domingo, 30 de novembro de 2014

Contato visual

Título: Contato visual
Autor: Cammie McGovern
Páginas: 304

Uma criança é morta num parque da escola e todos estão à cata do assassino. O problema é que a única pessoa que pode auxiliar na busca é um aluno autista. Como fazê-lo perceber a importância do que estão procurando e como extrair essa informação? Esse é o ponto.

A autora consegue elaborar uma boa trama onde o ponto principal é trazer à tona a discussão sobre os autistas. Embora muita gente diga que não, cada pessoa é especial. Resta descobrir a maneira de aproveitar o que todos têm de bom, mas que alguns não conseguem demonstrar. Grande tema, ótima leitura, bom livro.

Trechos interessantes:

"Aos quatro anos, ele era capaz de identificar um clarinete, um oboé, um fagote, mas não conseguia, nem sob pressão, apontar para uma calça. Essa é a peculiaridade de um cérebro autista, a maneira como alguns caminhos funcionam, e outros não." (pág. 19/20)

"Ela só consegue pensar: é estranho que alguém que não o conhece, que só viu Adam eu seu pior momento, com a aparência mais autista que ele teve em anos, pode ter mais esperança de um avanço que ela." (pág. 36)

"De uma coisa Cara tem certeza: quando seu filho é autista, a família toda quer poder fazer algo por você." (pág. 99)

"Muitas crianças são testemunhas ruins. Isso acontece sempre, uma criança fica a dez metros de um assassinato, e você quer saber o que ela geralmente diz? A cor da calça do assassino? Elas ficam com medo demais para olhar para cima. Rostos dão medo. Na maioria das vezes, uma criança que presenciou um assassinato não sabe dizer que arma foi usada. Elas não veem esse tipo de coisa. O cérebro delas não processa isso." (pág. 109)

"Em algumas situações da vida só uma coisa importa. Ou você preenche os requisitos ou não." (pág. 146)

"Amizade significa que você ajuda a outra pessoa. Fica ao lado dela." (pág. 211)

"'Escute', a mulher finalmente disse, 'você pode fazer como quiser. Não vou dizer a você como viver sua vida porque nem nos conhecemos. Mas todos os livros que você ler, todos os estudos, vão dizer que uma criança que sabe quem é seu pai é mais equilibrada, mais saudável. Um nome na certidão de nascimento é muito melhor que nada'." (pág. 236)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O amor pode ter asas

Título: O amor pode ter asas
Autor: Bianca Rocha
Páginas: 432

Mais um livro típico para adolescentes. A história, o enfoque, os personagens, a maneira de contar e tudo mais demonstra que o público alvo é o adolescente. Também, pelo que li na contracapa, a autora tem apenas 16 anos, portanto é natural que seja esse o direcionamento.

A história retrata o amor de dois jovens: Jasmim e Daniel. Até aí nada de mais a não ser o fato de que Jasmim é uma... fada, com asas e tudo mais. E Daniel, é claro, não sabe disso. Mas o que mais me chamou a atenção não foi a história em si, mas um número elevado de erros na impressão. Tina no lugar de tinha (pág. 305), afundo ao invés de a fundo (pág. 338), concertar ao invés de consertar (pág. 65) e inúmeras outras. Não sei se por tratar de primeira edição, mas acho que o revisor estava cochilando quando foi impresso.

Trechos interessantes:

"Em horas que você não sabe o que fazer, não há nada melhor do que ter uma mãe do lado para te dar apoio. As mães, por incrível que pareça, sempre têm uma resposta para nossas perguntas." (pág. 19)

"-O que é mais chato para você?- perguntei, esquecendo-me completamente de que estávamos sendo observados.
-Ah, o fato de que, se você der um passo, todo mundo fica sabendo. Eu tenho dó das pessoas famosas, como cantores e atores, que frequentemente veem em jornais e revistas notícias do tipo: 'Artista tal foi visto na praia tomando banho de Sol. Ele tomou uma água de coco e duas Cocas de 200 ml'. Deve ser insuportável." (pág. 67)

"O futuro não passa de uma caixa fechada. Você não pode abri-la, porque ela se abre sozinha. E quando isso acontece, o mundo muda. Para melhor ou para pior, mas ele muda. E você não pode fazer nada a não ser aceitar." (pág. 89)

"-Ser diferente é a coisa mais normal do mundo. Não é o que você consegue fazer que vai dizer quem você é." (pág. 133)

"[...] perdoar é divino. E se você percebe que seu maior inimigo está caindo, não é certo cantar vitória e esfregar a derrota na cara dele. Para que colocar mais lenha na fogueira? Por que você não simplesmente o ajuda a aceitar a derrota e a encarar outras batalhas? E se você pensar comigo, vai perceber que, se seu inimigo desistir de travar batalhas com você, você também não poderá batalhar." (pág. 156)

"-Tenho medo de descer do salto e descobrir que eu não sou perfeita.
-Mais cedo ou mais tarde isso vai ter de acontecer - eu disse. - E você vai ver que ser perfeita não é tão legal assim. Ser normal é bem melhor." (pág. 285)

"-O que você sente não é amor. É paixão. A diferença é que no amor sincero e real você só busca a felicidade da outra pessoa, esteja ela com você ou não. Eu cresci ouvindo isso. Só se ama uma pessoa se o que você deseja não for tê-la, e sim vê-la feliz. 'Se você ama alguém, deixe ir! Se voltar, é seu, se não voltar, nunca foi seu'." (pág. 305)

"-Um homem só pode ter certeza que está acordado se já tiver tido um sonho." (pág. 429)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Private

Título: Private
Autor: James Patterson
Páginas: 208

Mais um romance policial e, mesmo sendo um livro do renomado autor James Patterson, não conseguiu me fazer entrar no clima. É assim mesmo: alguns livros conseguem prender o leitor e outros, nem tanto. Tem lá suas vantagens, mas eu esperava mais.

O livro conta a história de uma agência de detetives (a tal Private) com uma super equipe de investigadores e que possui uma grande reputação entre a alta sociedade. De repente, estão três casos a serem resolvidos simultaneamente e, mesmo assim, não consegui perceber a conexão entre eles que justificasse toda a propaganda do livro.

Trechos interessantes:

"Não existe dinheiro bom e dinheiro ruim. É tudo igual. Não passa de um instrumento de troca." (pág. 11)

"Esses assassinatos são todos diferentes. É uma loucura. Nunca vi nada assim antes. - Ela fez uma pausa aturdida. - Atirar em alguém demonstra distanciamento. Atear fogo é um crime sexual. Estrangular é pessoal. Temos esses três métodos e alguns outros. Esse mistério não se desenrola e ainda não consigo imaginar o assassino. Ele não se encaixa em nenhum perfil que eu conheça." (pág. 32/33)

"Apostadores jogam pela adrenalina. Passam da compulsão à dependência. Ganham e apostam novamente. Perdem, o que é mais provável, e a euforia se transforma em desânimo. Então apostam novamente para tentar recuperar o prejuízo. Não importa o que aconteça, continuam apostando." (pág. 62)

"-Você nunca tem dor de cabeça? Essa auréola apertando suas orelhas o tempo todo..." (pág. 113)

"-Não existe um jeito fácil de fazer isso. Podemos escolher entre o difícil e o mais difícil." (pág. 162)

"O fato é que Los Angeles é um lugar mais seguro por causa da dedicação de vocês. Obrigado.
Aquele agradecimento dava uma sensação boa. Qualquer que seja a substância química liberada pelo cérebro em decorrência desse momento, ela fazia meu corpo inteiro se sentir satisfeito. Dinheiro nenhum pagava a sensação inebriante de levar o lixo para fora e vê-lo ir embora, sabendo que não voltará." (pág. 193)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Montanha-russa

Título: Montanha-russa
Autor: Martha Medeiros
Páginas: 216

As crônicas sempre me fascinaram. Essa coisa de histórias curtas, onde o autor tem que entreter o leitor, usando apenas uma ou duas páginas, e geralmente de assuntos banais, consegue me cativar a fundo. São os livros que, teoricamente, podem ser lidos rapidamente, e são os que demoro mais tempo, querendo saborear cada frase, cada parágrafo.

