terça-feira, 29 de julho de 2014

Um pressentimento funesto

Título: Um pressentimento funesto
Autor: Agatha Christie
Páginas: 228

Particularmente, gosto mais dos livros de Agatha Christie que tem como personagem principal Hercule Poirot. Este, cuja dupla de detetives são Tommy e Tuppence, não fez muito o meu estilo. Normalmente as histórias de detetive demoram a engrenar e esta, achei que demorou mais ainda.

Tudo começa com a visita a um asilo onde está a tia de Tommy. Pouco depois esta tia morre e deixa alguns pertences, entre eles um quadro com uma paisagem rural. Tuppence fica obstinada pelo quadro e pelo que ouviu de outra paciente quando da visita ao asilo. Juntando todas as coisas resolve desbaratar o mistério e parte em busca do local retratado na tela. Depois de quase tudo resolvido, aparece Tommy para fechar a história. Em suma é isso.

Trechos interessantes:

"Se alguém é ruim como cobra aos vinte, não melhora nada aos quarenta, piora aos sessenta e se transforma numa perfeita peste aos oitenta - bem, francamente, não sei por que havia de me causar qualquer comiseração apenas pelo fato de ter envelhecido. No fundo, ninguém muda." (Pág. 8/9)

"Se alguém de mais de sessenta e cinco anos recrimina a gente, é preferível não responder. Nunca tente provar que tem razão. Desculpe-se logo, dizendo que a culpa é unicamente sua, mostre-se sentido e prometa que o erro não se repetirá." (pág. 15)

"Três vintenas de anos e uma década correspondiam à duração de vida consagrada na Bíblia, e as mortes em sua instituição raramente ocorriam em prazo inferior. Consituíam uma fatalidade perfeitamente natural." (pág. 28)

"-Estive pensando.
-É de onde se originam todos os problemas da vida. Pensar." (pág. 169)

"Pensar consiste apenas num confortável repouso enquanto o espírito mantém as antenas abertas pra eventualidade de captar algo de interesse ou importância flutuando no ar." (pág. 177)

"Eles [habitantes do campo] marcam as datas pelos acontecimentos, não pelos anos. Não dizem 'isso aconteceu em 1930' ou 'aquilo foi em 1925', ou coisa que o valha. Dizem 'isso aconteceu no ano em que o velho moinho pegou fogo' ou 'aquilo sucedeu depois que o raio derrubou o carvalho gigante e matou o granjeiro James' ou 'foi no ano em que houve a epidemia de paralisia infantil'. De forma que, naturalmente, as coisas de que se lembram não obedecem a uma sequência especial." (pág. 208/209)

domingo, 20 de julho de 2014

Tão mais bonita

Título: Tão mais bonita
Autor: Cara Hoffman
Páginas: 286

A história não é contada de forma sequencial, o que fez com que eu demorasse a me situar no contexto. Isso é uma deficiência do leitor, não do livro. O livro mantém o suspense até quase o final.

Em resumo: cidade pequena dos Estados Unidos, uma garota desaparece  e depois de muito tempo é encontrada morta. Todos se perguntam quem poderia ter feito isso. Paralelamente é contada a história de Alice, filha de ex-hippies que se mudaram para lá. Alice terá importante participação no desenrolar da história. O final pode te surpreender.

Trechos interessantes:

"Quando White sumiu, a estupidez se tornou uma forma de boa educação. Quem não fingisse estupidez provocaria indignação e recriminações, como se devesse ser óbvio para todos que o silêncio precisava ser instituído para que tudo aquilo simplesmente desaparecesse." (pág. 32)

"Deviam ter sentido pena e suposto que era burra, tímida ou ingênua, ou que não poderia pensar nada de ruim sobre gente magra, rica e simpática. Não poderia ter ideias próprias sobre as coisas. Mas, agora, conseguiriam vê-la. Quanto menos maquiagem usava, mais magra ficava; todos simplesmente suporiam que estava ficando mais inteligente, também. Não pensariam que sempre fora inteligente, não perceberiam que sempre fora bonita, também." (pág. 51)

"Ser bom numa coisa não obriga a gente a fazer essa coisa. Era um erro pensar assim. E ele cometera muitos erros por lhe dizerem tantas vezes que era a pessoa certa para algum serviço especial, ou projeto, ou movimento social." (pág. 68)

"Saí voluntariamente de um lugar que amava porque me tornara egomaníaca. Acreditava, sinceramente, que reportagens de jornal poderiam mudar o jeito como o mundo funcionava. E isso significava que eu conseguiria mudar o jeito como o mundo funcionava. E essa não é uma ideia muito saudável para um ser humano." (pág. 87)

"Então, a coisa mais maluca do mundo é achar que a gente pode dizer aos outros o que fazer - ou pensar que algumas pessoas merecem tratamento melhor ou mais coisas do que as outras - porque todos os seres humanos têm as mesmas necessidades biológicas e merecem as mesmas coisas essenciais." (pág. 102/103)

"Tomo meus desejos por realidade, pois acredito na realidade de meus desejos." (pág. 203)

"Quanto mais vivo, mais percebo o impacto da atitude na vida. Para mim, atitude é mais importante do que fatos. É mais importante do que o passado, do que a educação, do que o dinheiro, do que as circunstâncias, do que os fracassos, do que os sucessos, do que o que os outros pensam, dizem ou fazem. É mais importante do que a aparência, talento ou habilidade." (pág. 259/260)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Você deve amar os cães

Título: Você deve amar os cães
Autor: Claire Cook
Páginas: 288

Sarah é uma mulher de 40 anos, divorciada, professora do jardim de infância e que, sentindo-se solitária, resolve que é hora de procurar um companheiro. Como não tem muito jeito pra coisa, resolve colocar um anúncio no jornal sendo uma das condições que o pretendente deva gostar de cães.

O problema é que há muitas pessoas para 'ajudar': a irmã, a colega de trabalho, o pai (um viúvo mulherengo), etc. E ainda por cima, ela mesma, não tem nenhum cão...

Trechos interessantes:

"Deus detesta a superficialidade. Todos nós dizíamos isso uns aos outros, ainda que fôssemos orgulhosos de nossa superficialidade. Políamos esse aspecto de nossa personalidade até brilhar; era nosso brasão de família." (pág. 40)

"-E o que vocês, seus pequenos travessos, estão procurando tão contentes aí embaixo? Não sabem que a felicidade é para a próxima vida?" (pág. 50)

"Quando uma criança se machuca, tudo o que uma professora quer fazer é colocar o braço em torno de seus ombros e confortá-la, mas nos dias de hoje você tem de estar de luvas antes de fazer contato." (pág. 65)

"Os artigos da Victoria's Secret sempre me faziam sentir como se eu fosse uma impostora. Como se no minuto em que tiro um cabide acolchoado de cetim da arara da parede para examinar aquela camisola macia de renda um pouco mais de perto, um alarme fosse soar em algum lugar. Um facho de luz fosse iluminar minha face e uma loja cheia de mulheres glamourosas fosse me apontar, dizendo: Ah-há! Vê se pode!" (pág. 97)

"-Então, Dolly - ouvi Bob dizer enquanto eu seguia Carol. -Tinha pensado em lhe perguntar, você está usando essa touca para o caso que chova e haja um vazamento no telhado? Ou apenas porque fica assim tão bem em você..." (pág. 141)

"Eu sempre fora induzida a pensar que, se não pudesse encontrar alguma coisa para apreciar em uma pessoa, isso se devia meramente a um reflexo da pequenez de minha mente, da frieza de meu coração." (pág. 179)

"A dor não foi intensa e então eu abri os olhos de novo, só uma fresta, julgando que não deveria perder nada daquele momento ou de qualquer outro. Afinal, a vida era danada de curta para não ser vivida a cada instante." (pág. 246)

"-Bem, algumas vezes eu acho que a única parte que me prende é a parte das crianças. Phoebe e eu somos tão diferentes. Quem somos, do que gostamos. Pensei que, se a gente encontrasse alguém para amar, o resto se encaixaria no lugar." (pág. 270)

domingo, 29 de junho de 2014

A situação humana

Título: A situação humana
Autor: Aldous Huxley
Páginas: 264

Eis um dos melhores livros que já li. O livro é uma coletânea de conferências proferidas pelo autor na Universidade da Califórnia, em 1959, abordando o relacionamento do homem com o planeta.

