domingo, 18 de junho de 2017

As piores invenções da História

Título: As piores invenções da História
Autor: Eric Chaline
Páginas: 256

A história da humanidade é contada pela evolução de suas invenções. Porém, nem sempre as invenções foram a salvação da humanidade e, mesmo assim, muitas "contribuições" que elas ofereceram, poderiam ser melhor aproveitadas.

O livro apresenta uma relação de invenções que não deram certo, por um motivo ou outro, apresentando as falhas e os principais responsáveis por elas. O objetivo principal não é crucificar os "inventores" mas discutir as principais razões pelas quais a invenção não emplacou.

Trechos interessantes:

"No contexto deste livro, 'piores invenções' pode ter vários sentidos. O primeiro é de fracasso, seja heroico, trágico ou ridículo - embora às vezes as invenções tenham conseguido ser essas três coisas." (pág. 8)

"Se apenas uma fração dos trilhões de dólares gastos no petróleo e nas indústrias a ele relacionadas tivesse sido investida em outras tecnologias menos poluentes, poderíamos agora não estar enfrentando a catástrofe planetária que é o aquecimento global, além de uma série de outros problemas sociais, econômicos e ambientais. Contudo, uma combinação de ganância e visão de curto prazo por parte das grandes empresas e corrupção e falta de vontade dos governos permitiu que um recurso limitado e não renovável se  tornasse a principal fonte de energia para o planeta e a matéria-prima para muitos de nossos bens de consumo." (pág. 22)

"Embora muitos países tenham abolido ou suspendido a pena de morte, ela ainda é praticada em certas nações, notadamente Estados Unidos, China e Irã. Nos dois últimos, é às vezes imposta por atos não considerados crimes em outras partes do mundo, como a execução de homens no Irã por serem homossexuais e de dissidentes políticos na China. Nessas circunstâncias, a pena de morte não é um instrumento de justiça, mas de opressão arbitrária do Estado." (pág. 31)

"Para uma pessoa comum, em particular nas culturas mais dependentes dos automóveis dos Estados Unidos e Europa, incluir o motor de combustão interna na lista das 'piores invenções' deve parecer absurdo. Afinal, a indústria automobilística tem sido um setor de vanguarda, impelindo o desenvolvimento econômico e tecnológico desde o início do século XX. Infelizmente o próprio sucesso criou um legado de desastres para a humanidade: engarrafamentos, poluição, recursos petrolíferos reduzidos e mudanças climáticas." (pág. 111/112)

"Se a indústria do fast-food precisa servir de bode expiatório por produzir e vender lixo comestível barato e delicioso, nós temos que aceitar nossa parcela de culpa por comprá-lo e comê-lo." (pág. 154)

"Embora muitos animais matem e comam membros de sua própria espécie, e às vezes seus próprios parceiros e crias, os seres humanos são únicos no reino animal pela capacidade de arriscar o extermínio de toda a sua espécie e, por extensão, de todas as demais espécies do planeta." (pág. 204)

"Muitos profetas são mal entendidos e insultados em sua época e, de fato, desde o tempo de Jesus, ser rejeitado e desprezado parece ser um pré-requisito para o cargo. talvez a medida de qualquer ideia ou sistema de crenças seja o homem ou a mulher que o criou. Abraão foi um pastor. Jesus, um carpinteiro, e Maomé, um condutor de camelos, mas as religiões que fundaram perduraram." (pág. 212)

"Os leitores com menos de 30 anos talvez não se lembrem dos cerca de 5 mil anos em que a civilização humana sobreviveu sem as contribuições vitais do e-mail, mecanismos de busca e pornografia on-line, mas tal época lendária existiu deveras." (pág. 227)

terça-feira, 6 de junho de 2017

Em busca da América

Título: Em busca da América
Autor: Anne Tyler
Páginas: 320

Dois casais estão no aeroporto aguardando a chegada de bebês que adotaram, vindos da Coreia. Um casal é iraniano e o outro, americano. Devido à similaridade da situação, acabam se conhecendo e se relacionando com o objetivo de trocar experiências na criação das crianças.

Logo passam a ser amigos inseparáveis e todos sempre acabam se reunindo para as intermináveis comemorações durante o crescimento das crianças. Com isso, o modo de ver a vida e as relações humanas das duas famílias são colocados em discussão, mostrando os pontos de vista dos americanos e daqueles que ali tentam construir sua vida.

Trechos interessantes:

"Pela experiência de Maryam, as esposas costumavam se adaptar mais rapidamente. Quase da noite para o dia, elas decodificavam os costumes nativos, dominavam os 'ins' e 'outs' dos supermercados e rodízios de carona, ganhavam confiança e segurança enquanto seus maridos, enterrados no trabalho, limitavam seu novo inglês a termos médicos ou ao vocabulário de salas de reuniões. Os homens dependiam das mulheres, naquela época, para lidar com o mundo prático para eles; mas no caso dos Hakimi, a situação parecia ter sido invertida." (pág. 50)

"Bom, certamente uma pessoa pode ter defeitos piores do que estes. Não eram suficientes para justificar o divórcio. Mas o fato era que eles tinham se casado sem muito mais do que um conhecimento superficial prévio. Ela percebeu isso tardiamente. Eles tinham se enamorado pela mera ideia um do outro - duas crianças obedientes tentando ao máximo agradar aos pais - e passaram quatro anos se mantendo em lados opostos do campus só para não ter que descobrir como eram pouco compatíveis." (pág. 64)

"Ziba uma vez lhe contou que seus pais acreditavam que as pessoas que não podiam ter filhos não deveriam ter filhos; não estavam destinadas a ter. 'Destino!', Ziba tinha dito com uma risada, mas Bitsy não riu com ela. Em vez disso, estendeu a mão e cobriu a de Ziba, e os olhos de Ziba de repente se encheram de lágrimas." (pág. 73)

"Mas sob nenhuma circunstância ela teria cogitado em deixar Jin-Ho por uma noite. Ficaria louca de preocupação! As crianças eram tão frágeis. Ela entendia isso agora. Quando se pensava em tudo que podia acontecer, as tomadas elétricas, os cordões das venezianas, a salmonela do frango, o verniz tóxico dos móveis, os pedaços de comida do tamanho da traqueia, os vidros de remédio destampados e os cinco centímetros letais de água na banheira, parecia um milagre que qualquer criança conseguisse chegar à idade adulta." (pág. 81)

"'Eu sei que Ziba acredita que estaremos salvando alguém', ele disse. 'Alguma criança que nunca terá uma oportunidade, um órfão destituído. Mas não é tão simples quanto ela pensa, mudar uma vida para melhor! É tão fácil fazer o mal neste mundo, mas tão difícil fazer o bem, é o que eu acho. É fácil bombardear um edifício e fazê-lo em pedaços, mas é difícil construir um; é mais fácil causar um dano a uma criança do que ajudar uma que tem problemas[...]'" (pág. 106)

"Eu costumava pensar que se alguém viesse a mim de repente e me dissesse, 'Seu marido acabou de morrer', quando ele estava perfeitamente saudável, eu teria achado mais fácil. Foi vê-lo ir se acabando devagar, devagar, devagar que tornou tudo muito mais difícil." (pág. 136)

"Era como caminhar por um tapete vermelho e então se virar para ver que os subordinados estavam enrolando-o atrás de você." (pág. 139)

"Já não aceitava convites para aquelas festas inúteis e superficiais que ela e Kiyan tinham suportado. Suas amigas ocasionalmente questionavam isso. Ou pelo menos, Danielle. Danielle estava sempre procurando por novos conhecidos e novas experiências. Mas Maryam dizia 'Por que me incomodar? Esta é a única coisa boa de ficar velha: eu sei do que gosto e do que não gosto'." (pág. 298)

domingo, 7 de maio de 2017

Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose

Título: Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose
Autor: Stephen Rebello
Páginas: 254

É de conhecimento geral que Psicose é um dos maiores (se não o maior) trabalhos de Hitchcock e o livro conta justamente isso: a elaboração do filme, desde a ideia inicial até a distribuição comercial. Mas não foi uma tarefa fácil já que a maioria era contrária à realização do filme, considerando-o simples e sem interesse para o público.

Hitchcock tinha tanta certeza do resultado que, diante da recusa de produtores, colocou seu próprio dinheiro para que o filme fosse em frente. Escolheu os atores a dedo, usou sua própria equipe de filmagem, não mostrava as cenas a ninguém e, utilizando um baixo orçamento, fez uma das maiores obras-primas do cinema.