Nunca havia lido nenhum livro de Martha Medeiros mas, depois deste, já fiz a minha lista de exemplares desta autora. Pena que, como tenho o hábito de manter a minha lista de leituras, ainda há de demorar um tempo até chegar aos mesmos.

Trechos interessantes:

"Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona. Mas a verdade é só uma: ninguém tem dúvida sobre si mesmo." (pág. 17)

"Poucas pessoas chegam numa etapa da vida com tantos serviços prestados como ele ( - falando de Caetano Veloso - ). Poucos podem abrir mão de submeter-se aos índices de audiência, ao gosto padrão, às exigências de mercado, à opinião pública. São meia dúzia de seres acima do bem e do mal, que já deram seu recado e podem fazer unicamente o que estão a fim, na hora e da maneira que bem entenderem. Quem não celebra isso?" (pág. 20)

"A gente vive numa sociedade que não quer saciar nada, quer justamente o contrário: criar mais e mais necessidades estapafúrdias para que o sujeito nunca fique contente com o que tem e parta para aventuras quanto mais insanas, melhor. [...] São os viciados em novidade." (pág. 29)

"Livro nos dá conhecimento, uma visão mais aberta da vida e nos ensina a escrever melhor. Não nos torna chatos nem nos salva de sê-los. Chato é quem não nos faz rir." (pág. 37)

"Não existe nada mais triste, mais sem graça que a coisa realizada." (pág. 49)

"O que me trouxe para este assunto é que ficou claro para mim que a arte é sempre superior ao artista, e que a angústia deste é igualar-se à imagem que projeta, um desafio desumano e inalcançável. A arte é soberana, o artista é um reles mortal. A arte emociona, o artista resmunga. A arte é única, e o artista tem os mesmos defeitos que a gente." (pág. 77)

"Um dia desses uma leitora me escreveu um e-mail simpático, dizendo que havia lido ou escutado em algum lugar uma coisa que ela achava que fazia sentido: 'O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções'." (pág. 108)

"Quando nossos olhos ficam embaçados, nada como usar os olhos dos outros para voltar a valorizar o que é nosso." (pág. 144)

"Já fiz citações demais por hoje, mas não há como esquecer a frase de Katherine Mansfield: 'A vida não pode ser apenas um hábito'." (pág. 163)

domingo, 19 de outubro de 2014

O falcão maltês

Título: O falcão maltês
Autor: Dashiell Hammett
Páginas: 190

Trata-se de um clássico do policial de investigação, mas, mesmo com toda essa pompa, o livro não prende a atenção, tornando a leitura muito cansativa.

Um detetive que se acha o máximo, uma estatueta que não se mostra, um bando de policiais desinteressados e uma cliente que é tudo, menos inocente, formam o esqueleto do livro. Tudo bem, clássico é clássico, mas não me empolgou como eu imaginava.

Trechos interessantes:

"-Ou você conta agora, ou vai contar no tribunal - disse Dundy com violência. - Não se esqueça que isto é um assassinato.
-Talvez. E aqui está uma coisa que você não deve esquecer,meu amor. Contarei ou não, como me agradar. Já vai longe o tempo em que eu chorava porque os polícias não gostavam de mim." (pág. 19)

"Ficou bastante assustado, disse-me, mas mais chocado que realmente amedrontado. Sentia-se como se alguém tivesse tirado a tampa da vida, e o deixasse ver o seu funcionamento." (pág. 57)

"-Vamos a algum lugar onde possamos conversar - propôs Spade.
Cairo levantou o queixo. -Queira desculpar-me. Nossas conversações em particular não tem sido de tal ordem que eu esteja ansioso por continuá-las. Perdoe a minha grosseria, mas é a verdade." (pág. 84)

"-Começamos bem, senhor - ronronou o homem gordo, virando-se com um copo de bebida na mão. -Desconfio do homem que diz chega. Se precisa ter cautela para não beber demais, é porque não se pode confiar nele, quando bebe." (pág. 92)

"Quanto mais reles o escroque, mais pomposa a arenga." (pág. 104)

"-Quis apenas dizer que você podia ter sido envolvido nisso sem se saber do que se tratava. Isso podia...
-Estou vendo - zombou Spade. - O senhor não acha que sou mau. Acha apenas que sou burro." (pág. 128)

"Bem, as melhores despedidas são as mais curtas." (pág. 179)

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sacramento

Título: Sacramento
Autor: Felipe Cangussu
Páginas: 400

A história é, no mínimo, surreal. Pela sinopse e pelas páginas iniciais não se nota mas, ao se aprofundar na leitura, as coisa começam a sair dos trilhos: pessoas que morrem e voltam à vida; habilidade para ler pensamentos; vingadores da morte e por aí vai.

Essa é a história de três amigos, com características diferentes, que se reencontram após o suicídio e retorno de um deles. Eles passam o livro todo fugindo da morte que está cobrando vingança pois o suicidado retornou. Confuso? É verdade, mas a história é assim mesmo. Se você gosta de 'A volta dos mortos vivos' vai se interessar pela história. Não é o meu caso.

Trechos interessantes:

"Eu quero viver! Suicídio é uma coisa muito complicada. Você tenta, tenta e, quando finalmente dá certo você morre. - Ninguém riu da piada" (pág. 70)

"Em casa, Maria reza. Na estrada, Mercedes benze." (pág. 88)

"Johnny não conseguia acreditar que dera de cara com aqueles mesmos policiais.
O planeta Terra é redondo, e, quando estamos em uma roda que gira, acabamos nos reencontrando com lugares ou pessoas que nunca imaginávamos rever." (pág. 177)

"-Meu avô sempre dizia: 'O que é pouco não se economiza, logo se acaba e a gente tranquiliza'. O ditado é mais ou menos assim." (pág. 182)

"Sabia que aquele jovem de cabelo liso estava passando por algum apuro interior. Alguma crise. Com seu olhar de curiosidade, era como se ele dissesse para Deus: 'Eu estou aqui! Fiz minha parte, e aí? Quando você vai começar a fazer a sua?'.
Deus sempre era a única saída de pessoas que fizeram de tudo na vida e estavam a ponto de acabar com ela." (pág. 210)

"Agora é só ir reto e, no final, virar à esquerda. Só isso. Ele tinha medo. Essa sensação de 'quase' sempre o fazia ficar temeroso. Por poucos centímetros, nadadores profissionais perderam campeonatos. Por poucos segundos, pessoas perdiam voos importantes. Por pouco, muitas pessoas quase sobreviviam a acidentes. 'Quase' pode não significar nada. Preciso ficar atento!" (pág. 263)

"Anderson já tinha reparado como as mulheres conseguiam ser sensuais sem nem mesmo perceberem. Isso é uma covardia. Não é porque elas não têm malícia que nós também não temos. A última coisa de que três homens à beira da morte precisam é de uma mulher seminua diante deles." (pág. 307)

"O perdão não é ficar calado e aguentar o rancor. O perdão é você escolher entregar o julgamento nas mãos de Deus e, até lá, deixar que Ele carregue o rancor. Enquanto a justiça não for feita, aja como se ela já tivesse acontecido. Olhe para o seu inimigo como se o crime já estivesse pago. O tempo é algo que limita o ser humano, mas, para Deus, o futuro já está consumado. Nós só precisamos ter paciência." (pág. 312/313)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A história do alfabeto

Título: A história do alfabeto
Autor: John Man
Páginas: 264

Para nós, hoje, que já estamos fartamente habituados, o alfabeto é uma coisa simples e sem segredo. Mas já pensaram como isso tudo teve início? Quando não havia nada e alguém, pela primeira vez, teve a ideia de que tudo o que acontecia poderia ser preservado para a posteridade?!

