quinta-feira, 24 de abril de 2014

O telescópio de Schopenhauer

Título: O telescópio de Schopenhauer
Autor: Gerard Donovan
Páginas: 272

O livro inteiro tem praticamente dois personagens e eles não têm nomes: são simplesmente o Padeiro e o Professor. A "história" transcorre em um único dia e consta somente de diálogos entre o Professor e o Padeiro. Num estado socialista o Padeiro é preso e, sob a neve, é obrigado a cavar um túmulo.

Este é ponto de partida para a existência do diálogo entre os dois personagens. Esses diálogos são questionamentos filosóficos sobre o comportamento e a natureza humana. O motivo da prisão do Padeiro (esclarecida no final do livro) torna-se uma questão secundária.

Trechos interessantes:

"Dificilmente hoje seria um dia para eventos memoráveis. [...] De qualquer maneira, é óbvio que todo evento tem de acontecer em um dia qualquer, mais cedo ou mais tarde." (pág. 15)

"Sempre presumi que uma pessoa bem vestida fosse educada. Compare uma loja de roupas a qualquer biblioteca. Um indivíduo escolhe e veste trajes tão cuidadosamente como outro seleciona um livro e lê suas palavras. Ao observar uma camisa de algodão passada a ferro, os olhos deveriam nos levar em direção a calças de corte artesanal, bem elaboradas e costuradas, do mesmo modo que frases e pensamentos se misturam, terminando e iniciando parágrafos.
Leio muito, como é possível perceber. Aprende-se a fazer isso quando não se tem amigos. Dói no início, mas livros nunca decepcionam. Aprendi muito com eles." (pág.18/19)

"Nervoso em grupo, eu precisava me forçar a participar até mesmo de uma noite informal no bar. Indicava com a cabeça que estava de acordo quando todos os outros já haviam concordado. Balançava a cabeça negativamente e fazia o som adequado quando os companheiros expressavam desaprovação. Morria de medo de que perguntassem minha opinião antes que eu tivesse avaliado a de todos os outros. Ficava aterrorizado por servir de parâmetro em alguma decisão. Tinha vergonha de meu silêncio enquanto todos esperavam minha resposta." (pág. 36)

"Cada pessoa sempre age em seu próprio favor o tempo todo. Toda guerra começa com pessoas que têm algo a ganhar. Todo caso de amor começa por interesse e termina pela mesma razão." (pág. 40)

"Você não entende a sobrevivência, então você a chama de mal. Morrer é bom, suponho. Uma morte nobre é tudo isso. Desculpe, não para mim. Não quero saber se sou eu quem morre quando a história é escrita. Quero saber por que eu e não outra pessoa, e o que posso fazer para impedir que aconteça." (pág. 73)

"Pensei o quanto eu já havia lido sobre poder. O que aprendi? Que ou você o tem ou não. E se não, ou você o consegue ou morre sem ele. Morre acreditando nas coisas que farão com que você seja lembrado. Deus dirá: 'Você não conseguiu coisa alguma. Todas aquelas outras pessoas estavam ao seu lado. Coloquei-as lá por você e você não conseguiu nada. Você viveu uma vida de obediência e agora quer uma recompensa. Vou te dar uma recompensa. O nada consegue nada'. Estala os dedos, eu desapareço e apareço em lugar nenhum. Nada entre mim e o nada." (pág.79)

"Prenda as pessoas em qualquer parte do mundo, todas elas, e se conseguir fazer com que se sintam culpadas, terá o poder." (pág. 84)

"-Li que um general declarou, certa vez, não ter medo das flechas endereçadas a ele, e sim das centenas que caíam sem destino." (pág. 133)

"-[...]Ordenei que qualquer um que fixasse o olhar sobre meu túmulo fosse morto.
-Por quê?
-Homens são bobos. Perdem muito tempo na vida num mesmo lugar e olhando a sua volta. fazendo pedidos a uma estrela para que esta mude seu destino." (pág. 151)

"-[...]Você gosta de buracos negros, Padeiro? Bares, teatros, cocaína, carros velozes, sonhos. As pessoas que vivem neles se desligam de todo o universo. Apagam as luzes da esperança para sempre.
-Nesse caso, buraco negro é onde estou." (pág. 164)

"-Eu tinha de fazer o que me diziam.
-Não, não tinha.
-Eu queria viver. Tenho o direito de viver. Ao fazer o que me disseram, consegui permanecer vivo. Autopreservação não é crime." (pág. 201)

"Locke acreditava que, se não sabemos coisa alguma ao nascermos, todos os nossos valores morais vêm de experiência de dor ou prazer. O que é bom é qualquer coisa que nos satisfaça. A mente chama de mal qualquer coisa que cause dor. Nada mais. Ninguém nasce bom ou mau. Ninguém nasce demônio ou ditador." (pág. 206)

"Isto é filosófico para mim: o que acontece, e não o porquê. Há menos tortura desse  modo. Sem blasfêmias junto à cruz ou questionamentos ao oráculo: 'por que eu?'. Como se você fosse especial, ou digno de maior atenção, quando bilhões estão pensando a mesma coisa. Bilhões de pessoas em qualquer época, sendo que uma em cinco pergunta 'por que eu?',ou 'por que isso sempre acontece comigo?'. O oráculo então responde: 'Porque não há outra forma. Sempre acontece com você, entende? Quem te disse que haveria? Quem você acha que é?'." (pág. 224)

domingo, 30 de março de 2014

Um retrato fatal

Título: Um retrato fatal
Autor: Ross Macdonald
Páginas: 246

Lew Archer é um detetive particular que foi contratado por um milionário para recuperar um quadro roubado. Mas durante o decorrer da história verá que há muito mais que o simples roubo de um quadro: um pintor desaparecido há 25 anos; assassinatos sem suspeitos; histórias antigas envolvendo o proprietário do quadro e por aí vai.

Trata-se de um romance policial com todos os ingredientes do gênero. O leitor deve se preparar para as inúmeras reviravoltas que a história dá até o desfecho que vai muito além de apenas recuperar o quadro desaparecido.

Trechos interessantes:

"-[...]Quando ele, quando meu pai derrubou a porta do banheiro, pulei para dentro da cesta de roupa suja e puxei a tampa. Nunca vou esquecer a sensação que tive; foi como estar morta, enterrada e segura para sempre.
-Segura?
-Não podem matá-lo depois que estiver morto." (pág. 28)

"Não havia quadro nenhum debaixo do colchão, nada que incriminasse no armário nem na cômoda, nenhum vestígio de crime, a não ser o da pobreza." (pág. 38)

"-Dou-lhe os cinco por quarenta dólares. Só as telas valem isso, e o senhor deve saber, se é pintor.
-Não sou pintor.
-Às vezes me pergunto se Jake era. Pintou durante mais de trinta anos e acabou só com isto para mostrar. - Fez um gesto que abrangeu os quadros na mesa, a casa e sua história, e a morte de Jake. - Nada, além disso e de mim." (pág. 54)

"-Acho que poderia ajudar o senhor.
-Ajudar-me a fazer o quê?
-Talvez nada. - Abriu os braços num gesto teatral. - O senhor parece ser um homem engajado numa guerra sem fim, numa busca sem fim. Já lhe ocorreu que está é procurando a si mesmo? E que a maneira de se encontrar é ficar quieto e silencioso, silencioso e quieto?" (pág. 109)

"-Eu e Jake não tivemos sorte. Ele só teve azar desde que se juntou comigo. - Sua voz tornara-se áspera. - Queria ter morrido no lugar dele.
-Não deseje isso. Nós todos já morremos cedo demais.
-Para mim, quanto mais cedo melhor.
-Espere um pouco. Você recomeçará sua vida. Você é jovem, Jessie.
-Sinto-me velha como as montanhas." (pág. 143)

"-Mas por que bebe desse jeito?
-Por causa da dor - disse eu. - A dor de ser ele mesmo. Vive preso nessa casa caindo os pedaços, só Deus sabe há quanto tempo. Talvez desde a infância de Fred. Tentado matar-se com a bebida, sem conseguir.
-Mesmo assim não compreendo.
-Nem eu, na realidade. Todo bêbado tem suas razões. Mas todos acabam tendo o mesmo fim: com o cérebro mole e o fígado arruinado." (pág. 171)

"Nunca diga a uma pessoa mais do que ela precisa saber, pois contará para outra." (pág. 173)

domingo, 23 de março de 2014

O conto brasileiro hoje

Título: O conto brasileiro hoje
Autor: Vários Autores
Páginas: 130

Contos e crônicas sempre me atraem, pelo fato de serem histórias curtas onde o autor desenvolve uma trama completa em poucas páginas. Este volume apresenta contos de 19 autores diferentes, dos mais variados estilos. Com certeza haverá pelo menos um ao seu gosto.



