segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Os doze mandamentos

Título: Os doze mandamentos
Autor: Sidney Sheldon
Páginas: 248

Chego a duvidar que este livro seja mesmo da autoria de Sidney Sheldon, já que foge totalmente do seu estilo. Trata-se de uma coleção de histórias simples - simples mesmo - que contam, de forma humorística, sobre os mandamentos legados a Moisés.

Pra início, o autor se acha no direito de alterar a quantidade de mandamentos, assegurando que são doze. Após um preâmbulo que destaca as virtuosidades dos mandamentos, passa a apresentar histórias em que as personagens violaram os mandamentos e se deram bem. Em suma, muito simples.

Trechos interessantes:

"Moisés disse a seu povo que quem violasse aqueles mandamentos seria punido.
Esse é o lado de Moisés. Mas vou contar algumas histórias sobre pessoas que violaram os Mandamentos de Deus. E o que aconteceu com elas? Tornaram-se ricas, famosas e felizes." (pág. 22/23)

"No dia seguinte, quando Ralph almoçava num restaurante, a garçonete derramou café quente em sua mão, que ficou queimada. Ralph foi levado ao pronto-socorro.
No hospital, Ralph seguiu por um corredor que acabara de ser encerado, escorregou, levou um tombo e quebrou a perna.
Puseram-no numa maca e levaram-no para a sala de radiografia. Ali, o interno esbarrou na maca, Ralph caiu e quebrou o braço.
Passou duas semanas no hospital; ao voltar para casa tinha um braço e uma perna engessados, e a mão enfaixada." (pág. 69)

"Roger conversou com a esposa.
-Não vai sobrar nenhum dinheiro em nossa poupança. Sua mãe está gastando tudo.
-Querido, mamãe é uma velha. Vamos deixar que ela se distraia um pouco.
-Uma velha? - gritou Roger. - Ela viverá mais do que nós. Nada pode matá-la. Se a mandassem para a jaula de um leão, o leão acabaria morrendo. Ela falaria até o leão se suicidar." (pág. 111)

"A verdade é que Tom tinha medo de Marvin Gable, um homem autoritário que gostava de ser mesquinho com seus empregados. Era muito rico, mas não passava pela sua cabeça partilhar essa riqueza. Pagava os menores salários da cidade e se gabava por isso." (pág. 147)

"-Como pode chamar aquilo de casa? Não passa de uma pilha de madeira apodrecida! Eu não deixaria nem mesmo meu cachorro viver ali!
-Não tem nenhum cachorro.
-Claro que não. Não teríamos condições de alimentá-lo. Nem nós comemos direito, porque todo o dinheiro vai para aquela estúpida conta de poupança." (pág. 197)

"Os amigos viviam dizendo que David era um tolo por ser sempre tão honesto, que de vez em quando uma pessoa tinha de dizer uma mentira." (pág. 215)

sábado, 6 de agosto de 2016

O outro gume da faca

Título: O outro gume da faca
Autor: Fernando Sabino
Páginas: 104

Aldo Tolentino descobriu-se traído pela esposa e resolveu dar fim à situação. Planeja o crime perfeito para matar a esposa e o amante e, ao executá-lo, percebe que o plano é perfeito demais. Quando resolve confessar o crime, descobre que ninguém acredita nele.

A novela é parte da trilogia "A faca de dois gumes" que entre revelações de intriga, amor e mistério acaba na eterna discussão do crime perfeito. É uma história pequena, simples, de linguagem fácil, mas nem por isso menos interessante.

Trechos interessantes:

"Ai daquele que sabe: há de pagar pela culpa de ter sabido pouco. [Soren Kierkegaard]" (pág. 8)

"-Sabe de uma coisa, Dr. Tolentino? Pode parecer estranho, mas o marido traído desperta mais desprezo que a mulher e o amante. A não ser que ele se vingue." (pág. 66)

"Começava a perceber que o seu plano, tão exaustivamente concebido e executado, até mesmo com o imprevisto do crime que não chegou a premeditar, era um álibi de tal maneira perfeito que não havia como destruí-lo - faca de dois gumes, capaz de salvá-lo mas de ser a perdição de seu filho." (pág. 92)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

As filhas sem nome

Título: As filhas sem nome
Autor: Xinran
Páginas: 290

Inconformado pelo fato de não ter filhos homens, um pai resolveu que não colocaria nome nas filhas, de tal forma que elas foram sendo chamadas simplesmente por números, na ordem que iam nascendo... A filha Três, determinada a mudar de vida, saiu da aldeia rural e foi para a cidade grande, iniciar uma nova vida. Depois de Três (e induzida por ela) partiram também Cinco e Seis.

O livro relata a adaptação delas aos costumes da cidade, entremeadas pela lembrança constante das orientações da mãe. O livro procura mostrar a discriminação com que as mulheres chinesas são tratadas e a tentativa de algumas dessas mulheres a mudarem os hábitos tão arraigados em sua cultura. Para nós, ocidentais, parece um absurdo que ainda existam coisas semelhantes no mundo...

Trechos interessantes:

"Sua filosofia era que, se alguém não tem dinheiro para se divertir, é necessário jogar um pouco de conversa fora para dar cor à vida, senão a pessoa enlouquece de tédio." (pág. 24)

"Ela se lembrava das palavras da sua mãe: 'Se alguém salva a sua vida com um gole de água, nem mesmo cavar um poço será o suficiente para retribuir esse gesto'." (pág. 30)

"As pessoas com melhor nível de educação imediatamente ficaram com uma pulga atrás da orelha. Para elas, tratava-se apenas de mais uma manobra política disfarçada, e era melhor não se envolver. Afinal de contas, o primeiro porco a engordar é o primeiro a ir para a mesa." (pág. 53)

"Talvez na cidade houvesse mais respeito pela ideia de beleza. Seis pensou com tristeza nas garotas que haviam sido suas colegas no primário e que agora estavam todas casadas. Se tentassem parecer bonitas, tornavam-se motivo de escárnio. Isso era algo que simplesmente não se fazia." (pág. 92/93)

"Sabia que todos a tomavam por uma idiota, então seguia o conselho de sua mãe: 'Não abra a boca, assim ninguém, por mais inteligente que seja, poderá fazer você de boba'." (pág. 115)

"'Oh, Cinco',Três disse, 'usar as coisas dos outros não é a mesma coisa que pegar emprestada alguma coisa da sua família! O que a mãe nos disse antes de partirmos? Mesmo se não há arroz na casa da sua família, é melhor morrer de fome do que pegar o mingau das outras pessoas'!" (pág. 130)

"Um chinês que começara havia pouco tempo a aprender inglês deu um encontrão em um inglês na rua e pediu desculpas em inglês: I am sorry. O inglês respondeu I am sorry too. O chinês, pensando que precisava ficar à altura da educação do inglês, disse: I am sorry three. O inglês não entendeu: What are you sorry for? O chinês, determinado a não passar por uma pessoa rude, disse: I am sorry five." (pág. 138/139)

"Os antigos costumavam dizer que 'o homem sábio não demonstra medo diante do inesperado e não demonstra raiva diante de acusações injustas'." (pág. 155/156)

"Se as pessoas não têm ninguém com quem se comparar, não sabem que estão sofrendo injustiças. São as comparações que deixam as pessoas infelizes: aqueles que não sabem o que é uma fortuna, não sabem o que é a pobreza. Somos tão pobres aqui que nem mesmo os oficiais da vila vêm nos visitar. Por que quereriam? O que ganhariam com isso? Um bocado de água salgada e uma fatia de pão de batata-doce... Se eu saísse por aí falando sobre a vida das pessoas ricas para todos, acha que gostariam de mim? Quanto menos as pessoas tiverem de se preocupar, melhor. Podem ser pobres, mas estão em paz. Não causam problemas, e isso é o mais importante." (pág. 220/221)

"Felicidade é saber aceitar o próprio destino..." (pág. 221)

"'O marido a trata bem?', perguntei.
A jovem olhou para mim como se eu fosse um ser extraterrestre. O que 'bem' e 'mal' significam para ela? Você apenas vai com a pessoa com a qual os seus pais a casam, independentemente de quem seja! Esse foi o destino de milhões de mulheres chinesas desde o início dos tempos..." (pág. 271)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Operação Perfeito

Título: Operação Perfeito
Autor: Rachel Joyce
Páginas: 304

Byron, um garoto de 11 anos, foi informado pelo colega que dois segundos seriam adicionados ao tempo para corrigir a sincronia do movimento da Terra. Byron ficou tão perturbado com a notícia que, qualquer coisa diferente que acontecia, ele atribuía ao acréscimo dos dois segundos. E várias coisas aconteceram...