Essa é a proposta do livro. Mostrar como uma coisa banal nos dias de hoje - o alfabeto - teve o seu início e a evolução desde então. Numa linguagem agradável e simples o autor mostra que, para se reduzir a 26 caracteres e com isso poder representar tudo o que existe no universo, muita coisa aconteceu.

Trechos interessantes:

"[...]os gregos não teriam exercido tanta influência se não fosse pela invenção que fixou os seus escritos, cujo nome partiu de seus dois primeiros sinais, alfa e beta - ou seja, o alfabeto." (pág. 16)

"A transmissão de informação ao longo deste milênio levou décadas. Com o crescimento da indústria no século XIX, décadas reduziram-se a anos e, posteriormente, com as viagens aéreas, a semanas. Agora que a evolução cultural tornou-se eletrônica, a informação flui para o mundo inteiro em segundos, e o analfabetismo passou a ser sinônimo de atraso." (pág. 19-20)

"Claro que é difícil! Tudo que vale a pena requer esforço! É assim que as coisas acontecem na vida se você quer ter uma boa formação e ser bem-sucedido." (pág. 47)

"Um cético poderia concluir que o deus dos cristãos e dos judeus foi inventado porque surgira uma tecnologia para definir essa crença e implantá-la na sua cultura. Já um crente diria que deus, em sua sabedoria, ensejou a sua própria revelação por meio dessa nova forma de comunicação. De qualquer maneira, parece que tanto o novo deus quanto a nova escrita atuaram juntos para formar uma nova nação e disseminar uma ideia que iria mudar o mundo." (pág. 115)

"[...]a literatura ugarítica baseada no alfabeto passou a fazer parte de uma tradição literária comum, e finalmente, 300 ou 400 anos mais tarde, passou a influenciar a dos hebreus. Talvez isso não deva causar surpresa, pois o ugarítico e o hebraico eram línguas intimamente ligadas, embora ainda possa parecer uma afronta, para alguns, vislumbrar as raízes do Velho Testamento em uma cultura rival, principalmente tratando-se de uma tão declaradamente pagã como aquela." (pág. 147)

"Como poderia ali haver uma cultura rica, se os seus pobres coitados não sabiam nem ler nem escrever? Como uma cultura poderia desabrochar inteiramente a partir de uma 'não-cultura'? Essa questão está por trás de um debate acadêmico que vem se estendendo desde 1795, quando o classicista alemão Friedrich Wolf sugeriu que Homero era iletrado." (pág. 177)

"No início do século V, os cidadãos atenienses tiveram uma oportunidade de escrever quando foram levados a votar a respeito do exílio de uma pessoa notoriamente perigosa. Os votos eram dados rabiscando-se um nome em um óstraco, aqueles fragmentos de cerâmica onipresentes que serviam de blocos de anotações. As pessoas que eram expulsas da cidade dessa maneira eram condenadas ao 'ostracismo'." (pág. 194)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Desenganos

Título: Desenganos
Autor: Judith Michael
Páginas: 482

Sabrina e Stephanie são duas gêmeas, perfeitamente idênticas, porém, cada uma com personalidade própria. Desde pequenas estiveram sempre juntas e, com o passar dos anos, se tornaram cada vez mais unidas. Stephanie casa-se com um professor e constrói uma família enquanto Sabrina vive nas altas rodas da sociedade.
Mas ambas gostariam de viver a vida da outra. Num determinado momento decidem trocar de lugar para viver uma nova experiência. Mas as coisas nem sempre são tão fáceis quanto se imagina... Poderão as duas enganar suas famílias e amigos? Por quanto tempo?

Trechos interessantes:

"Em todas as conversas de fim de noite com as amigas sobre sexo, horas eram gastas sobre a maneira de dizer sim ou não, mas nem um único minuto sobre como tomar a iniciativa." (pág. 35)

"-Fale alguma coisa sobre a exposição de antiguidades. Sabe de uma coisa? Sempre tive o desejo secreto de acariciar uma estátua nua. Será que posso ter agora minha oportunidade? Têm algumas estátuas nuas?
Stephanie riu. Que dia maravilhoso iam ter.
-Temos estátuas de nus. Se quiser estátuas nuas, você terá que despi-las." (pág. 49)

"Você conhece a velha superstição chinesa, de que se olharmos diretamente para alguma coisa bela ela desaparece? Podemos lançar um olhar de lado, mas nunca de frente, porque coisas belas são frágeis e passageiras e um olhar duro poderia destruí-las. Sinto-me assim a respeito de minha vida. Se falar sobre ela, ou olhá-la de perto demais, tudo pode desmoronar." (pág. 100)

"Por que alguém não notava que havia alguma coisa de errado?
Porque as pessoas veem o que esperam ver. Ninguém tem razão alguma para esperar que eu não seja Stephanie. O que quer que eu faça, descobrirão uma maneira de explicá-la porque, a não ser assim, a coisa não teria sentido. Quando pessoas acreditam que alguma coisa é verdadeira, esforçam-se para fazê-la parecer assim." (pág. 162)

"Um homem precisava falar sobre seu trabalho, compartilhá-lo com a família. Se não podia, por mais importante o trabalho pudesse ser para o resto do mundo, de alguma maneira tornava-se insignificante - uma parte de sua vida que lhe consumia horas todos os dias, mas que não conseguia despertar o interesse das pessoas mais importantes em sua vida." (pág. 218)

"-[...]Por que você não quer o emprego?
-Porque os únicos assuntos que meus anfitriões abordaram hoje foram o mercado, o consumidor, o dólar por hora de pesquisa, o retorno do investimento. Porque, para eles, a fusão de genes significa um produto, como se eu estivesse dirigindo uma equipe de chefes de cozinha que elaboram um novo cereal para o desjejum. Porque o que querem fazer é o que se acha que devem: ganhar dinheiro. Porque o que eu quero fazer é o que a universidade espera que eu faça: pesquisa e ensino. Porque não quero ter que explicar o motivo por que estou seguindo uma nova pista promissora em pesquisa, mesmo que ela não venha a resultar, durante anos, num produto... se algum dia vier a ser isso. Porque não posso estudar os problemas de genética e ao mesmo tempo ver a linha de lucros e perdas num balancete contábil. Porque, droga, este não é o meu lugar." (pág. 329)

"Os brasileiros dizem que o amor é a última coisa, não a primeira. Ele cresce devagar com o compartilhamento e a criação. Quando se vive junto e se constrói uma família, o amor vem." (pág. 381)

sábado, 13 de setembro de 2014

O homem que via o trem passar

Título: O homem que via o trem passar
Autor: Georges Simenon
Páginas: 182

Kees Popinga é um holandês que trabalha numa das empresas do porto de Amsterdã. Mas, apesar de gostar do mar, ele tem uma paixão obsessiva por trens. Certa noite descobre que a empresa em que trabalha sofreu um desfalque e, diante da falta de perspectiva, resolve sair pelo mundo afora, abandonando a família e tudo mais, para viver uma vida cheia de aventuras.
Vai para Paris e se diverte fugindo da polícia e cometendo crimes enquanto todos o tomam por um maníaco descontrolado.