 Lista dos autores
Adolpho Mariano da Costa
Alfredo Monteiro da Silva Filho
Ana Marina Godoy
Bruno Prado Lux Fontoura Lopes
Clóvis Oliveira Cardoso
Davi José Frozza do Vale Amado
Enaura Quixabeira Rosa e Silva
Glauco Ortolano
José Faria Nunes
Luiz Clério Manente
Marcos Cesaretti
Mario Divo
Paulino Vergetti Neto
Raymundo Farias de Oliveira
Rodolfo Konder
Rogério Ribeiro da Luz
Sergio de Freitas
Sônia van Dijck
Yara Maria Camilo

Trechos interessantes:

"De tanto prenderem-no e soltarem-no, ele acabou transferindo definitivamente residência e domicílio para a cadeia local. Já não podia viver longe do xadrez, razão pela qual ele dava uma mãozinha no rancho e até na limpeza do xilindró." (pág. 19)

"-Sabe, doutor, nem eu nem o delegado submetemos os presos a maus-tratos, ou tratamento arbitrário, violento, desumano e cruel, mas não toleramos bicha, subversivo, ateu, degenerado e gente indesejável, até porque somos católicos de boas famílias.
-Pois é, sargento Augis Paredes, Hitler e Pio XII também se davam muito bem, sabia?" (pág. 21)

"Entretanto, quando, por livre arbítrio ou por arbitrariedades que a vida nos impõe, somos obrigados a mudar de endereço, geralmente ocorrem também mudanças em nós mesmos e em alguns dos nossos pertences, que, para as transportadoras, passam a ser tralhas." (pág. 24)

"Um velho e intrigante adágio me infernizava a mente: 'Cuidado ao fazer o bem; veja primeiro se pode fazê-lo sem riscos e se a pessoa a quem se destina o merece'." (pág. 49)

"A justiça haveria de ser feita. Descrente, todavia, eu sempre dissera que não confiava nem na justiça de Deus nem na dos homens, mas se tivesse que ser julgado um dia, queria que fosse primeiro pela justiça dos homens. Nesse instante, eu não estava certo disso." (pág. 53)

"'Com certeza esses diamantes me tornariam um homem muito rico', pensou em voz alta.
Mas algo o fez lembrar-se de que a riqueza era uma das maiores tentações dos homens e, como não era parvo, afugentou imediatamente aquele pensamento tentador e concentrou-se na fragrância que a relva úmida exalava e na beleza do revoar dos pássaros que anunciavam o fim de mais um dia." (pág. 64)

"E Eça é Portugal de vários Pessoas e um só Porto. Cale! Amália é que era mulher de verdade." (pág. 78)

sábado, 22 de março de 2014

O pacto

Título: O pacto
Autor: Joe Hill
Páginas: 318

Ig Perrish acorda, depois de uma noite de bebedeira, e descobre que tinha criado chifres. E descobre ainda que os chifres têm o poder de fazer as pessoas confessarem seus maiores pecados. É com este tema inusitado que começa a história do presente livro.

A história gira em torno da morte de uma adolescente, Merrin, sendo Ig o principal suspeito. Daí por diante seguem-se as revelações de amores, paixões, traiçoes e tudo o mais na vida de um grupo de adolescentes até o desfecho final. Apesar da abordagem curiosa, o livro é interessante e agradável de se ler.

Trechos interessantes:

"Ig nunca ficou sabendo e talvez isso não tivesse a menor importância. Era como se perguntar como o mal entrou no mundo ou o que acontece com uma pessoa depois que ela morre: uma discussão filosófica interessante mas curiosamente sem sentido, uma vez que tanto o mal como a morte acontecem, independentemente de como, por quê e qual o sentido." (pág. 59)

"Alguém estivera prestes a morrer e outra pessoa o tinha salvado e, de agora em diante, vítima e salvador eram especiais, estrelas de seu próprio filme, tornando todos os outros meros figurantes ou, na melhor das hipóteses, coadjuvantes. Ter salvado uma vida fazia com que você se tornasse alguém. Você não seria mais um zé-ninguém, seria o zé-ninguém que tirou Ig Perrish nu de dentro do rio Knowles no dia em que ele quase se afogou. Seria essa pessoa para o resto da vida." (pág. 74)

"Garotos pobres costumam se vestir bem. Os riquinhos é que andam todos desarrumados, com um visual cuidadosamente montado: jeans de marca que custam 80 dólares, industrialmente desbotados e esfarrapados, e camisetas surradas tiradas diretamente das araras de uma loja de artigos esportivos para a elite americana." (pág. 80)

"-Será que você não entende que está falando de uma pessoa que eu amava? - perguntou Ig. Seus pulmões pareciam arranhados, como se estivessem em carne viva, e ele mal conseguia respirar.
-Claro - disse ela.- Foi por isso que você a matou. Normalmente é por isso que as pessoas matam. Não é por ódio. É por amor. Às vezes queria que meu pai tivese amado a mim e a minha mãe o bastante para nos matar e depois se suicidar. Então teria sido uma grande tragédia e não mais um fim de relacionamento chato e deprimente. Se ele tivesse estômago para um duplo homicídio, todos poderíamos ter aparecido na TV." (pág. 134)

"Tentou se lembar se alguma vez tinha comprado algo legal para Glenna. A única coisa que lhe veio à mente foi cerveja. Quando ela estava no ensino médio, Lee tinha sido gentil o suficiente para ao menos roubar uma jaqueta de couro para ela. Essa ideia lhe deu náuseas: que Lee pudesse, de alguma forma, ser um homem melhor do que ele." (pág. 163)

"A alma não pode ser destruída. A alma é eterna. Como o número pi, ela não tem fim nem conclusão. Como o pi, ela é uma constante. Pi é um número irracional, impossível de ser fracionado. A alma também é uma equação irracional e indivisível que expressa perfeitamente uma coisa: você. A alma não teria nenhum valor para o Diabo se pudesse ser destruída." (pág. 190)

"-[...]Ele poderia me ensinar sobre vinhos. E livros. E coisas que eu não sei. Como é a vida vista pelo outro lado do telescópio. Como é participar de um relacionamento imoral.
-Seria um erro - disse Lee.
-Talvez seja necessário errar um pouco - disse Merrin. - Se você não erra, provavelmente está pensando demais. E esse é o pior erro que se pode cometer." (pág. 225)

"-[...]Não que eu tenha medo de ir pro inferno por ter me suicidado... Foi por medo de não ir pro inferno... de que não haja um inferno para o qual ir. Nem céu. Apenas nada. A maior parte do tempo penso que não deve haver nada depois que se morre. Às vezes, parece um alívio. Outras, é a coisa mais terrível que eu possa imaginar." (pág. 265)

"-[...]Tentei tirar isso da cabeça, mas há noites em que acordo pensando nisso. Ou pensando em como Merrin morreu. A gente quer se lembrar de como elas viveram, mas as coisas ruins expulsam todo o resto. Deve haver alguma explicação psicológica para isso." (pág. 271)

"Quero que se lembre do que há de bom em mim, não do mais terrível. As pessoas que você ama deveriam poder guardar o pior só para elas mesmas." (pág. 274)

sábado, 1 de março de 2014

O repouso do guerreiro

Título: O repouso do guerreiro
Autor: Christiane Rochefort
Páginas: 248

Em meio a uma história de herança, numa cidade estranha, Geneviève conhece, por acaso, Renaud. Assim começa uma incontrolável e mórbida paixão por um alcoólatra.

O livro segue sempre por essa linha: mostrando a transformação na vida de uma pessoa, de um momento para o outro. Seus amigos, sua família, sua vida de maneira geral, totalmente modificada pela paixão doentia e submissa a uma pessoa que não dá a mínima a nada e ninguém. Sinceramente, não é uma história agradável de se ler.