A mãe se mata, o pai o abandona, o melhor amigo se muda, ele transforma-se num paranoico, passa por instituições de apoio e nunca mais consegue ser uma pessoa normal. Tudo isso começou por causa dos dois segundos... Livro tenso e sombrio, mas interessante.

Trechos interessantes:

"-A gente vai se atrasar.
-A gente nunca se atrasa - disse Byron. Era uma regra do pai deles. Um inglês deve sempre ser pontual.     (pág. 19)

"James Lowe contou para Byron, certa vez, que fazer mágica era uma questão de brincar com a verdade. Não era uma mentira. O que as pessoas viam, disse ele, dependia muito do que estavam procurando." (pág. 34)

"-[...]Embora seu pai seja um homem muito inteligente, é claro. Muito mais do que eu. Nunca li um livro do começo ao fim.
-Você lê revistas. Você lê livros de receita.
-Sim, mas eles têm fotos. Livros inteligentes só têm palavras." (pág. 39/40)

"Existem lacunas em sua memória, lacunas de semanas, de meses, e às vezes até de mais. Relembrar o passado é como viajar para um lugar onde ele esteve uma única vez, e descobrir que tudo foi suspenso e desintegrado." (pág. 72)

"Paula diz que o problema é que pessoas como Jim são boas demais. E ele sabe que o problema não é esse. O problema é que as pessoas precisam que outras pessoas - como Eileen - sejam ruins demais." (pág. 130)

"Eles conversam sobre várias coisas. A jardinagem dele, as novidades no café do supermercado. Quando ele descreve o aconchego ela gargalha bem alto, e ao ouvi-la gargalhando ele também enxerga o lado engraçado da história, e não sente mais medo. Ele pensa no quanto gostaria de ter aquilo na vida, a gargalhada dela, sua forma de enxergar as coisas, e se pergunta se é isso que as pessoas buscam em um parceiro ou amigo: a parte de si mesmos que está faltando." (pág. 212)

"Às vezes é mais fácil, pensa ele, viver os erros que cometemos do que reunir a energia e a imaginação necessárias para consertá-los." (pág. 294/295)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Contos maravilhosos caucasianos - Saga Azerbaijana

Título: Contos maravilhosos caucasianos - Saga Azerbaijana
Autor: Imam Raguza
Páginas: 118

O livro apresenta uma tradução do sueco para o português dos contos comuns aos povos da região do Cáucaso. São contos semelhantes às nossas lendas e que são transmitidos, geralmente, de forma oral de uma geração à outra. Na essência, os contos se assemelham a muitos outros que são comuns à nossa cultura, mudando-se apenas as personagens.

Encontrei o livro por acaso na biblioteca da escola em que trabalho e, mais por curiosidade que por prazer, me dediquei à sua leitura. A história em si é simples, o livro é pequeno e apresenta uma fonte com tamanho grande, possibilitando a conclusão da leitura em poucos minutos.

Trechos interessantes:

"Antes,
ele se orgulhava só de imaginar que,
em nenhum outro lugar do mundo,
houvesse alguém que,
em generosidade,
dele pudesse sequer se aproximar.

Mas agora estava convencido de que,
em verdade,
Ferbad era mais generoso do que ele." (pág. 22/23)

"Com esta voz,
você não pode ser o nosso muezzin.
Entre a sua voz e a dele,
a diferença é tão grande
quanto a distância entre o céu e a terra." (pág. 44/45)

"Somente agora,
eu pude entender
o que significavam
aquelas palavras de minha mãe,
bem como o tipo de pessoas
que eram os meus amigos,
e o quanto me haviam enganado." (pág. 92/93)

domingo, 17 de julho de 2016

Livro de Ana

Título: Livro de Ana
Autor: Ursulino Leão
Páginas: 188

O livro data de 1972 e é uma coletânea de crônicas que o autor publicou nos jornais da região, no período de 1951 a 1967. Quase todas estão relacionadas à cidade de Anápolis, cidade bem conhecida e admirada por Ursulino Leão.

A crônica é um gênero temporal, ou seja, geralmente está ligada a um período específico. Ela é importante para conhecermos as necessidades e os problemas vivenciados, nesse caso, pela população de Anápolis no período mencionado. Mesmo assim, muitos dos problemas citados ainda estão em voga até os dias de hoje...

Trechos interessantes:

"Naqueles velhos tempos, eram outras as brincadeiras e a infância se prolongava, bendita e alegre. A fabricação de brinquedos não atingira ainda o espantoso desenvolvimento de hoje. Não se viam bonecas que andam. Nem bichos que correm. E os poucos velocípedes que se vendiam, custavam o olho da cara. A meninada, pois, se largava para as pescarias estabanadas. Ou ia caçar passarinhos nas redondezas. Ou, simplesmente, vagabundeava..." (pág. 20)

"Pôncio Pilatos, examina-o Fulton Sheen, visando as relações da Religião com a Política. E se aprofunda no assunto magnífico, considerando a supremacia que o político, sobre o espiritual, vai alcançando no mundo de hoje. O Pilatos, dos templos bíblicos, figura o Estado onipotente que desconhece limites ao seu poder. E é uma advertência: 'o grande perigo de agora, não é a religião na política, mas a política na religião. Tendem os Estados a dominar a família, a cultura e a alma. Haverá, no futuro, uma religião de Deus e uma religião do Estado'." (pág. 28)

"É para buzinar, a buzina. Não há dúvida. Mas buzinar à toa, não. Floresta de Miranda, na 'Tribuna da Imprensa', tratando de assuntos referentes ao tráfego, salientou que o motorista britânico não usa buzina. Embora não haja proibição nesse sentido. 'Ou o caminho está livre e, nesse caso, ela não se faz necessária, ou está impedido, e também não é preciso usá-la', afirma o comentarista. Mas, uma buzinada, de quando em quando, talvez seja útil. Rápida, educada. A título de aviso. Buzinar a cada momento, ensurdecedoramente, sem motivo algum, valha-me Deus, ó choferes!" (pág. 34)

"Goiaz, sem 'z', com aquele acento antipático, por cima, é o mesmo que Bahia sem 'h'. Às favas a Gramática e viva o gosto da gente!" (pág. 36)

"A gente tolera, com algum esforço,que a velha Colônia não haja combatido a brutal destruição de nossas florestas. A sua economia repousava na monocultura, que se nutre de grandes áreas, insaciavelmente. A administração portuguesa, ávida de lucros, não atinava com a necessidade de poupar as matas brasileiras. E o colono, por sua vez, cuidava apenas de enriquecer. À sua prosperidade pouco importava que a terra fosse ou não rudemente espoliada." (pág. 53)

"Na verdade, pintura moderna é estranha arte!" (pág. 95)

"[...] de tudo o que vimos, muita coisa, sem dúvida, me fugiu à compreensão. Estava, porém, comigo a palavra - explicação e estímulo - de Picasso: 'todo o mundo quer compreender a pintura. Por que não buscar compreender o canto de um pássaro? Por que amamos a noite, as flores, tudo que nos rodeia, sem precisar compreender? Mas no caso de um quadro as pessoas fazem questão de compreender'." (pág. 96)

"Como aquele réu, citado por J. Pinto Loureiro, que, no Tribunal do Júri, depois de ouvir a própria biografia, narrada pelo seu defensor, confessara não saber que havia sido tão desgraçado, - convém a paráfrase - faz bem provável que nem todo advogado sinta o quanto se faz necessária a sua presença atuante no mundo de hoje." (pág. 168)

domingo, 10 de julho de 2016

Histórias de arrepiar os cabelos

Título: Histórias de arrepiar os cabelos
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 206

Mais uma coletânea de histórias de mistério e suspense, organizadas sob o nome do mestre do suspense. Em alguns dos livros desta série há um texto introdutório (somente para jogar conversa fora), como tendo sido escrito pelo próprio Hitchcock. Este exemplar é um deles.