Não se deixe enganar pela data, apesar de muito antigo os textos parecem que foram feitos para os dias de hoje, comprovando a visão de futuro que tinha Huxley. O comportamento humano é aqui esmiuçado em todos os níveis levando o homem a questionar e repensar o seu papel, a sua função neste planeta.

Trechos interessantes:

"Como sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas uma boa porção de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco." (pág. 11)

"Quando chegarmos ao fim, teremos coberto uma boa porção de terreno e também estaremos muito entediados com o que tenho a dizer, mas felizmente poderei então sumir discretamente." (pág. 21)

"...como disse Chateaubriand, 'les forêts précèdent leus peuples, et les déserts les suivent' (as florestas precedem as civilizações, e os desertos as seguem)." (pág. 23)

"O homem tem vivido demasiadamente no Planeta à moda de um parasita que se sustenta daquele a quem infesta. Se muitos parasitas são bastante ajuizados para não destruírem seu hospedeiro porque destruiriam a si mesmos, o homem não é um desses parasitas ajuizados." (pág. 25)

"...como disse alguém, a maior lição da história é que ninguém jamais aprende as lições da história." (pág. 33)

"Hoje sabemos o suficiente para consertar boa parte do prejuízo causado ao nosso Planeta e evitar que ocorram novos danos. A informação e conhecimento necessários existem. Mas, como de costume, há uma grande lacuna entre a habilidade para fazer uma coisa e a probabilidade de que ela seja feita. É muito fácil descrever os métodos de conservação que deveriam ser postos em prática de imediato, mas é extraordinariamente difícil executar o que sabemos que somos capazes de fazer." (pág. 38)

"Precisamos tratar o Planeta como se fosse um organismo vivo, com todo o amor, cuidado e compreensão que um organismo vivo merece. Se não o tratarmos assim, destruiremos o mundo no qual vivemos, e esse mundo destruído voltar-se-á contra nós e nos destruirá." (pág. 40/41)

"...todas as espécies vivem segundo seu suprimento de comida, e depois são eliminadas na medida em que seu número excede o alimento." (pág. 54)

"...embora seja bem verdade que o homem não pode viver só de pão, menos ainda poderá viver sem pão, e, se não conseguirmos pão suficiente, não conseguiremos nada mais. Apenas quando o homem tiver pão, apenas quando sua barriga estiver cheia, haverá alguma esperança de que, da situação humana, emerja alguma coisa mais." (pág. 63/64)

"si vis pacem para bellum - se queres a paz prepara-te para a guerra (provérbio romano)." (pág. 89)

"Como disse Lord Acton, 'O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe de maneira absoluta'." (pág. 90/91)

"Nenhum adivinho dos que conhecemos jamais fez fortuna predizendo o futuro, mas nenhuma companhia de seguros jamais entrou em falência. O motivo é que a companhia de seguros prevê o futuro de milhões e por isso pode ter certeza de lucro, enquanto o adivinho prevê a sorte de apenas uma pessoa, e provavelmente terá mais chances de errar do que de acertar." (pág. 104)

"Quando cheguei a este país, há dez anos, tive a maior dificuldade em encontrar meios para minha pesquisa básica. As pessoas me perguntavam: o que está fazendo, para que serve isso? Eu tive de dizer que não servia para coisa alguma. Então perguntavam: mas então o que é exatamente que você vai fazer? E eu tinha de responder: não sei, pesquisa é isso mesmo. Assim, a pergunta seguinte era: como espera que gastemos nosso dinheiro com você, se nem sabe o que está fazendo, nem por que o faz? E a essa pergunta eu não podia responder." (pág. 111)

"Como diz o Dr. Johnson, 'acontecimentos públicos não molestam o homem' e as notícias de uma batalha perdida nunca fizeram com que 'um homem comesse menos ao jantar'. E, vice-versa, as notícias de uma novidade científica ou de uma grande descoberta jamais fizeram um homem comer mais ao jantar." (pág. 127/128)

"Edison disse que gênio é nove décimos de transpiração e só um décimo de inspiração, mas tem de haver primeiro inspiração, depois o trabalho sobre ela." (pág. 164)

"A linguagem é o que nos torna humanos. Infelizmente, é também o que nos torna humanos demais. De um lado, é a mãe da ciência e da filosofia, e de outro produz toda a sorte de superstição, preconceito e loucura. Ajuda-nos e nos destrói; torna possível a civilização e também produz aqueles assustadores conflitos que degradam a civilização." (pág. 175)

"Quase não há um só crime em grande escala na história que não tenha sido cometido em nome de Deus. Isso foi resumido há muitos séculos no hexâmetro de Lucrécio: 'Tantum religio potuit suadere malorum' (Tão grandes males a religião persuadiu o homem a cometer)." (pág. 208)

domingo, 8 de junho de 2014

A vingança

Título: A vingança
Autor: Christopher Reich
Páginas: 346

Do primeiro ao último capítulo o livro é repleto de ação, afinal, trata-se de um romance policial de espionagem. É a continuação de um livro anterior do mesmo autor (A farsa - que ainda não li), mas cuja história pode ser entendida sem a prévia leitura do outro livro.
Jonathan Ransom é um médico casado com Emma (uma agente secreta a serviço do governo americano) e passa o livro todo fazendo, ele, o papel de agente tentando localizar Emma (no livro anterior havia sido dada como morta) em meio ao jogo de interesses de americanos e russos. Se você gosta de livro de ação, esta é uma boa pedida.

Trechos interessantes:

"-O mundo ficou pequeno demais. Não existem mais cantinhos isolados onde alguém possa simplesmente fechar a cortina e desaparecer. Todos esses lugares já foram descobertos, possuem webcams e alguém na fila para construir um resort cinco estrelas." (pág. 17)

"-O mundo mudou. Fronteiras são coisas do passado. As informações não têm passaporte. Elas pertencem a todo mundo." (pág. 68)

"O mais difícil de fugir é que, depois de algum tempo, você se cansa. Esquece que eles estão lá, mesmo que você não esteja vendo." (pág. 86)

"A arquitetura de uma bomba dizia muito sobre quem a fabricara: onde fora treinado, onde havia estudado e, o mais importante de tudo, o seu país de origem. Noventa por cento dos artefatos terroristas eram fabricados por indivíduos com experiência militar prévia, e muitos fabricantes de bomba desenvolviam (involuntariamente) uma marca que os denunciava de forma tão óbvia quanto a assinatura de Picasso no canto inferior de seus quadros." (pág. 160)

"Os engenheiros mais bem treinados do mundo trabalham nessas usinas. Se perceberem alguma coisa estranha, eles assumirão o controle manual da usina. A palavra final será sempre a da sala de controle. De homens e mulheres. Não de máquinas." (pág. 205)

"Era um homem frágil, pouco imponente, com os cabelos grisalhos meticulosamente aparados, boas maneiras e um terno mal cortado. Um dos mansos que tinham poucas chances de herdar a Terra, mesmo que o livro sagrado dissesse o contrário." (pág. 209)

"Mikhail Borzoi não era um homem agradável. Homens agradáveis não controlavam a maior fábrica mundial de alumínio. Homens agradáveis não acumulavam uma fortuna de cerca de 20 bilhões de dólares, e isso depois da queda da bolsa de valores. Homens agradáveis não superavam uma infância pobre para vir a aconselhar o presidente e vir a ser um dos três candidatos a substituí-lo nas próximas eleições. Não na Rússia. Na Rússia, homens agradáveis eram pisoteados, mastigados e cuspidos." (pág. 263)

domingo, 25 de maio de 2014

O livro do riso e do esquecimento

Título: O livro do riso e do esquecimento
Autor: Milan Kundera
Páginas: 214

O livro apresenta alguns contos em que se mesclam assuntos típicos da região, relatos pessoais do autor e aspectos generalizados do comportamento humano de uma maneira geral.

O material não me prendeu a atenção quanto eu gostaria. Me senti disperso e desmotivado durante a leitura. As histórias me pareceram grandes, mas com pouco conteúdo. Parodiando o título, preferi esquecer o livro. Mas, claro, esta é a minha opinião.