Trechos interessantes:

"-Vê-se que você não tem prática de suicídio.
Prática de suicídio, dir-se-ia um sonho.
-Claro que não - disse eu, um pouco irritada. - Nunca procurei adquirir.
-Escapar dele não é tudo, é preciso ainda arranjar uma saída. A morte não é o pior. O pior é a continuação." (pág. 31)

"'Então', eu amava hoje aquele homem, cuja existência ontem eu ignorava, e era assim mesmo, esse milagre famoso, tal como meu soberbo racionalismo sempre havia negado, o amor, o amor à primeira vista: e acontecia a mim, contra toda expectativa, na cidade mais feia da França, em meio a uma história de herança na Rua Geoges Clemenceau, entre a sobremesa e o café." (pág. 40)

"Aqui está ele. Ficou. Será que se sente bem? Ou não tem outro lugar? Não teve a fineza de dizê-lo e não cometo a grosseria de perguntar. Estou reduzida aos fatos: aqui está ele." (pág. 51)

"Pouco a pouco aprendi que o alcoólatra é aquele que a gente nunca vê beber e que quase nunca está bêbedo; dispõe de recursos quase infinitos, tanto para ocultar seu vício como para satisfazê-lo." (pág. 85/86)

"-As coisa são o que são, é uma verdade que todo mundo esquece. A cada um compete decidir o que quer." (pág. 97)

"[...]Estou só, só. Sozinho no mundo.
-Mas eu o amo, Renaud! Você não está só!
-Uma coisa nada tem a ver com a outra, evidentemente. Estou só." (pág. 116)

"Nem me deixar, nem inquietá-lo, nem tranquilizá-lo. Discrição. Permanecer entre uma coisa e outra. Qualquer que fosse o motivo que o incitasse a trabalhar: afinal de contas, bendito seja. Nada podia fazer-lhe tanto bem quanto o trabalho. Ninguém escapava a seus efeitos salvadores, por que ele seria diferente dos outros? Em última análise, sua desgraça era a ociosidade. Meus meios talvez não fossem muito nobres, mas os fins o eram." (pág. 213/214)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Softwar - a guerra sem armas

Título: Softwar - a guerra sem armas
Autor: Thierry Breton / Denis Beneich
Páginas: 266

O livro esboça um período da guerra fria entre a União Soviética e os Estados Unidos. Como sempre, os Estados Unidos são retratados como um país superior e que domina todas as tecnologias; na outra ponta está a União Soviética, humildemente tentando entrar na era da informática.

Para tanto, compram do governo francês computador e programa desenvolvido pelos americanos. Os Estados Unidos inserem um vírus no programa e aí começa a batalha: a União Soviética tentando provar e culpar os Estados Unidos e os americanos tentando se safar, como se não tivessem feito nada.

Trechos interessantes:

"Mas, como dizia meu pai, se o esbofeteiam na face direita, ofereça a face esquerda, se o esbofetearem então na face esquerda, ofereça a direita, e assim por diante, até reunir energias para acertar o cara em cheio na boca. O ringue é como a vida, é preciso saber aparar os golpes, mas não por muito tempo." (pág. 13)

"Quaisquer que sejam as armas empregadas, punhos nus ou foguetes intercontinentais, todo confronto requer artimanhas, esquivas, uma tática. Mas ali, com o zumbido da ventilação, sob a iluminação violenta que não permitia o menor vestígio de sombra, ia-se entregar a um combate de inteligência. A materialidade da luta era reduzida ao mínimo: teclas a serem tocadas, uma tela que fazia desfilar as mensagens para os iniciados..." (pág. 87)

"A informática permite a manutenção de um tipo de referendum permanente, sem provocar a ruptura na vida quotidiana, como fazem as eleições clássicas. Na verdade, a informática contém um projeto de sociedade, um projeto que pode parecer-nos bem utópico, mas que o será muito menos para nossos filhos, nascidos e criados com o computador. Para eles, podemos imaginar um mundo de microssociedades dirigidas pelo computador." (pág. 115)

"No capítulo sobre a vaidade dos homens de sua idade, podíamos acrescentar seu caso amoroso, mal dissimulado aos olhos dos profissionais curiosos, com uma mulher maravilhosa, muito mais jovem. 'O fato de não ter uma amante conhecida, na minha idade, isso, sim, pareceria suspeito a todo mundo', observara ele, certo dia, a Françoise." (pág. 121)

"-Pergunto a mim mesmo de que adianta combatermos nossos inimigos, quando estamos começando a ficar parecidos com eles." (pág. 140)

"-Para chegar à alta posição que ocupa, ela deve ter lutado arduamente usando todo o arsenal da burocracia carreirista: perfídia para com os iguais, severidade para com os subordinados e bajulação para com os superiores." (pág. 206)

"-Amanhã teremos um longo dia. Meu pai costumava dizer: 'Quando você não pode fazer nada, durma.' Acho que vou seguir seu conselho." (pág. 239)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Um dia

Título: Um dia
Autor: David Nicholls
Páginas: 412

'Um dia' conta a história da relação de duas pessoas: Dexter e Emma. A história começa em 15 de julho de 1988, quando os dois estão se formando. Daí em diante a história é contada sempre no dia 15 de julho dos próximos vinte anos. Quando tudo começou era para ser apenas um encontro casual, mas uma ligação profunda entre os dois perdura por muito tempo.

Conheça a história de Dex e Em, um casal que, como tantos outros, passa por diversas situações emotivas, embaraçosas, complicadas, hilárias, mas que demora a perceber a importância de um para o outro.

Trechos interessantes:

"Com trezentas libras de outra pessoa você pode mudar sua vida, e não deve se preocupar com isso porque francamente eu tenho um dinheiro que não mereço, e você trabalha duro e mesmo assim não tem dinheiro; vamos colocar o socialismo em prática, vamos? E se você fizer questão pode me pagar quando for uma dramaturga famosa, ou quando ganhar dinheiro com suas poesias ou seja lá o que for." (pág. 55)

"A cidade tinha vencido, exatamente como disseram que aconteceria. Como numa festa cheia de gente, ninguém percebeu a chegada dela, e ninguém notaria se fosse embora." (pág. 63)

"Seu consolo é pensar que, como ele ainda não dormiu, esse não é o primeiro drinque do dia, mas sim o último da noite anterior. Além do mais, todo esse tabu sobre beber durante o dia é um exagero; as pessoas fazem isso na Europa. O truque é usar o estímulo do álcool para compensar o abatimento das drogas: ele está se embebedando para ficar sóbrio, e quando você pensa a respeito é na verdade uma coisa bem razoável." (pág. 120)

"Dexter dá um sorriso contido, mas a mãe já está virada para o outro lado, de costas para ele. Sai do quarto e encosta a porta. Um dia desses, muito em breve, dentro de um ano talvez, ele vai sair do quarto e nunca mais verá a mãe. É uma ideia tão difícil de conceber que Dexter tira aquilo da cabeça com violência, preferindo concentrar-se em si mesmo: na própria ressaca, em como está se sentindo cansado, na dor latejando nas têmporas." (pág. 130)

"Falavam um com o outro com vozes estranhas e estranguladas, tinham perdido o jeito de um fazer o outro rir, transformado em zombarias em tom jocoso e ferino. A amizade entre os dois era como um buquê de flores murchas que Emma insistia em regar. Por que não deixar morrer?" (pág. 189)

"Emma virou-se rapidamente, caminhou até ele e puxou seu rosto contra o dela, o rosto quente e úmido encostado no dele, falando depressa e em voz baixa no seu ouvido, e por um instante de glória Dexter pensou que seria perdoado.
-Dexter, eu te amo muito. Muito, muito, e provavelmente sempre amarei. - Os lábios dela encostaram no rosto dele. -Só que eu não gosto mais de você. Sinto muito." (pág. 206)

"Nada no mundo podia ser mais melancólico do que a rejeição de um anel de noivado: ficou dentro da mala no quarto do hotel, emanando tristeza como se fosse uma espécie de radiação." (pág. 214/215)

"Jasmine já está chorando quando Dexter luta para prendê-la na cadeirinha alta. Ela sempre deixa Sylvie fazer isso, mas agora está se contorcendo e gritando, um pacote compacto de músculos e barulho se agitando com uma força surpreendente e por nenhuma razão aparente, e ele começa a pensar: 'Por que você não aprende logo a falar? Aprenda uma língua qualquer e me diga o que estou fazendo de errado.' Quanto tempo até começar a falar? Um ano? Dezoito meses? É uma loucura, um erro de projeto absurdo, essa recusa a dominar a linguagem no momento em que é mais necessária. Eles deviam nascer falando. Não conversando nem argumentando, mas transmitindo informações práticas. 'Papai, estou com gases.' 'Esse tipo de atividade me deixa irritada.' 'Estou com cólicas.'" (pág. 293/294)

"Sozinho. E o pior de tudo é que sabia que era verdade. Nunca na vida tinha imaginado que seria um solitário. No seu aniversário de trinta anos, chegou a lotar uma boate da Regent Street: as pessoas faziam fila na calçada para entrar. O cartão de memória do celular em seu bolso transbordava de números telefônicos das centenas de pessoas que havia conhecido nos últimos dez anos, mas a única pessoa com quem desejava conversar todo esse tempo estava no quarto ao lado." (pág. 330)

"Filosoficamente ela anotava quando as datas se passavam na virada do ano; (...)seu próprio aniversário; e outros dias marcados por incidentes dos quais tinha participado. De repente pensou, uma tarde, enquanto se olhava no espelho em sua formosura, que havia ainda outra data, mais importante do que aquelas para ela; a da sua morte, quando todos aqueles encantos teriam desaparecido; um dia que jazia furtivo e invisível entre todos os outros dias do ano, sem emitir sinal nem som quando passava por ela ano após ano; mas que certamente estava lá. Quando seria?
Thomas Hardy, Tess of the d'Urbervilles" (pág. 365)

sábado, 18 de janeiro de 2014

Filha da floresta

Título: Filha da floresta
Autor: Juliet Marillier
Páginas: 608

O livro foi presente de um grande amigo que imaginara fosse do meu agrado, tal a natureza da história ali narrada. E devo dizer que ele acertou em cheio. Livro agradável, fácil de se ler e com uma história cativante.