Trechos interessantes:

"Curioso que ninguém suspeitava que estivesse gagá. Instalavam-no todo dia numa poltrona, como uma múmia, ou como o símbolo vivo da empresa. Não deixavam que o vissem mais do que alguns instantes, e os fregueses tomavam por concentração o olhar perdido, e por sabedoria a ausência total de inteligência!" (pág. 30)

"-Todos os estrangeiros são estranhos. Talvez porque a gente não os entende." (pág. 75)

"Dizem que minha filha é uma menina inteligente, porque não fala, ou fala raramente. Mas é que não tem nada a dizer! [...] Quanto ao menino, não tem nenhum dos defeitos dos garotos da sua idade. E isso me alarma: provavelmente não fará nada na vida!" (pág. 118)

"Então, e de uma vez por todas: não sou louco nem maníaco. Apenas, aos quarenta anos, tomei a decisão de viver como me agrada, sem fazer mais caso das convenções ou das leis. Descobri - um pouco tarde, convenho - que ninguém as observa e que até agora eu vinha me deixando iludir." (pág. 121)

"Aborreci-me durante quarenta anos. Durante quarenta anos vi a vida como um pobre miserável que cola o nariz à vidraça de uma confeitaria e vê as pessoas comerem bolo.
Aprendi que os bolos são de quem os pega." (pág. 121)

"Que procurassem por ele o quanto quisessem! Que olhassem todo transeunte bem no rosto. O homem é sempre mais forte que a massa, desde que não perca o sangue-frio." (pág. 151)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Morte de um dissidente

Título: Morte de um dissidente
Autor: Alex Goldfarb e Marina Litvinenko
Páginas: 454

O livro narra os bastidores da política russa que, apesar de não apresentar a mesma força da época da guerra fria, ainda desperta grandes interesses.

Alexander Litvinenko (Sacha) foi um agente da KGB na época de Boris Ieltsin. Com a ascensão de Putin ao poder, a relação de Sacha com o governo ficou instável,levando este a se exilar em Londres, temendo por sua vida. Apesar de todas as precauções Sacha foi envenenado e o livro descreve sua vida e suas atividades, procurando pistas para descobrir o responsável pela sua morte.

Trechos interessantes:

"Joseph explicou que, para pedir asilo, Sacha deveria primeiro ter entrado nos Estados Unidos. Fora dali, ele só poderia pedir um visto de refugiado, e havia uma cota anual. Teria de esperar meses, talvez anos." (pág. 26)

"Quando penso por que éramos tão felizes, acho que era porque podíamos ser nós mesmos, sem necessidade de fingir, de nos preocupar em ser atraentes, não havia nada a conquistar e nada a provar. Isso ficou óbvio para nós desde o primeiro dia, e era tão natural. Nenhum de nós jamais tinha pensado que algo assim fosse possível, e ficamos atônitos com isso até nosso último dia juntos." (pág. 49)

"O capitalismo na Rússia está apenas começando; afinal, é preciso antes de mais nada ganhar dinheiro, para poder doá-lo. Estou satisfeito de ver que tudo vai bem para vocês e de saber que dão a mesma importância que eu à ciência e à educação." (pág. 77/78)

"'Conheço um homem pelo aperto de mão', disse Sacha a Marina depois do encontro. 'O dele era frio e pegajoso. Eu podia ver em seus olhos que ele me odiava'." (pág. 180)

"Anos depois, numa caminhada por Londres, Sacha parou diante da inscrição na estátua de Oscar Wilde: 'Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando para as estrelas'." (pág. 215)

"Uma vez, vi um rato enorme e corri atrás dele, até acuá-lo num canto. [...]Ele se virou e correu para cima de mim. Aquilo foi inesperado, e assustador. De repente o rato me caçava [...], mas fui mais rápido e bati a porta atrás de mim, no focinho dele. Foi assim que ele aprendeu, de uma vez por todas, o significado da palavra 'acuado'." (pág. 230)

"É claro que notei que havia qualquer coisa, que Naltchik era um disfarce. Achei que ele quisesse nos tirar de Moscou para nos proteger de algum perigo. Essas coisas acontecem na profissão, explicou Marina posteriormente. Mas, quando ele ligou, disse que talvez não pudéssemos voltar para a Rússia, nunca mais. Fiquei chocada. Para mim, aquilo era impensável, era como se me dissessem que eu tinha câncer, ou que alguém muito próximo estava envolvido num acidente de carro." (pág. 281)

"Diferentemente das alegações de cumplicidade no assassinato de uma criança inocente no século XVII, a suspeita de envolvimento na morte de 247 inocentes dificilmente derrubará o regime agora, não depois dos milhões de mortes semelhantes na moderna história russa, escreveu Zarakhovitch. Apesar disso, quanto mais as coisas pioram, mais o povo falará. Um dia, a conversa pode mais uma vez evoluir para um rugido." (pág. 317)

"O governo é acusado de matar grande número de cidadãos russos, e metade do povo acredita; para mim isso basta. A presunção de inocência não se aplica aos governos; é um mecanismo para proteger as pessoas contra abusos do governo. Putin tem a obrigação de afastar as suspeitas." (pág. 325)

"[...]a razão que o levara a escolher aquele lugar fora um velho ditado tchetcheno: 'Primeiro conhece o teu vizinho, depois constrói tua casa perto dele'." (pág. 375)

"Na verdade, eu estava começando a conhecer Marina. E recordaria nossa conversa mais tarde, depois da morte de Sacha, quando ela decidiu enfrentar a mídia. E o fez com força e graça, apesar de sua aversão á notoriedade, como um dever para com Sacha, como a mulher do pioneiro, que deixa de lado a roupa por lavar e pega a espingarda do marido morto para defender o lar." (pág. 407)

sábado, 16 de agosto de 2014

Histórias para dar calafrios

Título: Histórias para dar calafrios
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 224

Coletânea com treze histórias de suspense, com estilos variados, algumas boas, outras nem tanto.

Entre as minhas preferidas estão "A inspiração", "Dedos leves" e "Motivos justos para matar".

