sábado, 18 de janeiro de 2014

Filha da floresta

Título: Filha da floresta
Autor: Juliet Marillier
Páginas: 608

O livro foi presente de um grande amigo que imaginara fosse do meu agrado, tal a natureza da história ali narrada. E devo dizer que ele acertou em cheio. Livro agradável, fácil de se ler e com uma história cativante.

Primeiro livro de uma trilogia, narra uma história de tempos antigos, reinos distantes, inspirada em contos germânicos, lembrando a história dos povos celtas. O senhor de Sevenwaters tem seis filhos e uma filha (a filha da floresta) que, desde cedo, aprendeu os segredos da floresta e sabe usar como ninguém as plantas medicinais. Um encantamento envolvendo todos os seus irmãos a obriga a realizar uma árdua tarefa que mostrará que ela não é uma simples criança.

Trechos interessantes:

"-[...]Para vencer esta guerra é preciso conversar com o inimigo, conhecê-lo. Se continuar simplesmente atacando, ele sempre contra-atacará e um dia poderá vencer. Esse caminho só leva à morte, ao sofrimento e ao arrependimento. Muitos podem segui-lo, mas não conte comigo. Eu não irei." (pág. 27)

"-E quanto a você, Finbar? - Nem seria preciso perguntar. Ele era muito diferente. Diferente de todos nós. - O que mamãe deixou em você?
Ele se virou para mim e sorriu. A curva de sua boca longa transformava completamente seu rosto quando ele sorria.
-Fé em mim mesmo - ele disse. - Fazer sempre o que é certo e jamais o que é errado, mesmo que seja difícil." (pág. 33)

"-O fim da história quem faz é você, ninguém mais. Só você pode escolher. Há tantas formas de se tornar um herói quanto os galhos de uma grande árvore. Podem ser formas maravilhosas, terríveis, simples ou complicadas. Elas se unem, se separam e se interligam novamente, e você pode segui-las da maneira que desejar." (pág. 111)

"Não corte madeira viva. Use um pedaço de galho que esteja no chão, daqueles que as tempestades e os raios derrubam. Se precisar cortar madeira nova, peça licença. Os bens da floresta não devem ser retirados sem motivo.
Aprendemos sobre isso ainda pequenos. Sempre pedíamos licença e agradecíamos, fosse para a árvore ou para o espírito que habitasse nela." (pág. 127)

"-O que você fez foi crueldade - disse lentamente. - Não há como desfazer algo assim. Você tem sorte de nosso irmão saber tratar de animais. Mas ela também precisa do seu amor para se recuperar. Animais não nos julgam. Eles nos amam independentemente do que fazemos com eles." (pág. 143)

"Dizem que o espírito não abandona totalmente o corpo até a terceira manhã após a morte. Meu amigo não estava morto há mais de três dias, mas seu ser interior parecia já ter voado para o imenso céu que ele sempre observava no Monte Ogma, acima das árvores e das águas do lago que se estendiam para o oeste. Coloquei a cruz de madeira em suas mãos e uma oração cristã me veio à mente, mas preferi ficar em silêncio. Quem sabe para onde seu espírito desejaria voar? Ele sempre fora uma pessoa de mente aberta e, com isso, muitas portas se abririam agora para ele." (pág. 181)

"Tinha dito a Simon que ele podia fazer sua história terminar como bem desejasse. Mas não era bem verdade. Pode-se traçar um caminho, mas sempre há pessoas e fatos que o influenciam e o modificam, tornando-o muitas vezes difícil e confuso." (pág. 186)

"Ele estava em sua casa, mas seria trazido para baixo para ser velado. A casa estava em silêncio. Será que essa gente não sabia como sofrer por um bom homem? Não sabiam chorar, gritar de raiva e amaldiçoar o poder das sombras? Não sabiam se abraçar, enxugar as lágrimas uns dos outros e falar das coisas boas que ele havia feito e de como havia sido bom, para ajudá-lo em sua passagem? Onde estavam as grandes fogueiras, os brindes com cerveja forte e o cheiro das ervas queimando para espalhar seu perfume no ar?" (pág. 410)

"Sentei-me ao seu lado e ficamos em silêncio. Peguei sua mão e a segurei entre as minhas. Estava trêmula. Eu não sabia o que dizer. Quando parti, era apenas uma criança, e ele, uma figura austera e distante, que nunca cheguei a conhecer direito. E agora parecia que eu era a mãe e ele a criança." (pág. 557)

"-O homem viajou para aquele lugar distante. Viu e ouviu as histórias mais estranhas em seu caminho. Aprendeu que... que o amigo e o inimigo são apenas as duas faces da mesma moeda. E que a vida que alguém escolhe para si mesmo, e julga certa e constante, pode se modificar a qualquer momento. Para se ramificar, torcer e levá-lo a lugares muito além de sua imaginação. Há mistérios que vão além da mente de um mortal e, se ele tenta negá-los, acaba vivendo em uma semiconsciência." (pág. 578)

"Mas de uma coisa você deve se lembrar: não existe luz ou trevas. Nós é que vemos o mundo assim. Não existe bem ou mal. Tudo muda o tempo todo e, ao mesmo tempo, continua igual." (pág. 587)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Feios

Título: Feios
Autor: Scott Westerfeld
Páginas: 416

Este é um livro sobre adolescentes e para adolescentes. Não que a história não seja interessante, mas o fato é que ela foca aquilo que é de extrema importância para os jovens: a aparência. Afinal, quando se é jovem, o que mais tem importância?

No livro (num futuro não determinado) os jovens, ao atingir 16 anos, recebem uma transformação corporal completa, passando a se tornar perfeitos. Esse é o sonho de todos os adolescentes e eles vivem contando os minutos aguardando a data tão esperada, quando deixarão seus defeitos, suas manias e suas aparências comuns e se tornarão perfeitos. Mas será que todo mundo quer ser perfeito? E o que há por trás disso tudo? Leia o livro e descubra.

Trechos interessantes:

"Havia um tipo de beleza, um encanto que todos viam. Olhos grandes e lábios grossos, como crianças; pele sedosa e brilhante; traços simétricos; e milhares de outras pistas. Em algum lugar no fundo de suas mentes, as pessoas buscavam esses sinais permanentemente. Ninguém podia evitar notá-los, qualquer que fosse sua criação. Um milhão de anos de evolução haviam tornado aquilo parte do cérebro humano." (pág. 20)

"-Ou talvez, depois que eles quebram e esticam seus ossos até alcançar o formato ideal, depois que arrancam seu rosto e raspam a pele, depois que enfiam maçãs do rosto plásticas na sua cara para que você fique igual a todo mundo... talvez, depois disso tudo, você simplesmente não seja mais tão interessante." (pág. 53)

"-[...]Não quero ser uma feia para o resto da vida. Quero aqueles olhos e lábios perfeitos, quero que todos me vejam e fiquem impressionados. E que todos que me virem perguntem 'quem é ela?' e queiram me conhecer e queiram ouvir o que tenho a dizer.
-Prefiro ter algo a dizer." (pág. 94)