Primeiro livro de uma trilogia, narra uma história de tempos antigos, reinos distantes, inspirada em contos germânicos, lembrando a história dos povos celtas. O senhor de Sevenwaters tem seis filhos e uma filha (a filha da floresta) que, desde cedo, aprendeu os segredos da floresta e sabe usar como ninguém as plantas medicinais. Um encantamento envolvendo todos os seus irmãos a obriga a realizar uma árdua tarefa que mostrará que ela não é uma simples criança.

Trechos interessantes:

"-[...]Para vencer esta guerra é preciso conversar com o inimigo, conhecê-lo. Se continuar simplesmente atacando, ele sempre contra-atacará e um dia poderá vencer. Esse caminho só leva à morte, ao sofrimento e ao arrependimento. Muitos podem segui-lo, mas não conte comigo. Eu não irei." (pág. 27)

"-E quanto a você, Finbar? - Nem seria preciso perguntar. Ele era muito diferente. Diferente de todos nós. - O que mamãe deixou em você?
Ele se virou para mim e sorriu. A curva de sua boca longa transformava completamente seu rosto quando ele sorria.
-Fé em mim mesmo - ele disse. - Fazer sempre o que é certo e jamais o que é errado, mesmo que seja difícil." (pág. 33)

"-O fim da história quem faz é você, ninguém mais. Só você pode escolher. Há tantas formas de se tornar um herói quanto os galhos de uma grande árvore. Podem ser formas maravilhosas, terríveis, simples ou complicadas. Elas se unem, se separam e se interligam novamente, e você pode segui-las da maneira que desejar." (pág. 111)

"Não corte madeira viva. Use um pedaço de galho que esteja no chão, daqueles que as tempestades e os raios derrubam. Se precisar cortar madeira nova, peça licença. Os bens da floresta não devem ser retirados sem motivo.
Aprendemos sobre isso ainda pequenos. Sempre pedíamos licença e agradecíamos, fosse para a árvore ou para o espírito que habitasse nela." (pág. 127)

"-O que você fez foi crueldade - disse lentamente. - Não há como desfazer algo assim. Você tem sorte de nosso irmão saber tratar de animais. Mas ela também precisa do seu amor para se recuperar. Animais não nos julgam. Eles nos amam independentemente do que fazemos com eles." (pág. 143)

"Dizem que o espírito não abandona totalmente o corpo até a terceira manhã após a morte. Meu amigo não estava morto há mais de três dias, mas seu ser interior parecia já ter voado para o imenso céu que ele sempre observava no Monte Ogma, acima das árvores e das águas do lago que se estendiam para o oeste. Coloquei a cruz de madeira em suas mãos e uma oração cristã me veio à mente, mas preferi ficar em silêncio. Quem sabe para onde seu espírito desejaria voar? Ele sempre fora uma pessoa de mente aberta e, com isso, muitas portas se abririam agora para ele." (pág. 181)

"Tinha dito a Simon que ele podia fazer sua história terminar como bem desejasse. Mas não era bem verdade. Pode-se traçar um caminho, mas sempre há pessoas e fatos que o influenciam e o modificam, tornando-o muitas vezes difícil e confuso." (pág. 186)

"Ele estava em sua casa, mas seria trazido para baixo para ser velado. A casa estava em silêncio. Será que essa gente não sabia como sofrer por um bom homem? Não sabiam chorar, gritar de raiva e amaldiçoar o poder das sombras? Não sabiam se abraçar, enxugar as lágrimas uns dos outros e falar das coisas boas que ele havia feito e de como havia sido bom, para ajudá-lo em sua passagem? Onde estavam as grandes fogueiras, os brindes com cerveja forte e o cheiro das ervas queimando para espalhar seu perfume no ar?" (pág. 410)

"Sentei-me ao seu lado e ficamos em silêncio. Peguei sua mão e a segurei entre as minhas. Estava trêmula. Eu não sabia o que dizer. Quando parti, era apenas uma criança, e ele, uma figura austera e distante, que nunca cheguei a conhecer direito. E agora parecia que eu era a mãe e ele a criança." (pág. 557)

"-O homem viajou para aquele lugar distante. Viu e ouviu as histórias mais estranhas em seu caminho. Aprendeu que... que o amigo e o inimigo são apenas as duas faces da mesma moeda. E que a vida que alguém escolhe para si mesmo, e julga certa e constante, pode se modificar a qualquer momento. Para se ramificar, torcer e levá-lo a lugares muito além de sua imaginação. Há mistérios que vão além da mente de um mortal e, se ele tenta negá-los, acaba vivendo em uma semiconsciência." (pág. 578)

"Mas de uma coisa você deve se lembrar: não existe luz ou trevas. Nós é que vemos o mundo assim. Não existe bem ou mal. Tudo muda o tempo todo e, ao mesmo tempo, continua igual." (pág. 587)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Feios

Título: Feios
Autor: Scott Westerfeld
Páginas: 416

Este é um livro sobre adolescentes e para adolescentes. Não que a história não seja interessante, mas o fato é que ela foca aquilo que é de extrema importância para os jovens: a aparência. Afinal, quando se é jovem, o que mais tem importância?

No livro (num futuro não determinado) os jovens, ao atingir 16 anos, recebem uma transformação corporal completa, passando a se tornar perfeitos. Esse é o sonho de todos os adolescentes e eles vivem contando os minutos aguardando a data tão esperada, quando deixarão seus defeitos, suas manias e suas aparências comuns e se tornarão perfeitos. Mas será que todo mundo quer ser perfeito? E o que há por trás disso tudo? Leia o livro e descubra.

Trechos interessantes:

"Havia um tipo de beleza, um encanto que todos viam. Olhos grandes e lábios grossos, como crianças; pele sedosa e brilhante; traços simétricos; e milhares de outras pistas. Em algum lugar no fundo de suas mentes, as pessoas buscavam esses sinais permanentemente. Ninguém podia evitar notá-los, qualquer que fosse sua criação. Um milhão de anos de evolução haviam tornado aquilo parte do cérebro humano." (pág. 20)

"-Ou talvez, depois que eles quebram e esticam seus ossos até alcançar o formato ideal, depois que arrancam seu rosto e raspam a pele, depois que enfiam maçãs do rosto plásticas na sua cara para que você fique igual a todo mundo... talvez, depois disso tudo, você simplesmente não seja mais tão interessante." (pág. 53)

"-[...]Não quero ser uma feia para o resto da vida. Quero aqueles olhos e lábios perfeitos, quero que todos me vejam e fiquem impressionados. E que todos que me virem perguntem 'quem é ela?' e queiram me conhecer e queiram ouvir o que tenho a dizer.
-Prefiro ter algo a dizer." (pág. 94)

"Cada dia que nascia parecia mudar a montanha, o céu e os vales próximos, tornando-os deslumbrantes de modos completamente diferentes. A natureza, afinal, não precisava de uma operação para ficar linda. Ela simplesmente era." (pág. 224)

"Pensou nas orquídeas que se espalhavam pelos campos lá embaixo, arrancando a vida das outras plantas e do próprio solo, num processo egoísta e incontrolável. Tally Youngblood era uma praga. E, ao contrário das orquídeas, sequer era bonita." (pág. 238)

"-Podemos mesmo fazer xixi num purificador? Quero dizer, para beber a água depois?
-Claro. Eu já fiz isso.
Tally fez uma cara de nojo e, em seguida, virou-se para a janela.
-Quem mandou perguntar...
Ele se aproximou, rindo baixinho, e pôs as mãos nos ombros dela.
-É incrível o que as pessoas são capazes de fazer para sobreviver - disse." (pág. 335)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Tudo menos "normal"

Título: Tudo menos "normal"
Autor: Nora Raleigh Baskin
Páginas: 190

Com a leitura deste livro atingi a minha meta que havia estipulado no início do ano: a leitura de 35 livros. É um número modesto, mas foi atingido. Levando-se em conta que esse total não contabiliza os livros relacionados ao trabalho e os de programação, me considero satisfeito com o resultado.