Trechos interessantes:

"Fiquei imaginando como esse homem, que nunca foi suspeito de qualquer delito, numa cidadezinha onde, se uma pessoa espirrasse no lado norte, alguém no lado sul diria 'Saúde', de repente foi revelado como um assassino em série. Também fiquei intrigado com o quanto seus vizinhos estavam pouco dispostos a falar sobre esses crimes. Disse para mim mesmo: 'Tem uma história aí'." (pág. 26)

"Lew Wasserman vinha esperando por uma oportunidade de capitalizar o carisma excêntrico que a aparência de querubim macabro de Hitchcock proporcionava. O diretor tinha aceitado recentemente ceder seu nome para a Alfred Hitchcock Mystery Magazine, um empreendimento fundado por um ricaço da Flórida, no qual ele não colaborava na seleção de textos nem na edição. Mesmo as introduções das histórias narradas na primeira pessoa eram escritas pelo advogado-romancista Harold Q. Masur. Só o nome de Hitchcock, porém, era suficiente para colocar a circulação nas alturas." (pág. 44)

"O sangue-frio do diretor não chegou a surpreender o roteirista, que achava a equipe de Hitchcock 'uma estranha organização'. Segundo Stefano: 'Eles não faziam elogios. Era como a realeza. O elogio era o fato de você ter sido convidado'." (pág. 61)

"Marshall Schlom explicou: 'Ele estava preocupado com o fato de os primeiros espectadores contarem o final logo que saíssem do cinema. Isso prejudicaria o filme'. De forma a combater essa possibilidade e reforçar a aura de mistério que envolvia o filme, optou por não o exibir previamente para críticos e formadores de opinião, uma atitude que contrariou o que era considerado tradição e privilégio da indústria." (pág. 166)

"Um desesperado gerente de cinema ligou para a Paramount de Chicago: as pessoas na fila para ver o filme foram pegas por uma chuva e ameaçavam desmantelar o Woods Theater se não as deixassem entrar. Hitchcock entrou na linha. 'Compre guarda-chuva para todos', instruiu como se fosse Maria Antonieta, e os guarda-chuvas foram comprados. O caso e a citação renderam ao diretor resmas de publicidade gratuita ao virar assunto de primeira página nos jornais da manhã seguinte." (pág. 179/180)

"E, quanto à primeira onda de críticas desencontradas, o diretor tinha aprendido a seguir a atitude do 'esperar para ver'. Afinal, filmes anteriores como Correspondente estrangeiro, A sombra de uma dúvida, Interlúdio, Intriga internacional e Um corpo que cai - hoje reconhecidos como grandes trabalhos - também despertaram reações variadas dos críticos quando foram lançados. O fenômeno da 'reviravolta' que ocorreu com vários de seus trabalhos levou o diretor a comentar: 'Meus filmes passam de fracassos a obras-primas, sem nunca terem sido sucessos'!" (pág. 182)

"Eu acho que ele [Hitchcock] estava amedrontado e um pouco ofendido por ter feito esse filme de baixo orçamento e conseguido uma resposta como nunca teve, mesmo tendo gasto tanto dinheiro e feito coisas tão impressionantes antes. Era como servir banquetes extraordinários com frequência e aí quando você faz um cachorro-quente as pessoas dizem: 'Isso é a melhor coisa que eu já provei!' E todas aquelas excelentes refeições que ele preparou antes?" (pág. 193)

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A elegância do ouriço

Título: A elegância do ouriço
Autor: Muriel Barbery
Páginas: 350

Renée Michel é a zeladora de um prédio luxuoso em Paris. Mas ela não é como a maioria das zeladoras. Ela não vê televisão, tem um gato chamado Leon e uma paixão incrível pela leitura. Renée é uma zeladora culta mas a última coisa que ela quer é mostrar isso, para todos ela quer passar a ideia de que é uma zeladora comum.

Quando um novo morador muda-se para o hotel seu plano ameaça ruir já que o Sr. Ozu (o novo morador) suspeita que ela é muito mais que uma simples empregada. Será que vale a pena continuar fingindo ser uma pessoa comum ou seria melhor entregar os pontos e desfrutar de uma amizade conjunta?

Trechos interessantes:

"Aparentemente, de vez em quando os adultos têm tempo de sentar e contemplar o desastre que é a vida deles. Então se lamentam sem compreender e, como moscas que sempre batem na mesma vidraça, se agitam, sofrem, definham, se deprimem e se interrogam sobre a engrenagem que as levou ali aonde não queriam ir." (pág. 19)

"Aprendi a ler sem ninguém saber. A professora ainda repetia as letras para as outras crianças, e eu já conhecia havia muito tempo a solidariedade que tece os sinais escritos, suas infinitas combinações e os sons maravilhosos que tinham me investido naquele local, no primeiro dia, quando ela dissera meu nome. Ninguém soube. Li como uma alucinada, primeiro escondido, depois, quando o tempo normal da aprendizagem me pareceu superado, na cara de todo mundo mas tomando o cuidado de dissimular o prazer e o interesse que tirava daquilo." (pág. 45)

"Os que sabem fazer fazem, os que não sabem fazer ensinam, os que não sabem ensinar ensinam aos professores, e os que não sabem ensinar aos professores fazem política." (pág. 57)

"O gato, dorme.
Repito, para que não fique nenhuma ambiguidade: O gato vírgula dorme.
O gato, dorme.
A senhora poderia, receber.
De um lado, temos este fantástico uso da vírgula que, tomando liberdades com a língua, pois em geral não se põe vírgula antes de locução conjuntiva aditiva, magnifica a forma." (pág. 116)

"Todas as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes o são cada uma a seu jeito é a primeira frase de Ana Karenina, que, como toda boa concierge, eu não deveria ter lido, assim como não me é conferido o direito de ter estremecido por acaso ao ouvir a segunda parte dessa frase, num momento de graça, sem saber que era de Tolstoi, pois, se as pessoas do povo são sensíveis à grande literatura sem conhecê-la, a literatura não pode pretender ter essa visão abrangente em que as pessoas instruídas a colocam." (pág. 144)

"A sra. Michel tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes." (pág. 152)

"Mamãe anunciou ontem à noite, no jantar, como se fosse um motivo para o champanhe correr a rodo, que fazia dez anos exatos que ela havia começado sua 'aanáálise'. Todos concordarão em dizer que é ma-ra-vi-lho-so! Acho que só mesmo a psicanálise para concorrer com o cristianismo em matéria de amor aos sofrimentos que duram. O que mamãe não diz é que também faz dez anos que toma antidepressivos. Mas, visivelmente, não liga uma coisa à outra. Acho que não é para aliviar suas angústias que toma antidepressivos, mas para suportar a análise." (pág. 176)

"Há sempre a via a facilidade, embora eu repugne tomá-la. Não tenho filhos, não assisto televisão e não acredito em Deus, e são esses todos os sendeiros que os homens pegam para que a vida lhes seja mais fácil. Os filhos ajudam a diferir a dolorosa tarefa de enfrentar a si mesmo, e depois os netos que se virem. A televisão distrai da extenuante necessidade de construir projetos com base no nada de nossas existências frívolas; embaindo os olhos, ela livra o espírito da grande obra do sentido. Deus, enfim, acalma nossos temores de mamíferos e a insuportável perspectiva de que nossos prazeres um dia chegam ao fim. Assim, sem futuro nem descendência, sem pixels para embrutecer a cósmica consciência do absurdo, creio poder dizer que não escolhi a via da facilidade." (pág. 187)

"Então, de repente pensei: Théo talvez tenha vontade de queimar carros, mais tarde. Porque é um gesto de cólera e de frustração, e talvez a maior cólera e a maior frustração não seja o desemprego, não seja a miséria, não seja a ausência de futuro: seja a sensação de não ter cultura, porque a pessoa está dilacerada entre culturas, símbolos incompatíveis. Como existir se não sabemos onde estamos?" (pág. 276/277)

sábado, 22 de abril de 2017

A king in hiding

Título: A king in hiding
Autor: Fahim Mohammad, Sophie Le Callennec e Xavier Parmentier
Páginas: 228

Este foi o primeiro livro em inglês que li até o fim. Dadas as minhas limitações e dificuldades com o idioma, considerei o resultado satisfatório. Para estimular a leitura, escolhi um livro com uma linguagem não muito complexa e com um assunto que me agradava.

O livro conta a história de Fahim, um garoto de Bangladesh que, devido aos problemas em seu país, torna-se um refugiado político e vai viver na França com seu pai. Ali, mesmo sendo um excelente jogador de xadrez e vencendo alguns torneios, encontra dificuldade em se estabelecer legalmente no país, dependendo dos favores de muitos e sonhando o dia em que poderia ter a cidadania reconhecida.

Trechos interessantes:

"A man came up to me:
'Would you like me to teach you?'
I didn't dare disappoint him.
'Yes...', I whispered.
He went off to fetch a large wooden board, put pieces on it one by one, according to some mysterious rule, and started to explaim. I listened, but it was complicated. So I said nothing and stifled my yawns so as not to be rude." (pág. 3)

"My father explained to Nagy and Diana that we had to carry on to Madrid. They found us a bus, but it didn't go to Madri direct: it stopped in France and we would have to change in Paris. I didn't want to go to France, I didn't even want to travel through France. A friend in Bangladesh had told me that in france they eat dogs. I tried to reassure myself by thinking about Zinedine Zidane: perhaps it was eating dog that made him so good? But Zidane or no Zidane, there was no way I was going to eat dog." (pág. 35)

"Like me, my father goes to school: he has French lessons. He never misses a lesson, and is absolutely determined to learn the language in order to 'integrate'. But he makes lots of mistakes and gets his words muddled up. For instance, one lunchtime in the canteen he hears someone say:
'Bon appétit!'
So after that he says it all the time to everyone, in the lobby, on the stairs, in the garden:
'Bon appétit! Bon appétit! Bon appétit!'
He thinks it means 'hello'. It makes me laugh." (pág. 78/79)

"Xavier, tell us the story of Nimzowitsch and the cigar.
'At a tournament, Nimzowitsch's opponent rested a cigar on the edge of the chessboard. Nimzowitsch, who detested the smell of tobacco, demanded that the referee should enforce the ban on smoking. The player with the cigar protested that he hadn't lit the cigar and therefore wasn't smoking, and the referee was force to concede that he was in the right. Whereupon Nimzowitsch retorted:'You know very well that in chess the threat is more powerful than its execution!" (pág. 148)

terça-feira, 14 de março de 2017

História na sala de aula

Título: História na sala de aula
Autor: Leandro Karnal (org)
Páginas: 216

Livro indicado, preferencialmente, para os professores da cadeira de História, já que trata com detalhes sobre esta disciplina em específico. O livro é uma coletânea do trabalho de quatorze profissionais que apresentam suas opiniões e ideias sobre o ensino de história, tanto no ensino fundamental como no ensino médio.

