados ao leitor (com respostas comentadas no final do livro).

Em suma, é um livro indicado a quem é apaixonado por matemática. Não que os demais não possam lê-lo, mas, talvez não conseguirão apreciar todos os detalhes que o tema sugere e  que o autor se propôs a explanar.

Trechos interessantes:

"Como sabemos que π não é uma fração exata? Por mais que aperfeiçoemos a aproximação x/y usando números cada vez maiores, jamais chegaremos a π propriamente dito, teremos apenas aproximações cada vez melhores. Um número que não pode ser escrito exatamente como uma fração é chamado irracional. A prova mais simples de que π é irracional utiliza o cálculo, e foi descoberta por Johann Lambert em 1770." (pág. 31)

"O nó de um matemático é como um nó comum em um pedaço de barbante, mas ele é feito em um fio de pontas unidas, de modo que o nó não possa se desfazer. Mais precisamente, um nó é uma volta fechada no espaço. A volta mais simples é um círculo, que é chamado de nó trivial." (pág. 37)

"A teoria dos nós é usada na biologia molecular, para entender os nós do DNA, e na física quântica. Digo isso caso você esteja pensando que os nós só servem para amarrar pacotes." (pág. 39)

"Fermat, no entanto, não era um matemático profissional - ele nunca teve um cargo acadêmico. Em seu tempo, trabalhava como conselheiro jurídico. Mas sua paixão era a matemática, especialmente o que chamamos atualmente de teoria dos números, as propriedades dos números inteiros comuns. Essa área utiliza os ingredientes mais simples de toda a matemática; paradoxalmente, é uma das áreas em que o progresso é mais difícil. Quanto mais simples os ingredientes, mais difícil é fazer algo com eles." (pág. 59)

"Como ocorre com toda a numerologia, podemos encontrar o que quer que estejamos buscando, desde que busquemos com bastante afinco." (pág. 106)

"Os fiscais de impostos usam a Lei de Benford para detectar números falsos em declarações, porque as pessoas que usam números fictícios tendem a usar os diferentes algarismos iniciais com a mesma frequência. Provavelmente por pensarem que é isso o que acontece com os números verdadeiros!" (pág. 117)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Muito além do tempo

Título: Muito além do tempo
Autor: Alexandra Monir
Páginas: 270

Livro recomendado para o público adolescente, com uma história leve, descontraída, sem muitas surpresas e com o toque mágico que todos os jovens gostam.

Michele não conheceu seu pai e mora sozinha com a mãe em Nova York. Quando sua mãe morre ela vai viver com seus avós, os quais ela desconhecia totalmente e que fazem parte da elite da cidade. No seu quarto ela encontra objetos antigos que a fazem viajar no tempo, 100 anos atrás e encontrar com o amor de sua vida. O resto é a sequência esperada.

Trechos interessantes:

"-Tenho que admitir que, quando descobri, cheguei ao fundo do poço. Mas então caiu a ficha de que eu havia perdido tudo - meu noivo, minha família, meu lar -, e que agora Deus me dava algo por que viver - dissera Marion, pegando a mão de Michele. -Havia uma razão para toda essa dor. Talvez eu tivesse que conhecer Henry Irving e me apaixonar por ele para trazer você ao mundo. E, quando a vi, foi amor à primeira vista. Prometi a mim mesma que seria uma mãe de verdade para você. Seria tudo que seus pais e seus avós não puderam ser." (pág. 21)

"-Me escuta, Michele. Não existe nada nesta vida capaz de te destruir, a não ser você mesma. Coisas ruins acontecem com todo mundo e, quando acontecem, você não pode simplesmente desmoronar e morrer. Você tem que lutar. Senão, é você quem perde no final das contas. Mas, se for em frente e lutar, você ganha. Assim como eu ganhei tendo você." (pág. 22)

"-Michele, querida, você não deve dizer essas coisas para a criadagem. Não é apropriado.
Michele olhou para ela, perplexa.
-Mas... estamos no século XXI!
-Claro que estamos - Dorothy interpôs com rapidez. - Mas, já que o emprego deles é servi-la, eles ficam envergonhados quando você se oferece para ajudar, pois é como se não estivessem fazendo bem seu serviço." (pág. 45)

"Parece incrível - admirou-se Philip. - Em comparação, você deve achar meu mundo entediante.
-Na verdade, não. É só diferente. Gosto do que estou vendo da antiga Nova York.
-E do que é que você gosta?
-Eu amo as cores, os espaços abertos e o céu sem poluição - Michele respondeu, pensativa. - Não sei. Acho que o que gosto mesmo é que tudo parece mais... inocente." (pág. 112)

"-Alguém uma vez me disse que os amigos são a família que você escolhe. Então, veja só: vou ser sua família e você pode ser a minha." (pág. 138)

"O amor deles a havia salvado depois que a mãe tinha morrido. O que a salvaria agora? E, agora que ela havia encontrado o tipo de amor real e verdadeiro com que todos sonham, mas que raramente ousam esperar de verdade, como poderia sequer imaginar estar com outra pessoa?" (pág. 186)

"Qual era o sentido de amar, quando as pessoas que você amava eram tiradas de você? Por que o amor existia, quando a Morte e e o Tempo estavam sempre de prontidão para atacar?
Fechou os olhos com força, e os rostos de Marion e Philip encheram sua visão. Por que devemos passar tanto tempo da vida sentindo a falta das pessoas, em vez de estar com elas?" (pág. 249)

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Morte na primavera

Título: Morte na primavera
Autor: Magdalen Nabb
Páginas: 222

Duas jovens são sequestradas em Florença e uma delas é solta para apresentar as condições do resgate à família da outra jovem. Começa uma busca frenética para localizar o cativeiro da jovem em meio às inúmeras propriedades rurais da região, onde já estava se tornando comum esta prática criminosa.

Apesar de ser um livro policial, com toques de suspense e reviravoltas, não foi um livro que chamou a minha atenção. Achei a história confusa, com personagens confusos, com um enredo que prende pouco a atenção, esperando o momento em que a história fosse realmente deslanchar. E o momento não veio. É como se fosse um sequestro sem sequestro.

Trechos interessantes:

"Mais turistas. A invasão começava mais e mais cedo a cada ano, tornando insuportável cuidar das coisas do dia a dia em meio às ruas estreitas superlotadas. Ontem mesmo alguém escrevera aos editores do Nazione sugerindo com tristeza que o prefeito providenciasse uma área de camping nas montanhas para os florentinos, já que não havia mais lugar para eles em sua própria cidade. Por mais rentável que o turismo pudesse ser, a invasão anual os deixava indignados." (pág. 10/11)

"-Se quer saber se vamos pegá-los, vamos, sim, mas também é quase certo que matem a garota. Amadores são incompetentes e entram em pânico. Já os profissionais são bem organizados, nunca são vistos pelas vítimas e não matam. Não é bom para os negócios. Se as pessoas não tivessem certeza de pegar a vítima de volta em troca do dinheiro, não se disporiam a pagar o preço. Com amadores não adianta pagar, eles vão matar a vítima de qualquer maneira por causa do medo. Prefiro lidar com profissionais." (pág. 38)

"-Espero que não tenha lhe tirado de algo mais importante esta noite.
-Na verdade, tirou sim - o promotor respondeu gravemente -, mas pelo amor de Deus, não se preocupe com isso, o senhor já tem coisas demais com que se preocupar.
Era impossível ver no escuro se o que ele disse tinha a habitual centelha de ironia." (pág. 166)

"É terrível ver uma pessoa infeliz quando queremos ajudar essa pessoa e não podemos." (pág. 170)