Sobre o livro: narrado em primeira pessoa, conta a história de Jason - um garoto autista de 12 anos - e suas dificuldades de convivência com as pessoas "normais". O que lhe dá prazer é criar histórias em um site e, quando uma garota as lê e começam a trocar mensagens, ele se questiona sobre o que a garota pensará ao saber que ele é diferente.

Livro muito belo e tocante, nos mostrando como é estar do outro lado, já que dificilmente nos damos conta disso.

Trechos interessantes:

"A maioria das pessoas gosta de falar em seu próprio idioma.
Elas realmente preferem isso. Preferem tanto que, mesmo quando vão a um país estrangeiro, usam a própria língua, falando mais alto ou mais devagar, porque acham que assim serão compreendidas." (pág. 9)

"Neurotípicos gostam quando os olhamos nos olhos. Supõe-se que signifique que você está ouvindo, como se o oposto fosse verdade, o que não é: só por que você não está olhando para alguém, não significa que não está ouvindo o que esta pessoa diz. Posso ouvir melhor quando não sou distraído pelo rosto de uma pessoa." (pág. 13)

"Sou como uma folha sobre um rio, sendo levada pela água, não exatamente flutuando, nem exatamente afundando. Então, não posso parar e não posso controlar a direção que estou tomando. Posso sentir a água, mas nunca sei para onde estou indo." (pág. 24)

"Toda palavra que você escolhe significa algo que você acha que significa, e mais.
Como,por exemplo, se uma pessoa é diferente, isso é uma coisa boa.
Mas se ela tem um defeito, isso não é." (pág. 80)

"Alguns anos atrás, descobri que os braços de papai ao meu redor não mandam a escuridão, a raiva, a tristeza embora de verdade. Eles apenas as adiam. Isso não me impede, entretanto, de pensar sobre as coisas com as quais meu pai pode me ajudar e as que ele não pode. E o que vai acontecer quando ele não estiver mais por perto." (pág. 83)

"A coisa mais importante a fazer quando você está escrevendo uma história é encontrar um dilema para o seu personagem resolver. Você pode ter os melhores e mais interessantes personagens e pode ter algo realmente importante a dizer, mas você precisa de uma história. Precisa de conflito." (pág. 109)

"-Muito tempo depois de termos desaparecido, nossas palavras serão tudo o que resta de nós, e quem é que vai dizer o que realmente aconteceu ou mesmo qual é a realidade? Nossas histórias, nossa ficção, nossas palavras serão a coisa mais próxima que pode haver da verdade. E ninguém pode tirar isso de vocês." (pág. 182/183)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

1º a morrer

Título: 1º a morrer
Autor: James Patterson
Páginas: 374

Livro policial com todos os ingredientes do gênero. Há um assassino solto na cidade e ele tem um estilo peculiar: só mata casais que acabaram de se casar. Para desvendar esse mistério entra em cena a inspetora de polícia Lindsay que, além do caso em questão, terá que se preocupar também com uma doença grave com a qual foi diagnosticada.

No decorrer da história aparecem mais três mulheres e um parceiro para auxiliar Lindsay em sua empreitada. Fugindo dos padrões tradicionais do estilo policial, o assassino é revelado ainda no meio do livro. Mas nem por isso as emoções acabam. Até o final ainda vão surgir mais alguns detalhes para prender a atenção do leitor.

Trechos interessantes:

"Até ali, a minha filosofia sobre médicos era simples. Quando um deles olhava para você com aquela expressão profunda e preocupada e dizia para você sentar, três coisas podiam acontecer. Só uma delas era ruim. Ia convidá-la para sair, estava se preparando para dar uma notícia desagradável ou então gastara uma fortuna para reestofar a mobília." (pág. 18/19)

"Não sabemos para que lado o trem foi, se olhamos só para os trilhos." (pág. 40)

"A primeira coisa que se notava em Claire era que ela carregava vinte e cinco quilos dos quais não precisava.
-Estou em forma - ela sempre dizia. - Redondo é uma forma." (pág. 50)

"Há uma passagem em Thoreau: 'O tempo é o riacho onde vou pescar. Bebo dele, mas, enquanto bebo, vejo a areia do fundo e percebo como é raso. Sua correnteza desliza para longe, mas a eternidade permanece. Beberia mais profundo, pescaria no céu, cujo fundo é pedregoso de estrelas'." (pág. 99)

"-Essa é a verdade realmente horrorosa do assassinato. Se aprendi alguma coisa como detetive de homicídios, foi que nada segue uma linha fixa. Ontem a senhora era uma vítima inocente, mas agora está envolvida nisso também. Esse assassino vai atacar novamente e a senhora vai se arrepender do que não me contou pelo resto da vida." (pág. 189)

"-Quando eu estiver dando o meu último suspiro, não vou lembrar de todas aquelas conferências importantes das quais participei. Nós só temos poucos momentos na vida para nos soltar, então é bom aproveitá-los quando aparecem." (pág. 198)

"-Vocês querem pegar peixe grande? Voltem e peguem um caniço mais forte." (pág. 216)

sábado, 21 de dezembro de 2013

A casa da seda

Título: A casa da seda
Autor: Anthony Horowitz
Páginas: 270

Estava temeroso ao iniciar a leitura do livro, pois as informações faziam tanta referência ao estilo das histórias de Sherlock Holmes, que fiquei com receio de me decepcionar. Qual nada! É como se você tivesse lendo uma história do próprio Conan Doyle. O autor conseguiu captar tão bem a atmosfera, o gênero e a excentricidade de Sherlock Holmes e o resultado não poderia ser outro: uma história digna do grande detetive.

Como sempre, a história começa com alguém solicitando a ajuda de Holmes para um caso que, aparentemente seria simples. E aí a história começa a se desenrolar, outros aspectos vão se conectando e, de repente, a história já tomou tamanha proporção e há tantas pessoas envolvidas que só mesmo o talento de Holmes para decifrá-la. Se você é fã de livros do gênero, com certeza não irá se decepcionar com a leitura.

Trechos interessantes:

"Creio ser desnecessário lembrá-los de que os gêmeos apareceram na mitologia desde os primórdios da civilização. Houve Rômulo e Remo, Apolo e Ártemis e Castor e Pólux, imortalizados para sempre como a constelação de Gêmeos no céu noturno." (pág. 28)

"Ele não podia ter mais de treze anos, mas apesar disso, como todos os outros, já era completamente adulto. A infância, afinal de contas, é o primeiro bem que a pobreza furta de uma criança." (pág. 54)

"[...]afinal até o próprio Lestrade dissera uma vez, brincando, que um capricho da Mãe Natureza havia lhe dado a aparência de um criminoso, não de um policial, e que, pensando bem, ele poderia ter sido um homem mais rico se tivesse escolhido tal profissão. Também Holmes comentou muitas vezes que suas próprias habilidades, em particular em matéria de forçar fechaduras e forjar falsificações, poderiam tê-lo tornado um criminoso tão bem-sucedido quanto era como detetive, e é divertido pensar que, num outro mundo, os dois homens poderiam ter trabalhado juntos no lado errado da lei." (pág. 65)

"O problema com você, Holmes, é que tem mania de complicar as coisas. Por vezes pergunto a mim mesmo se não faz de propósito. É como se precisasse que o crime representasse um desafio, como se ele tivesse de ser suficientemente extraordinário para merecer solução." (pág. 70)

"'Sr. Sherlock Holmes', disse, 'Sim, sim. Creio que ouvi falar a seu respeito. Um detetive? Não posso imaginar nenhuma circunstância em que suas atividades se conectariam com as minhas'." (pág. 109)

"Mostre a Holmes uma gota d'água e ele deduziria a existência do Atlântico. Mostre-a para mim, e eu procuraria uma torneira. Essa era a diferença entre nós." (pág. 169)

"O senhor poderia dizer que sou um pensador abstrato. O crime em sua forma mais pura é, afinal de contas, uma abstração, como a música. Eu reajo. Outros executam." (pág. 182)

"Existem, acredito, ocasiões em que sabemos ter chegado ao fim de uma longa jornada; em que, mesmo que ainda não divisemos nosso destino, sabemos de algum modo que, quando dobrarmos a esquina que está bem à nossa frente, lá estará ele." (pág. 218)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vão dos Angicos

Título: Vão dos Angicos
Autor: Bariani Ortencio
Páginas: 200

Vão dos angicos é um livro de contos, retratando o povo, a história e os costumes da região Centro-Oeste. São nove contos - os chamados "causos" - geralmente com apelo humorístico, retratando diversas situações e personagens.

