segunda-feira, 27 de junho de 2016

Como fazíamos sem...

Título: Como fazíamos sem...
Autor: Bárbara Soalheiro
Páginas: 144

O livro é uma aula de história, contada da maneira mais natural possível. Como é um livro indicado para jovens, a linguagem é simples e de fácil entendimento e as histórias, em sua maioria, são recheadas com muito humor.

Livro de curiosidades, mas quem não gosta de se divertir com algumas coisas estranhas e sem nexo de vez em quando? O livro cumpre a finalidade a que se destina: instrui de forma agradável e divertida.

Trechos interessantes:

"Quando sua mãe pedir sua ajuda para descascar batatas ou cebola, obedeça. Se você tivesse nascido no século XIX,o pedido poderia ser muito pior. Ela com certeza ia querer que você ajudasse a acender o fogo." (pág. 18)

"Talheres eram tão raros - e, por isso mesmo, valiosos - que apareciam nos testamentos de pessoas ricas. E garfos, que hoje nos parecem tão inofensivos, chegavam a ser malvistos pela Igreja. 'Deus, em sua sabedoria, deu ao homem garfos naturais - seus dedos. Assim, é um insulto a Ele substituí-los por garfos de metal', escreveu um padre italiano no século XI, ao ver que a esposa do governante de Veneza tinha o 'estranho' hábito de não usar as mãos durante as refeições." (pág. 28)

"Apesar de servirem a propósitos bem pacíficos, os armários verticais - como usamos hoje - foram criados para guardar espingardas. Inclusive, foi por causa da arma que o móvel ganhou esse nome." (pág. 61)

"Três graus de miopia. Hoje, um diagnóstico como esse é bobagem. Afinal,você pode viver normalmente usando um par de óculos. Mas, há alguns séculos, um problema de visão assim era sinônimo de aposentadoria. O senador romano Marcus Tulius Cícero, por exemplo, quase perdeu o emprego quando a idade o impediu de ler sozinho. Como tinha dinheiro, Cícero resolveu o problema do jeito que se fazia na época: comprou escravos que pudessem ler para ele." (pág. 84)

"Marinheiros tinham uma técnica ótima para a lavagem de roupas sujas. Eles colocavam tudo dentro de uma sacola de tecido bem resistente e amarravam-na pelo lado de fora do navio, deixando-a ser arrastada por horas. Com o avanço do barco e a força do mar, a água conseguia remover boa parte da sujeira das roupas." (pág. 91)

"Prova de que não são exatamente os tempos, mas o caráter de cada povo que determina as tradições, é o costume de tomar banho. Ou de não tomar. Os gregos e romanos, por exemplo, sempre foram adeptos da prática. Já os europeus, em pleno século XIX, fugiam da água como se ela fosse praga. Literalmente. É que como a água quente dilata os poros, os médicos europeus acreditavam que os banhos facilitavam a entrada de germes. Ou seja, fugir das banheiras era recomendado como uma medida de higiene." (pág. 98)

"Também é possível que a família Soalheiro, que assina esse livro, não fosse muito ocupada durante o século XII. É que uma das definições para o sobrenome é 'grupo de pessoas ociosas, que fica ao sol falando da vida alheia!'. Parece que fofoqueiro já era profissão nessa época... (pág. 143)

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Contos fantásticos do século XIX

Título: Contos fantásticos do século XIX
Autor: Italo Calvino
Páginas: 518

O livro apresenta uma seleção de contos, de diversos autores, selecionados por Italo Calvino. Contos fantásticos são aqueles em que há alguma coisa sobrenatural, misteriosa, absurda ou simplesmente estranha à realidade normal. Daí serem abundantes os casos de fantasmas, assombrações e outras coisas do gênero.

Como em toda seleção, há contos que são bons e outros que nem tanto. Mas esta é uma interpretação pessoal, o que não compromete a qualidade do material. Entre os vários, pelo menos um, com certeza, será do seu agrado. Boa leitura.

Trechos interessantes:

"Do Misterioso, que com tanta frequência envolve o homem nos seus braços invisíveis, nem o mais tênue raio de luz lhe penetra o gélido coração. Ela não vê senão a superfície colorida das coisas do mundo e, tal como a ingênua criancinha, deixa-se fascinar pelo brilho dourado da fruta que na polpa esconde o veneno mortal." (pág. 58)

"Ora, palavras, de que servem as palavras? O seu olhar paradisíaco diz mais do que qualquer idioma. Acaso uma criatura do céu há de se nivelar ao estreito círculo traçado pela precária necessidade terrena?" (pág. 75)

"Como a humanidade não muda, pode-se dizer, como um velho autor, que quanto menos canalhas houver nas galés, mais haverá do lado de fora." (pág. 141)

"Ora essa! Afinal, o que é que é a morte, que a gente deve se espantar tanto?... Considero que a morte não vale um tostão furado! 'Ninguém morre antes da hora!', disse Sêneca, o Trágico. Será que você é o único vassalo dessa dama da foice? Eu também sou, e aquele ali, e um terceiro, um quarto, Martin, Philippe! A morte não tem respeito por ninguém. É tão atrevida que condena, mata, e pega indistintamente papas, imperadores e reis, assim como prebostes, policiais e outros canalhas do gênero." (pág. 168)

"O diabo em sua própria forma é menos hediondo do que quando se alastra no peito do homem." (pág. 181)

"Talvez seja preciso acrescentar que a superstição ilustrada pela história abaixo, ou seja, que o cadáver enterrado por último seja obrigado, durante os primeiros tempos de seu enterro, a fornecer aos irmãos inquilinos do campo-santo onde ele jaz, água fresca para aliviar a sede ardente do purgatório, é recorrente em todo o sul da Irlanda. O escritor garante um caso em que um fazendeiro, poderoso e respeitável, nas fronteiras de Tipperary, enternecido pelos calos de sua finada ajudante, colocou no caixão dela dois pares de tamancos, um pesado e um leve, um para os dias secos, outro para o tempo úmido; procurava, dessa maneira, mitigar o cansaço de suas inevitáveis perambulações em busca de água, administrando-a às almas sedentas do purgatório." (pág. 268)

"Aguarde, não vem tudo de uma vez; aquilo que você não entender agora, há de entender com o passar dos anos." (pág. 344)

"'Você trabalha demais', disse; 'a juventude precisa de diversão, teatro, passeios, amori - há bastante tempo para ser sério, quando se fica careca'." (pág. 375/376)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Fomos maus alunos

Título: Fomos maus alunos
Autor: Gilberto Dimenstein / Rubem Alves
Páginas: 126

Livro interessante que discute vários aspectos da educação, de uma maneira simples, prazerosa, como se fosse realmente uma conversa entre amigos.

Passa-se o tempo e tudo evolui, não é diferente com a educação. Por mais que se discuta, que se mude, que se experimente, sempre vai haver uma nova visão, uma nova metodologia, um novo recurso... e é isso que faz com que busquemos nos tornar sempre, pessoas melhores. A educação é a chave, sem dúvida.

Trechos interessantes:

"Bruno Bettelheim, já velho, lembrando-se de suas experiências de criança disse que na escola os professores tentavam ensinar-lhe o que ele não queria aprender da forma como eles queriam ensinar." (pág. 8)

"Como jornalista, ganhei todos os prêmios. Ganhei todos os prêmios várias vezes. Depois, ganhei como escritor. Quando comecei a ganhar prêmios, perguntei para mim mesmo: O que deu errado? Que deu errado com as previsões das pessoas que diziam que eu ia dar errado?" (pág. 29)

"Inútil te será levantar de madrugada e te afadigares por todo o dia porque Deus, àqueles que ama, dá enquanto dormem." (pág. 35)

"Penso nos professores que sonham com a aposentadoria. Não são amantes. Somente querem se aposentar os que sofrem com o seu trabalho. Quem tem alma de educador - quem ama ser educador - quer ser educador sempre..." (pág. 48)

"Todas as vezes que você precisa pedir disciplina é porque alguma coisa está errada. Quando o jovem está realmente fascinado pelo objeto, você não precisa pedir. Você não pede a uma criança: Meu filho, vá brincar! Por quê? Porque ele quer brincar." (pág. 68)

"Se tivesse de resumir minha visão sobre educação, diria o seguinte: o educador é o aprendiz há mais tempo e educar é ensinar o encanto da possibilidade." (pág. 82/83)