"Cada dia que nascia parecia mudar a montanha, o céu e os vales próximos, tornando-os deslumbrantes de modos completamente diferentes. A natureza, afinal, não precisava de uma operação para ficar linda. Ela simplesmente era." (pág. 224)

"Pensou nas orquídeas que se espalhavam pelos campos lá embaixo, arrancando a vida das outras plantas e do próprio solo, num processo egoísta e incontrolável. Tally Youngblood era uma praga. E, ao contrário das orquídeas, sequer era bonita." (pág. 238)

"-Podemos mesmo fazer xixi num purificador? Quero dizer, para beber a água depois?
-Claro. Eu já fiz isso.
Tally fez uma cara de nojo e, em seguida, virou-se para a janela.
-Quem mandou perguntar...
Ele se aproximou, rindo baixinho, e pôs as mãos nos ombros dela.
-É incrível o que as pessoas são capazes de fazer para sobreviver - disse." (pág. 335)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Tudo menos "normal"

Título: Tudo menos "normal"
Autor: Nora Raleigh Baskin
Páginas: 190

Com a leitura deste livro atingi a minha meta que havia estipulado no início do ano: a leitura de 35 livros. É um número modesto, mas foi atingido. Levando-se em conta que esse total não contabiliza os livros relacionados ao trabalho e os de programação, me considero satisfeito com o resultado.

Sobre o livro: narrado em primeira pessoa, conta a história de Jason - um garoto autista de 12 anos - e suas dificuldades de convivência com as pessoas "normais". O que lhe dá prazer é criar histórias em um site e, quando uma garota as lê e começam a trocar mensagens, ele se questiona sobre o que a garota pensará ao saber que ele é diferente.

Livro muito belo e tocante, nos mostrando como é estar do outro lado, já que dificilmente nos damos conta disso.

Trechos interessantes:

"A maioria das pessoas gosta de falar em seu próprio idioma.
Elas realmente preferem isso. Preferem tanto que, mesmo quando vão a um país estrangeiro, usam a própria língua, falando mais alto ou mais devagar, porque acham que assim serão compreendidas." (pág. 9)

"Neurotípicos gostam quando os olhamos nos olhos. Supõe-se que signifique que você está ouvindo, como se o oposto fosse verdade, o que não é: só por que você não está olhando para alguém, não significa que não está ouvindo o que esta pessoa diz. Posso ouvir melhor quando não sou distraído pelo rosto de uma pessoa." (pág. 13)

"Sou como uma folha sobre um rio, sendo levada pela água, não exatamente flutuando, nem exatamente afundando. Então, não posso parar e não posso controlar a direção que estou tomando. Posso sentir a água, mas nunca sei para onde estou indo." (pág. 24)

"Toda palavra que você escolhe significa algo que você acha que significa, e mais.
Como,por exemplo, se uma pessoa é diferente, isso é uma coisa boa.
Mas se ela tem um defeito, isso não é." (pág. 80)

"Alguns anos atrás, descobri que os braços de papai ao meu redor não mandam a escuridão, a raiva, a tristeza embora de verdade. Eles apenas as adiam. Isso não me impede, entretanto, de pensar sobre as coisas com as quais meu pai pode me ajudar e as que ele não pode. E o que vai acontecer quando ele não estiver mais por perto." (pág. 83)

"A coisa mais importante a fazer quando você está escrevendo uma história é encontrar um dilema para o seu personagem resolver. Você pode ter os melhores e mais interessantes personagens e pode ter algo realmente importante a dizer, mas você precisa de uma história. Precisa de conflito." (pág. 109)

"-Muito tempo depois de termos desaparecido, nossas palavras serão tudo o que resta de nós, e quem é que vai dizer o que realmente aconteceu ou mesmo qual é a realidade? Nossas histórias, nossa ficção, nossas palavras serão a coisa mais próxima que pode haver da verdade. E ninguém pode tirar isso de vocês." (pág. 182/183)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

1º a morrer

Título: 1º a morrer
Autor: James Patterson
Páginas: 374

Livro policial com todos os ingredientes do gênero. Há um assassino solto na cidade e ele tem um estilo peculiar: só mata casais que acabaram de se casar. Para desvendar esse mistério entra em cena a inspetora de polícia Lindsay que, além do caso em questão, terá que se preocupar também com uma doença grave com a qual foi diagnosticada.

No decorrer da história aparecem mais três mulheres e um parceiro para auxiliar Lindsay em sua empreitada. Fugindo dos padrões tradicionais do estilo policial, o assassino é revelado ainda no meio do livro. Mas nem por isso as emoções acabam. Até o final ainda vão surgir mais alguns detalhes para prender a atenção do leitor.

Trechos interessantes:

"Até ali, a minha filosofia sobre médicos era simples. Quando um deles olhava para você com aquela expressão profunda e preocupada e dizia para você sentar, três coisas podiam acontecer. Só uma delas era ruim. Ia convidá-la para sair, estava se preparando para dar uma notícia desagradável ou então gastara uma fortuna para reestofar a mobília." (pág. 18/19)

"Não sabemos para que lado o trem foi, se olhamos só para os trilhos." (pág. 40)

"A primeira coisa que se notava em Claire era que ela carregava vinte e cinco quilos dos quais não precisava.
-Estou em forma - ela sempre dizia. - Redondo é uma forma." (pág. 50)

"Há uma passagem em Thoreau: 'O tempo é o riacho onde vou pescar. Bebo dele, mas, enquanto bebo, vejo a areia do fundo e percebo como é raso. Sua correnteza desliza para longe, mas a eternidade permanece. Beberia mais profundo, pescaria no céu, cujo fundo é pedregoso de estrelas'." (pág. 99)

"-Essa é a verdade realmente horrorosa do assassinato. Se aprendi alguma coisa como detetive de homicídios, foi que nada segue uma linha fixa. Ontem a senhora era uma vítima inocente, mas agora está envolvida nisso também. Esse assassino vai atacar novamente e a senhora vai se arrepender do que não me contou pelo resto da vida." (pág. 189)

"-Quando eu estiver dando o meu último suspiro, não vou lembrar de todas aquelas conferências importantes das quais participei. Nós só temos poucos momentos na vida para nos soltar, então é bom aproveitá-los quando aparecem." (pág. 198)

"-Vocês querem pegar peixe grande? Voltem e peguem um caniço mais forte." (pág. 216)

sábado, 21 de dezembro de 2013

A casa da seda

Título: A casa da seda
Autor: Anthony Horowitz
Páginas: 270

Estava temeroso ao iniciar a leitura do livro, pois as informações faziam tanta referência ao estilo das histórias de Sherlock Holmes, que fiquei com receio de me decepcionar. Qual nada! É como se você tivesse lendo uma história do próprio Conan Doyle. O autor conseguiu captar tão bem a atmosfera, o gênero e a excentricidade de Sherlock Holmes e o resultado não poderia ser outro: uma história digna do grande detetive.

Como sempre, a história começa com alguém solicitando a ajuda de Holmes para um caso que, aparentemente seria simples. E aí a história começa a se desenrolar, outros aspectos vão se conectando e, de repente, a história já tomou tamanha proporção e há tantas pessoas envolvidas que só mesmo o talento de Holmes para decifrá-la. Se você é fã de livros do gênero, com certeza não irá se decepcionar com a leitura.

