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sábado, 19 de setembro de 2020

Dupla falta

Título: Dupla falta
Autor: Lionel Shriver
Páginas: 368
 
 O livro será melhor apreciado se o leitor for adepto do tênis. Isso porque muitos termos empregados são específicos do tênis e, mesmo que o desconhecimento não prejudique o entendimento da história, os tenistas poderão apreciar melhor as sutilezas que permeiam o enredo.

 Willy, uma tenista lutando por seu espaço, conhece Eric, também tenista. Algum tempo depois estão casados e, com o passar do tempo, o tênis, fator comum que uniu os dois, logo se tornará a ruína do casal.

 Trechos interessantes:

 — Diz o ditado que [o tênis] é um jogo em que você deve ser inteligente o bastante para se sair bem, e burro o suficiente para acreditar que isso tem alguma importância. (pág. 22)

— Aquele casarão, naquele endereço de Oslo, significa que dinheiro não é problema. Ela não teve permissão para trocar o sofá e a mesa de centro dele. E, quando um homem sem bom gosto ou aparente interesse por decoração faz isso, me leva à conclusão sobre quem domina quem. (pág. 42

Na verdade, Max não lhe ensinava nada de novo. Jogadoras que se especializavam em malícia — bolas curtas, lobs, dissimulações e mudança de ritmo — jogavam tênis feminino à moda antiga, pois o esporte era muitas vezes ganho por meio de trapaças antes do advento das raquetes grandes demais e das mulheres musculosas que gritavam em quadra, como Monica Seles. Entretanto, o padrão, há muito abandonado, adquire vigor. Willy às vezes desconfiava de que a formação que Max lhe dava para transformá-la em um ícone de táticas antigas era um exercício de nostalgia — da época em que mulheres tenistas eram ágeis, flexíveis e engenhosas; e da época em que as mulheres tenistas eram mulheres. (pág. 29)

Willy havia crescido entre inimigos e, de início, via sua generosidade com desconfiança. Se Eric estava tentando lhe arrancar alguma coisa, sentia-se obrigada a evitar que ele conseguisse. E Willy havia desenvolvido o desprezo instintivo que muitas mulheres nutrem em relação á gentileza. Homens que a tratavam com excesso de bondade eram otários. (pág. 54)

Ela ponderou o que Eric, com sua pesquisa meticulosa, já teria confirmado: que embora os dez melhores jogadores do mundo ganhassem 10 milhões de dólares por ano, a curva de lucratividade do tênis caía drasticamente. Entre o 11º e o 25º lugares no ranking, um homem consegui em torno de 1 milhão de dólares por ano; uma mulher, Willy comentou em tom indignado, metade disso. Do 26º ao 75º, a renda anual de um tenista não passava de 200 a 300 mil dólares, embora isso dependesse da permanência do atleta no top 75, e, no tênis, manter sua posição pode esgotar um jogador. No entanto, depois do 125º lugar, não se podia esperar mais de 100 mil dólares anuais, e metade dessa quantia seria gasta em passagens aéreas de classe econômica e cafés da manhã caros em hotéis. Se não alcançassem o top 200, nenhum dos dois conseguiria mais que pagar as contas. (pág. 57)

— “Ler” talvez seja uma palavra digna demais para isso. Mas eu faço uns joguinhos para me distrair. Meu fardo se divide entre aqueles que acham que as vírgulas são paralisações que sucedem um acidente de carro e os que as veem como arabescos decorativos... neste caso, quanto mais, melhor. Portanto, patrocino competições domésticas. Este aqui está ganhando — ele ergueu um trabalho. Marcada por rabiscos vermelhos, a um metro de distância a folha de papel era rosa. — Trinta e cinco vírgulas supérfluas em uma única página. Um recorde. (pág. 83)

 — Ele não era meu amigo, era um parceiro de jogo. Você devia saber a diferença. Bem, ela sabia. O bate-papo decorativo que precedia o jogo, sobre casos amorosos ou o clima, camuflava o caráter utilitário da “amizade” esportiva. Além de uma cerveja após a partida, tolerável somente se o placar não fosse muito discrepante, parceiros de jogo raramente eram convidados a participar de seu círculo social. Pois parceiros de jogo se desgastam. Mas Willy nunca tinha visto alguém consumir tantos parceiros em tão pouco tempo quanto o próprio marido. Ele os mastigava e os cuspia, ingerindo bocados de estratégias ou técnicas ao longo do caminho, assim como comia a carne do frango e deixava os ossos. (pág. 157)

— Não seja ridícula — disse. — É uma grande sorte. Derrotar o 54º vai me dar pontos desde o começo.
— Mas você nunca jogou contra alguém do top 100. Você não tem ideia de quanto eles são bons.
— Willy, são só tenistas. Você às vezes dá a impressão de ser esperta, mas ainda acredita nessa porcaria de aura. Um arrivista carcamano chega ao topo do ranking e você é tomada por uma admiração messiânica. Você acha que jogar contra o 54º é alguma honra. Bom, dane-se. Eles são iguais a nós. Aonde você acha que a gente vai chegar? Ele devia se sentir honrado por jogar contra mim. (pág. 179)