"Eu ainda acho o seguinte: não é que a criança não goste da escola. Ela não gosta da sala de aula, mas da escola, geralmente, ela gosta." (pág. 91)

"Engraçado que a palavra pedagogo vem do grego. É o escravo que conduz criança. De alguma forma, isso voltou. Porque, pelo salário que o professor recebe, pelo pouco tempo de preparo de aula que tem, ele voltou a ser o escravo que conduz criança." (pág. 101)

"Lichtenberg, que foi um filósofo do século XVIII e amado por Nietzsche e Murilo Mendes, dizia: . Porque é preciso não conhecer para ter vontade de conhecer, de esquecer, de desaprender. Barthes, ao final da sua famosa aula inaugural, disse que se entregava a desaprender tudo o que tinha aprendido. Acho que foi Cassirer que disse que é muito mais difícil desaprender o aprendido do que aprender uma coisa nova. O aprendido se agarra na gente de uma forma terrível e é o aprendido que impede que eu aprenda uma coisa de uma maneira diferente. Então, é preciso desaprender o aprendido." (pág. 107)
Hoje, se criam escolas e faculdades para ensinar os novos saberes. Eu sonho com o dia em que se criarão faculdades para ensinar a antiga ignorância

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O vencedor

Título: O vencedor
Autor: Frei Betto
Páginas: 162

Leitura fácil e simples, ideal para adolescentes, ainda mais que o tema é justamente indicado para esta faixa etária. Mário é um rico empresário que só se preocupa com os negócios da empresa. Mônica, sua esposa, só se interessa em manter o corpo em forma. O resultado disso tudo é o filho que, sem apoio de nenhum dos lados, se envereda pelo rumo das drogas.

O livro mostra uma situação possível para diversas famílias brasileiras. De um lado os pais tentando resgatar o filho; do outro o imenso poderio do submundo das drogas.  Teremos um vencedor?

Trechos interessantes:

"Conduzida pelo pai, Mônica, pé ante pé, percorre a nave do templo com um sorriso giocondamente ensaiado. Boneca mecânica, vira a cabeça à direita, à esquerda, olhando a todos sem ver ninguém. Como em toda noiva, o excesso de maquiagem, as ondulações artificiais do cabelo e a pose empertigada encobrem sua beleza natural." (pág. 20)

"Era preciso circular por festas, recepções e eventos, única maneira de chamar a atenção dos colunistas sociais e, por sua vez, dos leitores que respeitam, com resignada admiração, essa gente que supostamente vive num conto de fadas." (pág. 40)

"-É chato ser negro?
-Chato é ter uma irmã imbecil - reagiu Pedro.
-Eu é quem devo responder - cortou Paulão, segurando o braço do amigo, como se quisesse contê-lo. -Não, é ótimo ser negro. Chato é ser discriminado por ser negro." (pág. 45)

"É muito cinismo da minha parte vir, agora, pedir socorro. Mas, sei lá; alguma coisa dentro de mim dá forças para que eu escreva esta carta. Nem que seja para saberem que estou no início do fim." (pág. 127)

"-Somos todos resultados da loteria biológica - diz Quitéria. -Ninguém escolhe nascer onde nasceu. Você podia ter nascido no Borel, na família do Paulão, ou em Vitória no lugar de Clara. Isso é obra do acaso. O injusto é muitos nascerem sem ter o que comer e, outros, com menos fome do que a comida que compram." (pág. 146)

"Em 1885, impelido pelo sucesso do vinho Mariani, John Styth Pemberton, um farmacêutico de Atlanta, lançou um medicamento contra a melancolia, pomposamente intitulado Frech Wine of Coca, Ideal and Tonic Stimulant, hoje conhecido como Coca-Cola.
-Quer dizer que a Coca-Cola contém a mesma matéria-prima da cocaína? - pergunta Mário.
-No início do século vinte, a coca deixou de ser misturada ao produto, mas sua sugestiva presença perdura ainda hoje no nome do mais famoso refrigerante do mundo." (pág. 156)

terça-feira, 31 de maio de 2016

O longo caminho de Olga

Título: O longo caminho de Olga
Autor: Yolanda Scheuber
Páginas: 272

Romance biográfico onde a autora nos descreve a trajetória de sua avó, saindo da Rússia aos 12 anos para se fixar na Argentina. Nesse período, foi se afastando gradativamente do seio familiar, quando o que mais queria era justamente o apoio da família.

Fugindo da opressão da Rússia,o pai de Olga tinha como grande sonho, se fixar no Canadá. Devido a problemas de saúde de sua esposa, não foi possível, fazendo com que fosse parar na Argentina. Entre tantos percalços, Olga nunca se deixou abater e sempre viveu com otimismo e esperança e ali construiu sua vida.

Trechos interessantes:

"Os czares da Rússia eram os verdadeiros donos de todas as pessoas. Deles dependia a nomeação dos ministros, dos funcionários, dos arrecadadores de impostos e até dos policiais. E o povo, como nós, não tinha voz nem voto." (pág. 18)

"Agora que os anos se passaram, acho que a velhice é sábia e prudente, porque nos permite olhar para trás, ainda que não nos permita nos arrepender de nada porque já é demasiado tarde e não há tempo para corrigir os erros cometidos durante a juventude." (pág. 29)

"-Sabia, Olga, a vodca, que é tomada nesses pequenos copos que estão ali, é uma grande tradição na vida russa, e os vagões-restaurante são um bom lugar para bebê-la? Se, por acaso, algum passageiro não bebesse álcool, seria melhor que não permanecesse muito tempo no refeitório, porque se alguém o convidasse a beber vodca e ele não aceitasse esse convite seria considerado, aqui na Rússia, nada menos que uma ofensa. Assim é a tradição com essa bebida." (pág. 49)

"A compenetração com o novo espírito ocidental fez com que muitos russos duvidassem do valor da cultura russa. E foi por isso que o poeta russo Pushkin reclamava: 'Diabos!, por que eu, com o talento e o espírito que tenho, tive de nascer exatamente na Rússia?'." (pág. 63)

"Era comum chegarem em nossa casa mendigos e andarilhos que viviam da esmola e da caridade, e, apesar de em casa não sobrar nada, também não faltava. Por isso, meu pai sempre nos dizia que era preciso dar e ajudar, porque tudo voltava para nós em forma de bênçãos." (pág. 79/80)

"Nunca volte ao lugar onde já foi feliz, porque nunca tornará a ser igual." (pág. 104)

"Dizem que o valor das coisas não está no tempo que duram, mas na intensidade com que ocorrem. E os poucos anos vividos com toda a minha família tinham-me marcado para sempre." (pág. 181)

"Meu pai dizia que só devemos mudar aquilo que nos causa dor e que a vida sempre nos devolve tudo o que damos a ela. E assim eu sentia. A dor que algumas situações me causavam, tentava disfarçar de minha mente e procurava semear coisas boas para que a colheita de minha velhice fosse abundante. E assim foi, pelo que sou muito agradecida. Acho que se todas as pessoas compreendessem que tudo o que se oferece ou dá volta acrescido de algo na velhice, não cessariam de oferecer ao próximo o melhor de si." (pág. 236)

"[...]a felicidade verdadeira (a que nos invade a alma e a mente) é um estado e, como tal, devemos optar livremente por ela, não fazendo o que gostamos sempre, mas gostando sempre do que fazemos." (pág. 243)

"A beleza às vezes aliena as pessoas e as faz acreditar que são superiores. A beleza dá poder sobre os outros, e saber exercê-lo com astúcia pode destruir qualquer coração e ferir aqueles que nos rodeiam." (pág. 244)

"É necessário criar sonhos para seguir em frente. De uma coisa tenho certeza, nada acontece antes de ter sido primeiro um sonho! Isso é o que faz com que a alma jamais envelheça. E isso é o que eu tenho feito: sonhar primeiro, realizar depois..." (pág. 271)

domingo, 29 de maio de 2016

O tamanho do céu

Título: O tamanho do céu
Autor: Thrity Umrigar
Páginas: 380

Ellie e Frank formam um casal norte-americano, de classe média, que se muda para a Índia (para trabalhar numa filial da empresa de Frank) após a morte do filho único, Benny, com o objetivo de reconstruir suas vidas.

Tentando se adaptar à nova cultura e costumes, Frank se apega ao filho de seu caseiro, tentando preencher o espaço que seu filho deixou. Tal atitude não é bem vista por Ellie nem pelos pais do garoto e isso vai gerar muitos transtornos no decorrer da história, não terminando da forma como Frank previa.