Trechos interessantes:

"Creio ser desnecessário lembrá-los de que os gêmeos apareceram na mitologia desde os primórdios da civilização. Houve Rômulo e Remo, Apolo e Ártemis e Castor e Pólux, imortalizados para sempre como a constelação de Gêmeos no céu noturno." (pág. 28)

"Ele não podia ter mais de treze anos, mas apesar disso, como todos os outros, já era completamente adulto. A infância, afinal de contas, é o primeiro bem que a pobreza furta de uma criança." (pág. 54)

"[...]afinal até o próprio Lestrade dissera uma vez, brincando, que um capricho da Mãe Natureza havia lhe dado a aparência de um criminoso, não de um policial, e que, pensando bem, ele poderia ter sido um homem mais rico se tivesse escolhido tal profissão. Também Holmes comentou muitas vezes que suas próprias habilidades, em particular em matéria de forçar fechaduras e forjar falsificações, poderiam tê-lo tornado um criminoso tão bem-sucedido quanto era como detetive, e é divertido pensar que, num outro mundo, os dois homens poderiam ter trabalhado juntos no lado errado da lei." (pág. 65)

"O problema com você, Holmes, é que tem mania de complicar as coisas. Por vezes pergunto a mim mesmo se não faz de propósito. É como se precisasse que o crime representasse um desafio, como se ele tivesse de ser suficientemente extraordinário para merecer solução." (pág. 70)

"'Sr. Sherlock Holmes', disse, 'Sim, sim. Creio que ouvi falar a seu respeito. Um detetive? Não posso imaginar nenhuma circunstância em que suas atividades se conectariam com as minhas'." (pág. 109)

"Mostre a Holmes uma gota d'água e ele deduziria a existência do Atlântico. Mostre-a para mim, e eu procuraria uma torneira. Essa era a diferença entre nós." (pág. 169)

"O senhor poderia dizer que sou um pensador abstrato. O crime em sua forma mais pura é, afinal de contas, uma abstração, como a música. Eu reajo. Outros executam." (pág. 182)

"Existem, acredito, ocasiões em que sabemos ter chegado ao fim de uma longa jornada; em que, mesmo que ainda não divisemos nosso destino, sabemos de algum modo que, quando dobrarmos a esquina que está bem à nossa frente, lá estará ele." (pág. 218)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vão dos Angicos

Título: Vão dos Angicos
Autor: Bariani Ortencio
Páginas: 200

Vão dos angicos é um livro de contos, retratando o povo, a história e os costumes da região Centro-Oeste. São nove contos - os chamados "causos" - geralmente com apelo humorístico, retratando diversas situações e personagens.

O linguajar específico da região é o que mais chama a atenção nesse tipo de história. É como se estivéssemos, de fato, ouvindo as histórias contadas pelos mais antigos, ao pé do fogão, enrolando um cigarro de palha. Só quem já viveu nesta situação para entender o que é isso.

Trechos interessantes:

"O advogado seguiu viagem, a trenheira enchendo duas bruacas, livros de Direito a maior parte. No interior seria necessário demonstrar poderio; capacidade e inteligência, nem tanto. A maior arma seriam os livros. Doutor de muitos livros na prateleira, sabedoria garantida, respeito absoluto." (pág. 13)

"De peixes eles já estavam saturados e, o que pretendiam, era mesmo caça de carne de sangue para dar sustância. variar da branca de peixe, fraca, embora rica de fosfato. Mas o que eles queriam com fosfato, com inteligência, se não precisavam dela, não tinham onde usá-la, que tudo ali era rotineiro?" (pág. 73)

"Merenciano sempre morou em Pau-d'Arco, dono que foi por herança do pai. Quando cismou de casar, o fez rápido, sem muita escolha, devido à falta do que escolher e serem as moças naquele derredor de cinco léguas, todas prendadas em serviços domésticos e ajuda na roça e curral. Das quatro Marias conhecidas, fisgou a do vizinho Luciano, a mais chegada por divisas, que ele não era de andar muito atrás de rabo-de-saia.
Maria-do-Luciano fez o pior negócio da vida, pois logo no primeiro parto embarcava deste mundo para um melhor, carregada nas asas dos anjos, de boa que era, e chorada sentidamente por Merenciano, que dela pouco aproveitara." (pág. 91)

"Quando está nesta ocupação, reclama à memória, relembra a manta que passou no cigano, na baldroca com aquela égua desgraçada de ruim, mais passarinheira que todos os diabos do inferno. Passar manta em cigano dá patente de alto gabarito comercial." (pág. 95)

"Na cidade, Apolinário empretecendo de tanto tomar café em casa dos eleitores. O peito doía de andar espremendo outros peitos nos abraços infindáveis. Só não abraçava poste porque não tinha braços." (pág. 121)

"Começou pelo chavão mais conhecido que níquel de cem reis:
-Já que é tão grande o momento!
E o Fidêncio arrematou:
-'Jaquetão grande' é 'sobretudo' sua besta!..." (pág. 131)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A linha

Título: A linha
Autor: Teri Hall
Páginas: 246

Eu realmente não entendi o estilo literário deste livro. A autora cria uma ficção, num futuro não determinado, onde as pessoas vivem com medo dos representantes do governo, mas não especifica o motivo. Algo assim como uma versão da guerra fria, mas no futuro.

Há uma linha que divide dois países (?) e a personagem principal fica obcecada por cruzar a linha. Achei o livro muito vago, com personagens simples e sem amarração. E o final então, que tristeza!

Trechos interessantes:

"São sempre as ações da própria pessoa que provocam as mudanças de verdade, sejam boas ou más." (pág. 13)

"-Eu não sei se existe algum governo que quer realmente acabar com a guerra, ela é muito útil." (pág.47)

"-Nunca é uma atitude grosseira expressar a opinião de alguém respeitosamente. Nós apenas pensamos diferente sobre esse assunto." (pág. 75)

"Ela se lembrava de seu alerta durante uma sessão de treinamento:
-Se eles tentarem cavar sua cova - disse -, não vá pegar uma pá e ajudar. Você senta quieto e cala a boca." (pág. 136/137)

"Rachel foi até sua mãe, ajoelhou-se ao seu lado e lhe deu um abraço. Não disse nada. Não sabia o que dizer. Ficou pensando sobre o que a Sra. Moore havia dito minutos antes: 'Você ficaria surpresa com o que as pessoas que achava que eram amigas são capazes de fazer'." (pág. 194)

"-Você não vê? Não dá para ter coragem sem ter medo. Os corajosos sempre temem. Mas, mesmo assim, fazem o que é preciso." (pág. 207)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Veias e vinhos

Título: Veias e vinhos
Autor: Miguel Jorge
Páginas: 262

O livro é um clássico da literatura goiana, por isso tão pouco conhecido por aqueles que não são desta terra. O livro narra a história de um crime ocorrido em Goiânia em 1957, quando a cidade ainda engatinhava.

