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domingo, 12 de agosto de 2018

...Longe da terra



Título: ...Longe da terra
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 212

José Mauro é, de longe, o meu escritor favorito. Ele consegue descrever a minha terra (Goiás) de uma maneira simples e, ao mesmo tempo, muito profunda. Sei que há vários escritores com esta característica, mas desde o primeiro livro dele que li, me identifiquei bastante com sua escrita e desde então o adotei como escritor predileto.

Longe da Terra é versão romanceada da época que o autor perambulou pelas selvas goianas, às margens do Araguaia, quando ainda não havia estradas em abundância e o principal meio de transporte eram as embarcações. Mostra a cidade de Aruanã em seus primórdios, quando ainda era chamada Leopoldina, havia mais índios que brancos e civilização era alguma coisa muito, muito distante.

Trechos interessantes:

“Eu me lembro que o Chico barbeiro chegou por aqui todo animado. Abriu um salão. Improvisou uma cadeira de braços. Colocou um espelho grande na parede. Arranjou um tamborete. Em cima dele botou umas tesouras, duas navalhas emagrecidas e marrons, uma cuia, um pincel de barba, um... um... como é mesmo o nome daquilo?...um negócio que borrifa o rosto depois de feita a barba, uns pedaços de jornal cortados em losangos desencontrados para limpar o sujo da barba com sabão.
Ficou um salão mais que luxuoso. Se ficou! Chico barbeiro cruzou os braços e esperou num orgulho de artista. E quase que ficou de braços cruzados para o resto da vida.
O povo vinha contar histórias e ouvir casos. Nada mais que isso. Não que ninguém quisesse fazer a barba. Querer todo mundo queria. É bom a gente ficar com o rosto liso, macio, limpo. Mas cadê dinheiro? Ninguém tem. Ninguém teve. Ninguém terá.” (pág. 13)

“Daqui a pouco, passarão os papagaios e os periquitos selvagens. Farão uma algazarra, rasgando o céu e criando uma sombra negra contra o sol. Eles sempre passam. Ao amanhecer, ao meio-dia e ao entardecer. Vão para qualquer parte onde haja uma roça a devastar. Aqui eles nunca pousam. Ninguém trabalha a terra. Dá muito trabalho.
Não que a terra deixe de dar. Onde já se viu um lugar de Goiás que seja estéril? A terra roxa é tão fértil que só em se pensar em plantar, ela germina. Mas ninguém pensa porque dá trabalho.
É a Terra da Promissão. Entretanto, maior que a fertilidade da terra é a indolência dos homens.” (pág. 14)

“O preto Virgílio passava todas as manhãs, para ver o quanto o rio tinha crescido. Depois então, saía pastoreando, debaixo da chuva, as duas vacas que constituíam a sua grande fortuna. Aquela fortuna que não causava inveja a ninguém. O povo ali não ambicionava nada dos outros. Porque a própria inveja era capaz de produzir uma indução ao trabalho por meio de uma indução de posse. E então para que invejar?” (pág. 25)

“Em compensação, major Sant’Ana foi povoando a terra. Enchendo a cidade e as margens do Araguaia de filhos de diversas espécies e colorações. Estabelecendo uma promiscuidade de raças.
Os seus filhos vagueiam pelas brenhas e vivem uma vida de sertanejo comum. Não têm a perversidade do negro. Uns se conservam em Leopoldina, outros foram descendo e se grudaram por outras plagas do Araguaia,.. São bons, apesar da mistura das raças e da diferenciação da cor.
Estranho que de uma mistura de raças, onde os seres uniam a preguiça com a crueldade, o medo com a ignorância, a ingenuidade com os instintos bestiais, só se poderia esperar um produto legitimamente deteriorado. Mas a triste experiência deu um resultado negativo que, felizmente, para os seres humanos e semelhantes, tomava a melhor forma de positivo.” (pág. 46)

“...Não quero outra vida
Pescando no rio de Jereré
Dormindo no rancho onde há siri-patola
Até dá cum pé...