O livro reúne um total de 14 histórias de gêneros variados. De todas, apenas cinco delas chamaram a minha atenção. Destaco especialmente  "Ódio às crianças" e "Variações de um episódio".

Trechos interessantes:

"-É - disse Gus. -Femme fatale. É o que ela era, isso mesmo... fatal. E existem cinco homens, mortos há quarenta anos, para provar. E de fato, se não fosse um acaso da sorte, eu estaria morto como eles. - Meneou a cabeça com tristeza. -E tudo por causa do amor. É uma coisa perigosa esse tal de amor. Tudo que tenho a dizer é: não se meta com ele. O amor é mais forte do que qualquer pessoa." (pág. 18)

"Martha concluiu que estava falando com uma daquelas raras pessoas que não gostavam de admitir seus impulsos suicidas. A maioria dos suicidas em potencial não tinha esse tipo de constrangimento. A antiga crença de que as pessoas que ameaçavam suicidar-se nunca o faziam já havia sido desmentida há muito tempo. Conhecia histórias de muitos suicidas que haviam ameaçado repetidas vezes de tirar a própria vida antes de fazê-lo realmente. No entanto, havia casos em que o suicida não dava nenhum aviso antecipado." (pág. 27)

"Entendo um pouquinho de tudo. Meu cabedal de conhecimentos gerais é talvez maior do que a média, se quer saber a verdade, mas com relação a falsificação, não sou ninguém. Nem mesmo sei como se escreve.
Cédulas falsas e moedas nunca me atraíram nem um pouco. Na verdade, a ideia de falsificar dinheiro nunca me agradou. Gosto muito do verdadeiro para meter-me com substitutos baratos." (pág. 64)

"Um sonho pode ser mais importante do que a própria vida..." (pág. 96)

"Bateu levemente sob os números cromados: 421. Uma joia mnemônica, o segundo número era a metade do primeiro, o terceiro a metade do segundo. Lembrando-se do primeiro, sabe-se os outros." (pág. 177)

domingo, 3 de julho de 2016

O sobrevivente

Título: O sobrevivente
Autor: Aleksander Henryk Laks / Tova Sender
Páginas: 174

O livro relata os horrores testemunhados por uma pessoa que escapou de Auschwitz. Os livros de história nos ensinam sobre as atrocidades do holocausto, mas nada se compara ao relato de alguém que viveu na própria pele todo tipo de sofrimento.

O sobrevivente não era brasileiro (como faz crer o subtítulo), mas um polonês que, após escapar de Auschwitz, conseguiu se radicar no Brasil. Para quem gosta de relatos biográficos e quer aprender um pouco mais sobre história, eis aí uma boa dica.

Trechos interessantes:

"Achávamos que ganharíamos a guerra contra Hitler. Éramos ingênuos; não havíamos vivenciado ainda nenhum tipo de violência na nossa curta e feliz infância." (pág. 25)

"Os judeus tiveram que executar trabalhos forçados, como fazer faxina nos quartéis sem material de limpeza, com as próprias mãos. Igualmente com as mãos limpavam as ruas e os bueiros. Eram obrigados a passar por todo gênero de humilhações, como cavar valas, tirar a roupa e atirar na vala, e dançar sobre a roupa cantando os cânticos sagrados." (pág. 35)

"Eram muitos os enfermos, mas não havia nenhum medicamento. Entre nós, difundiu-se a crença de que a casca de batata continha todas as vitaminas, além de elevadas qualidades terapêuticas para as enfermidades e pestes que grassavam no gueto. Durante todos aqueles anos, a casca de batata foi o nosso remédio." (pág. 44)

"As deportações prosseguiam, ninguém sabia para onde. Nós, que permanecíamos no gueto, defendíamos a nossa sanidade mental tentando não acreditar no pior. Nós nos enganávamos para sofrer menos. Enganávamos uns aos outros. Sobreviver tornou-se uma obsessão. Investíamos todas as nossas forças numa só direção: sobreviver, sobreviver, obter mais um pedaço de pão, um pouco de sopa, um dia a mais, conseguir acordar no dia seguinte. Evitávamos fazer conjecturas quanto àquilo que temíamos." (pág. 59)

"Tenho muitas marcas. Tenho cicatrizes de todo tipo. Minha alma está cheia delas. Meu corpo também. Minha memória, meu pensamento, meu sono, meus sonhos, meus dias e minhas noites." (pág. 111)

"-Meu filho! Não posso andar, mas você deve prosseguir. E, se sobreviver, jamais deixe de contar o que nos ocorreu. Sei que não entra na cabeça de ninguém que algo assim possa acontecer; que seres humanos possam chegar a um nível tão baixo de crueldade e fazer o que fizeram a outros homens. Mas você tem que contar. Se pelo menos uma pessoa acreditar, você já terá feito a sua parte." (pág. 127)

"O fim da guerra e a nossa libertação marcaram o início de uma outra batalha. Tínhamos que recomeçar; sem parentes, casa, dinheiro, comida, roupas ou documentos. Nada. Além de tudo, permanecíamos no meio de gente hostil. Ninguém se importava com a nossa situação, e continuávamos abandonados. Ninguém veio ajudar; não havia comida, médicos ou remédios. Eles nos libertaram por acaso. Nós estávamos lá, simplesmente..." (pág. 149/150)

"Espero que o meu passado não seja o futuro das gerações que estão por vir. Procuro mostrar aos jovens como as mentes das pessoas foram esvaziadas e dominadas por um louco, por ideias absurdas, e como se perdem o controle e o discernimento dos próprios atos. Alerto sempre para esse perigo..." (pág. 167)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Contos novos

Título: Contos novos
Autor: Mário de Andrade
Páginas: 152

Encontrei o livro por acaso e, folheando, comecei a ler um dos contos (O poço). Entusiasmei e levei o livro pra casa para ler o restante. O bom dos contos é que são histórias curtas e pode-se ler em pequenos intervalos.

São nove contos, no total, e ainda uma análise detalhada de cada conto, típico para que vai prestar vestibular. No fim do livro há ainda alguns testes sobre o conteúdo. De todos os contos o que mais gostei foi realmente "o poço".

Trechos interessantes:

"Ia devagar porque estava matutando. Era a esperança dum turumbamba macota, em que ele desse uns socos formidáveis nas fuças dos polícias. Não teria raiva especial dos polícias, era apenas a ressonância vaga daquele dia. Com seus vinte anos fáceis, o 35 sabia, mais da leitura dos jornais que de experiência, que o proletariado era uma classe oprimida. E os jornais tinham anunciado que se esperava grandes 'motins' do Primeiro de Maio, em Paris, em Cuba, no Chile, em Madri." (pág. 47/48)

"Só quem estava imaginando que enfim se arranjara na vida era o vigia, esse, um caipira da gema, bagre sorna dos alagados do rio, maleiteiro eterno a viola e rapadura, mais a mulher e cinco famílias enfezadas. Esse agora, se quisesse, tinha leite, tinha ovos de legornes finas e horta de semente. Mas lhe bastava imaginar que tinha. Continuava feijão com farinha, e a carne-seca do domingo." (pág. 83)

"Ora em mim sucede que a inveja não consegue nunca se resolver em ódio, nem mesmo em animosidade: produz mas uma competência divertida, esportiva, que me leva à imitação." (pág. 107)

"O melhor alívio para a infelicidade da morte é a gente possuir consigo a solidão silenciosa duma sombra irmã. Vai-se pra fazer um gesto, e a sombra adivinha que a gente quer água, e foi buscar. Ou de repente estende o braço, tira um fiapo que pegou na vossa roupa preta." (pág. 120/121)

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Como fazíamos sem...

Título: Como fazíamos sem...
Autor: Bárbara Soalheiro
Páginas: 144

O livro é uma aula de história, contada da maneira mais natural possível. Como é um livro indicado para jovens, a linguagem é simples e de fácil entendimento e as histórias, em sua maioria, são recheadas com muito humor.