A obra é dividida em duas partes específicas. A primeira parte (Abordagens) apresenta ideias gerais e reflexões teóricas sobre a disciplina e, na segunda parte (Recortes) é discutida a metodologia de trabalho e as diferentes propostas para o ensino de história na prática.

Trechos interessantes:

"Ora, a presença do homem civilizado neste planeta tem poucos milhares de anos e tem causado terríveis males: destruímos sem dó a natureza, submetemos os mais fracos, matamos por atacado e a varejo, deixamos um terço da população mundial com fome, queimamos índios e por aí afora. Mas nossa presença não foi escrita apenas com sangue. Escrevemos poesia sublime, teatro envolvente e romances maravilhosos. Criamos deuses e categorias de pensamento complexos para compreender o que nos cerca." (pág. 20/21)

"Um país cuja população não sabe ler, que, quando sabe, lê pouco, e quando finalmente lê, pouco entende (segundo a constatação insuspeita de um órgão da própria ONU), não tem muitas chances num mundo competitivo e exigente de qualificação de sua força de trabalho." (pág. 21)

"Introduzir no ensino as preocupações mais agudas da sociedade atual não significa deslocar as matérias curriculares, embora a vigência e a adequação de muitos dos seus conteúdos sem dúvida deverão ser revisadas, em alguns casos porque são de valor formativo duvidoso e em outros porque contradizem claramente os princípios subjacentes aos temas transversais (não se pode valorizar a paz e exaltar a guerra ao mesmo tempo, nem fomentar a igualdade entre os sexos destacando apenas as ações realizadas por homens, por exemplo)." (pág. 65)

"Ensinar a edificar o próprio ponto de vista não significa ensinar as soluções,nem significa mostrar aonde se chegou num determinado momento histórico,nem sequer significa dar algumas explicações sobre como e por quê se chegou naquele ponto." (pág. 77)

"Nada mais estranho do que valer-se exclusivamente do escrito para se ter acesso ao modo de vida de uma época em que a maioria das pessoas era analfabeta. Por isso, houve quem defendesse tratar-se a Idade Média de uma 'civilização dos gestos', ou de uma 'civilização da palavra e da voz'. Um bom caminho para se compreender essas proposições é, segundo pensamos, explorar no ensino outras possibilidades de comunicação, como a imagem e a oralidade." (pág. 118)

"Para estudar o passado de um povo, de uma instituição, de uma classe, não basta aceitar ao pé da letra tudo quanto nos deixou a simples tradição escrita. É preciso fazer falar a multidão imensa dos figurantes mudos que enchem o panorama da história e são muitas vezes mais interessantes e mais importantes do que os outros, os que apenas escrevem a história. [Sérgio Buarque de Hollanda]" (pág. 185)

"A regra para um bom trabalho é que ele não possa ser copiado integralmente de fonte alguma, pois apresenta um desafio, que, é claro, deve ser proporcional à faixa etária do aluno." (pág. 213)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A curiosidade

Título: A curiosidade
Autor: Stephen P. Kiernan
Páginas: 388

Comprei o livro aproveitando uma promoção e não esperava muita coisa dele, mas ele me surpreendeu. Achei a história muito bem engendrada, com um tema plausível e onda não há abundância de histórias do tipo. Prende a atenção e, apesar do final já ser esperado, não há como não torcer pelo personagem.

Uma equipe de cientistas descobre nas geleiras do Ártico, um homem congelado. Uma gigantesca operação é montada para preservar e reanimar o homem. Apesar das boas perspectivas no campo científico, no campo moral há alguns inconvenientes. Algumas pessoas são favoráveis à reanimação do homem (agora chamado Sujeito Um) e outras acham que o homem está brincando de Deus. E em meio a tudo isso o Sujeito Um desperta.

Trechos interessantes:

"Desde então, descobri que a vida de uma mulher solteira urbana na casa dos trinta se parece muito com um baile do ensino médio: você torce as mãos esperando que os bons partidos venham convidá-la, mas diz sim a todos os outros porque está cansada de ser invisível." (pág. 15)

"As implicações, que eu havia negado implacavelmente até hoje, são extraordinárias. Há em torno de quarenta mil pessoas ao redor do mundo criogenicamente preservadas, esperando o dia em que a tecnologia lhes possibilite reviver. Há outras sessenta mil pessoas em qualquer dado momento deitadas nas UTIs dos hospitais, sofrendo de doenças incuráveis. Imagine se elas pudessem ser congeladas em gelo maciço até que se encontrasse a cura, ou algum remédio antienvelhecimento, e então fossem reanimadas. Há quase cem mil pessoas aguardando um transplante de órgão. Imagine se você pudesse congelar o corpo de pessoas falecidas recentemente, e então descongelar as partes de que você precisasse mais tarde. Isso faria o transplante ser tão fácil quanto ir à geladeira buscar uma cerveja." (pág. 46)

"O grande Albert Szent-Gyorgyi disse certa vez: 'O que direciona a vida é uma pequena corrente elétrica que se mantém em frente por causa do sol'. Se o Sujeito Um despertar, entretanto, podemos nos aventurar a dizer que o primeiro catalisador para a criação da vida pode não ter sido elétrico, mas magnético." (pág. 66)

"Não era a respiração dele. Era o coração. O homem estava chorando.
Então fiz - com a certeza de que me traria um novo round de recriminações no dia seguinte - o que, acredito, qualquer ser humano deveria fazer quando um companheiro de jornada neste planeta é invadido pela tristeza. Corri até ele e o abracei." (pág. 102)

"Há algo nesta terra mais divertido, realmente, do que um inglês? Desde os dias em que tinham colônia na Índia e Hong Kong, eles são possuídos por um estranho senso de superioridade, que acreditam ser um tipo de honra cavalheiresca, mas você reconhece como tolice. Nobreza para eles; vaidade para você. Por que um norueguês venceu um britânico na corrida ao polo sul? Porque Scott, o inglês, se recusou a usar cães para puxar seu trenó. Não era apropriado a um cavalheiro confiar em animais para tal aventura, ele escreveu em seu diário, como se estivesse puxando uma cadeira para se juntar à Távola Redonda. E assim Amundsen não só chegou ao polo primeiro e voltou inteiro, como o diário de Scott acabou sendo retirado de seu cadáver." (pág. 160/161)

"Provavelmente toda mulher se pergunta em algum ponto da vida: que porção do amor confessado em meus ouvidos era baseada em desejo, e qual era verdadeiramente para mim?" (pág. 230)

"Mas,em sua animosidade descarada, Steele havia me trazido à mente uma velha sabedoria de tribunal: Se um homem lhe chamar de 'amigo', ele não é. Se declarar 'confie em mim', não confie. Se ele disser 'estou falando a verdade', esconda a carteira." (pág. 263)

"-O sinal de um homem estúpido é quando ele se sente livre demais com os insultos." (pág. 307)

"Devemos deixar nossos feitos serem nossos embaixadores. Nosso desafio é viver com toda a sinceridade que há em nosso coração e esperar que aqueles que duvidam enxerguem a verdade." (pág. 385)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A pequena guerreira

Título: A pequena guerreira
Autor: Giuseppe Catozzella
Páginas: 222

Samia Yussuf sempre gostou de correr. Junto com Ali, vizinho e colega de infância, passava o dia treinando, procurando melhorar suas marcas. O problema é que ela era uma garota somali, um país que, além de estar em guerra, tinha muitas restrições às atitudes e vestimentas das mulheres.

O grande sonho de Samia era vencer uma prova dos Jogos Olímpicos. Participou da Olimpíada da China em 2008, mas chegou em último lugar. Decidida a mostrar o seu talento nos Jogos Olímpicos de 2012, a pequena guerreira procura, de todas as formas, sair de seu país para conseguir um treinador e melhores condições de treinamento.