Trechos interessantes:

"Como eu disse à minha mulher quando ela voltou das compras na semana passada, não é de admirar que tantos garotos estejam tomando o mau caminho. Voltam para casa da escola e encontram as mães vestidas com um saco amarrado com um cinto. Isso é suficiente para fazer a garotada ganhar as ruas." (pág. 28)

"Gonzales tinha boa mente e olho para detalhes. Possuía também imaginação, o que para uma investigação policial era a mesma coisa que argamassa para um pedreiro." (pág. 29)

"Acho que, depois da malária, a curiosidade é a doença mais demoníaca que pode afligir um corpo humano. E é a coisa mais humanizadora que existe, logo em seguida ao nascimento; e, pelo que sei, tampouco se pode resistir a ela." (pág. 88)

"Uma única palavra. Ódio. Guerras eram iniciadas com ela. Podia-se explodir o mundo com ela." (pág. 117)

"-Estávamos falando sobre vodu, senhor. A cozinheira acredita piamente nisso.
-Esta é obviamente a razão por que ela é uma cozinheira e não uma imperatriz." (pág. 170)

"O presidente Kennedy era protegido pelo FBI, pelo serviço secreto e por metade da força policial de Dallas. Um único homem pegou-o. É um fato lamentável, mas é verdade.
Estamos apenas tentando demonstrar ao senhor que os melhores cães de guarda, guardando cada um de vocês dia e noite, não constituem garantias de segurança." (pág. 201)

terça-feira, 29 de julho de 2014

Um pressentimento funesto

Título: Um pressentimento funesto
Autor: Agatha Christie
Páginas: 228

Particularmente, gosto mais dos livros de Agatha Christie que tem como personagem principal Hercule Poirot. Este, cuja dupla de detetives são Tommy e Tuppence, não fez muito o meu estilo. Normalmente as histórias de detetive demoram a engrenar e esta, achei que demorou mais ainda.

Tudo começa com a visita a um asilo onde está a tia de Tommy. Pouco depois esta tia morre e deixa alguns pertences, entre eles um quadro com uma paisagem rural. Tuppence fica obstinada pelo quadro e pelo que ouviu de outra paciente quando da visita ao asilo. Juntando todas as coisas resolve desbaratar o mistério e parte em busca do local retratado na tela. Depois de quase tudo resolvido, aparece Tommy para fechar a história. Em suma é isso.

Trechos interessantes:

"Se alguém é ruim como cobra aos vinte, não melhora nada aos quarenta, piora aos sessenta e se transforma numa perfeita peste aos oitenta - bem, francamente, não sei por que havia de me causar qualquer comiseração apenas pelo fato de ter envelhecido. No fundo, ninguém muda." (Pág. 8/9)

"Se alguém de mais de sessenta e cinco anos recrimina a gente, é preferível não responder. Nunca tente provar que tem razão. Desculpe-se logo, dizendo que a culpa é unicamente sua, mostre-se sentido e prometa que o erro não se repetirá." (pág. 15)

"Três vintenas de anos e uma década correspondiam à duração de vida consagrada na Bíblia, e as mortes em sua instituição raramente ocorriam em prazo inferior. Consituíam uma fatalidade perfeitamente natural." (pág. 28)

"-Estive pensando.
-É de onde se originam todos os problemas da vida. Pensar." (pág. 169)

"Pensar consiste apenas num confortável repouso enquanto o espírito mantém as antenas abertas pra eventualidade de captar algo de interesse ou importância flutuando no ar." (pág. 177)

"Eles [habitantes do campo] marcam as datas pelos acontecimentos, não pelos anos. Não dizem 'isso aconteceu em 1930' ou 'aquilo foi em 1925', ou coisa que o valha. Dizem 'isso aconteceu no ano em que o velho moinho pegou fogo' ou 'aquilo sucedeu depois que o raio derrubou o carvalho gigante e matou o granjeiro James' ou 'foi no ano em que houve a epidemia de paralisia infantil'. De forma que, naturalmente, as coisas de que se lembram não obedecem a uma sequência especial." (pág. 208/209)

domingo, 20 de julho de 2014

Tão mais bonita

Título: Tão mais bonita
Autor: Cara Hoffman
Páginas: 286

A história não é contada de forma sequencial, o que fez com que eu demorasse a me situar no contexto. Isso é uma deficiência do leitor, não do livro. O livro mantém o suspense até quase o final.

Em resumo: cidade pequena dos Estados Unidos, uma garota desaparece  e depois de muito tempo é encontrada morta. Todos se perguntam quem poderia ter feito isso. Paralelamente é contada a história de Alice, filha de ex-hippies que se mudaram para lá. Alice terá importante participação no desenrolar da história. O final pode te surpreender.

Trechos interessantes:

"Quando White sumiu, a estupidez se tornou uma forma de boa educação. Quem não fingisse estupidez provocaria indignação e recriminações, como se devesse ser óbvio para todos que o silêncio precisava ser instituído para que tudo aquilo simplesmente desaparecesse." (pág. 32)

"Deviam ter sentido pena e suposto que era burra, tímida ou ingênua, ou que não poderia pensar nada de ruim sobre gente magra, rica e simpática. Não poderia ter ideias próprias sobre as coisas. Mas, agora, conseguiriam vê-la. Quanto menos maquiagem usava, mais magra ficava; todos simplesmente suporiam que estava ficando mais inteligente, também. Não pensariam que sempre fora inteligente, não perceberiam que sempre fora bonita, também." (pág. 51)

"Ser bom numa coisa não obriga a gente a fazer essa coisa. Era um erro pensar assim. E ele cometera muitos erros por lhe dizerem tantas vezes que era a pessoa certa para algum serviço especial, ou projeto, ou movimento social." (pág. 68)

"Saí voluntariamente de um lugar que amava porque me tornara egomaníaca. Acreditava, sinceramente, que reportagens de jornal poderiam mudar o jeito como o mundo funcionava. E isso significava que eu conseguiria mudar o jeito como o mundo funcionava. E essa não é uma ideia muito saudável para um ser humano." (pág. 87)

"Então, a coisa mais maluca do mundo é achar que a gente pode dizer aos outros o que fazer - ou pensar que algumas pessoas merecem tratamento melhor ou mais coisas do que as outras - porque todos os seres humanos têm as mesmas necessidades biológicas e merecem as mesmas coisas essenciais." (pág. 102/103)

"Tomo meus desejos por realidade, pois acredito na realidade de meus desejos." (pág. 203)

"Quanto mais vivo, mais percebo o impacto da atitude na vida. Para mim, atitude é mais importante do que fatos. É mais importante do que o passado, do que a educação, do que o dinheiro, do que as circunstâncias, do que os fracassos, do que os sucessos, do que o que os outros pensam, dizem ou fazem. É mais importante do que a aparência, talento ou habilidade." (pág. 259/260)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Você deve amar os cães

Título: Você deve amar os cães
Autor: Claire Cook
Páginas: 288

Sarah é uma mulher de 40 anos, divorciada, professora do jardim de infância e que, sentindo-se solitária, resolve que é hora de procurar um companheiro. Como não tem muito jeito pra coisa, resolve colocar um anúncio no jornal sendo uma das condições que o pretendente deva gostar de cães.

O problema é que há muitas pessoas para 'ajudar': a irmã, a colega de trabalho, o pai (um viúvo mulherengo), etc. E ainda por cima, ela mesma, não tem nenhum cão...