Livro de curiosidades, mas quem não gosta de se divertir com algumas coisas estranhas e sem nexo de vez em quando? O livro cumpre a finalidade a que se destina: instrui de forma agradável e divertida.

Trechos interessantes:

"Quando sua mãe pedir sua ajuda para descascar batatas ou cebola, obedeça. Se você tivesse nascido no século XIX,o pedido poderia ser muito pior. Ela com certeza ia querer que você ajudasse a acender o fogo." (pág. 18)

"Talheres eram tão raros - e, por isso mesmo, valiosos - que apareciam nos testamentos de pessoas ricas. E garfos, que hoje nos parecem tão inofensivos, chegavam a ser malvistos pela Igreja. 'Deus, em sua sabedoria, deu ao homem garfos naturais - seus dedos. Assim, é um insulto a Ele substituí-los por garfos de metal', escreveu um padre italiano no século XI, ao ver que a esposa do governante de Veneza tinha o 'estranho' hábito de não usar as mãos durante as refeições." (pág. 28)

"Apesar de servirem a propósitos bem pacíficos, os armários verticais - como usamos hoje - foram criados para guardar espingardas. Inclusive, foi por causa da arma que o móvel ganhou esse nome." (pág. 61)

"Três graus de miopia. Hoje, um diagnóstico como esse é bobagem. Afinal,você pode viver normalmente usando um par de óculos. Mas, há alguns séculos, um problema de visão assim era sinônimo de aposentadoria. O senador romano Marcus Tulius Cícero, por exemplo, quase perdeu o emprego quando a idade o impediu de ler sozinho. Como tinha dinheiro, Cícero resolveu o problema do jeito que se fazia na época: comprou escravos que pudessem ler para ele." (pág. 84)

"Marinheiros tinham uma técnica ótima para a lavagem de roupas sujas. Eles colocavam tudo dentro de uma sacola de tecido bem resistente e amarravam-na pelo lado de fora do navio, deixando-a ser arrastada por horas. Com o avanço do barco e a força do mar, a água conseguia remover boa parte da sujeira das roupas." (pág. 91)

"Prova de que não são exatamente os tempos, mas o caráter de cada povo que determina as tradições, é o costume de tomar banho. Ou de não tomar. Os gregos e romanos, por exemplo, sempre foram adeptos da prática. Já os europeus, em pleno século XIX, fugiam da água como se ela fosse praga. Literalmente. É que como a água quente dilata os poros, os médicos europeus acreditavam que os banhos facilitavam a entrada de germes. Ou seja, fugir das banheiras era recomendado como uma medida de higiene." (pág. 98)

"Também é possível que a família Soalheiro, que assina esse livro, não fosse muito ocupada durante o século XII. É que uma das definições para o sobrenome é 'grupo de pessoas ociosas, que fica ao sol falando da vida alheia!'. Parece que fofoqueiro já era profissão nessa época... (pág. 143)

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Contos fantásticos do século XIX

Título: Contos fantásticos do século XIX
Autor: Italo Calvino
Páginas: 518

O livro apresenta uma seleção de contos, de diversos autores, selecionados por Italo Calvino. Contos fantásticos são aqueles em que há alguma coisa sobrenatural, misteriosa, absurda ou simplesmente estranha à realidade normal. Daí serem abundantes os casos de fantasmas, assombrações e outras coisas do gênero.

Como em toda seleção, há contos que são bons e outros que nem tanto. Mas esta é uma interpretação pessoal, o que não compromete a qualidade do material. Entre os vários, pelo menos um, com certeza, será do seu agrado. Boa leitura.

Trechos interessantes:

"Do Misterioso, que com tanta frequência envolve o homem nos seus braços invisíveis, nem o mais tênue raio de luz lhe penetra o gélido coração. Ela não vê senão a superfície colorida das coisas do mundo e, tal como a ingênua criancinha, deixa-se fascinar pelo brilho dourado da fruta que na polpa esconde o veneno mortal." (pág. 58)

"Ora, palavras, de que servem as palavras? O seu olhar paradisíaco diz mais do que qualquer idioma. Acaso uma criatura do céu há de se nivelar ao estreito círculo traçado pela precária necessidade terrena?" (pág. 75)

"Como a humanidade não muda, pode-se dizer, como um velho autor, que quanto menos canalhas houver nas galés, mais haverá do lado de fora." (pág. 141)

"Ora essa! Afinal, o que é que é a morte, que a gente deve se espantar tanto?... Considero que a morte não vale um tostão furado! 'Ninguém morre antes da hora!', disse Sêneca, o Trágico. Será que você é o único vassalo dessa dama da foice? Eu também sou, e aquele ali, e um terceiro, um quarto, Martin, Philippe! A morte não tem respeito por ninguém. É tão atrevida que condena, mata, e pega indistintamente papas, imperadores e reis, assim como prebostes, policiais e outros canalhas do gênero." (pág. 168)

"O diabo em sua própria forma é menos hediondo do que quando se alastra no peito do homem." (pág. 181)

"Talvez seja preciso acrescentar que a superstição ilustrada pela história abaixo, ou seja, que o cadáver enterrado por último seja obrigado, durante os primeiros tempos de seu enterro, a fornecer aos irmãos inquilinos do campo-santo onde ele jaz, água fresca para aliviar a sede ardente do purgatório, é recorrente em todo o sul da Irlanda. O escritor garante um caso em que um fazendeiro, poderoso e respeitável, nas fronteiras de Tipperary, enternecido pelos calos de sua finada ajudante, colocou no caixão dela dois pares de tamancos, um pesado e um leve, um para os dias secos, outro para o tempo úmido; procurava, dessa maneira, mitigar o cansaço de suas inevitáveis perambulações em busca de água, administrando-a às almas sedentas do purgatório." (pág. 268)

"Aguarde, não vem tudo de uma vez; aquilo que você não entender agora, há de entender com o passar dos anos." (pág. 344)

"'Você trabalha demais', disse; 'a juventude precisa de diversão, teatro, passeios, amori - há bastante tempo para ser sério, quando se fica careca'." (pág. 375/376)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Fomos maus alunos

Título: Fomos maus alunos
Autor: Gilberto Dimenstein / Rubem Alves
Páginas: 126

Livro interessante que discute vários aspectos da educação, de uma maneira simples, prazerosa, como se fosse realmente uma conversa entre amigos.

Passa-se o tempo e tudo evolui, não é diferente com a educação. Por mais que se discuta, que se mude, que se experimente, sempre vai haver uma nova visão, uma nova metodologia, um novo recurso... e é isso que faz com que busquemos nos tornar sempre, pessoas melhores. A educação é a chave, sem dúvida.

Trechos interessantes:

"Bruno Bettelheim, já velho, lembrando-se de suas experiências de criança disse que na escola os professores tentavam ensinar-lhe o que ele não queria aprender da forma como eles queriam ensinar." (pág. 8)

"Como jornalista, ganhei todos os prêmios. Ganhei todos os prêmios várias vezes. Depois, ganhei como escritor. Quando comecei a ganhar prêmios, perguntei para mim mesmo: O que deu errado? Que deu errado com as previsões das pessoas que diziam que eu ia dar errado?" (pág. 29)

"Inútil te será levantar de madrugada e te afadigares por todo o dia porque Deus, àqueles que ama, dá enquanto dormem." (pág. 35)

"Penso nos professores que sonham com a aposentadoria. Não são amantes. Somente querem se aposentar os que sofrem com o seu trabalho. Quem tem alma de educador - quem ama ser educador - quer ser educador sempre..." (pág. 48)

"Todas as vezes que você precisa pedir disciplina é porque alguma coisa está errada. Quando o jovem está realmente fascinado pelo objeto, você não precisa pedir. Você não pede a uma criança: Meu filho, vá brincar! Por quê? Porque ele quer brincar." (pág. 68)

"Se tivesse de resumir minha visão sobre educação, diria o seguinte: o educador é o aprendiz há mais tempo e educar é ensinar o encanto da possibilidade." (pág. 82/83)