Trechos interessantes:

"A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento." (pág. 7)

"Pois o grande segredo da vida não lhe era desconhecido: as mulheres não procuram o homem bonito. As mulheres procuram o homem que teve mulheres bonitas. Portanto, é um erro fatal ter uma amante feia." (pág. 15)

"O homem possuído pela paz tem sempre um sorriso." (pág. 66)

"Nós escrevemos livros porque nossos filhos se desinteressam de nós. Nós nos dirigimos ao mundo anônimo porque nossa mulher tapa os ouvidos quando falamos com ela." (pág. 88)

"Entre os remédios habituais contra nossa própria miséria, há o amor. Pois aquele que é amado de maneira absoluta não pode se sentir miserável." (pág. 116)

"Quando papai falava normalmente, eu lhe fazia poucas perguntas. E agora eu queria recuperar o tempo perdido. Então falávamos de música, mas era uma convrsa estranha entre alguém que não sabia nada, mas conhecia palavras em grande número, e alguém que sabia tudo, mas não conhecia uma única palavra." (pág. 152)

"Aquele que quer se lembrar não deve ficar no mesmo lugar e esperar que as lembranças venham sozinhas até ele! As lembranças se dispersaram neste mundo vasto e é preciso viajar para reencontrá-las e fazê-las sair de seu abrigo!" (pág. 158)

domingo, 4 de maio de 2014

Ame o que é seu

Título: Ame o que é seu
Autor: Emily Giffin
Páginas: 310

Ellen é uma fotógrafa profissional, casada e feliz no casamento. Certo dia encontra casualmente na rua com Leo, sua grande paixão do passado. Depois disso Leo passa a assediá-la, levando-a a fazer um balanço de sua vida e questionar se as escolhas que ela fez foram as certas ou se havia tempo de corrigir alguma coisa.

É um livro de leitura simples e fácil, com uma história bem delineada, poucos personagens e uma trama verossímil. As dúvidas apresentadas pela personagem principal são comuns a muitas pessoas e, nesse caso, a leitura serve também para implementar a discussão sobre a vida e seus problemas.

Trechos interessantes:

"Não me permiti uma só olhadinha no espelho. Eu não iria renovar o gloss nos lábios, nem verificar se não havia comida entre os dentes. Que ficasse uma sementinha de papoula no vão do meu dente da frente. Eu não tinha nada a provar para ele. E mais importante ainda, eu não tinha nada a provar a mim mesma." (pág. 19)

"[...] aprendi cedo que não se pode incluir todos os que têm dinheiro em uma mesma categoria. Os ricos diferem entre si tanto quanto os menos favorecidos. Uns trabalham duro, outros são preguiçosos. Uns se fizeram na vida, outros nasceram em berço de ouro. Uns são modestos e despretensiosos, outros, pomposos e vaidosos." (pág. 52)

"Eu desejo a felicidade do meu pai, mas às vezes parece injusto que seja a Sharon quem desfrute da aposentadoria dele - e ter aprendido desde cedo que a vida não é justa não me serve de grande consolo." (pág. 77)

"Eu tinha ido a um casamento recente em que a mãe do noivo precisou ser afastada do filho ao final da festa, chorando e gritando 'eu não quero te perder!'. A cena toda foi lamentável. Margot tinha uma teoria sobre o assunto, dizendo que isso é mais comum entre mulheres que só tem filhos homens e nenhuma filha. Talvez porque não estejam acostumadas a disputar nada com outras mulheres ou por conta do velho ditado 'um filho é filho até arranjar uma esposa, já uma filha é filha para a vida inteira'." (pág. 85)

"Seja sincera. Exponha seus sentimentos. Discuta o assunto. E então percebo que não só os papeis estão invertidos, como é bem mais fácil falar que fazer. Só parece fácil quando os problemas são relativamente insignificantes." (pág. 199)

"Às vezes, um final feliz é simplesmente impossível. Não importa o que aconteça, eu vou perder algo, alguém.
E talvez seja nisso que se resume tudo. O amor, não como uma manifestação de paixão, e sim como uma opção pelo compromisso com algo ou alguém, sejam quais forem os obstáculos pelo caminho. E talvez, ao fazer essa opção vez após vez, dia após dia, ano após ano, diga mais sobre o amor do que nunca ter de fazer escolha alguma." (pág. 300/301)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O telescópio de Schopenhauer

Título: O telescópio de Schopenhauer
Autor: Gerard Donovan
Páginas: 272

O livro inteiro tem praticamente dois personagens e eles não têm nomes: são simplesmente o Padeiro e o Professor. A "história" transcorre em um único dia e consta somente de diálogos entre o Professor e o Padeiro. Num estado socialista o Padeiro é preso e, sob a neve, é obrigado a cavar um túmulo.

Este é ponto de partida para a existência do diálogo entre os dois personagens. Esses diálogos são questionamentos filosóficos sobre o comportamento e a natureza humana. O motivo da prisão do Padeiro (esclarecida no final do livro) torna-se uma questão secundária.

Trechos interessantes:

"Dificilmente hoje seria um dia para eventos memoráveis. [...] De qualquer maneira, é óbvio que todo evento tem de acontecer em um dia qualquer, mais cedo ou mais tarde." (pág. 15)

"Sempre presumi que uma pessoa bem vestida fosse educada. Compare uma loja de roupas a qualquer biblioteca. Um indivíduo escolhe e veste trajes tão cuidadosamente como outro seleciona um livro e lê suas palavras. Ao observar uma camisa de algodão passada a ferro, os olhos deveriam nos levar em direção a calças de corte artesanal, bem elaboradas e costuradas, do mesmo modo que frases e pensamentos se misturam, terminando e iniciando parágrafos.
Leio muito, como é possível perceber. Aprende-se a fazer isso quando não se tem amigos. Dói no início, mas livros nunca decepcionam. Aprendi muito com eles." (pág.18/19)

"Nervoso em grupo, eu precisava me forçar a participar até mesmo de uma noite informal no bar. Indicava com a cabeça que estava de acordo quando todos os outros já haviam concordado. Balançava a cabeça negativamente e fazia o som adequado quando os companheiros expressavam desaprovação. Morria de medo de que perguntassem minha opinião antes que eu tivesse avaliado a de todos os outros. Ficava aterrorizado por servir de parâmetro em alguma decisão. Tinha vergonha de meu silêncio enquanto todos esperavam minha resposta." (pág. 36)

"Cada pessoa sempre age em seu próprio favor o tempo todo. Toda guerra começa com pessoas que têm algo a ganhar. Todo caso de amor começa por interesse e termina pela mesma razão." (pág. 40)

"Você não entende a sobrevivência, então você a chama de mal. Morrer é bom, suponho. Uma morte nobre é tudo isso. Desculpe, não para mim. Não quero saber se sou eu quem morre quando a história é escrita. Quero saber por que eu e não outra pessoa, e o que posso fazer para impedir que aconteça." (pág. 73)

"Pensei o quanto eu já havia lido sobre poder. O que aprendi? Que ou você o tem ou não. E se não, ou você o consegue ou morre sem ele. Morre acreditando nas coisas que farão com que você seja lembrado. Deus dirá: 'Você não conseguiu coisa alguma. Todas aquelas outras pessoas estavam ao seu lado. Coloquei-as lá por você e você não conseguiu nada. Você viveu uma vida de obediência e agora quer uma recompensa. Vou te dar uma recompensa. O nada consegue nada'. Estala os dedos, eu desapareço e apareço em lugar nenhum. Nada entre mim e o nada." (pág.79)

"Prenda as pessoas em qualquer parte do mundo, todas elas, e se conseguir fazer com que se sintam culpadas, terá o poder." (pág. 84)

"-Li que um general declarou, certa vez, não ter medo das flechas endereçadas a ele, e sim das centenas que caíam sem destino." (pág. 133)

"-[...]Ordenei que qualquer um que fixasse o olhar sobre meu túmulo fosse morto.
-Por quê?
-Homens são bobos. Perdem muito tempo na vida num mesmo lugar e olhando a sua volta. fazendo pedidos a uma estrela para que esta mude seu destino." (pág. 151)

"-[...]Você gosta de buracos negros, Padeiro? Bares, teatros, cocaína, carros velozes, sonhos. As pessoas que vivem neles se desligam de todo o universo. Apagam as luzes da esperança para sempre.
-Nesse caso, buraco negro é onde estou." (pág. 164)