O crime ocorreu no antigo Bairro Popular (hoje anexado ao Setor Central) onde uma família foi brutalmente assassinada, deixando apenas a filha mais nova, Ana, que a tudo assistia. Como o crime não teve solução, o romance mostra a dor e o sofrimento de Ana e os maus tratos daqueles que foram acusados injustamente. Leitura densa, mas sincera.

Trechos interessantes:

"Calmamente o céu e a noite jogavam estrelas sobre o telhado da cidade. E as estrelas empurravam a Lua para um campo limpo, de onde ela dominava sozinha um espaço azul. Uma noite de abril abrindo-se em meio a um calor novo e fácil de se aguentar." (pág. 25)

"Que surpresas agradáveis ou desagradáveis lhe concederia aquele dia? Padre Bonifácio ficou de passar na venda no final da tarde. Diabo de padre, sempre querendo dinheiro. Dinheiro. Era verdade que o bairro crescia em gente e movimento, que os negócios iam bem, mas, que diabo, dar dinheiro assim, sem mais nem menos, não era com ele. E que Deus lhe perdoasse se estava cometendo pecado." (pág. 78)

"Tinha um desejo secreto de ver o Cristo de verdade. Pensava, mas tinha medo de falar em voz alta. Estava cansado de ver o Cristo pregado na cruz, sofrendo a vida inteira. Queria ver o Cristo vivo, homem de fala humana, igual aos outros homens. Era um mistério, o Padre Bonifácio dizia, mas ele não se conformava." (pág. 101)

"Compreendeu desde o início que seu calvário começava ali. E desejou pacientemente que chegassem logo ao fim. Carregaram-no dali e o dependuraram no pau-de-arara. De cabeça para baixo, suas afirmações começaram a vacilar como seu olho direito. Apertavam mais e mais o interrogatório. O soldado deu uma risadinha, e o delegado também. Usavam de métodos e de várias possibilidades de tortura. Sabiam que mais cedo ou mais tarde ele confessaria tudo." (pág. 135)

"-Mome, vamos paperá um pouco? Onde tem um açougue por aqui?
-Açougue? Bem, ali na esquina tem um do seu Josias.
-Açougue, mome, lupanar, bordel, casa de meninas da vida. Não sabe o que é isso?" (pág. 174)

"Sei tão pouco a respeito de crimes e de prisões, não sei falar aos grandes e não tenho o menor desejo em me arrastar feito verme. Posso esperar por um instante. Por um só instante, mas com dignidade." (pág. 179)

"Chegaram uns dez carniças a fim de fazer caridade. Um arigó me cantou a cantarinha. Fiquei zurro e hurro e entrei com a capoeira, rabo-de-arraia-bico-de-papagaio-uma-dança-de-rato. Acertei um direto numa égua bonita, mandei ela ver a duvela. Mas os sacanas me encalharam enfumaçando o lupanar. Foi aí que meti o espeto no bucho dum estepe que ficou estirante. Me meteram num galinheiro e me jogaram na casa de pedra. Então, malandro, me pus frente ao alconha, sem amor, o malandro precisa de um alveitar, tá com as grampas feias. Pode abrir o bico, que sou mesmo que jorba." (pág. 202)

"[...]mas os repórteres me esperavam com máquinas fotográficas e perguntas e perguntas existem momentos decisivos na vida da gente e aquele era um deles por isso enxuguei as lágrimas e com o rosto vermelho e a voz forte rouca mesmo disse bem alto sou inocente saio da penitenciária após vinte anos de prisão dizendo a mesma frase de quando entrei sou inocente sou inocente [...]" (pág. 252)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Até Deus duvida

Título: Até Deus duvida
Autor: Lêda Selma
Páginas: 170

Gosto muito de crônicas, é um estilo que considero descompromissado. É como se fosse um bate-papo, uma conversa informal sobre assuntos corriqueiros e sem muita importância. E, como são textos pequenos e não sequenciais, podem ser lidos em pequenos intervalos.

O livro em questão apresenta várias crônicas e quase todas humorísticas. A autora cria palavras e nomes próprios que são, no mínimo, risíveis. Onde já se viu "Distraildina", "Pescanildo", "sorveteu", "bombrilesca", "impeixíferas", "Bigolândia", "Doidivino", "cachorrólogo" e por aí vai. Em suma, uma leitura agradável.

Trechos interessantes:

"É notório que ele [computador], às vezes, tumultua nosso relacionamento, ao insistir em intrometer-se nos meus escritos (que mania danosa!). Contudo, ignoro tal ousadia e coloco-o em seu devido lugar. E tenho razão: o abelhudo recusa, substitui minhas palavras e, ainda por cima, sublinha-as de vermelho. Vê-se que o tal ignora a liberdade dos textos literários. Resultado: ficam todos carnavalescos, fantasiados. Tenho culpa se o fulano é deficiente semântico, ou se é pobre seu vocabulário conotativo?!" (pág. 17)

"A mesma sorte não teve a pera, que pela de medo dos pelos daquele bigode sobre a boca que a abocanha. Entenderam?! Ih! os conhecidos pares pára/para, pêlo/pelo, péla/pela, pólo/polo não têm mais o diferencial, mas o "têm", no plural, tem, como sempre." (pág. 20)

"De forma que, a certa altura da prosa, ninguém se aventurava a sequer uma retirada rápida, para acalmar as súplicas das necessidades mais íntimas, naturais e intransferíveis. Por puro medo de ser o próximo candidato a frangalho naquelas bocas debochadas e sem trinco." (pág. 44)

"-Transviarei o que meus antepassados sempre disseram: 'É melhor ouvir bobagem do que ser surdo'. Não, não, não, não é! Pela minha batina, ó Deus protetor dos ouvidos insultados, a surdez, por misericórdia!" (pág. 68)

"A verdade nunca o intimidava, principalmente a verdade dos outros. O que tinha a dizer, dizia, assim, de chofre. A verdade era encomenda que ele não deixava ninguém entregar ao destinatário. Fazia-o de própria boca. Sem retoques nem depois." (pág. 78)

"-Senão, o quê?! Me diga, delegado, o quê? O senhor pensa que vou aceitar que escorchem os meus direitos, é?
- (Escorchem... Que diabo é isso? Ah! não: bandido intelectual...?!)" (pág. 125)

"Que outro jeito, filho, senão recordar!? O irreversível, aprendi, é passagem sem ponte, é rio intransponível e sobre o qual não se pode navegar." (pág. 169)

sábado, 30 de novembro de 2013

Jornada de esperança

Título: Jornada de esperança
Autor: Brian Aldiss
Páginas: 264

De que valeria a vida se você soubesse que a humanidade, em breve, estará extinta? Esta é a tônica do livro. Um panorama assustador (ficcional, mas perfeitamente possível) se desenrola e muda completamente a vida, os hábitos e atitudes de uns poucos remanescentes diante da visão de um futuro que não mais existirá.

O autor cria uma visão de futuro na qual o uso de armas nucleares interfere e modifica os sistemas humanos, fazendo com que as mulheres deixem de procriar. Com isso não há mais nascimentos, apenas mortes e a certeza que a raça humana chegou ao fim. Para quem gosta de ficção, eis aí uma ótima pedida.