Trechos interessantes:

"Ali e eu nunca nos importamos com a guerra. Que atirassem uns nos outros na rua; a gente não tinha nada a ver com isso. Porque a guerra não afetava a única coisa que importava: o que ele era para mim e o que eu era para ele." (pág. 12)

"-Papai, mas você não tem medo da guerra?
-Você nunca deve dizer que tem medo, pequena Samia. - Ele ficou sério. -Nunca. Caso contrário, as coisas das quais tem medo parecerão grandes e acharão que podem vencê-la." (pág. 32)

"-Mas aonde você quer chegar, hein? - perguntou, apertando as minhas bochechas com uma de suas mãos grandes e mexendo meu rosto de um lado para o outro.
Ele estava brincando, mas eu levei a coisa a sério, como sempre fazia quando se tratava de corrida.
-Aabe, hoje tenho dez anos.
-Sim, é por isso também que, se vencer...
Não o deixei terminar.
-Tenho dez anos e você vai ver que, quando eu tiver dezessete, vou estar disputando uma prova nos Jogos Olímpicos. É lá que eu quero chegar." (pág. 41)

"Gostava das aulas, principalmente de educação física, em que eu era a melhor, mas também de aritmética e contabilidade. O que eu preferia, porém, eram os teoremas da geometria. Era maravilhoso saber que existiam leis escondidas no interior dos nossos terrenos, nos retângulos dos pátios e nos buracos dos banheiros. Ou, por exemplo, dentro do círculo que os burgico deixavam no chão depois das refeições. Parecia algo mágico e me dava uma sensação de segurança. Se haviam regras que o explicavam, o universo não podia ser tão perverso. Quem sabe um dia poderíamos descobrir as leis que levavam os homens a fazer guerra, e, nesse dia, nós a eliminaríamos para sempre. Seria o dia mais bonito da história da humanidade." (pág. 57)

"De um dia para o outro, todos os cinemas foram fechados. Não que eu jamais tivesse tido dinheiro para ir a um, mas a esperança de que isso fosse acontecer, essa existia, e por si só já valia a espera. E, além disso, sempre havia uma colega de turma mais rica que ia às sextas com a família e voltava com aquelas histórias maravilhosas e mágicas. O cinema criava e alimentava sonhos e por isso foi fechado. (pág. 74/75)

"A Viagem é uma coisa que todos nós temos na cabeça desde que nascemos. Cada um tem amigos e parentes que a fizeram ou que, por sua vez, conhecem alguém que a fez. É como uma criatura mitológica que pode levar à salvação ou à morte com a mesma facilidade. Ninguém sabe o quanto pode durar. Se a pessoa tiver sorte, dois meses. Se tiver azar, até um ano, ou dois. (pág. 114)

"O hotel também era lindo. Nada a ver com o de Djibuti.
Colunas e pisos de mármore, portas automáticas. O quarto grande e limpo. Havia televisão e telefone. A cama mais macia que eu já tinha experimentado. Carpete. Um armário para guardar minhas poucas coisas. Toalhas de vários tamanhos no banheiro. Duas pias maravilhosas, uma superfície grandíssima com cremes, xampus e condicionadores de vários tipos. No chão, sobre o mármore, um tapete com as cores do Oriente. E a banheira.

Teríamos a tarde toda livre. Duran só nos havia pedido que não nos afastássemos muito. Mas eu não tinha a mínima intenção de sair. Havia um banheiro bonito demais para ser desperdiçado dando voltas pela cidade." (pág. 126/127)

"Eu tinha chegado por último, mas, ainda assim, e isso foi incrível, menos de dez minutos depois eu também fui afogada pelos jornalistas de todo o mundo. A garotinha de dezessete anos magra feito um prego que vem de um país em guerra, sem um campo e sem treinador, que luta com todas as suas forças e chega por último. Uma história perfeita para espíritos ocidentais, entendi naquele dia. Eu nunca tinha visto as coisas por este ângulo." (pág. 135)

"Éramos 86, ancorados à tecnologia de um GPS.
Não existem ruas no Saara. Não existem trilhas. Cada traficante, cada Viagem, segue sua rota específica. De manhã, as marcas dos pneus são cobertas pela areia. Apagadas para sempre. Não há Viagem igual à outra.
Fica-se durante dias nas mãos de traficantes de pessoas que, por sua vez, estão nas mãos de uma caixinha que se comunica com um satélite." (pág. 181)

"Por que tinha me reduzido a esse estado? Só queria ser uma campeã dos 200 metros. A ninguém no mundo, durante a breve duração de uma vida, devia ser consentido passar por esse inferno." (pág. 194/195)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Explicando Deus numa corrida de táxi

Título: Explicando Deus numa corrida de táxi
Autor: Paul Arden
Páginas: 126

Está claro que o título do livro é uma falácia: nada é explicado, muito menos num período de uma corrida de táxi.

Na verdade trata-se de uma apresentação de frases e ideias para que o leitor faça a conexão e as interprete da maneira que achar melhor. Livro curto, com pouco texto e muitas imagens. Estilo outdoor.

Trechos interessantes:

"Darwin diz que não existe algo como Deus.
Só existem ciência e evolução.
Isso é árido demais para a maioria de nós. Precisamos de uma alma gêmea: olhamos para cima à procura dela.
A maioria de nós precisa de algo espiritual em que acreditar. O homem não pode viver só de pão." (pág. 10)

"Todos temos nossa própria linha direta com Deus.
Não precisamos de pregadores ou profetas.
Precisamos apenas acreditar que existe um poder, ou uma força, que é em si perfeito.
Mas algumas pessoas não aceitam isso.
É simples demais. Precisamos tornar as coisas complicadas.
E Deus sabe como a Igreja sempre torna as coisas complicadas!" (pág. 18)

"Como você pode ter uma fé cega em algo de que não se tem qualquer vestígio de prova?
Pois bem, a resposta é: você não pode.
Se pudesse provar, não se trataria de fé.
Você só pode ter fé naquilo que não conhece.
Isso é fé." (pág. 36)

"Brigamos com nossos vizinhos porque não os entendemos, não por discordarmos deles." (pág. 59)

"Nossa recusa a entender as crenças dos outros é a razão de ainda termos guerras religiosas até hoje." (pág. 60)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Jogando xadrez com os anjos

Título: Jogando xadrez com os anjos
Autor: Fabiane Ribeiro
Páginas: 396

Livro que deve agradar ao público juvenil já que sua história é da mesma linha de Pollyanna, onde o otimismo é a tônica principal. Claro que há dificuldades e tropeços, mas a protagonista sempre procura ver o lado bom, apesar das adversidades.

Anny é uma menina de 8 anos cujos pais a entregam aos cuidados de uma vizinha, só a visitando uma vez por ano. Para se consolar a menina conta com uma boneca de pano e um jogo de xadrez que ganhou do pai. Longe dos pais, a menina é tratada como escrava e, para minorar seus sofrimentos, usa o jogo de xadrez para criar um mundo imaginário. Lentamente, mas bem lentamente, as coisas vão mudando...

Trechos interessantes:

"Em seu interior tratava-se de uma disputa, como em uma partida infinita de xadrez. O que o confortava era pensar que todas as pessoas, assim como ele, têm o bem e o mal em seus corações. Era um duelo sem-fim." (pág. 23)

"-A vida é como uma partida de xadrez, se não se consegue em um dia, deve-se tentar no dia seguinte, e nunca deixar de acreditar - Anny dizia para Tiara." (pág. 26)

"Não podemos esperar das pessoas mais do que elas estão prontas para nos entregar - ela pensou -, papai me disse isso uma vez." (pág. 62)

"-Sabe, Anny, nunca se esqueça de sorrir e nunca se esqueça de como é ser criança.
-Mesmo quando eu for adulta? - ela indagou, confusa.
-Principalmente quando você for adulta - falou o rapaz. -Preste atenção no que eu vou lhe dizer. A diferença entre os adultos e as crianças é que, quando crescemos, aprendemos a usar palavras difíceis, achamos que entendemos tudo, aprendemos a nos distanciar dos sonhos e fingimos, fingimos muito. Porque sempre nos preocupamos em manter as aparências, e não em fazer coisas que nos deixam realmente felizes. Deixamos de nos encantar, de dar valor ao que tem valor, de fazer o mundo ao nosso redor sorrir e de sorrir de volta para ele. Não nos permitimos fazer coisas diferentes, porque seguimos regras o tempo todo. Aí, cada vez mais pensamos que podemos controlar tudo e a todos; e ensinamos as crianças, quando, na verdade, elas é que deveriam nos ensinar." (pág. 80)

"Hermes carregava profundas mágoas e arrependimentos; era nítido. Era como se ele assistisse à vida passar, como se assiste a uma peça de teatro - ele era um mero espectador da vida, e não um ator; não era o protagonista de seus dias. Estava sempre na plateia e nunca nos palcos. Era essa a diferença entre viver ou simplesmente existir." (pág. 106)

"-Sabe, pequena, há muita gente aí fora no mundo. Cada um com uma vida diferente, com problemas e alegrias diferentes. Mas todos deveriam ter a oportunidade de ouvir você falar, para que aprendessem a dar valor a tudo na vida, porque as coisas mais simples são as que mais importam." (pág. 144)

"Quando tomamos uma decisão em nossa vida, qualquer que seja, ela deve se tornar a nossa razão de viver. Se a dúvida ou o arrependimento existirem, nunca viveremos em paz, nunca honraremos a nossa escolha e, dessa forma, é como se não tivéssemos feito escolha alguma." (pág. 173/174)

"-Nunca se esqueça que aqueles que amamos não nos deixam verdadeiramente." (pág. 236)

-Puxa! - exclamou Anny. -Deve ser legal. Mas você não sente falta de enxergar com os olhos?
-Como se pode sentir falta de algo que nunca se teve? Eu nunca enxerguei com os olhos, desde que nasci aprendi a ver o mundo com as mãos." (pág. 277)

"Ela sabia que na existência de qualquer pessoa há espinhos e flores pelo caminho. No entanto, ela escolheu ver somente as flores, sem importar-se com os espinhos. Aí residia toda a diferença do mundo." (pág. 392)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Almanaque das curiosidades matemáticas

Título: Almanaque das curiosidades matemáticas
Autor: Ian Stewart
Páginas: 314

Como o próprio título sugere, o livro está repleto de curiosidades matemáticas. Algumas curiosidades são simples, outras mais complexas e algumas requerem um bom entendimento da matemática. Ao longo do livro, inúmeros desafios são apresentados ao leitor (com respostas comentadas no final do livro).