"-Eu tinha de fazer o que me diziam.
-Não, não tinha.
-Eu queria viver. Tenho o direito de viver. Ao fazer o que me disseram, consegui permanecer vivo. Autopreservação não é crime." (pág. 201)

"Locke acreditava que, se não sabemos coisa alguma ao nascermos, todos os nossos valores morais vêm de experiência de dor ou prazer. O que é bom é qualquer coisa que nos satisfaça. A mente chama de mal qualquer coisa que cause dor. Nada mais. Ninguém nasce bom ou mau. Ninguém nasce demônio ou ditador." (pág. 206)

"Isto é filosófico para mim: o que acontece, e não o porquê. Há menos tortura desse  modo. Sem blasfêmias junto à cruz ou questionamentos ao oráculo: 'por que eu?'. Como se você fosse especial, ou digno de maior atenção, quando bilhões estão pensando a mesma coisa. Bilhões de pessoas em qualquer época, sendo que uma em cinco pergunta 'por que eu?',ou 'por que isso sempre acontece comigo?'. O oráculo então responde: 'Porque não há outra forma. Sempre acontece com você, entende? Quem te disse que haveria? Quem você acha que é?'." (pág. 224)

domingo, 30 de março de 2014

Um retrato fatal

Título: Um retrato fatal
Autor: Ross Macdonald
Páginas: 246

Lew Archer é um detetive particular que foi contratado por um milionário para recuperar um quadro roubado. Mas durante o decorrer da história verá que há muito mais que o simples roubo de um quadro: um pintor desaparecido há 25 anos; assassinatos sem suspeitos; histórias antigas envolvendo o proprietário do quadro e por aí vai.

Trata-se de um romance policial com todos os ingredientes do gênero. O leitor deve se preparar para as inúmeras reviravoltas que a história dá até o desfecho que vai muito além de apenas recuperar o quadro desaparecido.

Trechos interessantes:

"-[...]Quando ele, quando meu pai derrubou a porta do banheiro, pulei para dentro da cesta de roupa suja e puxei a tampa. Nunca vou esquecer a sensação que tive; foi como estar morta, enterrada e segura para sempre.
-Segura?
-Não podem matá-lo depois que estiver morto." (pág. 28)

"Não havia quadro nenhum debaixo do colchão, nada que incriminasse no armário nem na cômoda, nenhum vestígio de crime, a não ser o da pobreza." (pág. 38)

"-Dou-lhe os cinco por quarenta dólares. Só as telas valem isso, e o senhor deve saber, se é pintor.
-Não sou pintor.
-Às vezes me pergunto se Jake era. Pintou durante mais de trinta anos e acabou só com isto para mostrar. - Fez um gesto que abrangeu os quadros na mesa, a casa e sua história, e a morte de Jake. - Nada, além disso e de mim." (pág. 54)

"-Acho que poderia ajudar o senhor.
-Ajudar-me a fazer o quê?
-Talvez nada. - Abriu os braços num gesto teatral. - O senhor parece ser um homem engajado numa guerra sem fim, numa busca sem fim. Já lhe ocorreu que está é procurando a si mesmo? E que a maneira de se encontrar é ficar quieto e silencioso, silencioso e quieto?" (pág. 109)

"-Eu e Jake não tivemos sorte. Ele só teve azar desde que se juntou comigo. - Sua voz tornara-se áspera. - Queria ter morrido no lugar dele.
-Não deseje isso. Nós todos já morremos cedo demais.
-Para mim, quanto mais cedo melhor.
-Espere um pouco. Você recomeçará sua vida. Você é jovem, Jessie.
-Sinto-me velha como as montanhas." (pág. 143)

"-Mas por que bebe desse jeito?
-Por causa da dor - disse eu. - A dor de ser ele mesmo. Vive preso nessa casa caindo os pedaços, só Deus sabe há quanto tempo. Talvez desde a infância de Fred. Tentado matar-se com a bebida, sem conseguir.
-Mesmo assim não compreendo.
-Nem eu, na realidade. Todo bêbado tem suas razões. Mas todos acabam tendo o mesmo fim: com o cérebro mole e o fígado arruinado." (pág. 171)

"Nunca diga a uma pessoa mais do que ela precisa saber, pois contará para outra." (pág. 173)

domingo, 23 de março de 2014

O conto brasileiro hoje

Título: O conto brasileiro hoje
Autor: Vários Autores
Páginas: 130

Contos e crônicas sempre me atraem, pelo fato de serem histórias curtas onde o autor desenvolve uma trama completa em poucas páginas. Este volume apresenta contos de 19 autores diferentes, dos mais variados estilos. Com certeza haverá pelo menos um ao seu gosto.



 Lista dos autores
Adolpho Mariano da Costa
Alfredo Monteiro da Silva Filho
Ana Marina Godoy
Bruno Prado Lux Fontoura Lopes
Clóvis Oliveira Cardoso
Davi José Frozza do Vale Amado
Enaura Quixabeira Rosa e Silva
Glauco Ortolano
José Faria Nunes
Luiz Clério Manente
Marcos Cesaretti
Mario Divo
Paulino Vergetti Neto
Raymundo Farias de Oliveira
Rodolfo Konder
Rogério Ribeiro da Luz
Sergio de Freitas
Sônia van Dijck
Yara Maria Camilo

Trechos interessantes:

"De tanto prenderem-no e soltarem-no, ele acabou transferindo definitivamente residência e domicílio para a cadeia local. Já não podia viver longe do xadrez, razão pela qual ele dava uma mãozinha no rancho e até na limpeza do xilindró." (pág. 19)

"-Sabe, doutor, nem eu nem o delegado submetemos os presos a maus-tratos, ou tratamento arbitrário, violento, desumano e cruel, mas não toleramos bicha, subversivo, ateu, degenerado e gente indesejável, até porque somos católicos de boas famílias.
-Pois é, sargento Augis Paredes, Hitler e Pio XII também se davam muito bem, sabia?" (pág. 21)

"Entretanto, quando, por livre arbítrio ou por arbitrariedades que a vida nos impõe, somos obrigados a mudar de endereço, geralmente ocorrem também mudanças em nós mesmos e em alguns dos nossos pertences, que, para as transportadoras, passam a ser tralhas." (pág. 24)

"Um velho e intrigante adágio me infernizava a mente: 'Cuidado ao fazer o bem; veja primeiro se pode fazê-lo sem riscos e se a pessoa a quem se destina o merece'." (pág. 49)

"A justiça haveria de ser feita. Descrente, todavia, eu sempre dissera que não confiava nem na justiça de Deus nem na dos homens, mas se tivesse que ser julgado um dia, queria que fosse primeiro pela justiça dos homens. Nesse instante, eu não estava certo disso." (pág. 53)

"'Com certeza esses diamantes me tornariam um homem muito rico', pensou em voz alta.
Mas algo o fez lembrar-se de que a riqueza era uma das maiores tentações dos homens e, como não era parvo, afugentou imediatamente aquele pensamento tentador e concentrou-se na fragrância que a relva úmida exalava e na beleza do revoar dos pássaros que anunciavam o fim de mais um dia." (pág. 64)

"E Eça é Portugal de vários Pessoas e um só Porto. Cale! Amália é que era mulher de verdade." (pág. 78)

sábado, 22 de março de 2014

O pacto

Título: O pacto
Autor: Joe Hill
Páginas: 318

Ig Perrish acorda, depois de uma noite de bebedeira, e descobre que tinha criado chifres. E descobre ainda que os chifres têm o poder de fazer as pessoas confessarem seus maiores pecados. É com este tema inusitado que começa a história do presente livro.

A história gira em torno da morte de uma adolescente, Merrin, sendo Ig o principal suspeito. Daí por diante seguem-se as revelações de amores, paixões, traiçoes e tudo o mais na vida de um grupo de adolescentes até o desfecho final. Apesar da abordagem curiosa, o livro é interessante e agradável de se ler.