Trechos interessantes:

"Uma das características da idade avançada é que todas as conversas levam de volta a épocas pretéritas." (pág. 24)

"A embarcação vinha cortando a correnteza de viés. Dirigia-a o mais desgrenhado bando de antimarinheiros que jamais se tinha visto. Os remadores pareciam igualmente preocupados com impedir a nau de capotar e fazê-la ir em frente. Cumpre dizer que fracassavam por igual em ambos os intentos." (pág. 26)

"-O que estou tentando dizer, Marta, é que, finalmente, os homens começam a perceber que a raça humana não vai mais reproduzir-se. Aqueles bolinhos de carne que costumávamos ver atados em cueiros são coisas do passado. Aquelas menininhas que costumavam brincar com bonecas e sacos de farinha vazios não existem mais. Os adolescentes motorizados que ficavam nas esquinas tocando as buzinas das suas máquinas se foram para sempre. Não voltarão mais." (pág. 57)

"-Documentos! Você fala como esses idiotas da sala vizinha. Respeito a erudição mas não o pedantismo, entenda bem. Escute. Vou evacuar do hospital todos os canalhas que lá existem. E com eles as suas ideias malucas. Não acredito no passado; acredito no futuro.
Para Timberlane aquilo pareceu uma confissão de demência. -O futuro não existe, lembra-se? Nós o liquidamos no passado." (pág. 70)

"Talvez aquele fosse um dos erros inerradicáveis do gênero humano (até mesmo os ateus tinham que reconhecer a falha): o não contentar-se em aceitar uma coisa simplesmente como tal. Sempre se converteram as coisas em símbolos ou em outras coisas. Um arco-íris não é apenas um arco-íris; uma tempestade é penhor da ira celestial, e até mesmo do seio da terra emergem obscuros deuses. Qual o significado disso tudo?" (pág. 113/114)

"Charley interrompeu seus pensamentos, envergonhado do cinismo fácil para que resvalara. Ó Deus, ainda que eu morra, permiti-me viver!" (pág. 140)

"Qualquer sorte é melhor que a morte¹" (pág. 151)

"Tudo isso estava a ensinar uma lição que desde muito devia ter sido aprendida, pensava Artur: jamais permita que um bando de nefastos políticos pense por você. Sem nenhuma dúvida, eles deveriam ter tido suficiente bom senso para mandar explodir na lua os seus engenhos." (pág. 218)

"-Você sabe ao que me refiro: é preciso renovarmos nossa juventude na geração seguinte. Na casa dos trinta, os filhos constituem a nossa alegria. Na dos quarenta, a nossa preocupação e as nossas amarras ao mundo. Na dos cinquenta, talvez surjam os netos para a gente brincar. Vivemos enquanto os nossos netos lá estão para contemplar o nosso sorriso senil e as nossas mágicas... Eles são os nossos substitutos. Mas, se tudo isso desaparece... não é de admirar que as coisas desandem ou que o pobre Charley comece a ver gnomos." (pág. 238)

"Qualquer que seja o papel por nós pretendido na vida, o importante é desempenhá-lo da melhor forma possível." (pág. 259)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A janela de Overton

Título: A janela de Overton
Autor: Glenn Beck
Páginas: 384

Eu esperava mais do livro, a história não chegou a me empolgar como imaginei ao ler a sinopse. A história se baseia mais no romance dos protagonistas que na trama de mistério e conspiração apregoada pela crítica.

O autor quis fazer um livro de ficção baseado em fatos reais, mas, a meu ver, o excesso de fatos reais é que prejudicou o bom andamento da história. Mas pelo menos tenta mostrar como é manipulada a opinião pública em diversos aspectos. Só faltou aquele algo mais para cativar o leitor de fato.

Trechos interessantes:

"Dizem que devemos nos vestir para o trabalho que pretendemos ter, e não para o trabalho que temos. Isto é especialmente verdadeiro no ramo de relações públicas e de assessoria de imagem, em que a aparência é a realidade." (pág. 22)

"Como eu sei de tudo isso? Simples: quando as coisas dão errado, sempre é bom haver alguém que leve a culpa, um vilão, se preferirem. Como dizem por aí, se não se está sentado à mesa para comer, pode ser encontrado no cardápio. Se saírem daqui com a mesma arrogância com que entraram, então, meus amigos, em breve os senhores serão servidos como o prato especial do dia." (pág. 43/44)

"É a primeira regra, e uma das únicas: o melhor trabalho jamais é sequer notado. Se o público vê a mão do marqueteiro ou assessor de imagem, então ele fracassou." (pág. 52)

"As loterias pegam o dinheiro de milhões de pessoas e em troca dão a elas apenas pedaços de papel e decepção; depois - e aqui está o segredo -, os marqueteiros do mundo das relações públicas conseguem ludibriar as pessoas e convencê-las a fazer fila para jogar de novo. Se se consegue enganar as pessoas desse jeito e ainda dormir tranquilo à noite, então é possível que se tenha uma longa e promissora carreira pela frente." (pág. 54)

"Vou dar uma notícia de última hora para você, filho: não existe Papai Noel, nem coelhinho da Páscoa, nem uma Fada da Justiça que dê a mínima para o que você viu. A injustiça existe neste mundo, e, se você tem a sorte de viver protegido da pior parte dela, a maior parte das pessoas não tem." (pág. 123)

"Tudo aquilo que é obtido por um preço baixo demais merece nossa pouca estima: é o alto preço que dá a cada coisa seu valor. Deus sabe como atribuir o preço adequado a suas mercadorias, e de fato seria muito estranho se um bem tão divino como a liberdade não custasse tão caro." (pág. 201)

"A mulher olhou para ele, e sua conduta tinha ficado mais fria. Isso acontece com alguns médicos. Assim que o paciente dá sinais de melhora, eles não veem mais utilidade em ser gentis." (pág. 235)

"Em mais de uma ocasião o velho já tinha dito com todas as letras: se um dia saísse de casa e por algum milagre todas as pessoas do mundo tivessem desaparecido da face da Terra, seria a realização de seu maior sonho. Essa era a prova irrefutável de quanto ele adorava ficar sozinho." (pág. 249/250)

"Quando eu nasci, havia 2 bilhões de pessoas no mundo; agora esse número mais do que triplicou, no período de uma vida. E no meio dessa superpopulação, que está inchando o mundo além do ponto de ruptura, não há muitos Mozart, Einstein, Pascal, Salk, Shakespeare ou George Washington. São uns comilões inúteis e retardados mentais, que estão esgotando a capacidade do planeta." (pág. 254)

"Não tenha medo, ela dissera; esse é o segredo, por pior que seja a situação. Por exemplo, alguém que esteja dentro de um carro dirigindo em alta velocidade para saltar sobre o espaço vazio de uma ponte, já que a possibilidade de parar o veículo é impossível. A maior parte das pessoas desperdiçariam seus últimos segundos de vida pisando, em vão, nos freios. No entanto, o que deveriam fazer, diante da morte iminente, seria rezar e pisar com tudo - porque há sempre uma ínfima chance de se chegar ao outro lado." (pág. 284)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Antes que eu vá

Título: Antes que eu vá
Autor: Lauren Oliver
Páinas: 358

O início do livro parece uma história normal sobre a vida de uma adolescente: Samantha Kingston, suas amigas, suas colegas de escola, se namorado, seus conflitos de adolescência e por aí vai. De repente a história muda, quando ela descobre que morreu, mas tem a possibilidade de reviver aquele dia novamente.