Trechos interessantes:

"Ellie escutou profundamente o seu corpo, do modo como aconselhava seus pacientes a fazerem. 'O corpo é sábio', dizia-lhes com frequência. Ele sempre sabe mais e antes que nosso cérebro. Mas você tem que aprender a escutá-lo, aprender sua linguagem, assim como se aprende a entender os balbucios de um bebê." (pág. 26)

"No início, ela também ficava incomodada com isso, com a falta de artifício, com a ausência do polimento das boas maneiras que cobria todas as interações nos Estados Unidos como um filme plástico. Com exceção dos funcionários que trabalhavam nas lojas chiques de Bombaim, ninguém na Índia dizia coisas vazias como 'Tenha um bom dia'. Uma vez, logo depois de eles terem se mudado para Girbaug, Ellie dissera a Edna que tivesse um bom dia e Edna respondera: 'Só se Deus quiser, madame, se Deus quiser.' Ellie tinha ouvido o que Edna não havia dito: que ter um bom dia não dependia da vontade dos meros mortais, mas sim da benevolência de um Deus bondoso." (pág. 28/29)

"Ela e Frank haviam perdido Benny, mas Ben não havia apenas perdido seus pais, mas também seus filhos ainda não nascidos. Não apenas seu melhor amigo da escola primária, mas o amigo desconhecido da universidade e as mulheres que teria namorado e amado, a mulher com quem teria se casado. Às vezes, quando Ellie pensava na enormidade da perda de Benny, ela ficava estupefata com a sua magnitude, com os livros que nunca leria, com os filmes que nunca veria, com as sinfonias que nunca ouviria (ou comporia), com os teoremas matemáticos que nunca resolveria, com as reuniões universitárias madrugada adentro nas quais nunca daria um jeito de entrar, com o primeiro ano de calouro fora de casa que nunca teria, com os debates sobre Nietzsche e Kierkegaard dos quais nunca participaria, com o primeiro beijo que nunca daria, com a gigantesca diferença entre fazer sexo e fazer amor que nunca descobriria, com a emoção de saber que havia superado seus pais que nunca teria, o primeiro emprego, a primeira promoção, a primeira viagem ao exterior, a primeira carta de amor, a primeira desilusão amorosa, o primeiro filho e, meu Deus, tantas coisas mais, a falta de jeito espinhosa dos quinze anos, a inconsequência alegre dos vinte, o contentamento dos quarenta, a realização dos sessenta, a aceitação dos oitenta, nada disso faria parte do destino de Benny. Ellie entendia agora por que as pessoas lamentavam a morte de crianças." (pág. 34/35)

"[...]Prakash havia mandado Edna ajudar Ramesh, mas depois de tentar arduamente por uma hora, Edna havia desistido. Ele então desviou o olhar para não ver a vergonha e a impotência nos olhos de sua mulher. O filho deles já sabia mais sobre o mundo do que os dois. Eles ficavam orgulhosos e envergonhados ao mesmo tempo deste fato." (pág. 50/51)

"A Índia fizera mais que radicalizar sua esposa. Ela a havia amargurado e mudado sua perspectiva. Ela agora via os Estados Unidos do jeito que o resto do mundo via. Não era mais o olhar crítico, mas maternal, a uma criança problemática. Agora, era o olhar acusador e duro de um estranho." (pág. 159)

"Ser uma mãe boa e diligente não bastava como talismã contra a crueldade de um universo complicado. Ela se distraíra por uma fração de segundo, e nesse ínfimo instante ele havia ido embora." (pág. 164/165)

"Ele disse a si mesmo que memorizasse o rosto e o corpo dessa mulher para o caso de ele nunca a ver de novo, para que da próxima vez que se visse tentado a dormir com as meninas belas e insignificantes que pareciam rodeá-lo na Universidade de Michigan, ele se lembrasse de como era a sua mulher ideal." (pág. 172)

"Havia frequentemente visto seus clientes caírem na isca desse doce mito: mulheres que não namoravam por décadas depois de um divórcio, pessoas que nunca mais tocaram num sorvete em seu leito de morte, mulheres que foram deixadas pelo marido e faziam do celibato uma virtude. Como se tristeza fosse o antídoto da tristeza. Não, o melhor modo de honrar os mortos era viver." (pág. 221)

"-Há um ditado em híndi que diz que mesmo a merda das galinhas alimenta as moscas." (pág. 267)

"Toda noite eles se encontravam no quarto de Benny e se revezavam dizendo três coisas pelas quais eram gratos naquele dia. E depois que seu filho caía no sono, ele e Ellie saíam do quarto de mãos dadas. Lembrando-se agora daquele jovem casal, Frank viu como eles eram bobos e iludidos. O casal dourado, esperando que sua era durasse para sempre. Nascidos num planeta marcado pela guerra, pela fome, por doenças e ódios milenares, haviam de algum modo pensado que podiam se elevar acima de tudo isso, confiando apenas neles mesmos e no amor de um pelo outro. Pensando que podiam usar seus diplomas universitários, seus empregos, seu lindo lar, seus corpos saudáveis, sua cidadania norte-americana, sua pele branca como abrigo do mundo selvagem que espreitava do lado de fora. Mas finalmente desabou, não é mesmo?" (pág. 293)

"Do nada ele se lembrou de algo que sua avó Benton lhe havia dito certa vez num de seus momentos de embriaguez. A velhinha, com hálito de gim, havia se abaixado até o assustado menino de onze anos e dito: 'Sabe qual a força mais perigosa na Terra, queridinho? Não é a bomba atômica. É um homem que é verdadeiramente livre. É com ele que você deve tomar cuidado'." (pág. 378)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Dois mistérios

Título: Dois mistérios
Autor: William Sackleton
Páginas: 148

Livro pequeno e muito antigo do qual, sinceramente, esperava mais coisas. Mesmo sendo um livro policial, com uma história já bem manjada, poderia ter mais algum tempero que despertasse a atenção.

Numa estação de trens, mãe e filha são obrigadas a abrir a bagagem para que seja revistada e eis que surge de uma das malas, um cadáver. Por acaso está ali por perto um detetive que se prontifica a destrinchar a história e encontrar o culpado, já que as mulheres alegam desconhecer o fato.

Trechos interessantes:

"Notei, durante a minha breve carreira de investigador e ouvi-o afirmar por colegas, dotados de mais ampla experiência, que, todo aquele que é capaz de mentir, de arquitetar uma ficção, pode ser... digo, pode ser, e não afirmo que necessariamente seja... um delinquente em estado potencial. Quem é capaz de mentir é capaz de matar." (pág. 17)

"-Não digo que não fossem boas inquilinas. Já vi melhores e já vi piores. A moça não dava muito trabalho, embora fosse um tanto estranha. Mas, a velha era uma dessas pessoas que, se são ricas são um pouco nervosas, e, se são pobres, são insuportáveis." (pág. 62)

"Nunca me servi de pseudônimos. Com os pseudônimos, acaba-se sempre por cair em embaraços. Há trinta anos, adotei um, uma vez por todas, para poupar-me aos sentimentos de um pai irrepreensível e conservei-o para sempre. É como se fosse o meu próprio nome." (pág. 67)

"Quanto mais a sorte se torna adversária para quem caiu, mais se acentua a cor rósea daqueles dias remotos que ficaram na recordação."(pág. 67)

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Trilhando sonhos

Título: Trilhando sonhos
Autor: Thiago Fantinatti
Páginas: 378

O livro narra a aventura do autor em percorrer, de bicicleta, grande parte do continente sul americano. No total foram mais de 15 mil quilômetros percorridos, durante um ano, saindo do estado de São Paulo, descendo até a terra do fogo e subindo até a floresta amazônica.

Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru, entre outros, foram alguns dos lugares visitados. A sensação de liberdade e a oportunidade de conhecer novas pessoas e vivenciar novas culturas foram a grande recompensa do autor. Lendo uma aventura dessas nos faz ver que que nossos sonhos, por mais que pareçam, não são impossíveis.

