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terça-feira, 14 de maio de 2019

Moça deitada na grama


Título: Moça deitada na grama
Autor: Carlos Drummond de Andrade
Páginas: 220

Sou um apreciador inveterado de crônicas, contos e histórias curtas e, com base nisso, resolvi fazer uma releitura deste livro de Drummond. Infelizmente tenho uma péssima memória e, quando faço uma releitura, só me lembro de trechos esparsos. Mas isso tem um lado bom: aprecio as histórias como se as tivesse lendo pela primeira vez e o resultado final acaba sendo melhor ainda.

O livro é uma coletânea de crônicas produzidas, segundo nota do editor, nos últimos anos da atividade lítero-jornalística do autor. O que importa é que é Drummond, ou seja, cada crônica melhor que a outra. Difícil escolher algumas apenas, mas vou destacar “Os amáveis assaltantes”, “O escritor responde, coitado”, “Indígete: que é?” e “Passatempo”.

Trechos interessantes:

“—Sinto muito, meu bem, mas você tem de ir à cidade em meu lugar para fazer este pagamento.
—Reginaldo! Há anos que eu não vou à cidade, nem sei mais como andar por lá. Não pode esperar até ficar bom da gripe?
—Pode não, Irene. É o segundo aviso da empresa, e se eu atrasar mais uns dias a gente perde o negócio.
—Tenho tanto medo!
—Medo de quê?
—Ainda pergunta? De ir sozinha à cidade, de me perder naquela confusão, de ser assaltada. Principalmente de ser assaltada.
—Ah, é? Para ser assaltada você não precisa sair de casa. É o lugar preferido pelos assaltantes.” (pág. 23)

“Apareceram tantas camisetas com inscrições, que a gente estranha ao deparar com uma que não tenha nada escrito.” (pág. 38)

“Hoje em dia não há produto que não tenha, além dos comunicadores remunerados, outros absolutamente gratuitos, e estes são maioria. Todo mundo anuncia alguma coisa, e a camiseta é o cartaz na pele.” (pág. 40)

‘Não lhe agrada tanto o nome de vovó. “Envelhece” — explica, mas sem ar de protesto. Em verdade, o tempo não conta para ela. Não se diz moça, mas também não se considera propriamente velha: “Eu vivo, e quem vive não é moço nem velho. É vivo.” ‘ (pág. 45)

“Borboleta, rosa e jornal vivem horas curtas, mas renascem e documentam a permanência da vida.” (pág. 56)

“Aí bateu-lhe a dúvida, que sempre o acompanhava no exame de qualquer matéria, Lembrou-se de André Gide, que costumava dar razão ao opositor, pela tendência a considerar os dois lados de uma questão. A questão tem sempre dois lados, ou três. Ou mais. A nada autoriza a prejulgar que o meu lado é o certo. O outro também pode estar certo, do ponto de vista do outro.” (pág. 61)

“Li há dias que uma das fórmulas sugeridas para se chegar à normalização constitucional do país seria o plebiscito. Mas se quase ninguém sabe o que é plebiscito, como esperar que sai de um plebiscito a definição dos novos rumos políticos do Brasil? Melhor seria antes fazer uma distribuição nacional de dicionários.” (pág. 142)

“Pode parecer, à vista do exposto, que são más as relações do colunista, cronista ou como quer que se chame, com o público leitor. Engano, são ótimas. Quase nunca o sol se põe sem que eu ouça de um desconhecido ou de um conhecido ou mesmo de um amigo:
—Ontem a sua coluna estava admirável.
Ontem foi o dia em que não escrevi.” (pág. 194)

domingo, 2 de outubro de 2011

Contos de aprendiz

Título: Contos de aprendiz
Autor: Carlos Drummond de Andrade
Páginas: 190

Drummond é sempre fantástico! Mesmo não se tratando do seu terreno habitual que é a poesia, ele consegue cativar o leitor, jogando com as palavras e ideias, fazendo com que a leitura de seus contos seja realmente um deleite.
Todos os contos me agradaram mas, para não fugir à regra, destaco aqueles com os quais me identifiquei mais: "O sorvete", "Flor, telefone, moça" e "Conversa de velho com criança". A maior dificuldade foi destacar apenas alguns trechos interessantes, dada a qualidade do material apresentado.

Trechos interessantes:
"Criança tem pressa de viver, e não lhe prometam uma compensação no futuro, a necessidade é urgente, o bálsamo que venha já, amanhã será tarde demais." (pág. 19)

"Eu sabia que 'lá' era a confeitaria, pois o sorvete de abacaxi entrara comigo no cinema, sentara-se na minha cadeira e, embora o soubesse frio, queimava-me." (pág. 33)

"[...] o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. Se não trabalhar sempre, se não ocupar todos os minutos, quem sabe de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. Portanto, é impedir que se formem." (pág. 45)

"Das mil maneiras de amar,ó pais, a secreta é a mais ardilosa, e eis a que ocorre na espécie." (pág. 46)

"Ali vai surgir uma tenda sumária, com algumas ripas e folhas-de-flandres, onde os operários encontrarão a única coisa de que realmente precisam, porque dá o esquecimento de todas. (pág. 65)

"É com vergonha que uso esta palavra comprar, ao referir-me a um amigo, mas em nossa absurda sociedade capitalista os valores mais puros são objeto de mercancia; o afeto de um animal é adquirido como antes a força de trabalho de um negro [...]" (pág. 69)

"O senador olhou-o sem reprovação. Seu rosto exprimia antes esforço por penetrar naquelas palavras tão alheias a seu vocabulário." (pág. 85)

"E um rapaz atlético empurrou o seu barco e lá se foi a arar as terras verdes do mar." (pág. 131)

"O bonde segue paralelo e rente ao passeio, e os postes, no momento preciso em que passa o bonde, deslocam-se imperceptivelmente para mais perto dele. O deslocamento de alguns milímetros é, às vezes, mortal. Todos os que viajam de pé sabem disso. Os que morrem têm tempo de verificar o fenômeno, porém não de evitá-lo." (pág. 133)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

De notícias e não-notícias faz-se a crônica


Título: De notícias e não-notícias faz-se a crônica
Autor: Carlos Drummond de Andrade
Páginas: 182

Este livro apresenta uma seleção de crônicas de Drummond, apresentadas sob a forma de uma seção de jornal. Aqui estão mesclados assuntos de política, moda, humor, saúde, ecologia, caderno infantil, classificados... e tudo o mais que se encontra comumente num jornal.
É um livro antigo e, evidentemente, as crônicas estão ultrapassadas, mas interessa-me o estilo do autor e, além do que, à època que li o livro não era tão antigo assim...