Em suma, é um livro indicado a quem é apaixonado por matemática. Não que os demais não possam lê-lo, mas, talvez não conseguirão apreciar todos os detalhes que o tema sugere e  que o autor se propôs a explanar.

Trechos interessantes:

"Como sabemos que π não é uma fração exata? Por mais que aperfeiçoemos a aproximação x/y usando números cada vez maiores, jamais chegaremos a π propriamente dito, teremos apenas aproximações cada vez melhores. Um número que não pode ser escrito exatamente como uma fração é chamado irracional. A prova mais simples de que π é irracional utiliza o cálculo, e foi descoberta por Johann Lambert em 1770." (pág. 31)

"O nó de um matemático é como um nó comum em um pedaço de barbante, mas ele é feito em um fio de pontas unidas, de modo que o nó não possa se desfazer. Mais precisamente, um nó é uma volta fechada no espaço. A volta mais simples é um círculo, que é chamado de nó trivial." (pág. 37)

"A teoria dos nós é usada na biologia molecular, para entender os nós do DNA, e na física quântica. Digo isso caso você esteja pensando que os nós só servem para amarrar pacotes." (pág. 39)

"Fermat, no entanto, não era um matemático profissional - ele nunca teve um cargo acadêmico. Em seu tempo, trabalhava como conselheiro jurídico. Mas sua paixão era a matemática, especialmente o que chamamos atualmente de teoria dos números, as propriedades dos números inteiros comuns. Essa área utiliza os ingredientes mais simples de toda a matemática; paradoxalmente, é uma das áreas em que o progresso é mais difícil. Quanto mais simples os ingredientes, mais difícil é fazer algo com eles." (pág. 59)

"Como ocorre com toda a numerologia, podemos encontrar o que quer que estejamos buscando, desde que busquemos com bastante afinco." (pág. 106)

"Os fiscais de impostos usam a Lei de Benford para detectar números falsos em declarações, porque as pessoas que usam números fictícios tendem a usar os diferentes algarismos iniciais com a mesma frequência. Provavelmente por pensarem que é isso o que acontece com os números verdadeiros!" (pág. 117)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Muito além do tempo

Título: Muito além do tempo
Autor: Alexandra Monir
Páginas: 270

Livro recomendado para o público adolescente, com uma história leve, descontraída, sem muitas surpresas e com o toque mágico que todos os jovens gostam.

Michele não conheceu seu pai e mora sozinha com a mãe em Nova York. Quando sua mãe morre ela vai viver com seus avós, os quais ela desconhecia totalmente e que fazem parte da elite da cidade. No seu quarto ela encontra objetos antigos que a fazem viajar no tempo, 100 anos atrás e encontrar com o amor de sua vida. O resto é a sequência esperada.

Trechos interessantes:

"-Tenho que admitir que, quando descobri, cheguei ao fundo do poço. Mas então caiu a ficha de que eu havia perdido tudo - meu noivo, minha família, meu lar -, e que agora Deus me dava algo por que viver - dissera Marion, pegando a mão de Michele. -Havia uma razão para toda essa dor. Talvez eu tivesse que conhecer Henry Irving e me apaixonar por ele para trazer você ao mundo. E, quando a vi, foi amor à primeira vista. Prometi a mim mesma que seria uma mãe de verdade para você. Seria tudo que seus pais e seus avós não puderam ser." (pág. 21)

"-Me escuta, Michele. Não existe nada nesta vida capaz de te destruir, a não ser você mesma. Coisas ruins acontecem com todo mundo e, quando acontecem, você não pode simplesmente desmoronar e morrer. Você tem que lutar. Senão, é você quem perde no final das contas. Mas, se for em frente e lutar, você ganha. Assim como eu ganhei tendo você." (pág. 22)

"-Michele, querida, você não deve dizer essas coisas para a criadagem. Não é apropriado.
Michele olhou para ela, perplexa.
-Mas... estamos no século XXI!
-Claro que estamos - Dorothy interpôs com rapidez. - Mas, já que o emprego deles é servi-la, eles ficam envergonhados quando você se oferece para ajudar, pois é como se não estivessem fazendo bem seu serviço." (pág. 45)

"Parece incrível - admirou-se Philip. - Em comparação, você deve achar meu mundo entediante.
-Na verdade, não. É só diferente. Gosto do que estou vendo da antiga Nova York.
-E do que é que você gosta?
-Eu amo as cores, os espaços abertos e o céu sem poluição - Michele respondeu, pensativa. - Não sei. Acho que o que gosto mesmo é que tudo parece mais... inocente." (pág. 112)

"-Alguém uma vez me disse que os amigos são a família que você escolhe. Então, veja só: vou ser sua família e você pode ser a minha." (pág. 138)

"O amor deles a havia salvado depois que a mãe tinha morrido. O que a salvaria agora? E, agora que ela havia encontrado o tipo de amor real e verdadeiro com que todos sonham, mas que raramente ousam esperar de verdade, como poderia sequer imaginar estar com outra pessoa?" (pág. 186)

"Qual era o sentido de amar, quando as pessoas que você amava eram tiradas de você? Por que o amor existia, quando a Morte e e o Tempo estavam sempre de prontidão para atacar?
Fechou os olhos com força, e os rostos de Marion e Philip encheram sua visão. Por que devemos passar tanto tempo da vida sentindo a falta das pessoas, em vez de estar com elas?" (pág. 249)

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Morte na primavera

Título: Morte na primavera
Autor: Magdalen Nabb
Páginas: 222

Duas jovens são sequestradas em Florença e uma delas é solta para apresentar as condições do resgate à família da outra jovem. Começa uma busca frenética para localizar o cativeiro da jovem em meio às inúmeras propriedades rurais da região, onde já estava se tornando comum esta prática criminosa.

Apesar de ser um livro policial, com toques de suspense e reviravoltas, não foi um livro que chamou a minha atenção. Achei a história confusa, com personagens confusos, com um enredo que prende pouco a atenção, esperando o momento em que a história fosse realmente deslanchar. E o momento não veio. É como se fosse um sequestro sem sequestro.

Trechos interessantes:

"Mais turistas. A invasão começava mais e mais cedo a cada ano, tornando insuportável cuidar das coisas do dia a dia em meio às ruas estreitas superlotadas. Ontem mesmo alguém escrevera aos editores do Nazione sugerindo com tristeza que o prefeito providenciasse uma área de camping nas montanhas para os florentinos, já que não havia mais lugar para eles em sua própria cidade. Por mais rentável que o turismo pudesse ser, a invasão anual os deixava indignados." (pág. 10/11)

"-Se quer saber se vamos pegá-los, vamos, sim, mas também é quase certo que matem a garota. Amadores são incompetentes e entram em pânico. Já os profissionais são bem organizados, nunca são vistos pelas vítimas e não matam. Não é bom para os negócios. Se as pessoas não tivessem certeza de pegar a vítima de volta em troca do dinheiro, não se disporiam a pagar o preço. Com amadores não adianta pagar, eles vão matar a vítima de qualquer maneira por causa do medo. Prefiro lidar com profissionais." (pág. 38)

"-Espero que não tenha lhe tirado de algo mais importante esta noite.
-Na verdade, tirou sim - o promotor respondeu gravemente -, mas pelo amor de Deus, não se preocupe com isso, o senhor já tem coisas demais com que se preocupar.
Era impossível ver no escuro se o que ele disse tinha a habitual centelha de ironia." (pág. 166)

"É terrível ver uma pessoa infeliz quando queremos ajudar essa pessoa e não podemos." (pág. 170)

domingo, 27 de novembro de 2016

O jogo dos assassinos

Título: O jogo dos assassinos
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 98

Como fã dos livros de mistério e suspense, atirei-me a este livro pensando tratar-se de material inédito. Na verdade é apenas uma coletânea das coletâneas já publicadas anteriormente. Não há nenhuma história original.

Outro ponto em desfavor do livro é que não há um índice. As histórias têm que ser lidas na sequência, ou então devem ser procuradas manualmente. A decepção só não foi maior porque o livro é pequeno.