Trechos interessantes:

"Ao partir, você descobre que tudo aquilo que sempre disseram sobre o mundo estava errado. Quando é você que está lá tudo ganha um olhar novo. Qualquer sonho sem um passo é só um delírio, mas se você der o primeiro, já não precisa sonhar." (pág. 23)

"Amo as estradas, mas só são boas para os seres humanos. Todo o resto sofre muito com elas. Geralmente levam lixo, barulho, poluição, causam atropelamento de animais e servem de escoamento dos recursos naturais. Bom, pelo menos na reserva [Reserva Ecológica do Taim] esse último item não existe." (pág. 50)

"O Uruguai é um desses cantinhos do mundo onde a vida ainda é vida. Aquele tipo de lugar de que ninguém fala, mas que não precisa de publicidade." (pág. 67)

"Penso que esta é a essência da vida, aprender a nos conhecer e a conhecer o lugar onde vivemos. Romper essas barreiras culturais e alguns tabus que ainda estão presentes. Saber que se pode contar com as pessoas, independente de sua raça, cultura ou religião." (pág. 77)

"Costumo dizer que sinto que aprendi tanto que é como se tivesse feito o equivalente a uma faculdade de geografia e ciências humanas durante a viagem, tamanha a quantidade de informação que recebi." (pág.89/90)

"Tem uma frase que gosto muito, dita por um mineiro chamado Argus Caruso Saturnino, que fez uma volta ao mundo durante mais de três anos num lindo projeto chamado Pedalando e Educando... Ele disse durante uma entrevista ao Jô Soares em 2005, quando perguntado se já havia se perdido: 'Se perder não faz muito sentido numa volta ao mundo porque qualquer lugar que você esteja, você está lá!'." (pág. 164)

"O capacete tinha muitos inconvenientes. Não me protegia do sol, nem da poeira, nem das chuvas e frio. Sua única função só apareceria em caso de uma eventual queda. O chapéu, nesse caso era infinitamente mais útil. Alguém obcecado por segurança pode me criticar duramente por dar este exemplo, mas o fato é que para alguém que se dispõe a arriscar-se convivendo com carros e caminhões em alta velocidade passando tão próximos o capacete é apenas um pequeno detalhe. Não me salvaria no caso de um atropelamento. Se eu fosse obcecado por segurança jamais teria iniciado esta viagem." (pág. 195/196)

"Cada personagem, cada história de vida, cada pessoa real que conheci se tornou a coisa mais preciosa que esbarrei por aí. Sinto saudade de todos e lamento a impossibilidade de não poder estar com cada um deles. Sinto que aprendi muito com cada um. Cada um deles deixou algo de bom em mim. Espero que eu tenha espaço em suas memórias.
Os rostos, sorrisos e abraços foram os lugares mais bonitos que encontrei pelo caminho!" (pág. 265)

"Minha ânsia pela aventura era uma busca real pelo desconhecido, ou seja, não queria apenas viajar e sim me surpreender com o que descobria. A cada descoberta passava a entender um pouco mais sobre o continente. Aprendia e vivenciava mais uma aula majestosa de geografia e ciências humanas, e mais do que isso, descobri que o mais interessante de uma viagem não é o destino e sim o caminho percorrido até o destino." (pág. 361)

sábado, 23 de abril de 2016

Ratos e homens

Título: Ratos e homens
Autor: John Steinbeck
Páginas: 144

Steinbeck é um gênio para relatar casos relacionados à Grande Depressão americana. Nesta história ele nos apresenta dois personagens de personalidades opostas: George (pequeno e inteligente) e Lennie (grandalhão com mentalidade de uma criança) são amigos e procuram uma fazenda para trabalhar.

Conseguem o trabalho, mas a inocência de Lennie faz com que George tenha sempre que tentar tirá-lo de enrascadas. Não foi diferente desta vez.

Ótimo livro que, devido à espessura, pode ser lido numa sentada só.

Trechos interessantes:

"-Vô te dizê uma coisa... - terminou por falar. - O último sujeito que ficô nessa cama aí era ferrero... um sujeito muito agradável, e o sujeito mais limpo qu'ocê já viu na vida. Tinha mania de lavá a mão até depois de comer." (pág. 30/31)

"-Bom, o Curley é bem habilidoso - o ajudante disse, de um jeito cético. - Pra mim, nunca me pareceu muito certo. Quando o Curley ataca um sujeito grande e bate nele, todo mundo fica falando que o Curley é memo muito valente. Mais quando ele faiz a mesma coisa e apanha, todo mundo fica falando que o cara grande devia iscolhê alguém do tamanho dele, e às veiz até se juntam pra dá uma surra no sujeito. Pra mim, nunca me pareceu muito certo. Parece que o Curley nunca dá chance nenhuma pra ninguém." (pág. 41)

"-Ele é um bom sujeito - disse Slim. - A gente num precisa sê inteligente pra sê bom. Às veiz, eu fico achando que é bem o contrário. Se a gente pega um sujeito bem isperto, ele quase nunca é um sujeito bom de verdade." (pág. 59)

"-Acho qu'oceis dois vieram mesmo pra trabaiá.
-Como assim? - George perguntou.
Whit riu.
-Bom, oceis chegaro na sexta. Oceis têm dois dias de trabaio até domingo.
-Num sei como foi que ocê adivinhou - disse George.
Whit riu de novo.
-A gente percebe essas coisas quando trabaia nessas fazenda grande muito tempo. O sujeito que só qué dá uma olhada na fazenda chega no sábado à tarde. Janta no sábado e faiz as três refeição do domingo, e pode ir embora na segunda de manhã depois do café sem nem tê que mexê a mão. Mais ocês chegaro pra trabaiá na sexta ao meio-dia. Vão tê que trabaiá um dia e meio, de qualqué jeito." (pág. 70/71)

segunda-feira, 14 de março de 2016

O reverso da moeda

Título: O reverso da moeda
Autor: Giovanna Fernandes
Páginas: 240

O livro usa uma história de fantasia para nos mostrar aspectos simples que deveriam ser constantes em nosso dia a dia: confiança, amor, companheirismo, esperança e solidariedade.

Iago é um garoto que vai morar com a mãe na casa do avô, à beira do mar. Ali, o pai de Iago havia morrido enquanto lutava com piratas que roubavam a cidade. Enquanto isso a população vê o pai de Iago como um traidor, que roubou a todos e fugiu com os piratas. Mas a verdade não é nenhuma das duas...

Trechos interessantes:

"-Por que ele gosta tanto do mar? - perguntou Estela baixinho para si mesma.
Ainda assim, Antoninho ouviu e respondeu: - É a mesma adoração que meu filho tinha.
-Eu não queria isso - reclamou Estela.
-Você não pode mudar o sentimento das pessoas." (pág. 12/13)

"-Tudo na vida traz consequências. E quando não sabemos fazer escolhas, o resultado pode ser desastroso." (pag. 32)

"Mas Charles se parecia muito com os piratas do século XVII e XVIII, que além de roubar ainda tinham um fascínio especial em torturar e assassinar inocentes.
A intenção do pirata era exatamente essa: causar uma grande aflição em Noah." (pág. 66)

"Eu fiquei assustado e chocado por ter uma pessoa em meus braços, que eu não sabia se havia matado ou não. Apesar de ser um pirata que saqueava nosso dinheiro, a dor que eu sentia era muito grande. A sensação de acabar com a vida de uma pessoa é tão forte que é capaz de tirar a paz de qualquer um pelo resto de seus dias." (pág. 68)

"Os olhos de Betina se arregalaram, ela não podia acreditar no que via. Seu avô não podia ter morrido... não agora. Era cedo demais. Seus pais acabavam de voltar. Eles estavam prontos par ser uma família feliz. Mas sem a sua presença nada seria igual. E em vão, Betina chorou e tentou chamá-lo de volta. Mas por pouco tempo. Com apenas dez anos, Betina descobria a dor da perda, irreparável. Mas a mão de Sara sobre sua cabeça já era o suficiente para ela saber que não estava sozinha." (pág. 204)

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Última valsa em Viena

Título: Última valsa em Viena
Autor: George Clare
Páginas: 290

O livro - um relato biográfico do autor - narra a luta da família Klaar para fugir da perseguição de Hitler. Os Klaars eram judeus de Viena e, com a ascensão de Hitler ao poder logo começaram a sentir o ódio que o ditador tinha pelos judeus.

A maior parte do livro transcorre na adolescência de Georg Klaar (mais tarde, George Clare), quando ainda morava em Viena, mostrando sua vida, sua família e seus ideais. Ao assumir o poder, Hitler resolve acabar com os judeus, tornando a vida ali, insuportável. No fim ele consegue sair do país, mas seus pais não tiveram muita sorte e acabaram na câmara de gás. Relato triste, mas faz parte da mancha negra da história.