Trechos interessantes:

"Deus detesta a superficialidade. Todos nós dizíamos isso uns aos outros, ainda que fôssemos orgulhosos de nossa superficialidade. Políamos esse aspecto de nossa personalidade até brilhar; era nosso brasão de família." (pág. 40)

"-E o que vocês, seus pequenos travessos, estão procurando tão contentes aí embaixo? Não sabem que a felicidade é para a próxima vida?" (pág. 50)

"Quando uma criança se machuca, tudo o que uma professora quer fazer é colocar o braço em torno de seus ombros e confortá-la, mas nos dias de hoje você tem de estar de luvas antes de fazer contato." (pág. 65)

"Os artigos da Victoria's Secret sempre me faziam sentir como se eu fosse uma impostora. Como se no minuto em que tiro um cabide acolchoado de cetim da arara da parede para examinar aquela camisola macia de renda um pouco mais de perto, um alarme fosse soar em algum lugar. Um facho de luz fosse iluminar minha face e uma loja cheia de mulheres glamourosas fosse me apontar, dizendo: Ah-há! Vê se pode!" (pág. 97)

"-Então, Dolly - ouvi Bob dizer enquanto eu seguia Carol. -Tinha pensado em lhe perguntar, você está usando essa touca para o caso que chova e haja um vazamento no telhado? Ou apenas porque fica assim tão bem em você..." (pág. 141)

"Eu sempre fora induzida a pensar que, se não pudesse encontrar alguma coisa para apreciar em uma pessoa, isso se devia meramente a um reflexo da pequenez de minha mente, da frieza de meu coração." (pág. 179)

"A dor não foi intensa e então eu abri os olhos de novo, só uma fresta, julgando que não deveria perder nada daquele momento ou de qualquer outro. Afinal, a vida era danada de curta para não ser vivida a cada instante." (pág. 246)

"-Bem, algumas vezes eu acho que a única parte que me prende é a parte das crianças. Phoebe e eu somos tão diferentes. Quem somos, do que gostamos. Pensei que, se a gente encontrasse alguém para amar, o resto se encaixaria no lugar." (pág. 270)

domingo, 29 de junho de 2014

A situação humana

Título: A situação humana
Autor: Aldous Huxley
Páginas: 264

Eis um dos melhores livros que já li. O livro é uma coletânea de conferências proferidas pelo autor na Universidade da Califórnia, em 1959, abordando o relacionamento do homem com o planeta.

Não se deixe enganar pela data, apesar de muito antigo os textos parecem que foram feitos para os dias de hoje, comprovando a visão de futuro que tinha Huxley. O comportamento humano é aqui esmiuçado em todos os níveis levando o homem a questionar e repensar o seu papel, a sua função neste planeta.

Trechos interessantes:

"Como sabemos, aprender pouco é algo perigoso. Mas uma boa porção de aprendizado altamente especializado também é uma coisa perigosa, e por vezes pode ser ainda mais perigoso do que aprender só um pouco." (pág. 11)

"Quando chegarmos ao fim, teremos coberto uma boa porção de terreno e também estaremos muito entediados com o que tenho a dizer, mas felizmente poderei então sumir discretamente." (pág. 21)

"...como disse Chateaubriand, 'les forêts précèdent leus peuples, et les déserts les suivent' (as florestas precedem as civilizações, e os desertos as seguem)." (pág. 23)

"O homem tem vivido demasiadamente no Planeta à moda de um parasita que se sustenta daquele a quem infesta. Se muitos parasitas são bastante ajuizados para não destruírem seu hospedeiro porque destruiriam a si mesmos, o homem não é um desses parasitas ajuizados." (pág. 25)

"...como disse alguém, a maior lição da história é que ninguém jamais aprende as lições da história." (pág. 33)

"Hoje sabemos o suficiente para consertar boa parte do prejuízo causado ao nosso Planeta e evitar que ocorram novos danos. A informação e conhecimento necessários existem. Mas, como de costume, há uma grande lacuna entre a habilidade para fazer uma coisa e a probabilidade de que ela seja feita. É muito fácil descrever os métodos de conservação que deveriam ser postos em prática de imediato, mas é extraordinariamente difícil executar o que sabemos que somos capazes de fazer." (pág. 38)

"Precisamos tratar o Planeta como se fosse um organismo vivo, com todo o amor, cuidado e compreensão que um organismo vivo merece. Se não o tratarmos assim, destruiremos o mundo no qual vivemos, e esse mundo destruído voltar-se-á contra nós e nos destruirá." (pág. 40/41)

"...todas as espécies vivem segundo seu suprimento de comida, e depois são eliminadas na medida em que seu número excede o alimento." (pág. 54)

"...embora seja bem verdade que o homem não pode viver só de pão, menos ainda poderá viver sem pão, e, se não conseguirmos pão suficiente, não conseguiremos nada mais. Apenas quando o homem tiver pão, apenas quando sua barriga estiver cheia, haverá alguma esperança de que, da situação humana, emerja alguma coisa mais." (pág. 63/64)

"si vis pacem para bellum - se queres a paz prepara-te para a guerra (provérbio romano)." (pág. 89)

"Como disse Lord Acton, 'O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe de maneira absoluta'." (pág. 90/91)

"Nenhum adivinho dos que conhecemos jamais fez fortuna predizendo o futuro, mas nenhuma companhia de seguros jamais entrou em falência. O motivo é que a companhia de seguros prevê o futuro de milhões e por isso pode ter certeza de lucro, enquanto o adivinho prevê a sorte de apenas uma pessoa, e provavelmente terá mais chances de errar do que de acertar." (pág. 104)

"Quando cheguei a este país, há dez anos, tive a maior dificuldade em encontrar meios para minha pesquisa básica. As pessoas me perguntavam: o que está fazendo, para que serve isso? Eu tive de dizer que não servia para coisa alguma. Então perguntavam: mas então o que é exatamente que você vai fazer? E eu tinha de responder: não sei, pesquisa é isso mesmo. Assim, a pergunta seguinte era: como espera que gastemos nosso dinheiro com você, se nem sabe o que está fazendo, nem por que o faz? E a essa pergunta eu não podia responder." (pág. 111)

"Como diz o Dr. Johnson, 'acontecimentos públicos não molestam o homem' e as notícias de uma batalha perdida nunca fizeram com que 'um homem comesse menos ao jantar'. E, vice-versa, as notícias de uma novidade científica ou de uma grande descoberta jamais fizeram um homem comer mais ao jantar." (pág. 127/128)

"Edison disse que gênio é nove décimos de transpiração e só um décimo de inspiração, mas tem de haver primeiro inspiração, depois o trabalho sobre ela." (pág. 164)

"A linguagem é o que nos torna humanos. Infelizmente, é também o que nos torna humanos demais. De um lado, é a mãe da ciência e da filosofia, e de outro produz toda a sorte de superstição, preconceito e loucura. Ajuda-nos e nos destrói; torna possível a civilização e também produz aqueles assustadores conflitos que degradam a civilização." (pág. 175)

"Quase não há um só crime em grande escala na história que não tenha sido cometido em nome de Deus. Isso foi resumido há muitos séculos no hexâmetro de Lucrécio: 'Tantum religio potuit suadere malorum' (Tão grandes males a religião persuadiu o homem a cometer)." (pág. 208)

domingo, 8 de junho de 2014

A vingança

Título: A vingança
Autor: Christopher Reich
Páginas: 346

Do primeiro ao último capítulo o livro é repleto de ação, afinal, trata-se de um romance policial de espionagem. É a continuação de um livro anterior do mesmo autor (A farsa - que ainda não li), mas cuja história pode ser entendida sem a prévia leitura do outro livro.
Jonathan Ransom é um médico casado com Emma (uma agente secreta a serviço do governo americano) e passa o livro todo fazendo, ele, o papel de agente tentando localizar Emma (no livro anterior havia sido dada como morta) em meio ao jogo de interesses de americanos e russos. Se você gosta de livro de ação, esta é uma boa pedida.