Trechos interessantes:

"Não ande carregando pensamentos mórbidos. Não pense na morte todo o tempo, preocupe-se com a vida. Pense sobre o seu trabalho, por exemplo.
Mas o que se pode fazer, se o seu trabalho, frequentemente, é lidar com a morte?" (pág.11)

"Se o rapaz não pudesse entender a atrocidade do que fizera, se era jovem demais, se a vida era para ele ainda algo tão natural, uma dádiva tão natural, uma dádiva tão inevitável, pelo menos os pais dele certamente já tinham vivido o bastante para entender. Será que o Sr. Brodek nunca esteve deitado na cama, sem poder dormir, pensando no fraco e envelhecido som do seu próprio coração bombeando a vida através das veias? Será que a Sra. Brodek não sentiu o aperto do medo diante da morte,quando se achava prestes a dar a vida ao seu filho? Eles sabiam, eles tinham que entender o que realmente significa matar." (pág. 21)

"-Volto à sua frequente afirmação de que, sendo todas as soluções impossíveis eliminadas, qualquer possibilidade restante, ainda parecendo improvável, será a verdadeira." (pág. 45)

"Existem criaturas patéticas neste mundo, para as quais a posse do dinheiro significa tudo. Conhecem pouco sobre a vida e nada sobre viver." (pág. 52)

"O amor pelo dinheiro, Parker, é de fato, a raiz de todo o mal." (pág. 55)

"Milhares de pessoas nos Estados Unidos da América tinham levantado essa manhã sem saber que iriam morrer antes do cair da noite. Por que a sua querida Mary não podia estar entre eles? Por que ela não podia morrer, sem que ele precisasse assassiná-la?" (pág. 70)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Esposa 22

Título: Esposa 22
Autor: Melanie Gideon
Páginas: 396

Alice é uma mulher na casa dos 40 anos, entediada com o casamento, trabalha numa escola local como professora de Arte e acredita que a filha tem transtorno alimentar e que o filho é gay. Desiludida com o casamento, tem a crise de meia idade acentuada quando o marido perde o emprego e a escola em que trabalha resolve não renovar seu contrato para o próximo ano.

Por impulso resolve participar de uma pesquisa sobre relacionamento de casais que chega ao seu e-mail, surgindo daí uma animada troca de mensagens entre ela (Esposa 22) e o entrevistador (Pesquisador 101). Começando como uma coisa simples, a pesquisa cresce de importância passando a ter grande influência na sua vida. Tudo isso, sempre fazendo uso das mídias modernas: e-mail, twitter, facebook e pesquisas do Google.

Trechos interessantes:

"Não consigo disfarçar minha expressão de espanto. Eles estão competindo para ver quantos resultados seus nomes geram no Google. E estão todos na casa do milhar?
-Vejam só que vocês fizeram. Alice está apavorada - diz Kelly. - E não a censuro. Somos um bando de narcisistas mesquinhos.
-Não, não, não. Eu não estava julgando. Acho engraçado. Pesquisa narcisística. Todo mundo faz isso, não? Só que ninguém tem coragem de admitir." (pág. 19/20)

"Ele está vestido para ir trabalhar: calça cáqui e camisa social violeta. Fui eu que comprei essa camisa, sabendo em como ele ficaria bem com essa cor, combinando com seus olhos e cabelo escuros. Quando cheguei com ela em casa, ele protestou, claro.
-Homens não usam lilás - disse ele.
-Sim, mas homens usam roxo - retruquei.
Às vezes a gente só precisa chamar as coisas por outro nome para conseguir que os homens concordem com a gente." (pág. 40)

"A escola de Peter leva a ecologia muito, muito a sério. Plástico é proibido. Guardanapos de pano são incentivados.
[...]
Vão ser pratos de papel.
-Se alguém perguntar, diga que o custo carbono de arranjar um novo kit de utensílios pesa muito mais que usar cinco pratos descartáveis da sua mãe, comprados em 1998, na época em que os gases estufa provinham do excesso de repolho no almoço dos jardineiros." (pág. 89)


"O que as Abelhas Abelhudas sabem, o que é tácito entre nós, o que não precisa ser explicado nem dito, é que ninguém jamais vai nos amar como nossas mães nos amaram. Sim, somos e seremos amadas, por nossos pais, amigos, irmãos, tios e avós e cônjuges - e nossos filhos, se optamos por tê-los -, mas nunca experimentaremos aquele tipo de amor materno incondicional, do tipo 'nada que você fizer vai me afastar de você'." (pág. 110)

"Eu lembro que quando as crianças eram pequenas, uma conhecida me confidenciou como ela e o marido estavam desolados com a partida do filho para estudar em outra cidade. Sem refletir, eu disse a ela: 'Ora, a questão não é essa. Ele se lançou no mundo. Vocês não deveriam estar felizes?!' Cheguei em casa e contei isso a William e nós dois ficamos desconcertados. Envolvidos como estávamos no dia a dia difícil dos pais jovens com filhos pequenos, ambos daríamos qualquer coisa para ter uma tarde só nossa. Estávamos ansiosos para que nosso filhos se tornassem independentes. Imagine a pessoa ser tão dependente dos filhos a ponto de se sentir perdida quando eles saem de casa, dissemos um ao outro. Dez anos depois, estou começando a entender." (pág. 115)

"Tenho certeza de que éramos irritantes ao extremo. Especialmente para os casais mais velhos que não andavam na calçada de mãos dadas, que muitas vezes pareciam nem se falar, separados por uma distância de um metro. Eu não conseguia entender que o silêncio deles poderia ser confortável, um silêncio conquistado a duras penas, um benefício decorrente de anos de vida em comum; só pensava em como era triste eles não terem nada para dizer um ao outro." (pág. 162)

"Que tipo de guerra a pessoa trava consigo mesma?
Uma guerra em que um lado da pessoa acha que ela está cruzando uma linha e o outro acha que essa linha está pedindo para ser cruzada." (pág. 218)

"E o mais importante, minha mãe teria me informado sobre o tempo. Teria dito: 'Querida, é um paradoxo. Na primeira metade da vida, cada minuto leva um ano para passar, mas, na segunda metade, cada ano leva um minuto.' Teria me garantido que era normal e que não adiantava ir contra. É o preço que se paga pelo privilégio de envelhecer."

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Amazônia, a viagem quase impossível

Título: Amazônia, a viagem quase impossível
Autor: Louise Sutherland
Páginas: 180

Pedalar pela Transamazônica recém inaugurada, esse era o desejo da autora, uma neozelandesa apaixonada por ciclismo e que resolveu se aventurar pela Amazônia depois de já ter percorrido grande parte do globo. Foram 4.400 quilômetros enfrentando sol e chuva, numa estrada irregular e não concluída, em meio à floresta, atravessando áreas indígenas, leitos de rios, em áreas desertas e, o mais interessante, sozinha e sem falar uma palavra em português.

Apesar da dificuldade e dos rótulos de 'impossível' que todos proferiram, ela conseguiu. E mais importante: amou a viagem, se interessou pelo povo que vive ali a ponto de fazer uma campanha em seu país e arrecadar 20 mil libras e montar um clínica móvel para operar naquela região pois havia ficado impressionada pela falta de assistência médica à população local. Ou seja, além de apaixonada pelo ciclismo, também defensora das causas sociais. Leitura extremamente recomendada.

Trechos interessantes:

"Eu estava começando a me sentir um pouco preocupada. Tudo o que eu pretendia era pedir alguns detalhes atualizados sobre a estrada. Eu já havia percebido que ela não seria uma autoestrada pavimentada como as grandes vias da Europa, com suas paradas frequentes que ofereciam todo o conforto aos viajantes. Mas, da mesma forma, eu não esperava que tudo fosse tão drástico quanto o Dr. Araújo descrevia.
Em primeiro lugar, se era, realmente tão isolada, por que construir a estrada? Ela havia sido divulgada em todo o mundo como um feito fantástico da engenharia e aclamada como uma das maravilhas do mundo moderno; deveria haver mais de uma razão, além de provar que podiam fazê-la." (pág. 15)

"-Você sabe - eu disse para alguém em particular - eu descobri que um velho ditado é bem verdadeiro, e ele diz o seguinte: a maior parte das pessoas, na maior parte dos países é muito mais gentil do que imagina a maioria das OUTRAS pessoas." (pág. 16)

"Eu sempre descobri, em todos os países pelos quais andei de bicicleta, que quanto mais primitivas eram as pessoas, maior sua hospitalidade. Eu descobri que é mais fácil passar por uma área estranha, disposta a aceitar as pessoas, SEUS hábitos e SEU modo de vida. E não com uma atitude 'assustada' ou sentindo-se 'superior'. Na maior parte dos casos eles respondiam com gentileza, mesmo quando eu não conseguia me comunicar com eles. Eu sou a estranha, a visitante. Aquela é SUA terra natal." (pág. 53)

"Quando as portas do banco se abriram eu era a primeira. Um dos caixas examinou os cheques e meu passaporte, depois balançou a cabeça.
-Sinto muito, não trocamos cheques de viagem.
Mas eu havia ficado sem dinheiro brasileiro. O que poderia fazer?
O caixa sugeriu que eu procurasse alguém na cidade que comprasse os meus cheques. Eu não podia acreditar nisso: banco me dizendo para procurar o mercado negro!" (pág. 54)