Trechos interessantes:

"Ig nunca ficou sabendo e talvez isso não tivesse a menor importância. Era como se perguntar como o mal entrou no mundo ou o que acontece com uma pessoa depois que ela morre: uma discussão filosófica interessante mas curiosamente sem sentido, uma vez que tanto o mal como a morte acontecem, independentemente de como, por quê e qual o sentido." (pág. 59)

"Alguém estivera prestes a morrer e outra pessoa o tinha salvado e, de agora em diante, vítima e salvador eram especiais, estrelas de seu próprio filme, tornando todos os outros meros figurantes ou, na melhor das hipóteses, coadjuvantes. Ter salvado uma vida fazia com que você se tornasse alguém. Você não seria mais um zé-ninguém, seria o zé-ninguém que tirou Ig Perrish nu de dentro do rio Knowles no dia em que ele quase se afogou. Seria essa pessoa para o resto da vida." (pág. 74)

"Garotos pobres costumam se vestir bem. Os riquinhos é que andam todos desarrumados, com um visual cuidadosamente montado: jeans de marca que custam 80 dólares, industrialmente desbotados e esfarrapados, e camisetas surradas tiradas diretamente das araras de uma loja de artigos esportivos para a elite americana." (pág. 80)

"-Será que você não entende que está falando de uma pessoa que eu amava? - perguntou Ig. Seus pulmões pareciam arranhados, como se estivessem em carne viva, e ele mal conseguia respirar.
-Claro - disse ela.- Foi por isso que você a matou. Normalmente é por isso que as pessoas matam. Não é por ódio. É por amor. Às vezes queria que meu pai tivese amado a mim e a minha mãe o bastante para nos matar e depois se suicidar. Então teria sido uma grande tragédia e não mais um fim de relacionamento chato e deprimente. Se ele tivesse estômago para um duplo homicídio, todos poderíamos ter aparecido na TV." (pág. 134)

"Tentou se lembar se alguma vez tinha comprado algo legal para Glenna. A única coisa que lhe veio à mente foi cerveja. Quando ela estava no ensino médio, Lee tinha sido gentil o suficiente para ao menos roubar uma jaqueta de couro para ela. Essa ideia lhe deu náuseas: que Lee pudesse, de alguma forma, ser um homem melhor do que ele." (pág. 163)

"A alma não pode ser destruída. A alma é eterna. Como o número pi, ela não tem fim nem conclusão. Como o pi, ela é uma constante. Pi é um número irracional, impossível de ser fracionado. A alma também é uma equação irracional e indivisível que expressa perfeitamente uma coisa: você. A alma não teria nenhum valor para o Diabo se pudesse ser destruída." (pág. 190)

"-[...]Ele poderia me ensinar sobre vinhos. E livros. E coisas que eu não sei. Como é a vida vista pelo outro lado do telescópio. Como é participar de um relacionamento imoral.
-Seria um erro - disse Lee.
-Talvez seja necessário errar um pouco - disse Merrin. - Se você não erra, provavelmente está pensando demais. E esse é o pior erro que se pode cometer." (pág. 225)

"-[...]Não que eu tenha medo de ir pro inferno por ter me suicidado... Foi por medo de não ir pro inferno... de que não haja um inferno para o qual ir. Nem céu. Apenas nada. A maior parte do tempo penso que não deve haver nada depois que se morre. Às vezes, parece um alívio. Outras, é a coisa mais terrível que eu possa imaginar." (pág. 265)

"-[...]Tentei tirar isso da cabeça, mas há noites em que acordo pensando nisso. Ou pensando em como Merrin morreu. A gente quer se lembrar de como elas viveram, mas as coisas ruins expulsam todo o resto. Deve haver alguma explicação psicológica para isso." (pág. 271)

"Quero que se lembre do que há de bom em mim, não do mais terrível. As pessoas que você ama deveriam poder guardar o pior só para elas mesmas." (pág. 274)

sábado, 1 de março de 2014

O repouso do guerreiro

Título: O repouso do guerreiro
Autor: Christiane Rochefort
Páginas: 248

Em meio a uma história de herança, numa cidade estranha, Geneviève conhece, por acaso, Renaud. Assim começa uma incontrolável e mórbida paixão por um alcoólatra.

O livro segue sempre por essa linha: mostrando a transformação na vida de uma pessoa, de um momento para o outro. Seus amigos, sua família, sua vida de maneira geral, totalmente modificada pela paixão doentia e submissa a uma pessoa que não dá a mínima a nada e ninguém. Sinceramente, não é uma história agradável de se ler.

Trechos interessantes:

"-Vê-se que você não tem prática de suicídio.
Prática de suicídio, dir-se-ia um sonho.
-Claro que não - disse eu, um pouco irritada. - Nunca procurei adquirir.
-Escapar dele não é tudo, é preciso ainda arranjar uma saída. A morte não é o pior. O pior é a continuação." (pág. 31)

"'Então', eu amava hoje aquele homem, cuja existência ontem eu ignorava, e era assim mesmo, esse milagre famoso, tal como meu soberbo racionalismo sempre havia negado, o amor, o amor à primeira vista: e acontecia a mim, contra toda expectativa, na cidade mais feia da França, em meio a uma história de herança na Rua Geoges Clemenceau, entre a sobremesa e o café." (pág. 40)

"Aqui está ele. Ficou. Será que se sente bem? Ou não tem outro lugar? Não teve a fineza de dizê-lo e não cometo a grosseria de perguntar. Estou reduzida aos fatos: aqui está ele." (pág. 51)

"Pouco a pouco aprendi que o alcoólatra é aquele que a gente nunca vê beber e que quase nunca está bêbedo; dispõe de recursos quase infinitos, tanto para ocultar seu vício como para satisfazê-lo." (pág. 85/86)

"-As coisa são o que são, é uma verdade que todo mundo esquece. A cada um compete decidir o que quer." (pág. 97)

"[...]Estou só, só. Sozinho no mundo.
-Mas eu o amo, Renaud! Você não está só!
-Uma coisa nada tem a ver com a outra, evidentemente. Estou só." (pág. 116)

"Nem me deixar, nem inquietá-lo, nem tranquilizá-lo. Discrição. Permanecer entre uma coisa e outra. Qualquer que fosse o motivo que o incitasse a trabalhar: afinal de contas, bendito seja. Nada podia fazer-lhe tanto bem quanto o trabalho. Ninguém escapava a seus efeitos salvadores, por que ele seria diferente dos outros? Em última análise, sua desgraça era a ociosidade. Meus meios talvez não fossem muito nobres, mas os fins o eram." (pág. 213/214)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Softwar - a guerra sem armas

Título: Softwar - a guerra sem armas
Autor: Thierry Breton / Denis Beneich
Páginas: 266

O livro esboça um período da guerra fria entre a União Soviética e os Estados Unidos. Como sempre, os Estados Unidos são retratados como um país superior e que domina todas as tecnologias; na outra ponta está a União Soviética, humildemente tentando entrar na era da informática.

Para tanto, compram do governo francês computador e programa desenvolvido pelos americanos. Os Estados Unidos inserem um vírus no programa e aí começa a batalha: a União Soviética tentando provar e culpar os Estados Unidos e os americanos tentando se safar, como se não tivessem feito nada.

Trechos interessantes:

"Mas, como dizia meu pai, se o esbofeteiam na face direita, ofereça a face esquerda, se o esbofetearem então na face esquerda, ofereça a direita, e assim por diante, até reunir energias para acertar o cara em cheio na boca. O ringue é como a vida, é preciso saber aparar os golpes, mas não por muito tempo." (pág. 13)

"Quaisquer que sejam as armas empregadas, punhos nus ou foguetes intercontinentais, todo confronto requer artimanhas, esquivas, uma tática. Mas ali, com o zumbido da ventilação, sob a iluminação violenta que não permitia o menor vestígio de sombra, ia-se entregar a um combate de inteligência. A materialidade da luta era reduzida ao mínimo: teclas a serem tocadas, uma tela que fazia desfilar as mensagens para os iniciados..." (pág. 87)

"A informática permite a manutenção de um tipo de referendum permanente, sem provocar a ruptura na vida quotidiana, como fazem as eleições clássicas. Na verdade, a informática contém um projeto de sociedade, um projeto que pode parecer-nos bem utópico, mas que o será muito menos para nossos filhos, nascidos e criados com o computador. Para eles, podemos imaginar um mundo de microssociedades dirigidas pelo computador." (pág. 115)

"No capítulo sobre a vaidade dos homens de sua idade, podíamos acrescentar seu caso amoroso, mal dissimulado aos olhos dos profissionais curiosos, com uma mulher maravilhosa, muito mais jovem. 'O fato de não ter uma amante conhecida, na minha idade, isso, sim, pareceria suspeito a todo mundo', observara ele, certo dia, a Françoise." (pág. 121)

"-Pergunto a mim mesmo de que adianta combatermos nossos inimigos, quando estamos começando a ficar parecidos com eles." (pág. 140)

"-Para chegar à alta posição que ocupa, ela deve ter lutado arduamente usando todo o arsenal da burocracia carreirista: perfídia para com os iguais, severidade para com os subordinados e bajulação para com os superiores." (pág. 206)

"-Amanhã teremos um longo dia. Meu pai costumava dizer: 'Quando você não pode fazer nada, durma.' Acho que vou seguir seu conselho." (pág. 239)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Um dia

Título: Um dia
Autor: David Nicholls
Páginas: 412

'Um dia' conta a história da relação de duas pessoas: Dexter e Emma. A história começa em 15 de julho de 1988, quando os dois estão se formando. Daí em diante a história é contada sempre no dia 15 de julho dos próximos vinte anos. Quando tudo começou era para ser apenas um encontro casual, mas uma ligação profunda entre os dois perdura por muito tempo.