O linguajar específico da região é o que mais chama a atenção nesse tipo de história. É como se estivéssemos, de fato, ouvindo as histórias contadas pelos mais antigos, ao pé do fogão, enrolando um cigarro de palha. Só quem já viveu nesta situação para entender o que é isso.

Trechos interessantes:

"O advogado seguiu viagem, a trenheira enchendo duas bruacas, livros de Direito a maior parte. No interior seria necessário demonstrar poderio; capacidade e inteligência, nem tanto. A maior arma seriam os livros. Doutor de muitos livros na prateleira, sabedoria garantida, respeito absoluto." (pág. 13)

"De peixes eles já estavam saturados e, o que pretendiam, era mesmo caça de carne de sangue para dar sustância. variar da branca de peixe, fraca, embora rica de fosfato. Mas o que eles queriam com fosfato, com inteligência, se não precisavam dela, não tinham onde usá-la, que tudo ali era rotineiro?" (pág. 73)

"Merenciano sempre morou em Pau-d'Arco, dono que foi por herança do pai. Quando cismou de casar, o fez rápido, sem muita escolha, devido à falta do que escolher e serem as moças naquele derredor de cinco léguas, todas prendadas em serviços domésticos e ajuda na roça e curral. Das quatro Marias conhecidas, fisgou a do vizinho Luciano, a mais chegada por divisas, que ele não era de andar muito atrás de rabo-de-saia.
Maria-do-Luciano fez o pior negócio da vida, pois logo no primeiro parto embarcava deste mundo para um melhor, carregada nas asas dos anjos, de boa que era, e chorada sentidamente por Merenciano, que dela pouco aproveitara." (pág. 91)

"Quando está nesta ocupação, reclama à memória, relembra a manta que passou no cigano, na baldroca com aquela égua desgraçada de ruim, mais passarinheira que todos os diabos do inferno. Passar manta em cigano dá patente de alto gabarito comercial." (pág. 95)

"Na cidade, Apolinário empretecendo de tanto tomar café em casa dos eleitores. O peito doía de andar espremendo outros peitos nos abraços infindáveis. Só não abraçava poste porque não tinha braços." (pág. 121)

"Começou pelo chavão mais conhecido que níquel de cem reis:
-Já que é tão grande o momento!
E o Fidêncio arrematou:
-'Jaquetão grande' é 'sobretudo' sua besta!..." (pág. 131)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A linha

Título: A linha
Autor: Teri Hall
Páginas: 246

Eu realmente não entendi o estilo literário deste livro. A autora cria uma ficção, num futuro não determinado, onde as pessoas vivem com medo dos representantes do governo, mas não especifica o motivo. Algo assim como uma versão da guerra fria, mas no futuro.

Há uma linha que divide dois países (?) e a personagem principal fica obcecada por cruzar a linha. Achei o livro muito vago, com personagens simples e sem amarração. E o final então, que tristeza!

Trechos interessantes:

"São sempre as ações da própria pessoa que provocam as mudanças de verdade, sejam boas ou más." (pág. 13)

"-Eu não sei se existe algum governo que quer realmente acabar com a guerra, ela é muito útil." (pág.47)

"-Nunca é uma atitude grosseira expressar a opinião de alguém respeitosamente. Nós apenas pensamos diferente sobre esse assunto." (pág. 75)

"Ela se lembrava de seu alerta durante uma sessão de treinamento:
-Se eles tentarem cavar sua cova - disse -, não vá pegar uma pá e ajudar. Você senta quieto e cala a boca." (pág. 136/137)

"Rachel foi até sua mãe, ajoelhou-se ao seu lado e lhe deu um abraço. Não disse nada. Não sabia o que dizer. Ficou pensando sobre o que a Sra. Moore havia dito minutos antes: 'Você ficaria surpresa com o que as pessoas que achava que eram amigas são capazes de fazer'." (pág. 194)

"-Você não vê? Não dá para ter coragem sem ter medo. Os corajosos sempre temem. Mas, mesmo assim, fazem o que é preciso." (pág. 207)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Veias e vinhos

Título: Veias e vinhos
Autor: Miguel Jorge
Páginas: 262

O livro é um clássico da literatura goiana, por isso tão pouco conhecido por aqueles que não são desta terra. O livro narra a história de um crime ocorrido em Goiânia em 1957, quando a cidade ainda engatinhava.

O crime ocorreu no antigo Bairro Popular (hoje anexado ao Setor Central) onde uma família foi brutalmente assassinada, deixando apenas a filha mais nova, Ana, que a tudo assistia. Como o crime não teve solução, o romance mostra a dor e o sofrimento de Ana e os maus tratos daqueles que foram acusados injustamente. Leitura densa, mas sincera.

Trechos interessantes:

"Calmamente o céu e a noite jogavam estrelas sobre o telhado da cidade. E as estrelas empurravam a Lua para um campo limpo, de onde ela dominava sozinha um espaço azul. Uma noite de abril abrindo-se em meio a um calor novo e fácil de se aguentar." (pág. 25)

"Que surpresas agradáveis ou desagradáveis lhe concederia aquele dia? Padre Bonifácio ficou de passar na venda no final da tarde. Diabo de padre, sempre querendo dinheiro. Dinheiro. Era verdade que o bairro crescia em gente e movimento, que os negócios iam bem, mas, que diabo, dar dinheiro assim, sem mais nem menos, não era com ele. E que Deus lhe perdoasse se estava cometendo pecado." (pág. 78)

"Tinha um desejo secreto de ver o Cristo de verdade. Pensava, mas tinha medo de falar em voz alta. Estava cansado de ver o Cristo pregado na cruz, sofrendo a vida inteira. Queria ver o Cristo vivo, homem de fala humana, igual aos outros homens. Era um mistério, o Padre Bonifácio dizia, mas ele não se conformava." (pág. 101)

"Compreendeu desde o início que seu calvário começava ali. E desejou pacientemente que chegassem logo ao fim. Carregaram-no dali e o dependuraram no pau-de-arara. De cabeça para baixo, suas afirmações começaram a vacilar como seu olho direito. Apertavam mais e mais o interrogatório. O soldado deu uma risadinha, e o delegado também. Usavam de métodos e de várias possibilidades de tortura. Sabiam que mais cedo ou mais tarde ele confessaria tudo." (pág. 135)

"-Mome, vamos paperá um pouco? Onde tem um açougue por aqui?
-Açougue? Bem, ali na esquina tem um do seu Josias.
-Açougue, mome, lupanar, bordel, casa de meninas da vida. Não sabe o que é isso?" (pág. 174)

"Sei tão pouco a respeito de crimes e de prisões, não sei falar aos grandes e não tenho o menor desejo em me arrastar feito verme. Posso esperar por um instante. Por um só instante, mas com dignidade." (pág. 179)

"Chegaram uns dez carniças a fim de fazer caridade. Um arigó me cantou a cantarinha. Fiquei zurro e hurro e entrei com a capoeira, rabo-de-arraia-bico-de-papagaio-uma-dança-de-rato. Acertei um direto numa égua bonita, mandei ela ver a duvela. Mas os sacanas me encalharam enfumaçando o lupanar. Foi aí que meti o espeto no bucho dum estepe que ficou estirante. Me meteram num galinheiro e me jogaram na casa de pedra. Então, malandro, me pus frente ao alconha, sem amor, o malandro precisa de um alveitar, tá com as grampas feias. Pode abrir o bico, que sou mesmo que jorba." (pág. 202)

"[...]mas os repórteres me esperavam com máquinas fotográficas e perguntas e perguntas existem momentos decisivos na vida da gente e aquele era um deles por isso enxuguei as lágrimas e com o rosto vermelho e a voz forte rouca mesmo disse bem alto sou inocente saio da penitenciária após vinte anos de prisão dizendo a mesma frase de quando entrei sou inocente sou inocente [...]" (pág. 252)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Até Deus duvida

Título: Até Deus duvida
Autor: Lêda Selma
Páginas: 170

Gosto muito de crônicas, é um estilo que considero descompromissado. É como se fosse um bate-papo, uma conversa informal sobre assuntos corriqueiros e sem muita importância. E, como são textos pequenos e não sequenciais, podem ser lidos em pequenos intervalos.

O livro em questão apresenta várias crônicas e quase todas humorísticas. A autora cria palavras e nomes próprios que são, no mínimo, risíveis. Onde já se viu "Distraildina", "Pescanildo", "sorveteu", "bombrilesca", "impeixíferas", "Bigolândia", "Doidivino", "cachorrólogo" e por aí vai. Em suma, uma leitura agradável.