"A solidão não me preocupava. Eu nunca estava só quando pedalava. Eu tinha minha bicicleta para conversar. Mas era à noite, ou em uma cidade estranha onde não conhecia ninguém que eu me sentia realmente sozinha." (pág. 65)

"Eu amei a floresta!
Viajar de bicicleta durante dias, tendo apenas as árvores e o sol brilhante ao meu redor. Tendo os papagaios, as cobras e milhares de borboletas como companhia. O tornozelo ainda infeccionado e a comida monótona eram detalhes a serem esquecidos. ESTA era a vida que eu pedira a Deus." (pág. 79)

"Não são os animais selvagens que ameaçam a floresta (na verdade, eles é que estão sendo ameaçados), mas os insetos poderiam fazê-lo. Minha impressão foi que os insetos estão decididamente aumentando. Com a queimada da floresta e o cultivo das terras, as cobras, os morcegos e outros predadores do mundo dos insetos estão sendo levados à extinção. Isto significa que os insetos podem se reproduzir livremente e multiplicar-se em profusão. Todos aqueles milhões de borboletas que vi, ao longo da estrada, já foram lagartas. Cada uma delas comendo a vegetação da floresta. Que ideia!
Quanto mais se aprende sobre a interdependência de todas as coisas vivas da floresta - as árvores, as plantas e a vida animal - mais interessante ela se torna. A natureza criou tudo de tal forma que toda a região da floresta foi capaz de sobreviver por milhares de anos. Mas a interferência destruidora do homem pode alterar o delicado equilíbrio e mudar vastas áreas de vida abundante para a devastação total, em apenas três a cinco anos!" (pág. 102)

"Tentar achar o caminho foi uma experiência terrível. Em três meses esta era a primeira vez que estava em uma cidade grande e achei que aquilo era muito mais selva do que a selva onde estivera. Prefiro muito mais todas as árvores e cobras do que aqueles carros voando ao meu redor!" (pág. 124)

"Isso, eu acho, é uma das coisas maravilhosas de se viver na selva. Um grupo de vinte e cinco pessoas pode aparecer no meio da noite, totalmente inesperados, e ninguém se abala. Eles conversam animadamente, comem alguma coisa, ou simplesmente tomam café e todos podem ir para suas redes e dormir. Eu tentei imaginar a confusão que isso seria se acontecesse na casa de alguém do 'mundo civilizado'. Isso me fez pensar no que é a VERDADEIRA definição da palavra civilizado." (pág. 156/157)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A ciclista solitária

Título: A ciclista solitária
Autor: Sir Arthur Conan Doyle
Páginas: 216

Sherlock Holmes está de volta! Em 1893 Conan Doyle havia resolvido encerrar as histórias de Holmes e, para isso, escreveu a morte do personagem na última história do livro "Memórias de Sherlock Holmes". Em 1905 (arrependido?) resolveu "reviver" o detetive e publicou 12 histórias num livro chamado "O retorno de Sherlock Holmes". E é desse livro que foram retiradas as histórias de "A ciclista solitária".

Para quem já está habituado com as histórias de Holmes, não vai encontrar nenhuma novidade. O detetive resolve crimes intrigantes, com a ajuda do amigo Watson, utilizando-se de métodos pouco convencionais  e que deixam a polícia britânica totalmente aparvalhada.

Trechos interessantes:

"-O trabalho é o melhor antídoto para a tristeza, meu caro Watson - ele disse -, e eu tenho um pouco de trabalho para nós dois hoje à noite que, se tivermos êxito, por si só justificará a existência de um homem nesse planeta." (pág. 19)

"-[...] Há algumas árvores, Watson, que crescem até uma certa altura e então subitamente desenvolvem alguma excentricidade repugnante. Você vê isso seguidamente em seres humanos. Tenho uma teoria de que o indivíduo representa em seu desenvolvimento toda a procissão dos seus antepassados, e que uma virada súbita para o bem ou para o mal sinaliza alguma forte influência que veio na linha do seu pedigree." (pág. 31)

"Meu amigo não tomara café, pois uma de suas peculiaridades era não comer nada nos momentos mais intensos, e já o vi contar demasiado com sua força extraordinária até desmaiar de pura inanição. 'No momento não posso desperdiçar energia e resistência com a digestão', ele diria, em resposta às minhas admoestações médicas." (pág. 54/55)

"-Asseguro-lhe, meu bom sr. Lestrade, que tenho uma razão excelente para tudo que estou fazendo. Talvez o senhor se lembre que caçoou de mim um pouco há algumas horas, quando o vento soprava para o seu lado, de modo que não pode deixar de conceder-me um pouco de pompa e cerimônia agora." (pág. 60)

"-[...]Se a senhora está tão ferida como o senhor diz, quem escreveu esta nota? - exclamou com um brilho de suspeita nos olhos, jogando o bilhete sobre a mesa.
-Eu escrevi para trazê-lo aqui.
-O senhor escreveu? Não havia ninguém no mundo, fora da Junta, que conhecesse o segredo dos dançarinos. Como o senhor poderia escrever?
-O que um homem pode inventar, o outro pode descobrir - disse Holmes." (pág. 94/95)

"-O assunto pode ser facilmente solucionado - disse o intimidado professor. -O sr. Sherlock Holmes pode voltar a Londres no trem da manhã.
-Nada disso, doutor, nada disso - disse Holmes, no seu tom mais gentil. -Esse ar do Norte é revigorante e agradável, de modo que pretendo passar alguns dias nas suas terras e ocupar minha mente da melhor maneira possível. Se terei o abrigo da sua casa, ou da estalagem do vilarejo, é algo para o senhor decidir, é claro." (pág. 135)

"-Bem, infelizmente não posso ajudá-lo, sr. Lestrade - disse Holmes. -O fato é que conheci esse tal Milverton e o considerava um dos homens mais perigosos de Londres. Acho que há determinados crimes em que a lei não pode interferir, e que por esse motivo até certo ponto justificam a vingança privada. Não, não adianta insistir, já tomei uma decisão. Minha solidariedade está com os criminosos, não com a vítima, e não vou trabalhar nesse caso." (pág. 214)

sábado, 12 de novembro de 2016

O leitor de almas

Título: O leitor de almas
Autor: Paul Harper
Páginas: 228

Vera List é uma psicanalista que suspeita que duas de suas clientes estão tendo um caso com o mesmo homem. O fato em si não teria maiores consequências, se Vera não sentisse que o caso com suas clientes possuem situações similares e estão caminhando a passos rápidos para um desfecho trágico. Vera então contrata Fane para tentar localizar o amante misterioso e esclarecer de vez a situação.

Dilemas éticos, morais e sociais se misturam nessa avalanche de situações. Fane possui uma equipe que coloca em ação com o intuito de cobrir todas as áreas enquanto Vera tenta, inicialmente, manter as clientes desinformadas do que está acontecendo com suas vidas. Muita adrenalina e emoção na história.

Trechos interessantes:

"'É o espírito do nosso tempo', disse ela. 'Assistir à autodestruição das pessoas, observar vidas que vão por água abaixo, é nosso passatempo nacional. Somos viciados em segredos sujos.'
Era uma observação bastante amarga, e Fane desconfiou que devia refletir uma dura experiência pessoal. Mas não pôde discordar. O anonimato - a privacidade - era o último refúgio da normalidade num mundo cada vez mais hiperconectado, revelador, sedento por fofocas. Era raro como o pudor e, uma vez perdido, irrecuperável, como a inocência." (pág. 24)

"Abrir a mente de uma mulher era como tentar abrir uma ostra com uma lâmina afiada. Se a pessoa quiser a pérola, tem de usar o instrumento adequado. Se for muito grosso, não vai funcionar. Se for fino demais, vai quebrar com a pressão. É preciso ter a lâmina exata, e ele sabia qual era." (pág. 39)

"Muitas vezes ele se perguntava o que fora mais importante para fazer dele o homem que era: o isolamento de seus anos de menino que perdera as lembranças ou sua adolescência independente, em que cada passo que dava e cada decisão que tomava eram um lance de dados.
É claro que essa não era, para começar, a pergunta certa. Raramente (ou talvez nunca) a vida pode ser compartimentada assim. Mas agora ele não perdia mais tempo com esse tipo de pergunta." (pág. 77)

"'A senhora então não acompanhou de perto a investigação policial?'
'Não acompanhei nada. A carga psíquica e moral do assassinato de Stephen cabe ao homem que puxou o gatilho. Não cabe a mim. Meu luto não é afetado pelo que possa acontecer ao assassino de Stephen. Não há relação entre uma coisa e outra. E sei que minha tristeza não é especial. Só é especial para mim. Tento mantê-la só comigo'." (pág. 107)

"Vera Lista já estava pagando seu preço, e não se sentia satisfeita consigo mesma pelo que decidira fazer. A verdade é que Fane sabia desde o começo que Vera subestimaria o quanto teria de pagar por sua decisão. Quando ficam desesperadas para se livrar de um dilema, as pessoas normalmente dão mais peso à esperança que à realidade. É uma das coisas tristes e maravilhosas da natureza humana." (pág. 109)

"'Sempre fui usada para sexo', ela disse. Era uma afirmação triste porque era dita sem tristeza.'Não é surpresa para mim o que os homens são capazes de fazer por isso, ou o que são capazes de fazer a outra pessoa por isso. Mas não é a única coisa capaz de levar os homens a extremos'." (pág. 118)

"O homem é inseparável dos dilemas éticos trazidos por seus segredos: quais são, quem os guarda, quem não os guarda... e por quê." (pág. 216)

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Histórias para aquecer o coração das mães

Título: Histórias para aquecer o coração das mães
Autor: Jack Canfield, Mark Victor Hansen, Jennifer Read Hawthorne, Marci Shimoff
Páginas: 110

Pequeno livro de histórias singelas, mas que apresentam alto teor de emotividade, ternura e gratidão. Em todas as histórias a peça central é a mãe e, no fundo, todas buscam mostrar uma espécie de lição que todos devemos adotar e aprender.