Quando no terrêro faiz noite de lua
E vem a sôdade me aturmentá
Eu me vingo dela
Tocando a viola de papo pro á...

Ai, meu Deus, que antigamente, na cidade, eu também já cantara essa canção. Achava impossível que aquela letra fosse verdadeira. Como poderia um homem ser capaz de tanta preguiça, de tanta falta de realização?
Não. Que absurdo. Não havia ser vivente qualquer, que se sujeitasse, que se limitasse numa situação de letargia...
Isso, antigamente. Agora...” (pág. 50/51)

“Um dia, agora estou decidido. Escreverei um livro, onde a trama principal será a indolência. Onde o povo viva tão perto e tão longe da terra. Relevando e revelando a preguiça que jorra dessa Terra da Promissão não germinada.” (pág. 86)

“A vida revivia agora de um grande período de inatividade. E era bom. Quem não ia à pesca, se atarefava em qualquer coisa, exceto plantar. Por que raios, ninguém gostava de plantar?” (pág. 107)

“Amarrei o cordão em volta da cintura. Como estou pobre! Minha calça é uma série de remendos que se continua em buracos mal tapados. Toda a minha roupa se acabou semelhante ao meu orgulho. Sou um ser humano vaidosamente notável e desprendido. Nada tenho. Nada possuo. Nada sou. Minhas camisas se foram. Até uma que era branca, que eu guardava religiosamente para se um dia eu voltasse à cidade... Mas não voltarei.” (pág. 163/164)

“Em menos de quinze minutos voltava o cabo Milton. Carregava um belo tucunaré. Não esperava que ele se demorasse mais que esse tempo. No Araguaia, a gente joga o anzol e fala:
–Preciso de um tucunaré. Tenho dez minutos para esperar...
O rio atende ao pedido. Naturalmente que assim fazendo, ele, com um peixe a menos, poderia respirar melhor nas suas águas.” (pág. 177)

“E a história daqueles índios que iam comprar fumo nas canoas que passavam, com notas de 100, 200 e 500 mil-réis? Aquilo também é justo?
–Justíssimo. Antes de os brancos chegarem por aqui, não havia muita ambição entre os carajás. Ou mesmo entre qualquer outro índio. Não havia. Agora eles querem fumo. É um vício. E todo vício exige do homem qualquer sacrifício. Eles querem fumar. Encher os aricocós de fumo. Esse vício torna-se caro, porque eles não têm o miserável dinheiro. Mas eles têm que fumar. Pedem ao branco. Não recebem. Entretanto se tivessem dinheiro, os brancos que passam lhes venderiam fumo. Que fazer? Arranjar primeiro dinheiro. De qualquer jeito. E eles o arranjam...
– E você aprova o modo como eles arranjam esse dinheiro?
–Plenamente. Eles não têm o senso da propriedade. Não sabem o valor do dinheiro. Sabem que ele vale e que com ele poderão comprar o fumo. Desce uma canoa. É um branco. Pode ser um garimpeiro. Uma emboscada. Um corpo às piranhas e o dinheiro na mão. O maldito dinheiro, que compra o fumo e sustenta o vício. Outro branco que passar lhe venderá o fumo. Porque ao deparar o dinheiro, com uma nota graúda de duzentos mil-réis, não enxergará o dinheiro e sim um aviso: o que passou antes pagou com a vida, um fumo que não quis dar... O fumo. Afinal uma tara que o branco trouxe...” (pág. 185/186)

“A vida existiu antes de você e sem necessidade de você. Tudo é continuação. Essa pequena importância que você se dá, é um reflexo da comodidade exposta no seu burguesismo. Mas não adianta.” (pág. 187)