Trechos interessantes:

"É notório que ele [computador], às vezes, tumultua nosso relacionamento, ao insistir em intrometer-se nos meus escritos (que mania danosa!). Contudo, ignoro tal ousadia e coloco-o em seu devido lugar. E tenho razão: o abelhudo recusa, substitui minhas palavras e, ainda por cima, sublinha-as de vermelho. Vê-se que o tal ignora a liberdade dos textos literários. Resultado: ficam todos carnavalescos, fantasiados. Tenho culpa se o fulano é deficiente semântico, ou se é pobre seu vocabulário conotativo?!" (pág. 17)

"A mesma sorte não teve a pera, que pela de medo dos pelos daquele bigode sobre a boca que a abocanha. Entenderam?! Ih! os conhecidos pares pára/para, pêlo/pelo, péla/pela, pólo/polo não têm mais o diferencial, mas o "têm", no plural, tem, como sempre." (pág. 20)

"De forma que, a certa altura da prosa, ninguém se aventurava a sequer uma retirada rápida, para acalmar as súplicas das necessidades mais íntimas, naturais e intransferíveis. Por puro medo de ser o próximo candidato a frangalho naquelas bocas debochadas e sem trinco." (pág. 44)

"-Transviarei o que meus antepassados sempre disseram: 'É melhor ouvir bobagem do que ser surdo'. Não, não, não, não é! Pela minha batina, ó Deus protetor dos ouvidos insultados, a surdez, por misericórdia!" (pág. 68)

"A verdade nunca o intimidava, principalmente a verdade dos outros. O que tinha a dizer, dizia, assim, de chofre. A verdade era encomenda que ele não deixava ninguém entregar ao destinatário. Fazia-o de própria boca. Sem retoques nem depois." (pág. 78)

"-Senão, o quê?! Me diga, delegado, o quê? O senhor pensa que vou aceitar que escorchem os meus direitos, é?
- (Escorchem... Que diabo é isso? Ah! não: bandido intelectual...?!)" (pág. 125)

"Que outro jeito, filho, senão recordar!? O irreversível, aprendi, é passagem sem ponte, é rio intransponível e sobre o qual não se pode navegar." (pág. 169)

sábado, 30 de novembro de 2013

Jornada de esperança

Título: Jornada de esperança
Autor: Brian Aldiss
Páginas: 264

De que valeria a vida se você soubesse que a humanidade, em breve, estará extinta? Esta é a tônica do livro. Um panorama assustador (ficcional, mas perfeitamente possível) se desenrola e muda completamente a vida, os hábitos e atitudes de uns poucos remanescentes diante da visão de um futuro que não mais existirá.

O autor cria uma visão de futuro na qual o uso de armas nucleares interfere e modifica os sistemas humanos, fazendo com que as mulheres deixem de procriar. Com isso não há mais nascimentos, apenas mortes e a certeza que a raça humana chegou ao fim. Para quem gosta de ficção, eis aí uma ótima pedida.

Trechos interessantes:

"Uma das características da idade avançada é que todas as conversas levam de volta a épocas pretéritas." (pág. 24)

"A embarcação vinha cortando a correnteza de viés. Dirigia-a o mais desgrenhado bando de antimarinheiros que jamais se tinha visto. Os remadores pareciam igualmente preocupados com impedir a nau de capotar e fazê-la ir em frente. Cumpre dizer que fracassavam por igual em ambos os intentos." (pág. 26)

"-O que estou tentando dizer, Marta, é que, finalmente, os homens começam a perceber que a raça humana não vai mais reproduzir-se. Aqueles bolinhos de carne que costumávamos ver atados em cueiros são coisas do passado. Aquelas menininhas que costumavam brincar com bonecas e sacos de farinha vazios não existem mais. Os adolescentes motorizados que ficavam nas esquinas tocando as buzinas das suas máquinas se foram para sempre. Não voltarão mais." (pág. 57)

"-Documentos! Você fala como esses idiotas da sala vizinha. Respeito a erudição mas não o pedantismo, entenda bem. Escute. Vou evacuar do hospital todos os canalhas que lá existem. E com eles as suas ideias malucas. Não acredito no passado; acredito no futuro.
Para Timberlane aquilo pareceu uma confissão de demência. -O futuro não existe, lembra-se? Nós o liquidamos no passado." (pág. 70)

"Talvez aquele fosse um dos erros inerradicáveis do gênero humano (até mesmo os ateus tinham que reconhecer a falha): o não contentar-se em aceitar uma coisa simplesmente como tal. Sempre se converteram as coisas em símbolos ou em outras coisas. Um arco-íris não é apenas um arco-íris; uma tempestade é penhor da ira celestial, e até mesmo do seio da terra emergem obscuros deuses. Qual o significado disso tudo?" (pág. 113/114)

"Charley interrompeu seus pensamentos, envergonhado do cinismo fácil para que resvalara. Ó Deus, ainda que eu morra, permiti-me viver!" (pág. 140)

"Qualquer sorte é melhor que a morte¹" (pág. 151)

"Tudo isso estava a ensinar uma lição que desde muito devia ter sido aprendida, pensava Artur: jamais permita que um bando de nefastos políticos pense por você. Sem nenhuma dúvida, eles deveriam ter tido suficiente bom senso para mandar explodir na lua os seus engenhos." (pág. 218)

"-Você sabe ao que me refiro: é preciso renovarmos nossa juventude na geração seguinte. Na casa dos trinta, os filhos constituem a nossa alegria. Na dos quarenta, a nossa preocupação e as nossas amarras ao mundo. Na dos cinquenta, talvez surjam os netos para a gente brincar. Vivemos enquanto os nossos netos lá estão para contemplar o nosso sorriso senil e as nossas mágicas... Eles são os nossos substitutos. Mas, se tudo isso desaparece... não é de admirar que as coisas desandem ou que o pobre Charley comece a ver gnomos." (pág. 238)

"Qualquer que seja o papel por nós pretendido na vida, o importante é desempenhá-lo da melhor forma possível." (pág. 259)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A janela de Overton

Título: A janela de Overton
Autor: Glenn Beck
Páginas: 384

Eu esperava mais do livro, a história não chegou a me empolgar como imaginei ao ler a sinopse. A história se baseia mais no romance dos protagonistas que na trama de mistério e conspiração apregoada pela crítica.

O autor quis fazer um livro de ficção baseado em fatos reais, mas, a meu ver, o excesso de fatos reais é que prejudicou o bom andamento da história. Mas pelo menos tenta mostrar como é manipulada a opinião pública em diversos aspectos. Só faltou aquele algo mais para cativar o leitor de fato.

Trechos interessantes:

"Dizem que devemos nos vestir para o trabalho que pretendemos ter, e não para o trabalho que temos. Isto é especialmente verdadeiro no ramo de relações públicas e de assessoria de imagem, em que a aparência é a realidade." (pág. 22)

"Como eu sei de tudo isso? Simples: quando as coisas dão errado, sempre é bom haver alguém que leve a culpa, um vilão, se preferirem. Como dizem por aí, se não se está sentado à mesa para comer, pode ser encontrado no cardápio. Se saírem daqui com a mesma arrogância com que entraram, então, meus amigos, em breve os senhores serão servidos como o prato especial do dia." (pág. 43/44)

"É a primeira regra, e uma das únicas: o melhor trabalho jamais é sequer notado. Se o público vê a mão do marqueteiro ou assessor de imagem, então ele fracassou." (pág. 52)

"As loterias pegam o dinheiro de milhões de pessoas e em troca dão a elas apenas pedaços de papel e decepção; depois - e aqui está o segredo -, os marqueteiros do mundo das relações públicas conseguem ludibriar as pessoas e convencê-las a fazer fila para jogar de novo. Se se consegue enganar as pessoas desse jeito e ainda dormir tranquilo à noite, então é possível que se tenha uma longa e promissora carreira pela frente." (pág. 54)

"Vou dar uma notícia de última hora para você, filho: não existe Papai Noel, nem coelhinho da Páscoa, nem uma Fada da Justiça que dê a mínima para o que você viu. A injustiça existe neste mundo, e, se você tem a sorte de viver protegido da pior parte dela, a maior parte das pessoas não tem." (pág. 123)

"Tudo aquilo que é obtido por um preço baixo demais merece nossa pouca estima: é o alto preço que dá a cada coisa seu valor. Deus sabe como atribuir o preço adequado a suas mercadorias, e de fato seria muito estranho se um bem tão divino como a liberdade não custasse tão caro." (pág. 201)

"A mulher olhou para ele, e sua conduta tinha ficado mais fria. Isso acontece com alguns médicos. Assim que o paciente dá sinais de melhora, eles não veem mais utilidade em ser gentis." (pág. 235)