"Eu ainda acho o seguinte: não é que a criança não goste da escola. Ela não gosta da sala de aula, mas da escola, geralmente, ela gosta." (pág. 91)

"Engraçado que a palavra pedagogo vem do grego. É o escravo que conduz criança. De alguma forma, isso voltou. Porque, pelo salário que o professor recebe, pelo pouco tempo de preparo de aula que tem, ele voltou a ser o escravo que conduz criança." (pág. 101)

"Lichtenberg, que foi um filósofo do século XVIII e amado por Nietzsche e Murilo Mendes, dizia: . Porque é preciso não conhecer para ter vontade de conhecer, de esquecer, de desaprender. Barthes, ao final da sua famosa aula inaugural, disse que se entregava a desaprender tudo o que tinha aprendido. Acho que foi Cassirer que disse que é muito mais difícil desaprender o aprendido do que aprender uma coisa nova. O aprendido se agarra na gente de uma forma terrível e é o aprendido que impede que eu aprenda uma coisa de uma maneira diferente. Então, é preciso desaprender o aprendido." (pág. 107)
Hoje, se criam escolas e faculdades para ensinar os novos saberes. Eu sonho com o dia em que se criarão faculdades para ensinar a antiga ignorância

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O vencedor

Título: O vencedor
Autor: Frei Betto
Páginas: 162

Leitura fácil e simples, ideal para adolescentes, ainda mais que o tema é justamente indicado para esta faixa etária. Mário é um rico empresário que só se preocupa com os negócios da empresa. Mônica, sua esposa, só se interessa em manter o corpo em forma. O resultado disso tudo é o filho que, sem apoio de nenhum dos lados, se envereda pelo rumo das drogas.

O livro mostra uma situação possível para diversas famílias brasileiras. De um lado os pais tentando resgatar o filho; do outro o imenso poderio do submundo das drogas.  Teremos um vencedor?

Trechos interessantes:

"Conduzida pelo pai, Mônica, pé ante pé, percorre a nave do templo com um sorriso giocondamente ensaiado. Boneca mecânica, vira a cabeça à direita, à esquerda, olhando a todos sem ver ninguém. Como em toda noiva, o excesso de maquiagem, as ondulações artificiais do cabelo e a pose empertigada encobrem sua beleza natural." (pág. 20)

"Era preciso circular por festas, recepções e eventos, única maneira de chamar a atenção dos colunistas sociais e, por sua vez, dos leitores que respeitam, com resignada admiração, essa gente que supostamente vive num conto de fadas." (pág. 40)

"-É chato ser negro?
-Chato é ter uma irmã imbecil - reagiu Pedro.
-Eu é quem devo responder - cortou Paulão, segurando o braço do amigo, como se quisesse contê-lo. -Não, é ótimo ser negro. Chato é ser discriminado por ser negro." (pág. 45)

"É muito cinismo da minha parte vir, agora, pedir socorro. Mas, sei lá; alguma coisa dentro de mim dá forças para que eu escreva esta carta. Nem que seja para saberem que estou no início do fim." (pág. 127)

"-Somos todos resultados da loteria biológica - diz Quitéria. -Ninguém escolhe nascer onde nasceu. Você podia ter nascido no Borel, na família do Paulão, ou em Vitória no lugar de Clara. Isso é obra do acaso. O injusto é muitos nascerem sem ter o que comer e, outros, com menos fome do que a comida que compram." (pág. 146)

"Em 1885, impelido pelo sucesso do vinho Mariani, John Styth Pemberton, um farmacêutico de Atlanta, lançou um medicamento contra a melancolia, pomposamente intitulado Frech Wine of Coca, Ideal and Tonic Stimulant, hoje conhecido como Coca-Cola.
-Quer dizer que a Coca-Cola contém a mesma matéria-prima da cocaína? - pergunta Mário.
-No início do século vinte, a coca deixou de ser misturada ao produto, mas sua sugestiva presença perdura ainda hoje no nome do mais famoso refrigerante do mundo." (pág. 156)

terça-feira, 31 de maio de 2016

O longo caminho de Olga

Título: O longo caminho de Olga
Autor: Yolanda Scheuber
Páginas: 272

Romance biográfico onde a autora nos descreve a trajetória de sua avó, saindo da Rússia aos 12 anos para se fixar na Argentina. Nesse período, foi se afastando gradativamente do seio familiar, quando o que mais queria era justamente o apoio da família.

Fugindo da opressão da Rússia,o pai de Olga tinha como grande sonho, se fixar no Canadá. Devido a problemas de saúde de sua esposa, não foi possível, fazendo com que fosse parar na Argentina. Entre tantos percalços, Olga nunca se deixou abater e sempre viveu com otimismo e esperança e ali construiu sua vida.

Trechos interessantes:

"Os czares da Rússia eram os verdadeiros donos de todas as pessoas. Deles dependia a nomeação dos ministros, dos funcionários, dos arrecadadores de impostos e até dos policiais. E o povo, como nós, não tinha voz nem voto." (pág. 18)

"Agora que os anos se passaram, acho que a velhice é sábia e prudente, porque nos permite olhar para trás, ainda que não nos permita nos arrepender de nada porque já é demasiado tarde e não há tempo para corrigir os erros cometidos durante a juventude." (pág. 29)

"-Sabia, Olga, a vodca, que é tomada nesses pequenos copos que estão ali, é uma grande tradição na vida russa, e os vagões-restaurante são um bom lugar para bebê-la? Se, por acaso, algum passageiro não bebesse álcool, seria melhor que não permanecesse muito tempo no refeitório, porque se alguém o convidasse a beber vodca e ele não aceitasse esse convite seria considerado, aqui na Rússia, nada menos que uma ofensa. Assim é a tradição com essa bebida." (pág. 49)

"A compenetração com o novo espírito ocidental fez com que muitos russos duvidassem do valor da cultura russa. E foi por isso que o poeta russo Pushkin reclamava: 'Diabos!, por que eu, com o talento e o espírito que tenho, tive de nascer exatamente na Rússia?'." (pág. 63)

"Era comum chegarem em nossa casa mendigos e andarilhos que viviam da esmola e da caridade, e, apesar de em casa não sobrar nada, também não faltava. Por isso, meu pai sempre nos dizia que era preciso dar e ajudar, porque tudo voltava para nós em forma de bênçãos." (pág. 79/80)

"Nunca volte ao lugar onde já foi feliz, porque nunca tornará a ser igual." (pág. 104)

"Dizem que o valor das coisas não está no tempo que duram, mas na intensidade com que ocorrem. E os poucos anos vividos com toda a minha família tinham-me marcado para sempre." (pág. 181)

"Meu pai dizia que só devemos mudar aquilo que nos causa dor e que a vida sempre nos devolve tudo o que damos a ela. E assim eu sentia. A dor que algumas situações me causavam, tentava disfarçar de minha mente e procurava semear coisas boas para que a colheita de minha velhice fosse abundante. E assim foi, pelo que sou muito agradecida. Acho que se todas as pessoas compreendessem que tudo o que se oferece ou dá volta acrescido de algo na velhice, não cessariam de oferecer ao próximo o melhor de si." (pág. 236)

"[...]a felicidade verdadeira (a que nos invade a alma e a mente) é um estado e, como tal, devemos optar livremente por ela, não fazendo o que gostamos sempre, mas gostando sempre do que fazemos." (pág. 243)

"A beleza às vezes aliena as pessoas e as faz acreditar que são superiores. A beleza dá poder sobre os outros, e saber exercê-lo com astúcia pode destruir qualquer coração e ferir aqueles que nos rodeiam." (pág. 244)

"É necessário criar sonhos para seguir em frente. De uma coisa tenho certeza, nada acontece antes de ter sido primeiro um sonho! Isso é o que faz com que a alma jamais envelheça. E isso é o que eu tenho feito: sonhar primeiro, realizar depois..." (pág. 271)

domingo, 29 de maio de 2016

O tamanho do céu

Título: O tamanho do céu
Autor: Thrity Umrigar
Páginas: 380

Ellie e Frank formam um casal norte-americano, de classe média, que se muda para a Índia (para trabalhar numa filial da empresa de Frank) após a morte do filho único, Benny, com o objetivo de reconstruir suas vidas.