E assim começa a "segunda parte" do livro quando ela tenta mudar os acontecimentos para se salvar e, sempre acontece alguma coisa que a impede de atingir seu objetivo e ela acaba tendo que reviver novamente o último dia. Com a história no seu ápice, você chega a imaginar vários tipos de finais para o livro e, no meu caso, achei o final decepcionante. Mas talvez é porque eu não tenha sensibilidade para entendê-lo. Quem sabe?

Trechos interessantes:

"A questão é: nós podemos fazer coisas desse tipo. Sabe por quê? Porque somos populares. E somos populares porque podemos sair ilesas de tudo. Então é um círculo vicioso.
Acho que o que estou tentando dizer é que não adianta analisar. Se você desenhar um círculo, sempre haverá um lado de dentro e um lado de fora e, a não ser que você seja completamente idiota, é bem fácil perceber qual é qual. É simplesmente assim que funciona." (pág. 17)

"Não devia ter matado a aula de inglês, isso me deu muito tempo para pensar. E pensar não faz bem a ninguém, independentemente do que digam pais, professores e nerds do clube de ciência." (pág. 41)

"Ele não é muito bom com peitos em geral, para falar a verdade. Quer dizer, não é como se eu soubesse como deveria ser, mas sempre que ele toca meus seios, simplesmente os massageia em círculos, com força. Meu ginecologista faz a mesma coisa quando me examina, então um dos dois tem que estar fazendo errado. E, para ser sincera, não acho que seja o médico." (pág. 50)

"Uma boa amiga guarda segredos para você. Uma melhor amiga ajuda você a guardar os próprios segredos." (pág. 83)

"O pior de tudo é saber que não posso contar para ninguém o que está acontecendo - ou o que aconteceu - comigo. Nem mesmo para minha mãe. Acho que faz anos desde que conversei pela última vez com ela sobre coisas importantes, mas começo a sentir falta dos dias que acreditava que ela podia resolver tudo. É engraçado, não é? Quando se é novo, só se quer crescer, e depois só se quer voltar a ser criança." (pág. 103)

"Eis outra coisa a se lembrar: a esperança o mantém vivo. Mesmo quando você está morto, é a única coisa que o mantém vivo." (pág. 106)

"Eis uma das coisas que aprendi naquela manhã: se você ultrapassar um limite e nada acontece, o limite perde o sentido. É como aquele velho enigma sobre uma árvore caindo em uma floresta, e se ela faz ou não barulho, se não há ninguém por perto para ouvir." (pág. 150)

"É a coisa mais esquisita. Sou popular - muito popular -, mas não tenho tantos amigos. O que é mais estranho é que é a primeira vez que percebo isso." (pág. 172)

"Os detalhes que compõem o padrão especial da minha vida, como em colchas de retalhos, que são especiais por causa dos pequenos defeitos na costura, pequenos espaços, altos-relevos e falhas que jamais podem ser reproduzidos.
Algumas coisas se tornam lindas quando você realmente olha." (pág. 261)

"Eu me lembro de que uma vez assisti a um filme antigo com Lindsay; nele o protagonista falava sobre quanto é triste o fato de que na última vez que a pessoa faz sexo ela não sabe que é a última vez. Como nunca nem tive uma primeira, não sou exatamente uma expert, mas suponho que seja assim para a maioria das coisas na vida - o último beijo, a última risada, a última xícara de café, o último pôr do sol, a última vez em que você salta um borrifador de água ou toma uma casquinha de sorvete, ou põe a língua para fora para pegar flocos de neve. Você simplesmente não sabe." (pág. 315/316)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Histórias que nunca esqueci

Título: Histórias que nunca esqueci
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 248

Novamente, mais uma coletânea de histórias de suspense da coleção Alfred Hitchcock. Desta vez são 14 histórias, dos mais variados estilos. O meu gosto pessoal também foi contemplado pois sete das histórias são do meu agrado, o que é raro num livro de coletâneas.

Dentre as que me impressionaram destaco: "A solução Dettweiler", "Vida ou morte" e também "Uma guerra particular". Claro, não são histórias fenomenais, mas as considero acima da média.

Trechos interessantes:

"-Parece muito angustiado, Parker. O que o está perturbando.
-É... Não é nada.
-Tudo é alguma coisa." (pág. 17)

"O prédio lembrou a Walden Swift outro parecido, no qual frequentemente visitara uma jovem que outrora amara. Mas isso acontecera no tempo em que ele era jovem o bastante para acreditar numa moça que lhe dizia para nunca se envolver com as pessoas." (pág. 41)

"Ainda restavam mais cabelos a Seth do que a Porter, embora ele fosse mais velho em três anos. Eu poderia descrevê-los em maiores detalhes, até as cicatrizes, verrugas e marcas distintivas, mas tenho a impressão de que vocês gostariam de ler essas coisas tanto quanto eu apreciaria escrever a respeito. Ou seja, absolutamente nada. Portanto, vamos continuar com a história." (pág. 46)

"-Linda Mae está lhe criando problemas?
-Estava. Passou a ser mais cortês depois que lhe dei uma surra na última vez.
-Deus sabia o que estava fazendo ao criar os homens mais forte do que as mulheres - comentou Porter. - Já imaginou como seria a vida se as mulheres pudessem surrar os maridos, ao invés do contrário?" (pág. 50)

"Há uma lei expressa contra o suicídio em nosso Estado e provavelmente por toda parte. Mas é muito difícil impor o cumprimento dessa lei, tão difícil quanto fazer um bezerro com as quatro pernas quebradas ficar de pé. Não me recordo de ninguém por aqui que tenha sido processado por se matar. E tenho a impressão de que isso nunca acontecerá. Dá para a gente ficar se perguntando o que os homens estavam pensando quando meteram essa lei em particular no código." (pág. 54)

"Ele caminhava pela noite amena como se estivesse em transe. Inválida. Paralisia parcial. Respirador pessoal. Diálise renal.
Chegara bem perto de perdê-la para sempre. E agora acontecia aquilo. Mas que confusão monumental! Myra já era difícil o bastante de suportar quando estava bem... o que quase nunca acontecia. Vinte anos de hipocondria e nunca houvera uma única doença fatal. E agora acontecia aquilo. Uma inválida." (pág. 125)

"O joelho rígido, resquício de um acidente de automóvel cinco anos antes, não doía mais. Era apenas um incômodo às vezes. Mas também um homem se aproximando dos 50 anos, com todos os sonhos de tornar-se um heroi do mundo dos esportes ou outro Fred Astaire, não precisava de articulações flexíveis para ensinar história a alunos do primeiro ano." (pág. 151)

"Michael viera ainda no meio da semana para trabalhar, trazendo as provas de sua última novela. Precisava passar vários dias fazendo as correções. Era a única parte do processo de escrever que realmente apreciava, a última etapa, quando o livro ainda era parte dele. A partir do momento em que aparecesse entre capas, passava a pertencer aos outros." (pág. 228)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Um amor como nunca se viu

Título: Um amor como nunca se viu
Autor: Frank Slaughter
Páginas: 228

Se você estiver pensando em ler este livro baseado em seu título, devo dizer que você irá se decepcionar. O título sugere um romance tórrido ou até mesmo meloso, estilo água com açúcar, porém essa impressão é equivocada.