 Na segunda tentativa, Willy estava jogando de maneira fantástica. Todos os espectadores que a abordaram depois concordavam, partilhando de seu ultraje. Como Willy estava numa maré boa, jogava todas as bolas na linha. Mas a diferença entre tênis excelente e tênis podre podia se resumir a um mísero centímetro. Os juízes são capazes de distinguir um do outro, já que a época em que se podia confiar no adversário para decidir o lance de forma justa em nome do espírito esportivo já passara havia muito tempo. (pág. 246)

Ao organizar a agenda de torneios, era necessário decidir se deixaria espaço para um possível sucesso. Satélites ocupavam até três semanas, e requeriam, o mesmo tempo para a inscrição antecipada. Derrotada na primeira rodada, depois de um dia a pessoa ficava a ver navios. A outra opção era presumir que perderia no começo e agendar dois torneios para a mesma época. Mas se o plano era perder não havia razão para se inscrever, para início de conversa. Portanto, como Willy deixava as três semanas de praxe entre um torneio e outro, depois da calamidade ela tinha boa parte do mês à disposição. (pág. 249)

Uma carreira em declínio, ao contrário da que está em ascensão, raramente oferece um evento catártico. O fracasso tende a ser marcado pelo que não acontece. É verdade que algumas vidas têm um divisor de águas: o dia em que o banqueiro é preso por desfalque, a terça-feira de novembro em que o político é derrotado no que seu partido concordara que seria sua última disputa por uma vaga no Senado. Porém, a carreira que afunda devagar, sem um cataclismo cuja ocorrência possa ser analisada por seu administrador, é muito mais comum. Decepções se acumulam — outra promoção negada, uma onda de currículos “arquivados”, o amontoado poeirento de cartões dizendo que “recebemos muitas solicitações este ano”, prêmios de distinção dados a estranhos ou (pior) para algum conhecido, que se não era detestado antes, agora é. (pág. 259)

O bom perdedor é um mentiroso que mostra consideração, que disfarça bem suas verdadeiras emoções e, portanto, poupa a todos do dissabor físico de suas cólicas intestinais, das obscenidades que lhe passam pela cabeça, dos espasmos em seu coração. (pág. 303)

— [...] O tênis não é muito diferente do boxe... é a cabeça que leva as maiores surras. (pág. 335)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Precisamos falar sobre o Kevin

Título: Precisamos falar sobre o Kevin
Autor: Lionel Shriver
Páginas: 464

Este livro já me despertou o interesse a começar pelo título. Li a sinopse e confirmei meu interesse. Terminada a leitura pude comprovar a minha suspeita inicial. Achei-o fascinante: desde a maneira de se contar a história até o desfecho final. Faz você realmente pensar sobre o seu papel e sua influência (de verdade) na vida de seus filhos.

Kevin é um jovem de 15 anos que comete um massacre numa escola dos Estados Unidos. A história é contada na forma de cartas que a mãe do garoto escreve ao pai. Nessas cartas toda a vida de Kevin é esmiuçada, desde antes do nascimento até a tragédia, tentando encontrar um motivo ou justificativa para o ato insano.

Trechos interessantes:

"É justamente quando ela menos merece que mais a criança precisa do nosso amor." -Erma Bombeck (pág. 7)

"Além disso, por mais que eu almeje o anonimato, não quero que os vizinhos se esqueçam de quem sou; quer dizer, querer, eu quero, mas o esquecimento não está disponível. E este é o único lugar no mundo onde as ramificações da minha vida podem ser inteiramente sentidas, e, para mim, no momento, importa mais ser compreendida que amada." (pág. 13)

"Poucos anos mais tarde, eu teria pago um bom dinheiro para usufruir de uma reunião normal e alegre em família, durante a qual a pior coisa que as crianças conseguiriam aprontar seria grudar chiclete no cabelo." (pág. 25)

"Na cadeia, e ele fez questão de que eu soubesse, não era nenhum delinquente mequetrefe, e sim um bandido notório por quem os jovens companheiros sentiam o maior respeito." (pág. 56)

"Eu permitiria que a procriação influenciasse nosso comportamento; você queria que ela ditasse nosso comportamento. Se isso lhe parece uma distinção sutil, é tão sutil quanto a noite e o dia." (pág. 67)

"Segundo a tradição, as mulheres não tinham direito à propriedade até por volta dos anos setenta, em alguns estados. Tradicionalmente, no Oriente Médio, nós andamos na rua dentro de um saco preto e tradicionalmente na África eles arrancam fora os nossos clitóris como se fossem um pedaço de cartilagem..." (pág. 77)

"O que estou querendo dizer é que, quando eu era criança, os pais davam as cartas. Agora que sou mãe, são as crianças que fazem isso. O que significa que a gente se fode indo ou voltando." (pág. 130)