Conheça a história de Dex e Em, um casal que, como tantos outros, passa por diversas situações emotivas, embaraçosas, complicadas, hilárias, mas que demora a perceber a importância de um para o outro.

Trechos interessantes:

"Com trezentas libras de outra pessoa você pode mudar sua vida, e não deve se preocupar com isso porque francamente eu tenho um dinheiro que não mereço, e você trabalha duro e mesmo assim não tem dinheiro; vamos colocar o socialismo em prática, vamos? E se você fizer questão pode me pagar quando for uma dramaturga famosa, ou quando ganhar dinheiro com suas poesias ou seja lá o que for." (pág. 55)

"A cidade tinha vencido, exatamente como disseram que aconteceria. Como numa festa cheia de gente, ninguém percebeu a chegada dela, e ninguém notaria se fosse embora." (pág. 63)

"Seu consolo é pensar que, como ele ainda não dormiu, esse não é o primeiro drinque do dia, mas sim o último da noite anterior. Além do mais, todo esse tabu sobre beber durante o dia é um exagero; as pessoas fazem isso na Europa. O truque é usar o estímulo do álcool para compensar o abatimento das drogas: ele está se embebedando para ficar sóbrio, e quando você pensa a respeito é na verdade uma coisa bem razoável." (pág. 120)

"Dexter dá um sorriso contido, mas a mãe já está virada para o outro lado, de costas para ele. Sai do quarto e encosta a porta. Um dia desses, muito em breve, dentro de um ano talvez, ele vai sair do quarto e nunca mais verá a mãe. É uma ideia tão difícil de conceber que Dexter tira aquilo da cabeça com violência, preferindo concentrar-se em si mesmo: na própria ressaca, em como está se sentindo cansado, na dor latejando nas têmporas." (pág. 130)

"Falavam um com o outro com vozes estranhas e estranguladas, tinham perdido o jeito de um fazer o outro rir, transformado em zombarias em tom jocoso e ferino. A amizade entre os dois era como um buquê de flores murchas que Emma insistia em regar. Por que não deixar morrer?" (pág. 189)

"Emma virou-se rapidamente, caminhou até ele e puxou seu rosto contra o dela, o rosto quente e úmido encostado no dele, falando depressa e em voz baixa no seu ouvido, e por um instante de glória Dexter pensou que seria perdoado.
-Dexter, eu te amo muito. Muito, muito, e provavelmente sempre amarei. - Os lábios dela encostaram no rosto dele. -Só que eu não gosto mais de você. Sinto muito." (pág. 206)

"Nada no mundo podia ser mais melancólico do que a rejeição de um anel de noivado: ficou dentro da mala no quarto do hotel, emanando tristeza como se fosse uma espécie de radiação." (pág. 214/215)

"Jasmine já está chorando quando Dexter luta para prendê-la na cadeirinha alta. Ela sempre deixa Sylvie fazer isso, mas agora está se contorcendo e gritando, um pacote compacto de músculos e barulho se agitando com uma força surpreendente e por nenhuma razão aparente, e ele começa a pensar: 'Por que você não aprende logo a falar? Aprenda uma língua qualquer e me diga o que estou fazendo de errado.' Quanto tempo até começar a falar? Um ano? Dezoito meses? É uma loucura, um erro de projeto absurdo, essa recusa a dominar a linguagem no momento em que é mais necessária. Eles deviam nascer falando. Não conversando nem argumentando, mas transmitindo informações práticas. 'Papai, estou com gases.' 'Esse tipo de atividade me deixa irritada.' 'Estou com cólicas.'" (pág. 293/294)

"Sozinho. E o pior de tudo é que sabia que era verdade. Nunca na vida tinha imaginado que seria um solitário. No seu aniversário de trinta anos, chegou a lotar uma boate da Regent Street: as pessoas faziam fila na calçada para entrar. O cartão de memória do celular em seu bolso transbordava de números telefônicos das centenas de pessoas que havia conhecido nos últimos dez anos, mas a única pessoa com quem desejava conversar todo esse tempo estava no quarto ao lado." (pág. 330)

"Filosoficamente ela anotava quando as datas se passavam na virada do ano; (...)seu próprio aniversário; e outros dias marcados por incidentes dos quais tinha participado. De repente pensou, uma tarde, enquanto se olhava no espelho em sua formosura, que havia ainda outra data, mais importante do que aquelas para ela; a da sua morte, quando todos aqueles encantos teriam desaparecido; um dia que jazia furtivo e invisível entre todos os outros dias do ano, sem emitir sinal nem som quando passava por ela ano após ano; mas que certamente estava lá. Quando seria?
Thomas Hardy, Tess of the d'Urbervilles" (pág. 365)

sábado, 18 de janeiro de 2014

Filha da floresta

Título: Filha da floresta
Autor: Juliet Marillier
Páginas: 608

O livro foi presente de um grande amigo que imaginara fosse do meu agrado, tal a natureza da história ali narrada. E devo dizer que ele acertou em cheio. Livro agradável, fácil de se ler e com uma história cativante.

Primeiro livro de uma trilogia, narra uma história de tempos antigos, reinos distantes, inspirada em contos germânicos, lembrando a história dos povos celtas. O senhor de Sevenwaters tem seis filhos e uma filha (a filha da floresta) que, desde cedo, aprendeu os segredos da floresta e sabe usar como ninguém as plantas medicinais. Um encantamento envolvendo todos os seus irmãos a obriga a realizar uma árdua tarefa que mostrará que ela não é uma simples criança.

Trechos interessantes:

"-[...]Para vencer esta guerra é preciso conversar com o inimigo, conhecê-lo. Se continuar simplesmente atacando, ele sempre contra-atacará e um dia poderá vencer. Esse caminho só leva à morte, ao sofrimento e ao arrependimento. Muitos podem segui-lo, mas não conte comigo. Eu não irei." (pág. 27)

"-E quanto a você, Finbar? - Nem seria preciso perguntar. Ele era muito diferente. Diferente de todos nós. - O que mamãe deixou em você?
Ele se virou para mim e sorriu. A curva de sua boca longa transformava completamente seu rosto quando ele sorria.
-Fé em mim mesmo - ele disse. - Fazer sempre o que é certo e jamais o que é errado, mesmo que seja difícil." (pág. 33)

"-O fim da história quem faz é você, ninguém mais. Só você pode escolher. Há tantas formas de se tornar um herói quanto os galhos de uma grande árvore. Podem ser formas maravilhosas, terríveis, simples ou complicadas. Elas se unem, se separam e se interligam novamente, e você pode segui-las da maneira que desejar." (pág. 111)

"Não corte madeira viva. Use um pedaço de galho que esteja no chão, daqueles que as tempestades e os raios derrubam. Se precisar cortar madeira nova, peça licença. Os bens da floresta não devem ser retirados sem motivo.
Aprendemos sobre isso ainda pequenos. Sempre pedíamos licença e agradecíamos, fosse para a árvore ou para o espírito que habitasse nela." (pág. 127)

"-O que você fez foi crueldade - disse lentamente. - Não há como desfazer algo assim. Você tem sorte de nosso irmão saber tratar de animais. Mas ela também precisa do seu amor para se recuperar. Animais não nos julgam. Eles nos amam independentemente do que fazemos com eles." (pág. 143)