Tentando se adaptar à nova cultura e costumes, Frank se apega ao filho de seu caseiro, tentando preencher o espaço que seu filho deixou. Tal atitude não é bem vista por Ellie nem pelos pais do garoto e isso vai gerar muitos transtornos no decorrer da história, não terminando da forma como Frank previa.

Trechos interessantes:

"Ellie escutou profundamente o seu corpo, do modo como aconselhava seus pacientes a fazerem. 'O corpo é sábio', dizia-lhes com frequência. Ele sempre sabe mais e antes que nosso cérebro. Mas você tem que aprender a escutá-lo, aprender sua linguagem, assim como se aprende a entender os balbucios de um bebê." (pág. 26)

"No início, ela também ficava incomodada com isso, com a falta de artifício, com a ausência do polimento das boas maneiras que cobria todas as interações nos Estados Unidos como um filme plástico. Com exceção dos funcionários que trabalhavam nas lojas chiques de Bombaim, ninguém na Índia dizia coisas vazias como 'Tenha um bom dia'. Uma vez, logo depois de eles terem se mudado para Girbaug, Ellie dissera a Edna que tivesse um bom dia e Edna respondera: 'Só se Deus quiser, madame, se Deus quiser.' Ellie tinha ouvido o que Edna não havia dito: que ter um bom dia não dependia da vontade dos meros mortais, mas sim da benevolência de um Deus bondoso." (pág. 28/29)

"Ela e Frank haviam perdido Benny, mas Ben não havia apenas perdido seus pais, mas também seus filhos ainda não nascidos. Não apenas seu melhor amigo da escola primária, mas o amigo desconhecido da universidade e as mulheres que teria namorado e amado, a mulher com quem teria se casado. Às vezes, quando Ellie pensava na enormidade da perda de Benny, ela ficava estupefata com a sua magnitude, com os livros que nunca leria, com os filmes que nunca veria, com as sinfonias que nunca ouviria (ou comporia), com os teoremas matemáticos que nunca resolveria, com as reuniões universitárias madrugada adentro nas quais nunca daria um jeito de entrar, com o primeiro ano de calouro fora de casa que nunca teria, com os debates sobre Nietzsche e Kierkegaard dos quais nunca participaria, com o primeiro beijo que nunca daria, com a gigantesca diferença entre fazer sexo e fazer amor que nunca descobriria, com a emoção de saber que havia superado seus pais que nunca teria, o primeiro emprego, a primeira promoção, a primeira viagem ao exterior, a primeira carta de amor, a primeira desilusão amorosa, o primeiro filho e, meu Deus, tantas coisas mais, a falta de jeito espinhosa dos quinze anos, a inconsequência alegre dos vinte, o contentamento dos quarenta, a realização dos sessenta, a aceitação dos oitenta, nada disso faria parte do destino de Benny. Ellie entendia agora por que as pessoas lamentavam a morte de crianças." (pág. 34/35)

"[...]Prakash havia mandado Edna ajudar Ramesh, mas depois de tentar arduamente por uma hora, Edna havia desistido. Ele então desviou o olhar para não ver a vergonha e a impotência nos olhos de sua mulher. O filho deles já sabia mais sobre o mundo do que os dois. Eles ficavam orgulhosos e envergonhados ao mesmo tempo deste fato." (pág. 50/51)

"A Índia fizera mais que radicalizar sua esposa. Ela a havia amargurado e mudado sua perspectiva. Ela agora via os Estados Unidos do jeito que o resto do mundo via. Não era mais o olhar crítico, mas maternal, a uma criança problemática. Agora, era o olhar acusador e duro de um estranho." (pág. 159)

"Ser uma mãe boa e diligente não bastava como talismã contra a crueldade de um universo complicado. Ela se distraíra por uma fração de segundo, e nesse ínfimo instante ele havia ido embora." (pág. 164/165)

"Ele disse a si mesmo que memorizasse o rosto e o corpo dessa mulher para o caso de ele nunca a ver de novo, para que da próxima vez que se visse tentado a dormir com as meninas belas e insignificantes que pareciam rodeá-lo na Universidade de Michigan, ele se lembrasse de como era a sua mulher ideal." (pág. 172)

"Havia frequentemente visto seus clientes caírem na isca desse doce mito: mulheres que não namoravam por décadas depois de um divórcio, pessoas que nunca mais tocaram num sorvete em seu leito de morte, mulheres que foram deixadas pelo marido e faziam do celibato uma virtude. Como se tristeza fosse o antídoto da tristeza. Não, o melhor modo de honrar os mortos era viver." (pág. 221)

"-Há um ditado em híndi que diz que mesmo a merda das galinhas alimenta as moscas." (pág. 267)

"Toda noite eles se encontravam no quarto de Benny e se revezavam dizendo três coisas pelas quais eram gratos naquele dia. E depois que seu filho caía no sono, ele e Ellie saíam do quarto de mãos dadas. Lembrando-se agora daquele jovem casal, Frank viu como eles eram bobos e iludidos. O casal dourado, esperando que sua era durasse para sempre. Nascidos num planeta marcado pela guerra, pela fome, por doenças e ódios milenares, haviam de algum modo pensado que podiam se elevar acima de tudo isso, confiando apenas neles mesmos e no amor de um pelo outro. Pensando que podiam usar seus diplomas universitários, seus empregos, seu lindo lar, seus corpos saudáveis, sua cidadania norte-americana, sua pele branca como abrigo do mundo selvagem que espreitava do lado de fora. Mas finalmente desabou, não é mesmo?" (pág. 293)

"Do nada ele se lembrou de algo que sua avó Benton lhe havia dito certa vez num de seus momentos de embriaguez. A velhinha, com hálito de gim, havia se abaixado até o assustado menino de onze anos e dito: 'Sabe qual a força mais perigosa na Terra, queridinho? Não é a bomba atômica. É um homem que é verdadeiramente livre. É com ele que você deve tomar cuidado'." (pág. 378)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Dois mistérios

Título: Dois mistérios
Autor: William Sackleton
Páginas: 148

Livro pequeno e muito antigo do qual, sinceramente, esperava mais coisas. Mesmo sendo um livro policial, com uma história já bem manjada, poderia ter mais algum tempero que despertasse a atenção.

Numa estação de trens, mãe e filha são obrigadas a abrir a bagagem para que seja revistada e eis que surge de uma das malas, um cadáver. Por acaso está ali por perto um detetive que se prontifica a destrinchar a história e encontrar o culpado, já que as mulheres alegam desconhecer o fato.

Trechos interessantes:

"Notei, durante a minha breve carreira de investigador e ouvi-o afirmar por colegas, dotados de mais ampla experiência, que, todo aquele que é capaz de mentir, de arquitetar uma ficção, pode ser... digo, pode ser, e não afirmo que necessariamente seja... um delinquente em estado potencial. Quem é capaz de mentir é capaz de matar." (pág. 17)

"-Não digo que não fossem boas inquilinas. Já vi melhores e já vi piores. A moça não dava muito trabalho, embora fosse um tanto estranha. Mas, a velha era uma dessas pessoas que, se são ricas são um pouco nervosas, e, se são pobres, são insuportáveis." (pág. 62)

"Nunca me servi de pseudônimos. Com os pseudônimos, acaba-se sempre por cair em embaraços. Há trinta anos, adotei um, uma vez por todas, para poupar-me aos sentimentos de um pai irrepreensível e conservei-o para sempre. É como se fosse o meu próprio nome." (pág. 67)

"Quanto mais a sorte se torna adversária para quem caiu, mais se acentua a cor rósea daqueles dias remotos que ficaram na recordação."(pág. 67)

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Trilhando sonhos

Título: Trilhando sonhos
Autor: Thiago Fantinatti
Páginas: 378

O livro narra a aventura do autor em percorrer, de bicicleta, grande parte do continente sul americano. No total foram mais de 15 mil quilômetros percorridos, durante um ano, saindo do estado de São Paulo, descendo até a terra do fogo e subindo até a floresta amazônica.

Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru, entre outros, foram alguns dos lugares visitados. A sensação de liberdade e a oportunidade de conhecer novas pessoas e vivenciar novas culturas foram a grande recompensa do autor. Lendo uma aventura dessas nos faz ver que que nossos sonhos, por mais que pareçam, não são impossíveis.

Trechos interessantes:

"Ao partir, você descobre que tudo aquilo que sempre disseram sobre o mundo estava errado. Quando é você que está lá tudo ganha um olhar novo. Qualquer sonho sem um passo é só um delírio, mas se você der o primeiro, já não precisa sonhar." (pág. 23)

"Amo as estradas, mas só são boas para os seres humanos. Todo o resto sofre muito com elas. Geralmente levam lixo, barulho, poluição, causam atropelamento de animais e servem de escoamento dos recursos naturais. Bom, pelo menos na reserva [Reserva Ecológica do Taim] esse último item não existe." (pág. 50)

"O Uruguai é um desses cantinhos do mundo onde a vida ainda é vida. Aquele tipo de lugar de que ninguém fala, mas que não precisa de publicidade." (pág. 67)

"Penso que esta é a essência da vida, aprender a nos conhecer e a conhecer o lugar onde vivemos. Romper essas barreiras culturais e alguns tabus que ainda estão presentes. Saber que se pode contar com as pessoas, independente de sua raça, cultura ou religião." (pág. 77)

"Costumo dizer que sinto que aprendi tanto que é como se tivesse feito o equivalente a uma faculdade de geografia e ciências humanas durante a viagem, tamanha a quantidade de informação que recebi." (pág.89/90)

"Tem uma frase que gosto muito, dita por um mineiro chamado Argus Caruso Saturnino, que fez uma volta ao mundo durante mais de três anos num lindo projeto chamado Pedalando e Educando... Ele disse durante uma entrevista ao Jô Soares em 2005, quando perguntado se já havia se perdido: 'Se perder não faz muito sentido numa volta ao mundo porque qualquer lugar que você esteja, você está lá!'." (pág. 164)

"O capacete tinha muitos inconvenientes. Não me protegia do sol, nem da poeira, nem das chuvas e frio. Sua única função só apareceria em caso de uma eventual queda. O chapéu, nesse caso era infinitamente mais útil. Alguém obcecado por segurança pode me criticar duramente por dar este exemplo, mas o fato é que para alguém que se dispõe a arriscar-se convivendo com carros e caminhões em alta velocidade passando tão próximos o capacete é apenas um pequeno detalhe. Não me salvaria no caso de um atropelamento. Se eu fosse obcecado por segurança jamais teria iniciado esta viagem." (pág. 195/196)

"Cada personagem, cada história de vida, cada pessoa real que conheci se tornou a coisa mais preciosa que esbarrei por aí. Sinto saudade de todos e lamento a impossibilidade de não poder estar com cada um deles. Sinto que aprendi muito com cada um. Cada um deles deixou algo de bom em mim. Espero que eu tenha espaço em suas memórias.
Os rostos, sorrisos e abraços foram os lugares mais bonitos que encontrei pelo caminho!" (pág. 265)

"Minha ânsia pela aventura era uma busca real pelo desconhecido, ou seja, não queria apenas viajar e sim me surpreender com o que descobria. A cada descoberta passava a entender um pouco mais sobre o continente. Aprendia e vivenciava mais uma aula majestosa de geografia e ciências humanas, e mais do que isso, descobri que o mais interessante de uma viagem não é o destino e sim o caminho percorrido até o destino." (pág. 361)

sábado, 23 de abril de 2016

Ratos e homens

Título: Ratos e homens
Autor: John Steinbeck
Páginas: 144

Steinbeck é um gênio para relatar casos relacionados à Grande Depressão americana. Nesta história ele nos apresenta dois personagens de personalidades opostas: George (pequeno e inteligente) e Lennie (grandalhão com mentalidade de uma criança) são amigos e procuram uma fazenda para trabalhar.

Conseguem o trabalho, mas a inocência de Lennie faz com que George tenha sempre que tentar tirá-lo de enrascadas. Não foi diferente desta vez.

Ótimo livro que, devido à espessura, pode ser lido numa sentada só.

Trechos interessantes:

"-Vô te dizê uma coisa... - terminou por falar. - O último sujeito que ficô nessa cama aí era ferrero... um sujeito muito agradável, e o sujeito mais limpo qu'ocê já viu na vida. Tinha mania de lavá a mão até depois de comer." (pág. 30/31)

"-Bom, o Curley é bem habilidoso - o ajudante disse, de um jeito cético. - Pra mim, nunca me pareceu muito certo. Quando o Curley ataca um sujeito grande e bate nele, todo mundo fica falando que o Curley é memo muito valente. Mais quando ele faiz a mesma coisa e apanha, todo mundo fica falando que o cara grande devia iscolhê alguém do tamanho dele, e às veiz até se juntam pra dá uma surra no sujeito. Pra mim, nunca me pareceu muito certo. Parece que o Curley nunca dá chance nenhuma pra ninguém." (pág. 41)

"-Ele é um bom sujeito - disse Slim. - A gente num precisa sê inteligente pra sê bom. Às veiz, eu fico achando que é bem o contrário. Se a gente pega um sujeito bem isperto, ele quase nunca é um sujeito bom de verdade." (pág. 59)

"-Acho qu'oceis dois vieram mesmo pra trabaiá.
-Como assim? - George perguntou.
Whit riu.
-Bom, oceis chegaro na sexta. Oceis têm dois dias de trabaio até domingo.
-Num sei como foi que ocê adivinhou - disse George.
Whit riu de novo.
-A gente percebe essas coisas quando trabaia nessas fazenda grande muito tempo. O sujeito que só qué dá uma olhada na fazenda chega no sábado à tarde. Janta no sábado e faiz as três refeição do domingo, e pode ir embora na segunda de manhã depois do café sem nem tê que mexê a mão. Mais ocês chegaro pra trabaiá na sexta ao meio-dia. Vão tê que trabaiá um dia e meio, de qualqué jeito." (pág. 70/71)

segunda-feira, 14 de março de 2016

O reverso da moeda

Título: O reverso da moeda
Autor: Giovanna Fernandes
Páginas: 240

O livro usa uma história de fantasia para nos mostrar aspectos simples que deveriam ser constantes em nosso dia a dia: confiança, amor, companheirismo, esperança e solidariedade.

Iago é um garoto que vai morar com a mãe na casa do avô, à beira do mar. Ali, o pai de Iago havia morrido enquanto lutava com piratas que roubavam a cidade. Enquanto isso a população vê o pai de Iago como um traidor, que roubou a todos e fugiu com os piratas. Mas a verdade não é nenhuma das duas...

Trechos interessantes:

"-Por que ele gosta tanto do mar? - perguntou Estela baixinho para si mesma.
Ainda assim, Antoninho ouviu e respondeu: - É a mesma adoração que meu filho tinha.
-Eu não queria isso - reclamou Estela.
-Você não pode mudar o sentimento das pessoas." (pág. 12/13)

"-Tudo na vida traz consequências. E quando não sabemos fazer escolhas, o resultado pode ser desastroso." (pag. 32)

"Mas Charles se parecia muito com os piratas do século XVII e XVIII, que além de roubar ainda tinham um fascínio especial em torturar e assassinar inocentes.
A intenção do pirata era exatamente essa: causar uma grande aflição em Noah." (pág. 66)

"Eu fiquei assustado e chocado por ter uma pessoa em meus braços, que eu não sabia se havia matado ou não. Apesar de ser um pirata que saqueava nosso dinheiro, a dor que eu sentia era muito grande. A sensação de acabar com a vida de uma pessoa é tão forte que é capaz de tirar a paz de qualquer um pelo resto de seus dias." (pág. 68)

"Os olhos de Betina se arregalaram, ela não podia acreditar no que via. Seu avô não podia ter morrido... não agora. Era cedo demais. Seus pais acabavam de voltar. Eles estavam prontos par ser uma família feliz. Mas sem a sua presença nada seria igual. E em vão, Betina chorou e tentou chamá-lo de volta. Mas por pouco tempo. Com apenas dez anos, Betina descobria a dor da perda, irreparável. Mas a mão de Sara sobre sua cabeça já era o suficiente para ela saber que não estava sozinha." (pág. 204)

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Última valsa em Viena

Título: Última valsa em Viena
Autor: George Clare
Páginas: 290

O livro - um relato biográfico do autor - narra a luta da família Klaar para fugir da perseguição de Hitler. Os Klaars eram judeus de Viena e, com a ascensão de Hitler ao poder logo começaram a sentir o ódio que o ditador tinha pelos judeus.