“Uma sensação de admiração me atacou ao atingirmos o começo da ilha. Djoé ia explicando.
–Se chama de Bananal, dotô, num é purque tenha mata de banana brava, não. É purque se parece cum uma banana cumprida. São cem légua de cumprimento e quarenta de largura... Tá vendo ali, doto? É o Araguaia que se devide. Do lado que nóis vai ele continua Araguaia. Do ôtro, se chama de javaé. Ali é lugá de aldeia de Javaé. Na metade da ilha tem muita aldeia de índio Javaé.
– É verdade que índio Javaé era o mesmo carajá, Djoé?
– É sim. Eles brigaro e se afastaro da gente. Mas ainda fala a mesma língua e usa “omurarê” debaixo dos olhos e no braço esquerdo.” (pág. 191)

domingo, 25 de agosto de 2013

Rosinha, minha canoa

Título: Rosinha,minha canoa
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 204

Zé Orocó é um sujeito simples, amigo de todos os índios e que vive subindo e descendo os rios com sua canoa. Só tem um problema: Zé orocó conversa com sua canoa, tratando-a como um ser humano. Um dia, chega um médico ao povoado, descobre o "problema" de Zé Orocó e resolve interná-lo para que seja curado.

Um sujeito que nunca fez mal a ninguém e que é estimado por todos, de repente, é jogado num manicômio e fica ali vegetando, enquanto a vida passa por ele. Por que uma coisa simples, que ajuda o homem do interior a suportar a dureza do dia a dia, prejudica tanto os homens que vivem na cidade e nada sabem do sertão?

Trechos interessantes:

"Diversas vezes ele demonstrara o seu jeito de compreender um mundo. Mar era coisa que não existia mesmo. O máximo da coisa era o rio dividindo a terra. Rio, sabia que havia muito, mas mar!... Onde se viu uma besteirada daquelas? Um aguão absurdo cheio de sal? Só a gente besta podia acreditar naquilo. Como é que podia ser? Então não chovia nunca em cima do mar? E se chovesse, como é que o sal não se dissolvia? E se não chovesse, como é que o mar enchia sempre, conforme contavam?..." (pág. 17)

"- Sabe de uma coisa, dotô? Eu corri mais foi dela. Essa coisona aí sem jeito cum vóis de fêmea qui nunca encontrô macho deu em cima de mim qui num foi vida. Munta veis eu vinha carreteando o gado e ela tava lá na pinguela da Matroca, sentada em cima dos morão, cum as perna balançano, cum a saia alevantada, dano corrente de ar na aranha, pensano qui eu quiria quarqué coisa. Mais cumigo não, muié tem que sê gente e não essa melancia espetada em duas flecha..." (pág. 19)

"A chuva bocejou:
- Viu, minha filha? Não é assim tão difícil nascer.
- Mas dói um pouco...
- Se não doesse a vida não teria preço." (pág. 34)

"- Que é garimpeiro?
- Uma espécie de homem que pega diamante.
- E o que é diamante?
- Diamantes são pedacinhos de gotas do Sol que caem dentro dos rios e se transformam em estrelas que viram diamantes. Os homens se matam por causa dos diamantes." (pág. 40)

"Lembrou-se de que, quando era menino e estudava na cidade, nos colégios de padres, o exemplo que davam da Eternidade era assim: 'Se um pombo, de mil em mil anos, viesse à Terra e levasse um grãozinho de areia de cada vez, quando se gastasse a areia do mundo inteiro a Eternidade ainda estaria começando'. Mas que besteira, Deus do Céu! Onde já se viu um pombo com uma desgraçada de uma vida tão comprida?" (pág. 78)

"A velha lá de dentro fez parar o reumatismo e cortou o frio:
- Minha fia, pulo amô de Deus! Dexe de falá nessa palavra senão minhã a gente sofre de um naufrage...
Chica Doida se impacientou:
- E agaranto que seria mió do que vivê penano de romatismo nesse raio de mundo. Que diabo os véio que já vevero tanto tem tanto medo da morte?" (pág. 90)