"Dizem que o espírito não abandona totalmente o corpo até a terceira manhã após a morte. Meu amigo não estava morto há mais de três dias, mas seu ser interior parecia já ter voado para o imenso céu que ele sempre observava no Monte Ogma, acima das árvores e das águas do lago que se estendiam para o oeste. Coloquei a cruz de madeira em suas mãos e uma oração cristã me veio à mente, mas preferi ficar em silêncio. Quem sabe para onde seu espírito desejaria voar? Ele sempre fora uma pessoa de mente aberta e, com isso, muitas portas se abririam agora para ele." (pág. 181)

"Tinha dito a Simon que ele podia fazer sua história terminar como bem desejasse. Mas não era bem verdade. Pode-se traçar um caminho, mas sempre há pessoas e fatos que o influenciam e o modificam, tornando-o muitas vezes difícil e confuso." (pág. 186)

"Ele estava em sua casa, mas seria trazido para baixo para ser velado. A casa estava em silêncio. Será que essa gente não sabia como sofrer por um bom homem? Não sabiam chorar, gritar de raiva e amaldiçoar o poder das sombras? Não sabiam se abraçar, enxugar as lágrimas uns dos outros e falar das coisas boas que ele havia feito e de como havia sido bom, para ajudá-lo em sua passagem? Onde estavam as grandes fogueiras, os brindes com cerveja forte e o cheiro das ervas queimando para espalhar seu perfume no ar?" (pág. 410)

"Sentei-me ao seu lado e ficamos em silêncio. Peguei sua mão e a segurei entre as minhas. Estava trêmula. Eu não sabia o que dizer. Quando parti, era apenas uma criança, e ele, uma figura austera e distante, que nunca cheguei a conhecer direito. E agora parecia que eu era a mãe e ele a criança." (pág. 557)

"-O homem viajou para aquele lugar distante. Viu e ouviu as histórias mais estranhas em seu caminho. Aprendeu que... que o amigo e o inimigo são apenas as duas faces da mesma moeda. E que a vida que alguém escolhe para si mesmo, e julga certa e constante, pode se modificar a qualquer momento. Para se ramificar, torcer e levá-lo a lugares muito além de sua imaginação. Há mistérios que vão além da mente de um mortal e, se ele tenta negá-los, acaba vivendo em uma semiconsciência." (pág. 578)

"Mas de uma coisa você deve se lembrar: não existe luz ou trevas. Nós é que vemos o mundo assim. Não existe bem ou mal. Tudo muda o tempo todo e, ao mesmo tempo, continua igual." (pág. 587)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Feios

Título: Feios
Autor: Scott Westerfeld
Páginas: 416

Este é um livro sobre adolescentes e para adolescentes. Não que a história não seja interessante, mas o fato é que ela foca aquilo que é de extrema importância para os jovens: a aparência. Afinal, quando se é jovem, o que mais tem importância?

No livro (num futuro não determinado) os jovens, ao atingir 16 anos, recebem uma transformação corporal completa, passando a se tornar perfeitos. Esse é o sonho de todos os adolescentes e eles vivem contando os minutos aguardando a data tão esperada, quando deixarão seus defeitos, suas manias e suas aparências comuns e se tornarão perfeitos. Mas será que todo mundo quer ser perfeito? E o que há por trás disso tudo? Leia o livro e descubra.

Trechos interessantes:

"Havia um tipo de beleza, um encanto que todos viam. Olhos grandes e lábios grossos, como crianças; pele sedosa e brilhante; traços simétricos; e milhares de outras pistas. Em algum lugar no fundo de suas mentes, as pessoas buscavam esses sinais permanentemente. Ninguém podia evitar notá-los, qualquer que fosse sua criação. Um milhão de anos de evolução haviam tornado aquilo parte do cérebro humano." (pág. 20)

"-Ou talvez, depois que eles quebram e esticam seus ossos até alcançar o formato ideal, depois que arrancam seu rosto e raspam a pele, depois que enfiam maçãs do rosto plásticas na sua cara para que você fique igual a todo mundo... talvez, depois disso tudo, você simplesmente não seja mais tão interessante." (pág. 53)

"-[...]Não quero ser uma feia para o resto da vida. Quero aqueles olhos e lábios perfeitos, quero que todos me vejam e fiquem impressionados. E que todos que me virem perguntem 'quem é ela?' e queiram me conhecer e queiram ouvir o que tenho a dizer.
-Prefiro ter algo a dizer." (pág. 94)

"Cada dia que nascia parecia mudar a montanha, o céu e os vales próximos, tornando-os deslumbrantes de modos completamente diferentes. A natureza, afinal, não precisava de uma operação para ficar linda. Ela simplesmente era." (pág. 224)

"Pensou nas orquídeas que se espalhavam pelos campos lá embaixo, arrancando a vida das outras plantas e do próprio solo, num processo egoísta e incontrolável. Tally Youngblood era uma praga. E, ao contrário das orquídeas, sequer era bonita." (pág. 238)

"-Podemos mesmo fazer xixi num purificador? Quero dizer, para beber a água depois?
-Claro. Eu já fiz isso.
Tally fez uma cara de nojo e, em seguida, virou-se para a janela.
-Quem mandou perguntar...
Ele se aproximou, rindo baixinho, e pôs as mãos nos ombros dela.
-É incrível o que as pessoas são capazes de fazer para sobreviver - disse." (pág. 335)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Tudo menos "normal"

Título: Tudo menos "normal"
Autor: Nora Raleigh Baskin
Páginas: 190

Com a leitura deste livro atingi a minha meta que havia estipulado no início do ano: a leitura de 35 livros. É um número modesto, mas foi atingido. Levando-se em conta que esse total não contabiliza os livros relacionados ao trabalho e os de programação, me considero satisfeito com o resultado.

Sobre o livro: narrado em primeira pessoa, conta a história de Jason - um garoto autista de 12 anos - e suas dificuldades de convivência com as pessoas "normais". O que lhe dá prazer é criar histórias em um site e, quando uma garota as lê e começam a trocar mensagens, ele se questiona sobre o que a garota pensará ao saber que ele é diferente.

Livro muito belo e tocante, nos mostrando como é estar do outro lado, já que dificilmente nos damos conta disso.

Trechos interessantes:

"A maioria das pessoas gosta de falar em seu próprio idioma.
Elas realmente preferem isso. Preferem tanto que, mesmo quando vão a um país estrangeiro, usam a própria língua, falando mais alto ou mais devagar, porque acham que assim serão compreendidas." (pág. 9)

"Neurotípicos gostam quando os olhamos nos olhos. Supõe-se que signifique que você está ouvindo, como se o oposto fosse verdade, o que não é: só por que você não está olhando para alguém, não significa que não está ouvindo o que esta pessoa diz. Posso ouvir melhor quando não sou distraído pelo rosto de uma pessoa." (pág. 13)

"Sou como uma folha sobre um rio, sendo levada pela água, não exatamente flutuando, nem exatamente afundando. Então, não posso parar e não posso controlar a direção que estou tomando. Posso sentir a água, mas nunca sei para onde estou indo." (pág. 24)

"Toda palavra que você escolhe significa algo que você acha que significa, e mais.
Como,por exemplo, se uma pessoa é diferente, isso é uma coisa boa.
Mas se ela tem um defeito, isso não é." (pág. 80)

"Alguns anos atrás, descobri que os braços de papai ao meu redor não mandam a escuridão, a raiva, a tristeza embora de verdade. Eles apenas as adiam. Isso não me impede, entretanto, de pensar sobre as coisas com as quais meu pai pode me ajudar e as que ele não pode. E o que vai acontecer quando ele não estiver mais por perto." (pág. 83)

"A coisa mais importante a fazer quando você está escrevendo uma história é encontrar um dilema para o seu personagem resolver. Você pode ter os melhores e mais interessantes personagens e pode ter algo realmente importante a dizer, mas você precisa de uma história. Precisa de conflito." (pág. 109)

"-Muito tempo depois de termos desaparecido, nossas palavras serão tudo o que resta de nós, e quem é que vai dizer o que realmente aconteceu ou mesmo qual é a realidade? Nossas histórias, nossa ficção, nossas palavras serão a coisa mais próxima que pode haver da verdade. E ninguém pode tirar isso de vocês." (pág. 182/183)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

1º a morrer

Título: 1º a morrer
Autor: James Patterson
Páginas: 374

Livro policial com todos os ingredientes do gênero. Há um assassino solto na cidade e ele tem um estilo peculiar: só mata casais que acabaram de se casar. Para desvendar esse mistério entra em cena a inspetora de polícia Lindsay que, além do caso em questão, terá que se preocupar também com uma doença grave com a qual foi diagnosticada.