As histórias são trechos de cartas, livros e textos de pessoas diversas e foram compiladas por esses quatro autores, formando esta obra que, sem dúvida, vai tocar profundamente o coração de todas as mães. Há histórias para todos os gostos: ternas, sinceras, engraçadas, tristes, sensíveis. Leitura recomendada a todos.

Trechos interessantes:

"Ela deu como que um suspiro, colocando a mão no peito, me olhou com infinita tristeza e disse; 'Você é padre há tantos anos e nunca viu Deus?'
Eu insisti: 'Mãe, a gente não vê Deus.'
Ela retrucou: 'Você não vê Deus, mas eu O vejo todos os dias. Quando o sol se põe lá no horizonte, Deus passa com um manto fantástico, lindo. Ele vem sempre sério, e teu pai que já faleceu vem atrás, olha para mim, me dá um sorriso e segue junto com Deus. Eu vejo Ele todos os dias.'
Eu fiquei parado, me perguntando: 'Quem é o teólogo aqui, ela ou eu? A analfabeta ou o doutor em teologia?'" (pág. 17)

"Lembro-me de ter lido uma vez, num livro sobre psicologia do desenvolvimento, que somente um pai ou uma mãe podem outorgar a maioridade a um filho. Na época, não entendi realmente o sentido dessas palavras. Hoje, acho que compreendo. Existe uma confirmação que só pode vir daqueles que nos deram a vida, que nos conhecem completamente desde que nascemos. Mesmo velhos, o poder dos pais em conceder essa confirmação não diminui." (pág. 23)

"Quando bateu à porta, esta se abriu sozinha. Chegou a pensar que alguém a arrombara. Preocupada com a mãe, correu para o quarto, mas a senhora dormia. A filha a acordou, dizendo: 'Sou eu, sou eu, voltei para casa!'
A mãe não podia acreditar. Em prantos, abraçou-se à filha, que disse: 'Fiquei tão preocupada! A porta estava aberta e pensei que alguém tinha entrado!'
A mãe respondeu docemente: 'Não, querida. Desde o dia em que você se foi, a porta nunca esteve fechada'." (pág. 30)

"Sentada em frente a eles, eu os observava. Soube naquele momento que os cabelos, as roupas e as tatuagens eram só afirmação de adolescente. Isso mudaria com o tempo. Mas sua participação nas orações da nossa festa e a união de nossa família permaneceriam para sempre nos seus corações. Mesmo quando fossem mais velhos, isso nunca iria mudar." (pág. 39)

"É impressionante como a gente acaba sabendo muito mais da história e da motivação por trás dela quando está abraçando uma criança, mesmo uma criança num corpo adulto. Quando eu segurava a língua, acabava ouvindo meus filhos falarem de seus medos, de sua raiva, de culpas e arrependimentos. Não ficavam na defensiva porque eu não os estava acusando de coisa alguma. Podiam admitir que estavam errados sabendo que eram amados, apesar de tudo. Dava para trabalharmos com 'o que você acha que devemos fazer agora', em vez de ficarmos presos a 'como foi que a gente veio parar aqui?'" (pág. 62)

"Enquanto mamãe levava a caneca de volta à cozinha, o senhor Hall conseguiu se apoiar na bengala, afastou a colcha dobrada sobre a cadeira e saiu cambaleando porta afora em direção à tempestade.
Ficamos observando-o enquanto chegava, vacilante, até o portão da frente, os clarões dos raios iluminando o caminho.
'Parece que nosso hóspede já consegue andar sozinho.'
'Mamãe, por que você o chama de nosso hóspede?', perguntei. 'Ele só é nosso vizinho. Nós não o convidamos a entrar.'
'Um hóspede é qualquer pessoa que venha à nossa casa em paz'." (pág. 69/70)

"Perdoai-me, Senhor, por todas as tarefas que hoje ficaram por fazer. Mas, de manhã, quando meu filho, com seus passinhos incertos, entrou no quarto e pediu: 'Mamãe, quer brincar comigo?', eu simplesmente tive de dizer sim." (pág. 79)

"Se eu soubesse como é maravilhoso ter netos, eu os teria antes dos filhos. [Lois Wyse]" (pág. 85)

domingo, 6 de novembro de 2016

Aléxandros - os confins do mundo

Título: Aléxandros - os confins do mundo
Autor: Valerio Massimo Manfredi
Páginas: 410

Terceiro e último livro da saga de Alexandre. Aqui são relatadas as suas últimas batalhas, seus casamentos com Estatira e Roxana, os atentados que sofreu, o seu encontro com o sábio Kalanos, até o instante final em que morreu rodeado pelos amigos.

Alexandre, cujo sonho era conquistar o mundo, perseguiu, com seus fiéis companheiros, este sonho intensamente. Venceu diversas tribos, viajou por montanhas, florestas, desertos e mares, fundou inúmeras cidades e foi morrer tranquilamente em casa, de uma causa banal. Não conquistou o mundo, mas foi dono do maior império já visto.

Trechos interessantes:

"A lamparina que mais intensamente brilha na sala é fadada a ser a primeira a apagar-se, mas todos os convidados irão lembrar quão bonita e agradável foi a sua luz durante a festa." (pág. 14)

"-Achas realmente que haverá um milhão de homens esperando por nós naquele trecho do deserto? - perguntou Leonato visivelmente perturbado. -Por Hércules, nem consigo imaginar! O que vem a ser, afinal, um milhão de homens?
-É muito fácil explicar - disse Eumênio. -Significa que cada um de nós tem de matar vinte se quisermos vencer, e ainda sobrariam alguns." (pág. 67/68)

"-Chefiarás o ataque da tua cavalaria, amanhã, não é?
-Isso mesmo.
-Por que expor-te a um perigo mortal? Se algo acontecer contigo, os teus homens ficarão sem guia.
-Um rei tem seus privilégios, mas deve estar pronto a ser o primeiro a morrer quando a sua gente enfrenta o perigo." (pág. 78)

"Todos os povos da terra identificam o mal com os outros, com os povos estrangeiros e os seus deuses e, infelizmente, creio que para isto não haja remédio. Foi por este motivo que destruíram as obras mais belas da nossa civilização. E é por isso que nós destruímos agora as obras mais belas da deles." (pág. 140)

"Alexandre olhou para o inimigo, para os olhos vidrados que um dia o haviam fitado por um instante, cheios de aflição, no campo de batalha de Isso e sentiu um profundo sentimento de piedade por aquele homem que até poucos meses antes estava sentado no mais alto trono da terra, venerado como um deus por milhões de súditos e que agora, traído e morto por seus próprios amigos, jazia abandonado numa estrada poeirenta. Lembrou-se então dos versos da Queda de Ílio que descreviam o corpo inerte de Príamo morto por Neoptólemo:

Jaz o rei da Ásia, aquele que foi poderoso senhor de exércitos,
como árvore abatida pelo raio,
um tronco abandonado, um corpo sem nome." (pág. 171)

"Para uma mãe não há dor maior do que a de perder um filho, mas, te peço, não me odeies: a ti, pelo menos, os deuses concederam chorar por ele e sepultá-lo segundo o costume dos antepassados. À minha mãe, que há anos espera por mim, talvez nem isto seja concedido." (pág. 172)

"-Se estás pensando em Dédalo e Ícaro, preciso lembrar-te que infelizmente se trata apenas de uma lenda. O homem jamais conseguiria voar, nem mesmo que alguém construísse asas para ele. Acredita, é simplesmente impossível.
-Não conheço essa palavra - replicou o rei. -E houve uma época em que tu mesmo não a conhecias, meu amigo.Receio que estejas ficando velho." (pág. 295/296)

-[...]Alguém ouviu-te perguntar o que era preciso para tornar-se o homem mais famoso do mundo e ele teria respondido: 'Matar o homem mais poderoso do mundo'." (pág. 303)

"Não há conquista que faça sentido, não há guerra que valha a pena de ser combatida. No fim, a única terra que nos sobra é aquela em que seremos sepultados." (pág. 380)

"A dor de Alexandre pela morte de Heféstion é a mesma de Aquiles pela morte de Pátroclos. Não importa como Heféstion morreu, o que importa é como ele viveu: um grande guerreiro, um grande amigo, um jovem ceifado cedo demais pelo fado." (pág. 398)