"Ia morrer. Morrer de todo, porque desde que a gente nasce vai morrendo aos pedacinhos, como se fosse um jogo de dor para armar. Quando fica completo, então pronto, rebenta, some, descansa." (pág. 161)

"Voltou da mesma maneira e se sentou perto de Zé orocó, alisando a dorzinha dos rins.
-Tamo véio, Zé orocó!
-É, Frô,a gente passa e a vida fica.
Foi tudo que disseram deles. Depois começaram uma conversa sobre a vida dos outros, porque velho mesmo só serve para acompanhar o que vem ou o que foi. Eles sabiam disso e se respeitavam." (pág. 180)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Barro blanco

Título: Barro blanco
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 234

Os livros de José mauro,em sua maioria, ambientam-se na selva bruta, geralmente nas regiões de Pará, Mato Grosso e Goiás. Esse foge à regra e retrata a cidade de Macau, no Rio Grande do Norte. Muda-se o cenário, mas a ideia central é a mesma: a dificuldade enfrentada pelo homem simples, seja ele um pescador, um roceiro, um garimpeiro...

Neste livro José Mauro nos apresenta as salinas do Rio Grande do Norte e como elas conseguem destruir o ser humano. Chicão, um homem forte e trabalhador, é expulso do sertão pela seca que assola a região e vai acabar nas salinas onde, pouco a pouco, vai perdendo a alegria e a saúde. Não seria preferível ter ficado no sertão, mesmo com a seca?

Trechos interessantes:

"Mas seu marido não queria nada com o trabalho honesto. Era malandro debaixo de toda a luz do dia e por cima de toda a escuridão da noite." (pág. 40)

"Margarida Papo Amarelo saiu do banho. Enxugou o corpo. Começou a se vestir. Penteou-se. Arrepiou os cabelos que eram quase negros à custa de Juventude Alexandre. Jogou sobre o corpo um vestido verde. Um verde perereca. E saiu.
Margarida Papo Amarelo num vestido verde perereca, numa demonstração de patriotismo brasileiro, passou pela sala e falou para as meninas.
-Filhinhas, ajeitem-se. Ajeitem-se que hoje vai ser um grande dia." (pág. 44/45)

"O sorvete ia ser vendido por toda parte. Tabuleiros de cocada, rolete de cana, peixe frito, batata doce assada, de tapioca, seriam espalhados por todos os cantos e vendidos de noite à luz acesa do bico de acetileno. Aquele cheiro de carbureto entraria pelos narizes, sem consideração alguma e ninguém estranharia. Aquele odor era característico das festas pobres do Norte." (pág. 56)

"E no dia seguinte, nas folhas sociais de 'O Clarim', viria a fotografia estampada com bonitas palavras:
'NUM PRÉLIO RENHIDO E DISPUTADO FOI SAGRADA RAINHA DO ESTRELA DO PROGRESSO, A SENHORITA (ali todas as moças eram senhoritas. Podia ser casada, viúva, solteira, amancebada, sendo moça, era senhorita. Mas isso não sai no jornal.) FULANA DE TAL, QUE VENCEU AIROSAMENTE AS SENHORITAS BELTRANA E SICRANA, CLASSIFICADAS CONJUNTAMENTE EM SEGUNDO E EM TERCEIRO LUGARES'..." (Pág. 62)

"Tinham deixado a criança ali perto do Rancho de Pedro Azevedo, porque sabiam da fama de bondade do fazendeiro. Descobririam o menino e tomariam conta dele. É muito mais fácil se ter pena de uma criança do que de uma pessoa grande. Mesmo na seca esses sentimentos não mudam." (pág. 82)

"Para que estudar? Perder um tempo enorme, três horas por dia, cansando a bunda num banco de pau da escola e ouvir a voz esganiçada de Dona Maria da Penha, retinindo no ouvido? Para quê? Quando lá fora, havia um sol danado. O açude que estava cheio d'água, cheio de marreca?" (pág. 84)