Trechos interessantes:

"Eu era jovem demais para entender que a pessoa nunca se livra de sua origem, que esta é uma parte essencial da identidade de cada um e deve ser valorizada, e que tudo o que se pode conseguir eventualmente é uma forma feliz de visão dupla que permite que se veja a Inglaterra e os ingleses de uma forma um pouco fora de foco, talvez, mas, ao mesmo tempo, de dentro e de fora." (pag. 14)

"Os movimentos nacionalistas adquiriram uma nova dimensão além do desejo de autodeterminação: o ódio. Os húngaros odiavam os austro-alemães, os tchecos e os croatas; os austro-alemães odiavam os húngaros acima de tudo; os tchecos odiavam todo mundo. Seguiu-se uma crise atrás da outra, um governo atrás do outro." (pág. 23/24)

"Eu nunca me esqueci da história que ele me contou a respeito do marido de tia Thalia, irmã de vovó Julie. Esse cavalheiro se deliciava em levar os filhos àquela excelente confeitaria existente em frente ao apartamento de minha avó, e que pertencia a Herr Beisiegl. Herr Teller - era esse o nome do cavalheiro - costumava sentar-se atrás da pequena mesa de mármore convencional, agrupava os filhos em volta dele e pedia café com creme batido, dois ou três bolos, ou uma outra coisa qualquer que estivesse com vontade de comer. Papai Teller tomava seu café e comia os bolos, e depois, satisfeito consigo mesmo, acendia o charuto. Durante todo esse tempo as crianças ficavam sentadas em volta da mesa, sem terem nem um copo de limonada para dividir entre si. A única festa permitida a eles era entrar na confeitaria. E eles sabiam muito bem, por experiência própria, que seu papel limitava-se a observar. Depois de bater gentilmente no estômago protuberante, Herr Teller levantava a mão direita, apontava o dedo para o filho mais velho, Erwin, e pronunciava as palavras imortais:
-Está vendo, meu caro rapaz, um dia, quando você for pai, também vai poder comer tantos bolos quanto quiser numa confeitaria." (pag. 28)

"Em My youth in Vienna, Arthur Schnitzler, o famoso escritor judeu-austríaco, cita a Resolução Waidhofer. Ela dizia:

'Todo filho de mãe judia, todo indivíduo com sangue judeu nas veias, nasce sem honra e deve, portanto, estar privado de todo sentimento humano decente. Tal pessoa não pode saber a diferença entre o que é puro e o que é sujo. Eticamente, ele é o que há de mais baixo. Segue-se daí que o contato com um judeu é desonroso; assim, qualquer contato com um judeu deve ser evitado. É impossível ofender um judeu, e portanto nenhum judeu pode exigir satisfação por qualquer insulto que possa ter recebido'." (pág. 38/39)

"A liberdade na Áustria é uma criatura heterogênea. Ela está em algum lugar entre a liberdade na Rússia e a liberdade na Alemanha. Na sua forma, ela é germânica; na sua execução, é russa. Com exceção da França e da Inglaterra, a Áustria tem, provavelmente, as leis mais liberais, tanto é assim que ela se parece muito mais com uma república que, em vez de um presidente, tem uma majestade no poder. Por infelicidade, no entanto, não se põe em prática o que é determinado pela lei, mas apenas o que convém ao inspetor de polícia responsável. Ele tem o direito de confiscar todas as liberdades garantidas pela lei, e temos razões para acreditar que ele use e abuse desse direito... Que estranho, entretanto: o governo da Áustria é tão incapaz de executar atos de justiça quanto é incapaz de executar atos de opressão; ele balança para lá e para cá - nós temos despotismo suavizado pela indolência." (pág. 72/73)

"Nem a direita nem a esquerda haviam desejado aquela matança. Mas ambas foram igualmente culpadas por envenenar a atmosfera política. O 15 de julho de 1927 não foi uma guerra civil. Foi apenas uma revolta de um dia, mas os acontecimentos desse dia desesperado tornaram inevitável a guerra civil de 1934." (pág. 113/114)

"Em tudo o que fez naquele dia, minha mãe mostrou uma profunda compreensão do seu filho de doze anos. Tentar fazer uma criança compreender que aquilo que aprende na escola é, em última análise, para seu próprio benefício e não para o bem de seus pais, nunca funciona. O que pode um conceito como 'em última análise' significar para uma criança? Ele diz respeito a um futuro que está anos à frente - e portanto a uma eternidade - do que ela pode conceber como realidade. Significa algo com uma vaga importância, em algum remoto período de tempo, compreensível do ponto de vista intelectual, mas sem sentido emocional, porque nenhuma criança é capaz de se identificar com o homem ou mulher que vai ser daí a dez anos. Mas uma criança pode identificar-se emocionalmente com os pais. O que eles sentem a respeito dela, isso é real. E a minha realidade, minha identificação, naquele dia, foi com mamãe. A mãe que tinha chorado comigo, tinha compartilhado a minha culpa, estava preparada para sacrificar por mim suas joias queridas, sobretudo por haverem pertencido à sua própria mãe, e por fim, tinha me levado ao cinema em vez de me castigar." (pág. 129/130)

"Eu sabia que tinha causado um grande sofrimento a meu pai, e apesar da fúria que sentia, percebi também quanto o amava e quanto dói ferir alguém a quem se ama." (pág. 168)

"Nunca tinha visto meu pai chorar antes, nunca tinha ouvido aquele som atormentado de dor e desespero de um homem chorando, nunca tinha presenciado aquela luta sufocada de um homem tomado pela dor que tenta recuperar o controle sobre si mesmo. Um homem, criado na crença de que chorar não é próprio de homens, não encontra alívio nas lágrimas como as mulheres encontram. Suas lágrimas não escorrem livremente dos olhos, mas saltam deles, quentes e cheias de agonia, turvando a visão e a alma." (pag. 210/211)

"[...]folheei distraidamente meu passaporte, contemplando o visto lituano, bem como o carimbo enfeitado com a suástica, feito pela seção de passaportes de Viena, e que dizia: 'Válido somente para uma viagem de ida e volta'. Todo judeu austríaco sabia que essa licença para voltar só era válida no papel. Quando se ia buscar o passaporte, era-se informado de que uma viagem de volta terminaria em Dachau, se a pessoa tivesse a audácia de voltar." (pag. 236)

"Todo mundo sabe que o simples fato de ser preso induz a vítima a um sentimento de culpa. Kafka, bem como os policiais do mundo inteiro, descobriu isso muito antes que eu, mas posso jurar que é verdade por experiência própria. Eu realmente me senti culpado - do quê, eu não sabia -, ao caminhar ao lado de Mandl sob os olhos vigilantes de dois guardas armados." (pág. 237/238)

"Meus pais tiveram de morrer porque eram judeus, porque pertenciam ao povo que deu ao mundo Jesus e um código de ética de acordo com o qual o mundo nunca foi capaz de viver.
A Igreja ensina que toda humanidade partilha a culpa pela morte de Jesus na cruz. Assim, toda a humanidade partilha a culpa pela morte de meus pais e de milhões de judeus, homens, mulheres e crianças, nas câmaras de gás." (pag. 283)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Os melhores contos de Bernardo Élis

Titulo: Os melhores contos de Bernardo Élis
Autor: Gilberto Mendonça Teles (org.)
Páginas: 174

O nome de Bernardo Élis é sempre reverenciado por ser um dos melhores escritores de nossa região. Seus contos, quase sempre utilizando a linguagem simples e natural do homem do campo, trazem à tona toda a alma e sensibilidade do povo goiano.

Aqui temos uma seleção variada e para todos os gostos, incluindo o célebre conto 'A enxada', conto este que já teve até uma versão para a TV, mas foi impedido pela censura política. Enfim, se você gosta de contos, aqui está uma ótima seleção.