Trechos interessantes:

"-O mundo ficou pequeno demais. Não existem mais cantinhos isolados onde alguém possa simplesmente fechar a cortina e desaparecer. Todos esses lugares já foram descobertos, possuem webcams e alguém na fila para construir um resort cinco estrelas." (pág. 17)

"-O mundo mudou. Fronteiras são coisas do passado. As informações não têm passaporte. Elas pertencem a todo mundo." (pág. 68)

"O mais difícil de fugir é que, depois de algum tempo, você se cansa. Esquece que eles estão lá, mesmo que você não esteja vendo." (pág. 86)

"A arquitetura de uma bomba dizia muito sobre quem a fabricara: onde fora treinado, onde havia estudado e, o mais importante de tudo, o seu país de origem. Noventa por cento dos artefatos terroristas eram fabricados por indivíduos com experiência militar prévia, e muitos fabricantes de bomba desenvolviam (involuntariamente) uma marca que os denunciava de forma tão óbvia quanto a assinatura de Picasso no canto inferior de seus quadros." (pág. 160)

"Os engenheiros mais bem treinados do mundo trabalham nessas usinas. Se perceberem alguma coisa estranha, eles assumirão o controle manual da usina. A palavra final será sempre a da sala de controle. De homens e mulheres. Não de máquinas." (pág. 205)

"Era um homem frágil, pouco imponente, com os cabelos grisalhos meticulosamente aparados, boas maneiras e um terno mal cortado. Um dos mansos que tinham poucas chances de herdar a Terra, mesmo que o livro sagrado dissesse o contrário." (pág. 209)

"Mikhail Borzoi não era um homem agradável. Homens agradáveis não controlavam a maior fábrica mundial de alumínio. Homens agradáveis não acumulavam uma fortuna de cerca de 20 bilhões de dólares, e isso depois da queda da bolsa de valores. Homens agradáveis não superavam uma infância pobre para vir a aconselhar o presidente e vir a ser um dos três candidatos a substituí-lo nas próximas eleições. Não na Rússia. Na Rússia, homens agradáveis eram pisoteados, mastigados e cuspidos." (pág. 263)

domingo, 25 de maio de 2014

O livro do riso e do esquecimento

Título: O livro do riso e do esquecimento
Autor: Milan Kundera
Páginas: 214

O livro apresenta alguns contos em que se mesclam assuntos típicos da região, relatos pessoais do autor e aspectos generalizados do comportamento humano de uma maneira geral.

O material não me prendeu a atenção quanto eu gostaria. Me senti disperso e desmotivado durante a leitura. As histórias me pareceram grandes, mas com pouco conteúdo. Parodiando o título, preferi esquecer o livro. Mas, claro, esta é a minha opinião.

Trechos interessantes:

"A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento." (pág. 7)

"Pois o grande segredo da vida não lhe era desconhecido: as mulheres não procuram o homem bonito. As mulheres procuram o homem que teve mulheres bonitas. Portanto, é um erro fatal ter uma amante feia." (pág. 15)

"O homem possuído pela paz tem sempre um sorriso." (pág. 66)

"Nós escrevemos livros porque nossos filhos se desinteressam de nós. Nós nos dirigimos ao mundo anônimo porque nossa mulher tapa os ouvidos quando falamos com ela." (pág. 88)

"Entre os remédios habituais contra nossa própria miséria, há o amor. Pois aquele que é amado de maneira absoluta não pode se sentir miserável." (pág. 116)

"Quando papai falava normalmente, eu lhe fazia poucas perguntas. E agora eu queria recuperar o tempo perdido. Então falávamos de música, mas era uma convrsa estranha entre alguém que não sabia nada, mas conhecia palavras em grande número, e alguém que sabia tudo, mas não conhecia uma única palavra." (pág. 152)

"Aquele que quer se lembrar não deve ficar no mesmo lugar e esperar que as lembranças venham sozinhas até ele! As lembranças se dispersaram neste mundo vasto e é preciso viajar para reencontrá-las e fazê-las sair de seu abrigo!" (pág. 158)

domingo, 4 de maio de 2014

Ame o que é seu

Título: Ame o que é seu
Autor: Emily Giffin
Páginas: 310

Ellen é uma fotógrafa profissional, casada e feliz no casamento. Certo dia encontra casualmente na rua com Leo, sua grande paixão do passado. Depois disso Leo passa a assediá-la, levando-a a fazer um balanço de sua vida e questionar se as escolhas que ela fez foram as certas ou se havia tempo de corrigir alguma coisa.

É um livro de leitura simples e fácil, com uma história bem delineada, poucos personagens e uma trama verossímil. As dúvidas apresentadas pela personagem principal são comuns a muitas pessoas e, nesse caso, a leitura serve também para implementar a discussão sobre a vida e seus problemas.

Trechos interessantes:

"Não me permiti uma só olhadinha no espelho. Eu não iria renovar o gloss nos lábios, nem verificar se não havia comida entre os dentes. Que ficasse uma sementinha de papoula no vão do meu dente da frente. Eu não tinha nada a provar para ele. E mais importante ainda, eu não tinha nada a provar a mim mesma." (pág. 19)

"[...] aprendi cedo que não se pode incluir todos os que têm dinheiro em uma mesma categoria. Os ricos diferem entre si tanto quanto os menos favorecidos. Uns trabalham duro, outros são preguiçosos. Uns se fizeram na vida, outros nasceram em berço de ouro. Uns são modestos e despretensiosos, outros, pomposos e vaidosos." (pág. 52)

"Eu desejo a felicidade do meu pai, mas às vezes parece injusto que seja a Sharon quem desfrute da aposentadoria dele - e ter aprendido desde cedo que a vida não é justa não me serve de grande consolo." (pág. 77)

"Eu tinha ido a um casamento recente em que a mãe do noivo precisou ser afastada do filho ao final da festa, chorando e gritando 'eu não quero te perder!'. A cena toda foi lamentável. Margot tinha uma teoria sobre o assunto, dizendo que isso é mais comum entre mulheres que só tem filhos homens e nenhuma filha. Talvez porque não estejam acostumadas a disputar nada com outras mulheres ou por conta do velho ditado 'um filho é filho até arranjar uma esposa, já uma filha é filha para a vida inteira'." (pág. 85)

"Seja sincera. Exponha seus sentimentos. Discuta o assunto. E então percebo que não só os papeis estão invertidos, como é bem mais fácil falar que fazer. Só parece fácil quando os problemas são relativamente insignificantes." (pág. 199)

"Às vezes, um final feliz é simplesmente impossível. Não importa o que aconteça, eu vou perder algo, alguém.
E talvez seja nisso que se resume tudo. O amor, não como uma manifestação de paixão, e sim como uma opção pelo compromisso com algo ou alguém, sejam quais forem os obstáculos pelo caminho. E talvez, ao fazer essa opção vez após vez, dia após dia, ano após ano, diga mais sobre o amor do que nunca ter de fazer escolha alguma." (pág. 300/301)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O telescópio de Schopenhauer

Título: O telescópio de Schopenhauer
Autor: Gerard Donovan
Páginas: 272

O livro inteiro tem praticamente dois personagens e eles não têm nomes: são simplesmente o Padeiro e o Professor. A "história" transcorre em um único dia e consta somente de diálogos entre o Professor e o Padeiro. Num estado socialista o Padeiro é preso e, sob a neve, é obrigado a cavar um túmulo.

Este é ponto de partida para a existência do diálogo entre os dois personagens. Esses diálogos são questionamentos filosóficos sobre o comportamento e a natureza humana. O motivo da prisão do Padeiro (esclarecida no final do livro) torna-se uma questão secundária.