"Pedro Azevedo falara uma vez para ele:
-Mas, compadre Venâncio, essas meninas trabalham demais. Deixa essas meninas descansar...
-Num vê que não, cumpade Pedrinho. É melhó que elas trabaie muito, mode de noites elas drumire bem e num ficare viçando...
Pobre compadre Venâncio que não queria que as filhas viçassem." (pág. 102)

"A miséria humana se desenvolveu tremendamente enquanto o sertão minguava, a ponto de expelir a gente que nascera ali, para outras partes. Os homens ressequidos, as mulheres cadavéricas, as crianças barrigudas e amarelas, invadiam as cidades. Estendiam as mãos ossudas e pediam mais vida do que esmola. E os olhos do povo da cidade se enchiam mais de nojo que de piedade. Aquela miséria não comovia o coração, mas incomodava os olhos." (pág. 104)

"A história dos trabalhos das salinas é muito simples. Num instante se decora. Parecida com a saúde que, num instante, se acaba." (pág. 156)

"Depois, as almas caridosas trouxeram uma rede e colocaram o homem podre dentro. Arranjaram um pau que nem um 'calão' e colocaram nos punhos da rede. Encaminharam-se para o cemitério. De vez em quando, como o corpo pesasse muito, paravam. Descansavam o cadáver no chão. Cortavam varas no mato e davam surras no corpo enrolado. Era crença de certos sertanejos, que o corpo pesava demais por causa dos pecados que levava. E que com aquelas pancadas, os pecados seriam purgados.
Era tudo aquilo, obra do sal. Obra do sol." (pág. 175)

"Alguém tinha dito ou fora ele mesmo? Estava se confundindo. Alguém dissera que de fome ainda se pode morrer, mas de sede, não há quem deixe de enlouquecer." (pág. 218)

domingo, 25 de novembro de 2012

Kuryala: capitão e carajá

Título: Kuryala: capitão e carajá
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 336

José Mauro é um dos meus escritores preferidos, pois a maioria de seus livros fala de coisas da minha terra. Seus livros são quase todos ambientados na região Centro-Oeste e região Norte e neles os mesmos personagems se entrelaçam formando uma teia, constituindo-se partes de um grande "todo". As selvas, os rios, os índios, os garimpos, tudo isso é retratado com a linguagem própria da região, criando uma riqueza de detalhes e fazendo o leitor se sentir parte disso tudo.

Este livro é especificamente sobre os índios carajás. Mostra as crenças e tradiçoes desse povo, através do relato de um índio que cresceu para ser o capitão da tribo. Mostra a invasão do homem branco que explora e aproveita-se da vida simples do índio, contribuindo para sua extinção ao introduzir o álcool e as doenças. Mostra também a tristeza e decepção do índio que, devido a uma doença, foi capitão por pouco tempo e foi esquecido e abandonado por todos.

Depos da leitura nos perguntamos: Que é o selvagem: o índio ou o homem branco?

Trechos interessantes:

"-Esqueça-se disso. Tudo isso é muito grande, muito bonito e é dos carajás. Vai demorar muito tempo para que os brancos cheguem por aqui.
-Dizem que os brancos são muitos.
-Mas nem tantos quanto as estrelas do céu." (pág. 24)

"-Dói, sim, filhinho. Todos os homens passam por isso. Um dia também fizeram comigo e meu pai Birirroa também me deitou em seu colo e soprou a minha dor." (pág. 36/37)

"-Meu filho bonito! Meu filho que já é um homem!
Só disse aquilo. E aquilo resumia todo o seu amor e o mistério da sua maternidade. A dor do seu parto. E todos os momentos, todos os dias, todas as suas alegrias, todas as suas angústias. E mormente tudo aquilo que lhe seria roubado no outro dia." (pág. 41)

"-Você ouviu?
-Ouvi. É o nome da jadomã que eu lhe contei.
-É. Nosso filho está ficando homem mais depressa do que a gente pensa. Logo eu preciso viajar com ele. Fazer aquela viagem que meu pai fez comigo e que todos os pais gostam de fazer com os seus filhos." (pág. 59)