"Eu saíra de casa não tanto pelo espírito de aventura, e sim para marcar território, para provar que minha vida não tinha mudado, que eu continuava jovem, curiosa, e livre - mas acabei demonstrando, para além de toda e qualquer dúvida, que minha vida de fato mudara, que, aos quarenta e um anos, não era mais nem remotamente jovem, que tinha saciado por completo uma certa curiosidade fácil a respeito de outros países e que existia um tipo de liberdade da qual eu não poderia mais me valer sem, com isso, afundar a única minúscula ilha de permanência, significado firme e desejo duradouro que eu conseguira anexar neste vasto e arbitrário mar de indiferença internacional." (pág. 144)

"[...] a pior coisa que pode acontecer numa viagem é dar tudo certo [...]" (pág. 144/145)

"Nada é interessante se você não estiver interessado." (pág. 145)

"E acho muito difícil que consigam fazê-lo se envergonhar. Você só consegue afetar quem tem consciência. Só pode punir quem tem esperanças para serem frustradas ou laços a serem cortados; quem se preocupa com a opinião dos outros. Você, na verdade, só consegue punir quem já é pelo menos um pouquinho bom." (pág. 170)

"'Kevin, eu já não disse para parar com isso? Não espirre mais água nem uma vez nesses rapazes simpáticos que estão aqui só ajudando a gente, e agora é sério.' Naturalmente que só consegui dar a entender que, da primeira vez, não era sério. Uma criança inteligente leva esse cálculo de 'agora é sério, de modo que da outra vez não era' até o limite e conclui que todas as advertências da mãe são besteira." (pág. 179)

"'Quando ele pensa no que fez, sente algum, tem algum...'
'Remorso?', completei secamente. 'Mas do que ele haveria de se arrepender? Agora ele é alguém, não é mesmo? Ele se encontrou, como costumávamos dizer no meu tempo. Agora não precisa mais se preocupar em saber a que tribo pertence, se é freak, geek, skatista, nerd ou esportista. Não precisa mais se preocupar se é gay. Ele é um assassino. Isso é maravilhosamente cristalino. E o melhor de tudo', tomei fôlego, 'ele se livrou de mim.'" (pág. 197/198)

"Outra coisa que eu queria era que ingressasse na primeira série à frente dos colegas, por isso tentei lhe ensinar o básico, 'Vamos ver os números!', propunha eu.
'Pra quê?'
'Para você ser o melhor da classe em aritmética, quando entrar na escola.'
'Pra que serve aritmética?'
'Bem, você se lembra de ontem, quando a mãemãe pagou as contas? Você tem que saber somar e subtrair, para pagar as contas e saber quanto dinheiro ainda tem no banco.'
'Você usou uma calculadora.'
'Bom, mas você precisa saber aritmética para ter certeza de que a calculadora está certa.'
'Então pra que usar, se nem sempre funciona?'
'Sempre funciona', concedi a contragosto.
'Então não precisa de aritmética.'" (pág. 225/226)

"É desagradável admitir, mas a violência doméstica tem suas utilidades. De tal sorte que, quando desencadeada em estado bruto, rasga o véu de civilização, que tanto se interpõe entre nós quanto torna nossa vida possível. Um mau substituto para o tipo de paixão que gostamos de exaltar, talvez, mas o amor verdadeiro possui mais em comum com o ódio e a raiva que com a cordialidade ou a polidez." (pág. 232)

"Quando se é pai, ou mãe, não importa qual seja o acidente, não importa a que distância você se encontre e o quão pouco possa fazer para evitar, a desdita sempre vai parecer culpa sua. Você é tudo que seus filhos têm, e a convicção deles de que você saberá protegê-los é contagiosa." (pág. 334)

"'Pensei que conseguiríamos levar a coisa adiante até que as crianças saíssem de casa.' Sua voz soou grisalha. 'Cheguei até a pensar que, se fôssemos tão longe assim, talvez... mas ainda faltam dez anos, e são dias demais. Os anos eu consigo encarar, Eva, mas os dias, não.'" (pág. 403)

"Uma das coisas que eu não consigo aguentar nesse país é o descompromisso com a responsabilidade. Tudo que os norte-americanos fazem e que não funciona muito bem tem que ser culpa de outra pessoa. Quanto a mim, eu respondo pelo que fiz. Não foi ideia de ninguém, só minha." (pág. 410/411)

"Eu dispunha de poucos pedaços dessa história quando entrei com uma guinada no estacionamento da escola, mas teria pela frente anos de reflexão contemplativa para montar calmamente esse quebra-cabeça, assim como Kevin teria anos de carpintarias mal-equipadas em que desbastar, lixar e polir suas desculpas." (pág. 429)

"Era possível ser um bom pai, investir em fins de semana e piqueniques e histórias na hora de dormir, e com isso criar um filho forte e decente. Estávamos nos Estados Unidos. E você tinha feito tudo certo. Logo, aquilo não podia estar acontecendo." (pág. 450)