Trechos interessantes:

O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava ensopadinho da silva. Dependurou numa forquilha a caroça, - que é a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva, - tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha." (pág. 27)

"Nesse tempo, dizia-me Anízio: - 'Na mulher a arte é bastante para redimir a prostituta; e por isso é a única forma digna de prostituição'." (pág. 36)

"Dona Rita costurava seus panos, no tarará da maquininha. Era preciso remendar e remendar sempre, fiel ao ditado: 'Remenda teu pano que durará um ano; remenda outra vez que durará um mês; torna a remendar que ainda há de durar'." (pág. 105)

"-Mas cuma é que esse pessoal veve? Num tou vendo ninguém não tocar roça, uai.
Para ela, todos deveriam fazer roça, criar bois, cavalos, porcos, tecer pano, fazer chapéu e sabão. Como não visse Reimundo fazer nada disso, tinha-o em má conta. 'Homem preguiçoso e inútil'." (pág. 107)

"-Chuva não deve de tardar - comentava capitão, espreitando o céu encardido.
-A chuva... - Neca repetia a palavra num eco, a boca seca, dente no dente. Não tinha terras para lavrar, nem gado para tratar, nem dinheiro para comprar mantimento quando viessem as colheitas. Portanto, tanto fazia chover ou não." (pág. 109)

"Mas Rosária exigia que as meninas, até que fossem dormir, dessem uma demão na labuta, que não deixassem de lavar os pés na bica, depois do que, que rezassem o padre-nosso e a salve-rainha e também o creindeuspadre, por via de uma premessa que não e d'hoje ela havera feito pra Nossa Senhora da Conceição que era madrinha de ambas as duas filhas dela. Entretanto, o tempo passando e Rosária mais a Veva e a Nhã enrolavam cumbersa mode desorientar as meninas e não permitir que elas entendessem certas coisas por causa que menina mulher é muito curioso demais de certas proveniências que só devem de ser entendidas ao seu devido tempo, mas que esse tal de Joãoboi não andava que nem o comum das gentes não porque ele não pissuía pé de gente não, ele pissuía era casco rachado tal e qual casco de boi." (pág. 123/124)

"Ela não ia deitar porque precisava terminar a colcha que principiara fazia muitos e muitos anos. Por que seria que a colcha não rendia, que tinha sempre uma coisa atrapalhando terminá-la? Até diziam que colcha de retalho a gente não deve nunca de acabar, porque no dia que a gente acaba uma colcha de retalhos, ela também acaba com a gente." (pág. 147)

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A vida secreta dos números

Título: A vida secreta dos números
Autor: George G. Szpiro
Páginas: 272

O livro apresenta 50 crônicas relacionadas à Matemática: pode ser um fato curioso, uma biografia interessante, uma pesquisa importante ou até mesmo uma curiosidade qualquer. Assim sendo, o livro é recomendado para quem tem uma certa afinidade com números. Para quem não tem, o livro se tornará muito tedioso.

As crônicas são variadas, algumas são simples, mas a maioria é bastante complexa. É um livro para ser lido com calma e tranquilidade. Para quem acha que a Matemática não tem utilidade alguma, talvez seja interessante conhecer algumas das crônicas.

Trechos interessantes:

"Futuras incorreções do calendário haviam,portanto, sido corrigidas, mas, o que fazer em relação àquelas acumuladas durante o milênio e meio que se passou desde que Júlio César introduziu seu calendário? O criativo do Papa Gregório resolveu o problema com uma tacada de mestre: em 1582, retirou 10 dias completos do calendário. Com esta solução drástica,o pontífice colhia um benefício adicional. Uma oportunidade para mostrar ao mundo e seus governantes quem era o verdadeiro senhor. Assim, na maioria dos países católicos, a quinta-feira, 4 de outubro de 1582, foi seguida pela sexta-feira, 15 de outubro." (pág. 19)

"Os russos mantiveram o calendário inalterado até a Revolução, quando foram forçados a eliminar 13 dias. A consequência curiosa é que a Revolução de Outubro ocorreu, na verdade, em novembro de 1917." (pág. 19)

"Trabalhar na teoria de primos gêmeos pode ser mais que um simples exercício intelectual, como Thomas Nicely, da Virgínia, descobriu na década de 1990. Quando buscava grandes pares de primos gêmeos, ele passou por todos os inteiros até 4 quatrilhões. O algoritmo exigia o cálculo da banal expressão x vezes (1/x). Mas, para sua surpresa, quando inseria certos números nesta fórmula, o resultado não era o valor 1 e, sim, um outro incorreto. No dia 30 de outubro de 1994, Nicely enviou uma mensagem de correio eletrônico a colegas, para informá-los que o computador consistentemente produzia resultados errados ao calcular a expressão anterior com números entre 824.633.702.418 e 824.633.702.449. Através da pesquisa com primos gêmeos, Nicely deparou-se com o notório bug do processador Pentium. Este erro custou à Intel, o fabricante, 500 milhões de dólares de indenizações - um primo exemplo (sem trocadilho) mostrando que matemáticos nunca sabem onde suas pesquisas, e erros, os levarão." (pág. 47)

É parte da vida dos matemáticos passar a maior parte do tempo sozinhos em pequenas salas, trabalhando em problemas seculares. Trabalhar nestas circunstâncias, longe do burburinho do mundo exterior, assegura um certo nível de qualidade. Como provas matemáticas somente são consideradas corretas após passarem pelo teste do tempo, alarde na imprensa é prejudicial à cuidadosa e prolongada análise de uma prova. Buscar este tipo de exposição pública é, para dizer o mínimo, inapropriado." (pág. 51/52)

"Coxeter tinha consciência de ser privilegiado e creditava a longa vida ao amor pela matemática, à dieta vegetariana, aos exercícios diários de 50 flexões de uma só vez e à grande devoção à matemática. Como disse a um colega, nunca esteve aborrecido e foi 'pago para fazer o que amava'." (pág. 99)

"Como um matemático tem a inspiração para chegar à solução de um problema investigado há anos e anos? A resposta de Specker é que isto não pode ser previsto. Uma ideia pode surgir de repente, sem mais nem menos, no meio do banho ou enquanto se faz a barba. No entanto, é importante - e ele estica o dedo para enfatizar o que diz - estar completamente relaxado. Tensão, ele insiste, é contraproducente. E mais uma coisa: nunca se deve ficar frustrado por um início falho. Muitas vezes, Specker enfatiza, um início falho contribui para pesquisa adicional ou, até mesmo, forma a base da pesquisa." (pág. 119/120)

"O fato de que muitas pessoas façam seguros para evitar riscos e, ao mesmo tempo, gastem dinheiro com bilhetes de loteria para correr riscos é um outro paradoxo, que ainda aguarda uma explicação." (pág. 199)

"Uma vez que estratégias fracas tenham desaparecido, até mesmo as estratégias bem sucedidas deixarão de prover grandes resultados, pois não haverá mais alguém para ser explorado. Portanto, as estratégias bem-sucedidas também desaparecerão, da mesma forma que predadores se tornam extintos quando não há mais presas para caçar." (pág. 247)

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O vencedor

Título: O vencedor
Autor: Tami Hoag
Páginas: 448

A autora apresenta um romance policial tendo como pano de fundo o mundo dos cavalos. Animais que valem milhões, tratados como objetos de luxo, para o deleite e inveja de alguns milionários.

Uma garota encarregada de cuidar dos cavalos desaparece e ninguém, a não ser sua irmã de 12 anos, se preocupa em saber do seu paradeiro. Para isso entra em cena a ex-policial Elena Estes, que agora se dedica aos cavalos. Relutante em reviver os fantasmas do tempo de policial e, ao mesmo tempo, compelida a ajudar a única pessoa preocupada com o desaparecimento da garota, ela se aprofunda cada vez mais no misterioso mundo hípico. Quanto mais se aprofunda, mais intrigas e segredos são descobertos, até o desfecho final.