A maior parte do livro transcorre na adolescência de Georg Klaar (mais tarde, George Clare), quando ainda morava em Viena, mostrando sua vida, sua família e seus ideais. Ao assumir o poder, Hitler resolve acabar com os judeus, tornando a vida ali, insuportável. No fim ele consegue sair do país, mas seus pais não tiveram muita sorte e acabaram na câmara de gás. Relato triste, mas faz parte da mancha negra da história.

Trechos interessantes:

"Eu era jovem demais para entender que a pessoa nunca se livra de sua origem, que esta é uma parte essencial da identidade de cada um e deve ser valorizada, e que tudo o que se pode conseguir eventualmente é uma forma feliz de visão dupla que permite que se veja a Inglaterra e os ingleses de uma forma um pouco fora de foco, talvez, mas, ao mesmo tempo, de dentro e de fora." (pag. 14)

"Os movimentos nacionalistas adquiriram uma nova dimensão além do desejo de autodeterminação: o ódio. Os húngaros odiavam os austro-alemães, os tchecos e os croatas; os austro-alemães odiavam os húngaros acima de tudo; os tchecos odiavam todo mundo. Seguiu-se uma crise atrás da outra, um governo atrás do outro." (pág. 23/24)

"Eu nunca me esqueci da história que ele me contou a respeito do marido de tia Thalia, irmã de vovó Julie. Esse cavalheiro se deliciava em levar os filhos àquela excelente confeitaria existente em frente ao apartamento de minha avó, e que pertencia a Herr Beisiegl. Herr Teller - era esse o nome do cavalheiro - costumava sentar-se atrás da pequena mesa de mármore convencional, agrupava os filhos em volta dele e pedia café com creme batido, dois ou três bolos, ou uma outra coisa qualquer que estivesse com vontade de comer. Papai Teller tomava seu café e comia os bolos, e depois, satisfeito consigo mesmo, acendia o charuto. Durante todo esse tempo as crianças ficavam sentadas em volta da mesa, sem terem nem um copo de limonada para dividir entre si. A única festa permitida a eles era entrar na confeitaria. E eles sabiam muito bem, por experiência própria, que seu papel limitava-se a observar. Depois de bater gentilmente no estômago protuberante, Herr Teller levantava a mão direita, apontava o dedo para o filho mais velho, Erwin, e pronunciava as palavras imortais:
-Está vendo, meu caro rapaz, um dia, quando você for pai, também vai poder comer tantos bolos quanto quiser numa confeitaria." (pag. 28)

"Em My youth in Vienna, Arthur Schnitzler, o famoso escritor judeu-austríaco, cita a Resolução Waidhofer. Ela dizia:

'Todo filho de mãe judia, todo indivíduo com sangue judeu nas veias, nasce sem honra e deve, portanto, estar privado de todo sentimento humano decente. Tal pessoa não pode saber a diferença entre o que é puro e o que é sujo. Eticamente, ele é o que há de mais baixo. Segue-se daí que o contato com um judeu é desonroso; assim, qualquer contato com um judeu deve ser evitado. É impossível ofender um judeu, e portanto nenhum judeu pode exigir satisfação por qualquer insulto que possa ter recebido'." (pág. 38/39)

"A liberdade na Áustria é uma criatura heterogênea. Ela está em algum lugar entre a liberdade na Rússia e a liberdade na Alemanha. Na sua forma, ela é germânica; na sua execução, é russa. Com exceção da França e da Inglaterra, a Áustria tem, provavelmente, as leis mais liberais, tanto é assim que ela se parece muito mais com uma república que, em vez de um presidente, tem uma majestade no poder. Por infelicidade, no entanto, não se põe em prática o que é determinado pela lei, mas apenas o que convém ao inspetor de polícia responsável. Ele tem o direito de confiscar todas as liberdades garantidas pela lei, e temos razões para acreditar que ele use e abuse desse direito... Que estranho, entretanto: o governo da Áustria é tão incapaz de executar atos de justiça quanto é incapaz de executar atos de opressão; ele balança para lá e para cá - nós temos despotismo suavizado pela indolência." (pág. 72/73)

"Nem a direita nem a esquerda haviam desejado aquela matança. Mas ambas foram igualmente culpadas por envenenar a atmosfera política. O 15 de julho de 1927 não foi uma guerra civil. Foi apenas uma revolta de um dia, mas os acontecimentos desse dia desesperado tornaram inevitável a guerra civil de 1934." (pág. 113/114)

"Em tudo o que fez naquele dia, minha mãe mostrou uma profunda compreensão do seu filho de doze anos. Tentar fazer uma criança compreender que aquilo que aprende na escola é, em última análise, para seu próprio benefício e não para o bem de seus pais, nunca funciona. O que pode um conceito como 'em última análise' significar para uma criança? Ele diz respeito a um futuro que está anos à frente - e portanto a uma eternidade - do que ela pode conceber como realidade. Significa algo com uma vaga importância, em algum remoto período de tempo, compreensível do ponto de vista intelectual, mas sem sentido emocional, porque nenhuma criança é capaz de se identificar com o homem ou mulher que vai ser daí a dez anos. Mas uma criança pode identificar-se emocionalmente com os pais. O que eles sentem a respeito dela, isso é real. E a minha realidade, minha identificação, naquele dia, foi com mamãe. A mãe que tinha chorado comigo, tinha compartilhado a minha culpa, estava preparada para sacrificar por mim suas joias queridas, sobretudo por haverem pertencido à sua própria mãe, e por fim, tinha me levado ao cinema em vez de me castigar." (pág. 129/130)

"Eu sabia que tinha causado um grande sofrimento a meu pai, e apesar da fúria que sentia, percebi também quanto o amava e quanto dói ferir alguém a quem se ama." (pág. 168)

"Nunca tinha visto meu pai chorar antes, nunca tinha ouvido aquele som atormentado de dor e desespero de um homem chorando, nunca tinha presenciado aquela luta sufocada de um homem tomado pela dor que tenta recuperar o controle sobre si mesmo. Um homem, criado na crença de que chorar não é próprio de homens, não encontra alívio nas lágrimas como as mulheres encontram. Suas lágrimas não escorrem livremente dos olhos, mas saltam deles, quentes e cheias de agonia, turvando a visão e a alma." (pag. 210/211)

"[...]folheei distraidamente meu passaporte, contemplando o visto lituano, bem como o carimbo enfeitado com a suástica, feito pela seção de passaportes de Viena, e que dizia: 'Válido somente para uma viagem de ida e volta'. Todo judeu austríaco sabia que essa licença para voltar só era válida no papel. Quando se ia buscar o passaporte, era-se informado de que uma viagem de volta terminaria em Dachau, se a pessoa tivesse a audácia de voltar." (pag. 236)

"Todo mundo sabe que o simples fato de ser preso induz a vítima a um sentimento de culpa. Kafka, bem como os policiais do mundo inteiro, descobriu isso muito antes que eu, mas posso jurar que é verdade por experiência própria. Eu realmente me senti culpado - do quê, eu não sabia -, ao caminhar ao lado de Mandl sob os olhos vigilantes de dois guardas armados." (pág. 237/238)

"Meus pais tiveram de morrer porque eram judeus, porque pertenciam ao povo que deu ao mundo Jesus e um código de ética de acordo com o qual o mundo nunca foi capaz de viver.
A Igreja ensina que toda humanidade partilha a culpa pela morte de Jesus na cruz. Assim, toda a humanidade partilha a culpa pela morte de meus pais e de milhões de judeus, homens, mulheres e crianças, nas câmaras de gás." (pag. 283)