"Em mais de uma ocasião o velho já tinha dito com todas as letras: se um dia saísse de casa e por algum milagre todas as pessoas do mundo tivessem desaparecido da face da Terra, seria a realização de seu maior sonho. Essa era a prova irrefutável de quanto ele adorava ficar sozinho." (pág. 249/250)

"Quando eu nasci, havia 2 bilhões de pessoas no mundo; agora esse número mais do que triplicou, no período de uma vida. E no meio dessa superpopulação, que está inchando o mundo além do ponto de ruptura, não há muitos Mozart, Einstein, Pascal, Salk, Shakespeare ou George Washington. São uns comilões inúteis e retardados mentais, que estão esgotando a capacidade do planeta." (pág. 254)

"Não tenha medo, ela dissera; esse é o segredo, por pior que seja a situação. Por exemplo, alguém que esteja dentro de um carro dirigindo em alta velocidade para saltar sobre o espaço vazio de uma ponte, já que a possibilidade de parar o veículo é impossível. A maior parte das pessoas desperdiçariam seus últimos segundos de vida pisando, em vão, nos freios. No entanto, o que deveriam fazer, diante da morte iminente, seria rezar e pisar com tudo - porque há sempre uma ínfima chance de se chegar ao outro lado." (pág. 284)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Antes que eu vá

Título: Antes que eu vá
Autor: Lauren Oliver
Páinas: 358

O início do livro parece uma história normal sobre a vida de uma adolescente: Samantha Kingston, suas amigas, suas colegas de escola, se namorado, seus conflitos de adolescência e por aí vai. De repente a história muda, quando ela descobre que morreu, mas tem a possibilidade de reviver aquele dia novamente.

E assim começa a "segunda parte" do livro quando ela tenta mudar os acontecimentos para se salvar e, sempre acontece alguma coisa que a impede de atingir seu objetivo e ela acaba tendo que reviver novamente o último dia. Com a história no seu ápice, você chega a imaginar vários tipos de finais para o livro e, no meu caso, achei o final decepcionante. Mas talvez é porque eu não tenha sensibilidade para entendê-lo. Quem sabe?

Trechos interessantes:

"A questão é: nós podemos fazer coisas desse tipo. Sabe por quê? Porque somos populares. E somos populares porque podemos sair ilesas de tudo. Então é um círculo vicioso.
Acho que o que estou tentando dizer é que não adianta analisar. Se você desenhar um círculo, sempre haverá um lado de dentro e um lado de fora e, a não ser que você seja completamente idiota, é bem fácil perceber qual é qual. É simplesmente assim que funciona." (pág. 17)

"Não devia ter matado a aula de inglês, isso me deu muito tempo para pensar. E pensar não faz bem a ninguém, independentemente do que digam pais, professores e nerds do clube de ciência." (pág. 41)

"Ele não é muito bom com peitos em geral, para falar a verdade. Quer dizer, não é como se eu soubesse como deveria ser, mas sempre que ele toca meus seios, simplesmente os massageia em círculos, com força. Meu ginecologista faz a mesma coisa quando me examina, então um dos dois tem que estar fazendo errado. E, para ser sincera, não acho que seja o médico." (pág. 50)

"Uma boa amiga guarda segredos para você. Uma melhor amiga ajuda você a guardar os próprios segredos." (pág. 83)

"O pior de tudo é saber que não posso contar para ninguém o que está acontecendo - ou o que aconteceu - comigo. Nem mesmo para minha mãe. Acho que faz anos desde que conversei pela última vez com ela sobre coisas importantes, mas começo a sentir falta dos dias que acreditava que ela podia resolver tudo. É engraçado, não é? Quando se é novo, só se quer crescer, e depois só se quer voltar a ser criança." (pág. 103)

"Eis outra coisa a se lembrar: a esperança o mantém vivo. Mesmo quando você está morto, é a única coisa que o mantém vivo." (pág. 106)

"Eis uma das coisas que aprendi naquela manhã: se você ultrapassar um limite e nada acontece, o limite perde o sentido. É como aquele velho enigma sobre uma árvore caindo em uma floresta, e se ela faz ou não barulho, se não há ninguém por perto para ouvir." (pág. 150)

"É a coisa mais esquisita. Sou popular - muito popular -, mas não tenho tantos amigos. O que é mais estranho é que é a primeira vez que percebo isso." (pág. 172)

"Os detalhes que compõem o padrão especial da minha vida, como em colchas de retalhos, que são especiais por causa dos pequenos defeitos na costura, pequenos espaços, altos-relevos e falhas que jamais podem ser reproduzidos.
Algumas coisas se tornam lindas quando você realmente olha." (pág. 261)

"Eu me lembro de que uma vez assisti a um filme antigo com Lindsay; nele o protagonista falava sobre quanto é triste o fato de que na última vez que a pessoa faz sexo ela não sabe que é a última vez. Como nunca nem tive uma primeira, não sou exatamente uma expert, mas suponho que seja assim para a maioria das coisas na vida - o último beijo, a última risada, a última xícara de café, o último pôr do sol, a última vez em que você salta um borrifador de água ou toma uma casquinha de sorvete, ou põe a língua para fora para pegar flocos de neve. Você simplesmente não sabe." (pág. 315/316)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Histórias que nunca esqueci

Título: Histórias que nunca esqueci
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 248

Novamente, mais uma coletânea de histórias de suspense da coleção Alfred Hitchcock. Desta vez são 14 histórias, dos mais variados estilos. O meu gosto pessoal também foi contemplado pois sete das histórias são do meu agrado, o que é raro num livro de coletâneas.

Dentre as que me impressionaram destaco: "A solução Dettweiler", "Vida ou morte" e também "Uma guerra particular". Claro, não são histórias fenomenais, mas as considero acima da média.

Trechos interessantes:

"-Parece muito angustiado, Parker. O que o está perturbando.
-É... Não é nada.
-Tudo é alguma coisa." (pág. 17)

"O prédio lembrou a Walden Swift outro parecido, no qual frequentemente visitara uma jovem que outrora amara. Mas isso acontecera no tempo em que ele era jovem o bastante para acreditar numa moça que lhe dizia para nunca se envolver com as pessoas." (pág. 41)

"Ainda restavam mais cabelos a Seth do que a Porter, embora ele fosse mais velho em três anos. Eu poderia descrevê-los em maiores detalhes, até as cicatrizes, verrugas e marcas distintivas, mas tenho a impressão de que vocês gostariam de ler essas coisas tanto quanto eu apreciaria escrever a respeito. Ou seja, absolutamente nada. Portanto, vamos continuar com a história." (pág. 46)

"-Linda Mae está lhe criando problemas?
-Estava. Passou a ser mais cortês depois que lhe dei uma surra na última vez.
-Deus sabia o que estava fazendo ao criar os homens mais forte do que as mulheres - comentou Porter. - Já imaginou como seria a vida se as mulheres pudessem surrar os maridos, ao invés do contrário?" (pág. 50)

"Há uma lei expressa contra o suicídio em nosso Estado e provavelmente por toda parte. Mas é muito difícil impor o cumprimento dessa lei, tão difícil quanto fazer um bezerro com as quatro pernas quebradas ficar de pé. Não me recordo de ninguém por aqui que tenha sido processado por se matar. E tenho a impressão de que isso nunca acontecerá. Dá para a gente ficar se perguntando o que os homens estavam pensando quando meteram essa lei em particular no código." (pág. 54)

"Ele caminhava pela noite amena como se estivesse em transe. Inválida. Paralisia parcial. Respirador pessoal. Diálise renal.
Chegara bem perto de perdê-la para sempre. E agora acontecia aquilo. Mas que confusão monumental! Myra já era difícil o bastante de suportar quando estava bem... o que quase nunca acontecia. Vinte anos de hipocondria e nunca houvera uma única doença fatal. E agora acontecia aquilo. Uma inválida." (pág. 125)

"O joelho rígido, resquício de um acidente de automóvel cinco anos antes, não doía mais. Era apenas um incômodo às vezes. Mas também um homem se aproximando dos 50 anos, com todos os sonhos de tornar-se um heroi do mundo dos esportes ou outro Fred Astaire, não precisava de articulações flexíveis para ensinar história a alunos do primeiro ano." (pág. 151)

"Michael viera ainda no meio da semana para trabalhar, trazendo as provas de sua última novela. Precisava passar vários dias fazendo as correções. Era a única parte do processo de escrever que realmente apreciava, a última etapa, quando o livro ainda era parte dele. A partir do momento em que aparecesse entre capas, passava a pertencer aos outros." (pág. 228)