Trechos interessantes:

"Fica-se mais vivo quanto mais perto se está de enfrentar a morte de frente." (Pág. 13)

"Algumas das melhores pessoas que conheci pertenciam ao mundo dos cavalos. Gente capaz de se sacrificar pelos animais que confiavam nelas. Gente de palavra, íntegra. E algumas das piores, mais odiosas e mais esquisitas pessoas que conheci pertenciam ao mundo dos cavalos. Gente capaz de mentir, trapacear, roubar e vender a própria mãe por um centavo, se achasse que valia a pena. Capaz de sorrir e dar um tapinha enquanto, com a outra mão, esfaqueia você." (pág. 23)

"As pessoas veem o que estão programadas para ver, raramente procuram por mais." (pág. 59)

"Descobri que as pessoas guardam melhor os segredos se elas também têm um." (pág. 122)

"-Devia processá-lo por calúnia, talvez assim ele sossegue - disse Paris, ríspida.
-Por difamação. Quando a mentira é dita, chama-se difamação; quando é escrita, calúnia - corrigiu Jade." (pág. 126)

"-Você precisa me contar, isso aqui é coisa séria. Não se trata apenas de alguns corcéis correndo no meio da noite. Uma garota morreu. Percebo que no seu mundo ela não devia esperar muito, mas, no meu mundo, assassinato é coisa grave. Todos os que a conheciam e tinham problemas com ela vão ter de contar suas andanças. Se você tem uma testemunha, é melhor dizer, senão vou acabar usando mais horas do seu precioso tempo." (pág. 206)

"A incerteza é sempre o tormento do trabalho feito às escondidas. Eu construí um castelo de cartas, apresentando-me como uma pessoa para uns e outra para outros. Não me arrependia. Eu sabia dos riscos. O truque era colher os dividendos antes de ser descoberta e as cartas desmoronarem." (pág. 257)

"Só existe um jeito de saber para onde o vento está indo: cuspir nele." (pág. 294)

"Jamais sabemos o que se passa no coração do outro, o que os anima, o que os derruba, o que eles consideram corajoso, rebelde ou de sucesso." (pág. 302)

"-Quando cresci, vi que meu pai tratava a lady Justiça como uma mercadoria e vendia-a pelo lance mais alto. Achei que alguém precisava equilibrar o outro lado da balança, fazer um esforço para igualar as coisas." (pág. 347)

"De certa forma, Krystal era mais criança que Molly. A vida inteira sonhou ter um marido respeitável, uma linda casa e tudo decorado. Nunca imaginou que viver como uma boneca Barbie tivesse as mesmas ciladas que ser pobre. Tenho certeza de que ela nunca pensou que o ser humano é o mesmo em todas as faixas socioeconômicas." (pág. 359)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cem sonetos de amor

Título: Cem sonetos de amor
Autor: Pablo Neruda
Páginas: 120

Sinceramente, a poesia não é o meu forte. Tenho muita dificuldade em entender o seu significado quando não está bem à vista. Até entendo uma poesia sem rima quando se trata de uma poesia moderna, quando a forma, muitas vezes, é o que interessa.

Mas na minha visão de leigo, o que me agrada num soneto é a disposição da rima. Apreciar cem sonetos onde não há uma única rima é muito pra mim. Foge ao meu entendimento...

Trechos interessantes:

"Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que fumaça, mostraram minha morada?" (pág. 13)

"E tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente." (pág. 18)

"Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira," (pág. 27)

"Não só pelas terras desertas onde a pedra salina
é como a rosa única, a flor pelo mar enterrada,
andei, mas pela margem de rios que cortam a neve
." (pág. 78)

domingo, 3 de janeiro de 2016

Histórias de alta-tensão

Título: Histórias de alta-tensão
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 266

Começando o ano com mais uma coletânea de Hitchcock. São 13 histórias seguindo o padrão já consagrado. Para quem já leu quase todas, parece que as histórias se repetem, já que são mais ou menos padronizadas, mas, mesmo assim, eu gosto muito.

Estou ficando muito exigente: das 13 histórias, apenas 2 mereceram um destaque da minha parte: "O homem no saguão" e "A arte da dedução".

Trechos interessantes:

"Os ciganos, especialmente as mulheres, envelhecem depressa." (pág. 29)

"Os ciganos são retraídos e suas vidas estão impregnadas por superstições com mais de 10 séculos. Conhecer o nome de um cigano, quando se é um estranho, significa ter poder sobre ele." (pág. 30)

"Contara tudo, como uma criança pequena que foge de casa, talvez pegando um bonde até o fim da linha ou algo parecido, depois sente fome e usa o dinheiro que tem no bolso para comprar um sorvete, finalmente volta para casa e é despachada para o quarto sem jantar, cansada, faminta, mas orgulhosa de sua façanha." (pág. 37)

"Todos nós temos lá no fundo impulsos sombrios, que normalmente conseguimos manter sob controle. Mas a hipnose pode liberar esses impulsos e um hipnotizador pode facilmente tirar proveito disso." (pág.90)

"-Sofisma... Lembro disso, do meu próprio curso de filosofia. Um argumento capcioso, baseado numa falsa premissa." (pág. 133)

"A primeira regra ao se cometer uma traição é providenciar para que o traído não possa se vingar." (pág. 211)

sábado, 26 de dezembro de 2015

A perseguição

Título: A perseguição
Autor: Sidney Sheldon
Páginas: 234

História fiel aos padrões de Sheldon, no entanto uma história curta e linear, sem nenhuma ramificação ou trama paralela. Não encontrei referência a este livro na Wikipédia (em inglês).

A história é simples: um magnata japonês morre num acidente aéreo e o filho, com 18 anos, deve assumir as empresas. O tio do garoto acha que o testamento foi injusto e ele é que deve herdar a empresa. Para que isso aconteça, só há uma maneira: o garoto deve morrer. O resto do livro é "a perseguição".

Trechos interessantes:

"Sabe por que os nossos negócios crescem tão depressa, Masao? Porque somos melhores do que os outros. Porque nos importamos mais. Somos afortunados por termos nascido japoneses. Em outros países, os trabalhadores fazem greve durante todo o tempo. Pensam apenas em si mesmos. No Japão, somos todos de uma só família, e o que é bom para um é bom para todos." (pág. 16/17)

"Não havia nenhum motivo para que ganhasse aquela corrida, nada significativo para ele. E, no entanto, sabia que tinha de continuar. Era uma questão de orgulho. Já que entrara na corrida, tinha de vencê-la. Não seria o segundo melhor." (pág. 60)

"Foi só então que Masao compreendeu o quanto sentira falta de sua língua. O japonês era uma língua tão civilizada, tão fácil de compreender!" (pág. 79)

"Masao nunca pensara sobre a fome antes. Quando uma pessoa é bem alimentada, não pensa em comida; mas quando uma pessoa está faminta, não consegue pensar em outra coisa." (pág. 101)

"Quando a vida é serena e suave, o Tempo é um amigo. Quando a vida fica repleta de problemas, o Tempo se torna um inimigo." (pág. 157)

"Masao tentara explicar a atitude dos trabalhadores no Japão.
-É como uma família. O trabalhador é bem cuidado enquanto viver. Sabe que não será dispensado. A prosperidade da companhia é também a sua prosperidade. E ele se orgulha de seu trabalho." (pág. 199)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Profecia

Título: Profecia
Autor: S. J. Parris
Páginas: 320

Outro romance histórico, seguindo a linha do primeiro (Heresia): Giordano Bruno desta vez está às voltas com espiões e dissidentes que planejam destronar a rainha Elizabeth para que a rainha católica Maria Stuart seja aclamada.

É um livro policial onde o detetive foi substituído pela figura histórica de Giordano Bruno, mas os ingredientes são os mesmos: mistério, suspense, crime, traição, etc. Leitura primorosa, fazendo com que você se sinta como se estivesse na própria Londres do século XVI.

Trechos interessantes:

"-'Quando ouvires falar de guerras e rumores de guerras, não te perturbes; pois é forçoso que essas coisas aconteçam, mas ainda não é o fim - pondero citando o Evangelho de Marcos." (pág. 27)

"Que rapaz de 17 anos, tendo provado a independência, devolveria de bom grado as rédeas do governo à sua mãe? Ele vai precisar de maior vantagem material do que de sentimento filial para ser convencido a apoiar a causa dela." (pág. 44)

"[...]sem dinheiro, títulos ou terras em meu nome, preciso me tornar indispensável aos homens de poder para progredir, e aprendi pelo método mais difícil que a maioria dos poderosos prefere quem os entretenha a quem os esclareça." (pág. 52)

"Por um instante, reflito sobre o caminho estabelecido para as jovens nascidas na nobreza: quão brevemente lhes é permitido brilhar, serem exibidas e admiradas em público em seu próprio meio social, só o tempo exato que levam para encontrar um marido adequado. O dia do casamento é o zênite de seu curto florescimento. Depois disso, esperam-se que desapareçam outra vez no segundo plano, que cubram os cabelos e se contentem com os reflexos da glória do marido e dos filhos." (pág. 153)

"Claro, foi meu antigo criado que testemunhou contra mim no patíbulo, mas um homem diz qualquer coisa quando está com uma corda no pescoço, não é?" (pág. 164)