No decorrer da história aparecem mais três mulheres e um parceiro para auxiliar Lindsay em sua empreitada. Fugindo dos padrões tradicionais do estilo policial, o assassino é revelado ainda no meio do livro. Mas nem por isso as emoções acabam. Até o final ainda vão surgir mais alguns detalhes para prender a atenção do leitor.

Trechos interessantes:

"Até ali, a minha filosofia sobre médicos era simples. Quando um deles olhava para você com aquela expressão profunda e preocupada e dizia para você sentar, três coisas podiam acontecer. Só uma delas era ruim. Ia convidá-la para sair, estava se preparando para dar uma notícia desagradável ou então gastara uma fortuna para reestofar a mobília." (pág. 18/19)

"Não sabemos para que lado o trem foi, se olhamos só para os trilhos." (pág. 40)

"A primeira coisa que se notava em Claire era que ela carregava vinte e cinco quilos dos quais não precisava.
-Estou em forma - ela sempre dizia. - Redondo é uma forma." (pág. 50)

"Há uma passagem em Thoreau: 'O tempo é o riacho onde vou pescar. Bebo dele, mas, enquanto bebo, vejo a areia do fundo e percebo como é raso. Sua correnteza desliza para longe, mas a eternidade permanece. Beberia mais profundo, pescaria no céu, cujo fundo é pedregoso de estrelas'." (pág. 99)

"-Essa é a verdade realmente horrorosa do assassinato. Se aprendi alguma coisa como detetive de homicídios, foi que nada segue uma linha fixa. Ontem a senhora era uma vítima inocente, mas agora está envolvida nisso também. Esse assassino vai atacar novamente e a senhora vai se arrepender do que não me contou pelo resto da vida." (pág. 189)

"-Quando eu estiver dando o meu último suspiro, não vou lembrar de todas aquelas conferências importantes das quais participei. Nós só temos poucos momentos na vida para nos soltar, então é bom aproveitá-los quando aparecem." (pág. 198)

"-Vocês querem pegar peixe grande? Voltem e peguem um caniço mais forte." (pág. 216)

sábado, 21 de dezembro de 2013

A casa da seda

Título: A casa da seda
Autor: Anthony Horowitz
Páginas: 270

Estava temeroso ao iniciar a leitura do livro, pois as informações faziam tanta referência ao estilo das histórias de Sherlock Holmes, que fiquei com receio de me decepcionar. Qual nada! É como se você tivesse lendo uma história do próprio Conan Doyle. O autor conseguiu captar tão bem a atmosfera, o gênero e a excentricidade de Sherlock Holmes e o resultado não poderia ser outro: uma história digna do grande detetive.

Como sempre, a história começa com alguém solicitando a ajuda de Holmes para um caso que, aparentemente seria simples. E aí a história começa a se desenrolar, outros aspectos vão se conectando e, de repente, a história já tomou tamanha proporção e há tantas pessoas envolvidas que só mesmo o talento de Holmes para decifrá-la. Se você é fã de livros do gênero, com certeza não irá se decepcionar com a leitura.

Trechos interessantes:

"Creio ser desnecessário lembrá-los de que os gêmeos apareceram na mitologia desde os primórdios da civilização. Houve Rômulo e Remo, Apolo e Ártemis e Castor e Pólux, imortalizados para sempre como a constelação de Gêmeos no céu noturno." (pág. 28)

"Ele não podia ter mais de treze anos, mas apesar disso, como todos os outros, já era completamente adulto. A infância, afinal de contas, é o primeiro bem que a pobreza furta de uma criança." (pág. 54)

"[...]afinal até o próprio Lestrade dissera uma vez, brincando, que um capricho da Mãe Natureza havia lhe dado a aparência de um criminoso, não de um policial, e que, pensando bem, ele poderia ter sido um homem mais rico se tivesse escolhido tal profissão. Também Holmes comentou muitas vezes que suas próprias habilidades, em particular em matéria de forçar fechaduras e forjar falsificações, poderiam tê-lo tornado um criminoso tão bem-sucedido quanto era como detetive, e é divertido pensar que, num outro mundo, os dois homens poderiam ter trabalhado juntos no lado errado da lei." (pág. 65)

"O problema com você, Holmes, é que tem mania de complicar as coisas. Por vezes pergunto a mim mesmo se não faz de propósito. É como se precisasse que o crime representasse um desafio, como se ele tivesse de ser suficientemente extraordinário para merecer solução." (pág. 70)

"'Sr. Sherlock Holmes', disse, 'Sim, sim. Creio que ouvi falar a seu respeito. Um detetive? Não posso imaginar nenhuma circunstância em que suas atividades se conectariam com as minhas'." (pág. 109)

"Mostre a Holmes uma gota d'água e ele deduziria a existência do Atlântico. Mostre-a para mim, e eu procuraria uma torneira. Essa era a diferença entre nós." (pág. 169)

"O senhor poderia dizer que sou um pensador abstrato. O crime em sua forma mais pura é, afinal de contas, uma abstração, como a música. Eu reajo. Outros executam." (pág. 182)

"Existem, acredito, ocasiões em que sabemos ter chegado ao fim de uma longa jornada; em que, mesmo que ainda não divisemos nosso destino, sabemos de algum modo que, quando dobrarmos a esquina que está bem à nossa frente, lá estará ele." (pág. 218)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vão dos Angicos

Título: Vão dos Angicos
Autor: Bariani Ortencio
Páginas: 200

Vão dos angicos é um livro de contos, retratando o povo, a história e os costumes da região Centro-Oeste. São nove contos - os chamados "causos" - geralmente com apelo humorístico, retratando diversas situações e personagens.

O linguajar específico da região é o que mais chama a atenção nesse tipo de história. É como se estivéssemos, de fato, ouvindo as histórias contadas pelos mais antigos, ao pé do fogão, enrolando um cigarro de palha. Só quem já viveu nesta situação para entender o que é isso.

Trechos interessantes:

"O advogado seguiu viagem, a trenheira enchendo duas bruacas, livros de Direito a maior parte. No interior seria necessário demonstrar poderio; capacidade e inteligência, nem tanto. A maior arma seriam os livros. Doutor de muitos livros na prateleira, sabedoria garantida, respeito absoluto." (pág. 13)

"De peixes eles já estavam saturados e, o que pretendiam, era mesmo caça de carne de sangue para dar sustância. variar da branca de peixe, fraca, embora rica de fosfato. Mas o que eles queriam com fosfato, com inteligência, se não precisavam dela, não tinham onde usá-la, que tudo ali era rotineiro?" (pág. 73)

"Merenciano sempre morou em Pau-d'Arco, dono que foi por herança do pai. Quando cismou de casar, o fez rápido, sem muita escolha, devido à falta do que escolher e serem as moças naquele derredor de cinco léguas, todas prendadas em serviços domésticos e ajuda na roça e curral. Das quatro Marias conhecidas, fisgou a do vizinho Luciano, a mais chegada por divisas, que ele não era de andar muito atrás de rabo-de-saia.
Maria-do-Luciano fez o pior negócio da vida, pois logo no primeiro parto embarcava deste mundo para um melhor, carregada nas asas dos anjos, de boa que era, e chorada sentidamente por Merenciano, que dela pouco aproveitara." (pág. 91)

"Quando está nesta ocupação, reclama à memória, relembra a manta que passou no cigano, na baldroca com aquela égua desgraçada de ruim, mais passarinheira que todos os diabos do inferno. Passar manta em cigano dá patente de alto gabarito comercial." (pág. 95)

"Na cidade, Apolinário empretecendo de tanto tomar café em casa dos eleitores. O peito doía de andar espremendo outros peitos nos abraços infindáveis. Só não abraçava poste porque não tinha braços." (pág. 121)

"Começou pelo chavão mais conhecido que níquel de cem reis:
-Já que é tão grande o momento!
E o Fidêncio arrematou:
-'Jaquetão grande' é 'sobretudo' sua besta!..." (pág. 131)