"Quanto á barganha com os carajás, aquilo se tornou um bamburro, um negócio rendoso. Pois ali se encontrava o maior e mais rico celeiro de artesanato indígena. Por uma coberta, por uma panela, escolhia aquilo que bem entendesse. Sendo o primeiro descobridor de uma indústria que exploraria sempre os índios mais tarde." (pág. 67)

"-Com a força do Uomã (machado) a gente vai derrubar esse bonito pau de landi. Vamos cortar todos os seus galhos. E ele vai chorar quando cair. Seus galhos grandes vão abraçar os outros paus para não cair. Ele vai gemer até cair. Quando cair com o barulho no chão e se soltar do pequeno tronco aí seu coração morreu e ele não chora mais. Então precisamos cortar todos os seus galhos. Deixar só um grande tronco todo reto. Porque daí vai nascer a sua primeira e bonita canoa, Kury." (pág. 99)

"Mas ao mesmo tempo se perguntava porque o rio ficava tão grande e tão largo no tempo das chuvas. Não queria desrespeitar Kanansiuê que era tão bom e tão amigo. Mas ele e muitos outros índios não sabiam e perguntavam por que Kanansiuê não tinha feito o Bêérokan (Araguaia) diferente. Um lado que descia e outro que subia. Assim ajudava a vida de todo mundo..." (ág. 105)

"A dificuldade em fabricar uma canoa era o que tornava o índio cada vez mais seu amigo. Não tão importante como o seu filho, mas significando muito mais do que seu cão. Um índio podia bater no seu cão amigo, entretanto, jamais maltrataria sua canoa." (pág. 109)

"-Ela nunca vai mandar em você. Quando a mulher gosta do homem que escolheu, nunca manda, você adivinha e faz. Gostar muito é mais bonito do que tudo." (pág. 117)

"Um dos visitantes deixou escapar uma piada trágica.
-Dizem que cearense é que chega primeiro em qualquer parte, pra mim a cachaça chega primeiro." (pág. 169)

"-Será que quando a gente chegar no Xingu vai encontrar os índios assim tão estragados?
-Não. Lá é lugar melhor. Nem todo mundo pode entrar lá. Só os privilegiados. Só as pessoas que interessam. Os índios são fortes, bonitos, bem tratados, estão nus, têm bons dentes... É um ponto de turismo muito preservado. Pra mim, é como se fosse um zoológico para a curiosidade dos civilizados... de certa posse." (pág. 170)

"O homem olhou a enfermeira com raiva e enfiou o chapéu de palha na cabeça. Seus olhos brilhavam como relâmpagos.
-Um dia a senhora paga.
Cuspiu de lado e lançou a praga.
-Um dia a senhora vai arder nas fornalhas do inferno.
Dóttie riu.
-Ih! Moço, eu já estive por lá e não é tão quente assim..." (pág. 236)

"Qualquer branco naquele momento teria se vingado e destamparia um desabafo cruel. Ele, não. Um índio, um selvagem, um bugre, apenas virou as costas para não escutar as palavras de agradecimento. Apenas se apiedara de uma criatura desgraçada e torturada pelos seus semelhantes." (pág. 263/264)

"Veio a lembrança das frases desbocadas de Canário: -na vida, a gente muitas vezes tem que fritar um pedaço de merda para tentar fazer um torresmo..." (pág. 264)

"Índio nunca fora muito de dizer adeus. Adeus só para quem vai viajar numa viagem de sombras, acompanhadas de manlioca, banana e batata-doce. Só quem vai ser enterrado do outro lado do rio, no uabdé de terra, de silêncio e de mistério. Adeus justamente era para se dar a quem nunca mais poderia responder. Só." (pág. 270/271)