Trechos interessantes:

"Dificilmente hoje seria um dia para eventos memoráveis. [...] De qualquer maneira, é óbvio que todo evento tem de acontecer em um dia qualquer, mais cedo ou mais tarde." (pág. 15)

"Sempre presumi que uma pessoa bem vestida fosse educada. Compare uma loja de roupas a qualquer biblioteca. Um indivíduo escolhe e veste trajes tão cuidadosamente como outro seleciona um livro e lê suas palavras. Ao observar uma camisa de algodão passada a ferro, os olhos deveriam nos levar em direção a calças de corte artesanal, bem elaboradas e costuradas, do mesmo modo que frases e pensamentos se misturam, terminando e iniciando parágrafos.
Leio muito, como é possível perceber. Aprende-se a fazer isso quando não se tem amigos. Dói no início, mas livros nunca decepcionam. Aprendi muito com eles." (pág.18/19)

"Nervoso em grupo, eu precisava me forçar a participar até mesmo de uma noite informal no bar. Indicava com a cabeça que estava de acordo quando todos os outros já haviam concordado. Balançava a cabeça negativamente e fazia o som adequado quando os companheiros expressavam desaprovação. Morria de medo de que perguntassem minha opinião antes que eu tivesse avaliado a de todos os outros. Ficava aterrorizado por servir de parâmetro em alguma decisão. Tinha vergonha de meu silêncio enquanto todos esperavam minha resposta." (pág. 36)

"Cada pessoa sempre age em seu próprio favor o tempo todo. Toda guerra começa com pessoas que têm algo a ganhar. Todo caso de amor começa por interesse e termina pela mesma razão." (pág. 40)

"Você não entende a sobrevivência, então você a chama de mal. Morrer é bom, suponho. Uma morte nobre é tudo isso. Desculpe, não para mim. Não quero saber se sou eu quem morre quando a história é escrita. Quero saber por que eu e não outra pessoa, e o que posso fazer para impedir que aconteça." (pág. 73)

"Pensei o quanto eu já havia lido sobre poder. O que aprendi? Que ou você o tem ou não. E se não, ou você o consegue ou morre sem ele. Morre acreditando nas coisas que farão com que você seja lembrado. Deus dirá: 'Você não conseguiu coisa alguma. Todas aquelas outras pessoas estavam ao seu lado. Coloquei-as lá por você e você não conseguiu nada. Você viveu uma vida de obediência e agora quer uma recompensa. Vou te dar uma recompensa. O nada consegue nada'. Estala os dedos, eu desapareço e apareço em lugar nenhum. Nada entre mim e o nada." (pág.79)

"Prenda as pessoas em qualquer parte do mundo, todas elas, e se conseguir fazer com que se sintam culpadas, terá o poder." (pág. 84)

"-Li que um general declarou, certa vez, não ter medo das flechas endereçadas a ele, e sim das centenas que caíam sem destino." (pág. 133)

"-[...]Ordenei que qualquer um que fixasse o olhar sobre meu túmulo fosse morto.
-Por quê?
-Homens são bobos. Perdem muito tempo na vida num mesmo lugar e olhando a sua volta. fazendo pedidos a uma estrela para que esta mude seu destino." (pág. 151)

"-[...]Você gosta de buracos negros, Padeiro? Bares, teatros, cocaína, carros velozes, sonhos. As pessoas que vivem neles se desligam de todo o universo. Apagam as luzes da esperança para sempre.
-Nesse caso, buraco negro é onde estou." (pág. 164)

"-Eu tinha de fazer o que me diziam.
-Não, não tinha.
-Eu queria viver. Tenho o direito de viver. Ao fazer o que me disseram, consegui permanecer vivo. Autopreservação não é crime." (pág. 201)

"Locke acreditava que, se não sabemos coisa alguma ao nascermos, todos os nossos valores morais vêm de experiência de dor ou prazer. O que é bom é qualquer coisa que nos satisfaça. A mente chama de mal qualquer coisa que cause dor. Nada mais. Ninguém nasce bom ou mau. Ninguém nasce demônio ou ditador." (pág. 206)

"Isto é filosófico para mim: o que acontece, e não o porquê. Há menos tortura desse  modo. Sem blasfêmias junto à cruz ou questionamentos ao oráculo: 'por que eu?'. Como se você fosse especial, ou digno de maior atenção, quando bilhões estão pensando a mesma coisa. Bilhões de pessoas em qualquer época, sendo que uma em cinco pergunta 'por que eu?',ou 'por que isso sempre acontece comigo?'. O oráculo então responde: 'Porque não há outra forma. Sempre acontece com você, entende? Quem te disse que haveria? Quem você acha que é?'." (pág. 224)

domingo, 30 de março de 2014

Um retrato fatal

Título: Um retrato fatal
Autor: Ross Macdonald
Páginas: 246

Lew Archer é um detetive particular que foi contratado por um milionário para recuperar um quadro roubado. Mas durante o decorrer da história verá que há muito mais que o simples roubo de um quadro: um pintor desaparecido há 25 anos; assassinatos sem suspeitos; histórias antigas envolvendo o proprietário do quadro e por aí vai.

Trata-se de um romance policial com todos os ingredientes do gênero. O leitor deve se preparar para as inúmeras reviravoltas que a história dá até o desfecho que vai muito além de apenas recuperar o quadro desaparecido.

Trechos interessantes:

"-[...]Quando ele, quando meu pai derrubou a porta do banheiro, pulei para dentro da cesta de roupa suja e puxei a tampa. Nunca vou esquecer a sensação que tive; foi como estar morta, enterrada e segura para sempre.
-Segura?
-Não podem matá-lo depois que estiver morto." (pág. 28)

"Não havia quadro nenhum debaixo do colchão, nada que incriminasse no armário nem na cômoda, nenhum vestígio de crime, a não ser o da pobreza." (pág. 38)

"-Dou-lhe os cinco por quarenta dólares. Só as telas valem isso, e o senhor deve saber, se é pintor.
-Não sou pintor.
-Às vezes me pergunto se Jake era. Pintou durante mais de trinta anos e acabou só com isto para mostrar. - Fez um gesto que abrangeu os quadros na mesa, a casa e sua história, e a morte de Jake. - Nada, além disso e de mim." (pág. 54)

"-Acho que poderia ajudar o senhor.
-Ajudar-me a fazer o quê?
-Talvez nada. - Abriu os braços num gesto teatral. - O senhor parece ser um homem engajado numa guerra sem fim, numa busca sem fim. Já lhe ocorreu que está é procurando a si mesmo? E que a maneira de se encontrar é ficar quieto e silencioso, silencioso e quieto?" (pág. 109)

"-Eu e Jake não tivemos sorte. Ele só teve azar desde que se juntou comigo. - Sua voz tornara-se áspera. - Queria ter morrido no lugar dele.
-Não deseje isso. Nós todos já morremos cedo demais.
-Para mim, quanto mais cedo melhor.
-Espere um pouco. Você recomeçará sua vida. Você é jovem, Jessie.
-Sinto-me velha como as montanhas." (pág. 143)

"-Mas por que bebe desse jeito?
-Por causa da dor - disse eu. - A dor de ser ele mesmo. Vive preso nessa casa caindo os pedaços, só Deus sabe há quanto tempo. Talvez desde a infância de Fred. Tentado matar-se com a bebida, sem conseguir.
-Mesmo assim não compreendo.
-Nem eu, na realidade. Todo bêbado tem suas razões. Mas todos acabam tendo o mesmo fim: com o cérebro mole e o fígado arruinado." (pág. 171)

"Nunca diga a uma pessoa mais do que ela precisa saber, pois contará para outra." (pág. 173)