Tudo bem que o casal central tem um romance, mas a história fica em segundo ou terceiro plano. O enfoque principal do livro é sobre um casal de médicos e seus problemas de ordem profissional: ela tentando determinar o sexo de um bebê importante e ele tentando salvar a vida de um amigo que foi baleado. Enfim, uma história comum.

Trechos interessantes:

"-Eu apoio a aprovação da emenda sobre igualdade de direitos. Mas posso assegurar-lhe que isso nada terá a ver, de forma alguma, com o fato de eu tratar da rainha...
-Perdoe-me, doutora - disse Almani -, mas 'rainha' não é o termo. Em Telfa as mulheres escolhidas pelo emir como consortes mantêm esse título até que deem à luz uma criança do sexo masculino; apenas então é lhes permitido assumir o título de rainha." Pág. 53)

"-O senhor está me dizendo que o futuro de um país poderá estar dependendo de um feto que a princesa Zorah tem em seu ventre ser macho ou fêmea?
-A senhora disse-o melhor do que eu poderia ter feito, doutora MacGowan.
-Como médica, o sexo do feto é para mim de muito menos importância do que a vida dele, senhor Longaker.
-Concordo - disse o funcionário do ministério. - Mas, sob a lei de Telfa, e quase em qualquer outra parte do mundo, uma criança que ainda não nasceu não é uma pessoa." (pág. 75)

"-A injeção eliminou a dor - disse Corazón. - A cocaína faria isso se você a estivesse usando em vez de Demerol?
-Provavelmente. Por que você pergunta?
-Estou começando a entender por que algumas pessoas que estiveram doentes por muito tempo podem viciar-se em drogas." (pág. 99)

"[...]
-No entanto há muita discussão hoje em dia acerca de manter as pessoas vivas quando elas já estão mortas de acordo com os padrões que usávamos há poucos anos - disse Pierce ponderadamente. - Uma porção de médicos parece pensar que as funções do corpo devem ser preservadas por tanto tempo quanto possível, sem ligar para o cérebro, embora seja um processo muito dispendioso..." (pág. 147)

"-O carro está mergulhado - explicou Ted -, mas felizmente eu me lembrei de algo que li há muito tempo acerca de como enfrentar uma situação como essa. Nós ficamos dentro do Porsche enquanto ele se enchia de água, e pudemos respirar o ar que ficou preso embaixo do teto. Quando a pressão do ar interno e a do lado de fora se igualaram, abri a porta e nadamos para fora do carro.
-Foi um milagre - disse o policial em tom de espanto.
-O doutor Bronson faz milagres todos os dias, sargento - disse Liz."(pág. 165/166)

"-Olhe aqui, doutor Bronson, lembrei-me daquela passagem da Bíblia que o senhor estava procurando ainda há pouco - disse a senhora Burke. - É a seguinte: 'O maior amor que um homem pode demonstrar é oferecer sua vida em troca da de seus amigos'." (pág. 202)

sábado, 12 de outubro de 2013

O recurso

Título: O recurso
Autor: John Grisham
Páginas: 380

O livro começa com o resultado de um julgamento no qual uma empresa é condenada (justamente) a pagar uma quantia milionária para pessoas simples de uma cidadezinha. Todo o resto do livro é dedicado às tramoias e falcatruas utilizadas pela empresa para recorrer do pagamento da sentença.

Não há como ler o livro sem se deixar influenciar pela história. Ninguém acha que já tem o bastante e, mesmo possuindo milhões, pouco se importa com quem não tem nada. Quanto mais eu vejo que isto não deveria acontecer, mais eu me convenço de que, na realidade, é desta forma que as coisas acontecem.

Trechos interessantes:

"Envolver-se em um julgamento importante é como mergulhar em um lago escuro e pantanoso com um cinto de pedras. Você tenta subir para respirar, mas o resto do mundo não se importa. E você sempre acha que está se afogando." (pág. 14)

"Eles tinham uma filha, de quem Carl poderia facilmente abrir mão. Ele já tinha seis, muitos, pensou. Três eram mais velhos que Brianna. Mas ela insistiu, e por razões óbvias. Um filho dava segurança, e como ela era casada com um homem que adorava mulheres e adorava a instituição do casamento, um filho significava família, laços, raízes e, o que não se mencionava, complicações legais no caso de as coisas desandarem. Um filho era a proteção de que toda esposa troféu precisava." (pág. 32/33)

"Queria um lar, nada mais. Não se importava mais com carros importados e um escritório caro e todos os outros brinquedos que um dia pareceram tão importantes. Queria ser a mãe de seus filhos e queria uma casa para criá-los." (pág. 86)

"O pastor Ott já tinha convencido seu rebanho há muito tempo de que, uma vez que o corpo estava morto e que o espírito subiu ao céu, os rituais mundanos eram bobos e tinham pouco significado. Funerais, velórios, embalsamamento, flores, caixões caros: tudo era um desperdício de tempo e dinheiro. Do pó vieste e ao pó voltarás. Deus nos mandou ao mundo nus, e assim devemos deixá-lo." (pág. 108)

"Seguindo a tradição do Sul, após o último adeus todos se reuniram, levando algum prato de comida, no salão comunitário. Para pessoas tão acostumadas à morte, a refeição pós-enterro permitia que uns chorassem nos ombros dos outros, compartilhando suas lágrimas." (pág. 109)

"Um dia, ele acordou e decidiu que de repente estava apaixonado pela magistratura e já quis começar de cima. É um insulto àqueles que trabalham no Judiciário e o fazem funcionar.
-Duvido que essa candidatura tenha sido ideia dele.
-Não, ele foi escolhido. E isso é ainda mais vergonhoso. Eles procuram, escolhem alguém verde com um sorriso bonito e sem nenhum passado que possa ser usado para atacar, e aí o envolvem no marketing esperto deles. É política. Mas a política não deveria contaminar o Judiciário." (pág. 235)

"A maior responsabilidade da lei é proteger o lado mais fraco da nossa sociedade. Os ricos geralmente conseguem se cuidar sozinhos." (pág. 241)

"Você é uma juíza. Toda vez que toma uma decisão, alguém perde. Esses caras não ligam para a verdade, então podem fazer qualquer coisa parecer feia." (pág. 281)

"[...]Reduzimos a pressão dentro do crânio. Mas o cérebro estava inchado, para ser franco, estava muito inchado. É provável que haja sequelas permanentes.
'Vida' e 'morte' são palavras facilmente compreendidas, mas 'sequela' traz medos que não estão prontamente definidos." (pág. 353/354)

"Naquela época, apenas dois meses atrás, nunca sentira a dor de um pai com um filho ferido. Ou o medo de perder o filho.
Agora, no meio deste pesadelo, ele se lembrou de Aaron de uma forma diferente. Quando leu os relatórios médicos sobre o caso, fizera isso no conforto de seu gabinete, bem longe da realidade. O menino foi gravemente ferido, que pena, mas acidentes acontecem todos os dias." (pág. 355)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Gente como a gente

Título: Gente como a gente
Autor: Judith Guest
Páginas: 238

Para quem se aventura pela área da psicanálise, o livro é um prato cheio. Situações envolvendo conflitos, temores, anseios, não faltam. Aliás, suspeito que esta seja a tônica do livro.