"Poderia até perdoar um carajá que vendesse escondido a qualquer branco uma máscara de Aruanã. Se ele precisasse de dinheiro pra comprar remédio para um filho doente ou para cobrir a nudez do corpo da sua mulher e o seu. Esconder a sua vergonha dos brancos. Mas não. Eles venderam as máscaras por Krukujé (cachaça). Por safadeza. Eles levaram as coisas mais sérias de um índio, as coisas mais sagradas, para que tori (branco) risse e caçoasse." (pág. 293)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Farinha órfã

Título: Farinha órfã
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 130

Para encerrar o ano nada como a releitura de um livro de José Mauro, um dos meus escritores favoritos, que usa uma linguagem simples e fala de coisas da minha terra.
Este livro é composto por seis contos onde a tônica principal é a solidão. São histórias de gente simples que, por um motivo ou outro, se encontram à margem da vida e nada mais lhes resta senão aceitar a solidão e o esquecimento.
Um livro pequeno mas que nos convida a muitas reflexões.

Trechos interessantes:

"Farinha órfã é o mesmo que solidão." (pág. 6)

"Adão Jesus puxou mais a velhice das suas costas e empurrou a vida pra frente." (pág. 12)

"Que adiantava reclamar? Não era Deus que tirava o seu presente. E sim a maldade dos homens." (pág. 26)

"Olhávamo-nos desconfiados. Eu com nojo de existir. Ele com medo de me ter criado. Duas condenações se defrontando." (pág. 55)

"Deus me fez e Deus me disse: não use camisa xadrez para que o peito não prenda liberdade nem amor." (pág. 85)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vazante


Título: Vazante
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 171

O livro conta a história de Diogo, delegado que foi designado para cuidar de um presídio em uma ilha. Nesta ilha ele encontra todas as dificuldades possíveis para cumprir sua missão: calor infernal, desprezo dos habitantes locais, lembrança do delegado anterior que se suicidou, local inóspito e desagradável, além da imensa solidão.
Longe de tudo e de todos, convive apenas com o médico do lugar, a prostituta, o caçador de fugitivos e uma freira que toma conta de um antigo solar da região.
É um livro denso e angustiante, mas que retrata fielmente o desespero e a solidão que atormentam as almas angustiadas.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Banana brava


Título: Banana brava
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 176

Conheça a história de Joel e Gregorão, personagens dos garimpos e das selvas brasileiras. Gregorão é um brutamontes, muita força e pouco juízo, capaz de usar a picareta com apenas uma das mãos e não obedece a ninguém, exceto Joel. Este, um rapaz franzino, mas com juízo suficiente para os dois.
A dupla alia força e inteligência, percorrendo as regiões de garimpo, procurando a riqueza que nunca chega, ou simplesmente tentando se esconder da vida. A história desta amizade, as dificuldades enfrentadas e o relato da crueldade do garimpo fazem deste, um livro inesquecível.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O meu pé de laranja lima


Título: O meu pé de laranja lima
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 196

Este é, sem dúvida, o maior sucesso de José Mauro de Vasconcelos. Conta, de forma romanceada, a infância do autor. De família pobre, pai desempregado, mãe trabalhando numa fábrica, o menino Zezé não tinha amigos, a não ser um pequeno pé de laranja lima.
Não há como não se emocionar ao ler a história do pequeno Zezé. Esse menino, que adora traquinagens e vive se metendo em confusão, tem uma pureza no coração e uma ingenuidade que fazem derreter qualquer coração. Este livro é uma lição de vida e uma deliciosa recordação dos bons tempos idos.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Rua descalça


Título: Rua descalça
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 192

Antão e Ananias (96 e 86 anos) são dois irmãos que se consideram santos. Ajudam a todos na vizinhança e são queridos por todos ali, causando inveja a algumas pessoas da igreja que querem expulsá-los a todo custo.
Eles não entendem o conflito existente se tudo o que eles querem é viver em harmonia e que esta harmonia se espalhe pelo mundo inteiro.
O livro é muito tocante e, sem dúvida, faz você pensar sobre a natureza humana.
E o final então... é maravilhoso.