"-Ele gostava de você - diz Castelnau mansamente. - Era um esquisitão, o Léon, meio fechado. Mas falava muito bem de você. Acho que você era quem ele mais via como um amigo nesse país.
-Eu deveria ter sido um amigo melhor - digo, e a voz sai rouca.
-Nós todos deveríamos tê-lo tratado melhor. O que dá pena é que nunca se pensou nisso enquanto ele estava vivo." (pág. 257)

"Mesmo assim, onde o dinheiro chega, o desespero vem atrás: mendigos tendo apenas míseras camadas de farrapos entre si e a umidade de outubro perambulam por perto das escadas, choramingando seus pedidos de esmolas aos comerciantes bem alimentados e cobertos de peles." (pág. 272)

"Oriundo de um país governado pelo açoite do Santo Ofício, sei muito bem com que facilidade um homem ameaçado pela dor física diz qualquer coisa passível de agradar àquele que pode ordenar que essa dor cesse." (pág. 286)

"-Se eu não soubesse que isso é impossível, Bruno, seria capaz de jurar que você fez um pacto com o próprio diabo. Você é indestrutível. Mas acho que o diabo não teria coragem de fazer essa aposta. Teria medo de você ser mais esperto que ele." (pág. 304)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A ladeira da saudade

Título: A ladeira da saudade
Autor: Ganymédes José
Páginas: 200

O livro narra a aventura de Lília, jovem sonhadora, na cidade de Ouro Preto. Cansada da rotina de São Paulo, Lília vai passar uns dias na casa de sua tia em Ouro Preto, onde faz novas amizades e encontra um novo amor.

O livro em si é mais uma aula de história já que apresenta em detalhes todos os aspectos de Ouro Preto, sua história, sua arquitetura, suas artes, seus poetas e tudo mais. Enfim, a história do livro é simples, mas os aspectos históricos são fascinantes.

Trechos interessantes:

"Em meu coração jovem há tantos caminhos que não consigo percorrer! Por que sou assim tão contraditória? Agora estou triste... agora estou alegre... Aqui estou radiante mas, ali adiante, sou toda lágrimas! Por que não sou sol-amarelo-calor-e-luz? Por que não aprendo a caminhar sem ter destino até o encontro dos braços que me amem? Braços que me aqueçam... braços que tirem de mim todo o sol que tenho para dar ao mundo!" (pág. 13)

Para Lília, todas as pessoas tinham dois eus: o eu de fora, o físico, que todo o mundo vê, e o eu de dentro, o invisível, que só aparece quando as pessoas são honestas, espontâneas, dedicadas... como acontecia com o pai. [...] Podiam existir pessoas bonitas por fora e feias por dentro? Talvez pudesse, porque Lília conhecia pessoas extremamente feias, porém com um eu interior maravilhoso!" (pág. 15/16)

"Para falar a verdade, entre ter um amigo falso e um inimigo franco, eu prefiro o inimigo franco porque posso confiar nele." (pág.30)

"Depois que Tampinha beijou tia Ninota, Lília também beijou-a. Estranho! Foi um gesto impensado! Até então ela nunca havia beijado espontaneamente a tia! Porém, o gesto da Tampinha foi tão natural que, sem querer, Lília fez igual. Com isso, pôs-se a pensar: 'Será que o amor é assim mesmo, aprendemos sem perceber e precisamos de alguém que nos ensine como fazer?'" (pág. 65)

"Das lojas, portas e janelas, abertas para a rua, emanava um cheiro misterioso. Mofo? Não era isso. Era cheiro de coisas antigas, de lembranças; 'Se saudade tiver cheiro, esse é o cheiro da saudade' - pensou, correndo o dedo sobre uma parede áspera." (pág. 133)

"Não são atitudes como a sua que consertam o mundo. Não vê? Existe uma grita geral por aí, dizendo que não há mais diálogo entre pais e filhos. Dialogar não é só perguntar como vai o corpo, a escola, o estudo, se está precisando de dinheiro ou gasolina para o automóvel. Dialogar é mais do que isso, Flávia... dialogar é a gente conversar com os olhos, com o coração. Aí, quando chega o momento certo, é que sabemos se o diálogo funcionou." (pág. 194)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A filha da minha mãe e eu

Título: A filha da minha mãe e eu
Autor: Maria Fernanda Guerreiro
Páginas: 272

Apesar do tema central ser a relação entre mãe e filha, o livro está repleto de situações de conflitos familiares de toda natureza: amor, ciúme, drogas, rejeição, preconceito, adoção, etc. A autora conseguiu realizar uma miscelânea de sentimentos entre as personagens do livro que, dificilmente, um leitor não conseguirá se situar em pelo menos um pedaço da historia.

O livro narra a história de Mariana que, ao ser mãe, rememora a sua própria convivência com a mãe e a falta de afinidade entre ambas, situação comum a muitas adolescentes. Com o desenrolar da história fica claro que todos têm seus problemas e que, de uma maneira ou de outra, acabam interferindo nas relações pessoais mas, no fim, descobre que o amor de mãe tem vária formas.

Trechos interessantes:

"Quando vi as duas listras azuis no teste de gravidez, tive uma certeza: preciso me sentir filha antes de me tornar mãe. Porque uma parte da minha alegria era inventada e, a outra, não era minha." (pág. 7)

"Essa era uma grande diferença entre os dois. Enquanto meu pai ressaltava como era prazeroso alguma coisa, apesar de ter que abrir mão de outra, minha mãe preferia falar primeiro que abdicava de alguma coisa pela obrigação de outra. Com ele, depois do trabalho, restava a alegria. Já com minha mãe, como a grande maioria das mães, estava ali noite e dia, no prazer sim, mas, principalmente, na obrigação de educar. E só hoje sei que isso faz toda a diferença no jeito como uma criança olha um adulto." (pág. 28)

"Minha mãe costuma dizer que ela podia esfolar vivo um dos filhos, mas que ninguém mais podia tocar um dedo. Era o direito da maternidade. O direito de errar porque estava tentando acertar." (pág. 60)

"Muitas vezes não é o que se diz que magoa, mas o tom com que se fala faz toda a diferença. E eu conhecia todas as variações de voz da minha mãe para saber que aquele clima não melhoraria no dia seguinte, nem no outro." (pág. 100/101)

"A verdade é que éramos duas estranhas que não sabiam demonstrar o sentimento que a outra precisava. De repente, tudo me pareceu tão simples e o tempo entre nós tão desperdiçado. Era fato o amor que existia entre mãe e filha, mas os caminhos escolhidos para demonstrá-lo não tinham sido os mesmos." (pág. 117)

"-Pai, você tem medo de morrer?
-Acho que num grau ou em outro todo mundo tem.
-Por quê?! Se a gente não lembra de nada antes de nascer, provavelmente também não vai lembrar de nada depois que morrer. Não deve ter dor nenhuma - falei, tranquila." (pág. 134)

"A mudança teria de ser como uma explosão. Partindo de um ponto pequenininho dentro dele e indo para fora, tomando conta de tudo ao redor. Seus hábitos teriam que mudar, seus amigos de balada, seu modo de encarar a vida e, sobretudo, na minha opinião, sua capacidade de lidar com frustrações.
Ele teria que aprender a não mais fugir para as drogas quando as coisas não saíssem como desejava. E o mais difícil: teria que buscar a felicidade em outro lugar, num lugar mais verdadeiro e não na química que, apesar de promover alegria, destruía seu corpo e, pouco a pouco, sua capacidade de raciocínio e convivência com as pessoas. Mas essa era uma decisão que pertencia a ele. Só a ele." (pág. 189)

"Notei que quando a gente percebe que os outros têm os mesmos problemas que a gente, isso ajuda a diminuí-los." (pág. 216)

"Mas não é nos sentimentos demonstrados que residem nossos maiores erros e sim naquele amor que, apesar de existir, não se mostra. Os pais querem tanto ser justos com os filhos que, às vezes, acabam sendo injustos." (pág. 259)

"Então, se você está receosa de achar que não vou ligar para o que você vai me contar só porque eu já vi isso um milhão de vezes, você está enganada. O ser humano sempre me surpreendeu. Isso porque ele tem o livre-arbítrio, o que faz toda a diferença na história de qualquer um. Provavelmente, a única coisa em você que é igual a todo mundo é o fato de sentir-se diferente." (pág. 262)