A história, como indica o título, está centrada numa família comum, onde os integrantes passam por várias crises de relacionamento. O enredo não é contado de imediato, pinceladas vão sendo soltas e o leitor vai construindo a história. Um filho tem crise de culpa pela morte do irmão e tenta o suicídio. Pai e mãe tem visões diferentes da situação e tentam encontrar uma forma da família se manter unida.

Trechos interessantes:

"Você não perdeu o senso de humor, mas o seu senso de identidade é que parece estar confuso. Não. Errado. A gente não perde o que nunca teve." (pág. 21)

"Sou o tipo de homem que - que não tem a menor ideia de que tipo de homem eu sou." Pág. 51)

"Não chega a haver propriamente uma resposta, mas, pelo menos, estão batendo um papo. Cal quer manter aberta a porta da comunicação entre eles. Mas como fazer isso? Às vezes, é tão difícil conseguir comunicar-se com aquele misterioso desconhecido que é o seu filho." (pág. 59)

"-Quando fico furioso, fico muito furioso - responde cuidadoso. - Não sei me controlar.
-Eu sei como é - diz Berger. - É como se fosse um armário atulhado. A gente abre a porta e tudo cai.
- Não - diz ele. - Há um cara dentro do armário. O problema é que eu nem sequer o conheço." (pág. 94)

"A dor é terrível. Isola as pessoas. Não é algo para ser partilhado com os outros; é algo para se temer, de que se livrar, e bem depressa. Afastem esses meses, esses dias, essas horas, esses minutos da frente, quanto mais depressa, melhor!" (pág. 117)

"Quando se fala em perder pessoas, Ray é amargo. A gente se preocupa principalmente, diz ele a Cal, com perder os filhos. E, no fim, acaba perdendo-os de qualquer maneira. Então, para que se preocupar? Ele acha que perdeu Valerie para sempre. Mas as coisas mudam, as situações mudam. Pode ser que ela volte. Provavelmente voltará, algum dia, através de um marido, de filhos.
O medo que há por trás do medo de perder as pessoas é que talvez você pudesse ter feito algo para evitar que isso acontecesse." (pág. 148/9)

"Será que não pode haver comunicação sem contaminação? Sem essa de 'Este sou eu lhe dando um conselho'? No fim, isso contribui mais para separar as pessoas do que para uni-las. As pessoas não gostam de conselhos. Deve haver um jeito de dar um recado, sem ser preciso armar-se em santo. Mas será que a necessidade de transmitir uma mensagem já não é, em si, uma prova de que você é um santo?" (pág. 170/1)

"Escute, o que aconteceu hoje de manhã foi que você se permitiu sentir um pouco de dor. O sentimento é um todo, já lhe disse várias vezes. Se você não consegue sentir dor, também não vai conseguir sentir mais nada. E o mundo está cheio de dor. E também de alegria. De maldade. De bondade. De horror e de amor. É só você nomeá-los, e aí estão eles. Por isso, não adianta querer fugir, querer se eximir, entende?" (pág. 205)

"Não sei o que ele quer de mim, nunca soube! Será que ele quer que eu o abrace e beije, quando ele tira uma boa nota em química? Eu não sou capaz disso! Não reajo, quando alguém diz: 'Ei, fiz uma coisa importante, quero que você me ame por isso!' Não sou capaz!" (pág. 215)

"O que está acontecendo, seja o que for, já aconteceu, talvez há anos atrás, as sementes plantadas nas suas diferentes naturezas, nos seus backgrounds, porque tudo o que você pode fazer é, no fundo, o que você é capaz de fazer." (pág. 231)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Uma breve história do mundo

Título: Uma breve história do tempo
Autor: Geoffrey Blainey
Páginas: 336

É como o título diz: uma visão resumida da história do mundo. Do surgimento do ser humano até os dias de hoje, vários aspectos estão descritos no livro, mostrando a importância e o significado de cada um.

Pessoas ilustres são citadas e ainda outras que, mesmo não sendo tão famosas, tiveram grande importância no desenvolvimento da humanidade. O livro é uma aula de história, mas uma aula agradável, sem aquele amontoado de dados jogados a esmo que se aprende na escola.

Trechos interessantes:

"Nas palavras de um médico especialista, em uma atividade complexa como a fala, 'a interação das partes do cérebro não se assemelha ao sistema de uma máquina, mas a uma colcha de retalhos'. Seja qual for sua origem, a fala é a maior de todas as invenções." (pág. 12)

"Uma tribo em constante movimento não podia cuidar dos doentes e dos que não suportavam longas caminhadas. Até bebês gêmeos representavam grande transtorno, e provavelmente um dos dois era morto. Os mais idosos, que já não podiam andar, eram abandonados para morrer. Em uma sociedade itinerante, não havia alternativa." (pág. 15)

"O papel, que é quase a essência da burocracia, é uma invenção do Egito." (pág. 50)

"Nenhum outro pedaço de água salgada exerceu uma influência tão ampla sobre o nascimento do mundo atual quanto o Mar Mediterrâneo. Não fosse esse mar, com suas qualidades peculiares e sua localização extraordinária, a vida política, econômica, social e cultural do mundo teria tomado outro rumo." (pág. 60)

"Seus ensinamentos [Buda] foram mais tarde resumidos pelo político indiano Mahatma Gandhi nestas palavras: 'A vida não é feita de prazeres, mas de responsabilidades'." (pág. 83)

"Por que o Império Romano veio a decair? [...] As causas da decadência foram internas. É quase certo que a questão mais importante - e de mais difícil compreensão - seja: por que o império durou tanto tempo? Ascensão e queda constituem o padrão normal das instituições humanas. É mais fácil subir que permanecer no topo." (pág. 109)

"Uma peste é como um turista compulsivo: cria ânimo quando um novo caminho é aberto. A invasão dos mongóis, com sua presença unificadora sobre uma imensa área da Ásia, ressuscitou o comércio ao longo de antigas rotas de caravanas e abriu caminho para a peste bubônica avançar rumo ao noroeste, em direção à Europa. Nos portos europeus, ratos e pulgas foram os portadores da doença." (pág. 149)

"Acreditava-se que os santos mantinham sob vigilância um depósito de misericórdias e indulgências, das quais uma porção podia ser distribuída a pecadores ricos que, no último momento, desejassem a salvação e pudessem pagar por ela. Algumas indulgências e concessões, dadas em troca de dinheiro ou de serviços prestados, tinham uma sólida base espiritual." (pág. 179)

"Finalmente, em 1582, o papa Gregório XIII resolveu agir. Usando os cálculos de Luigi Ghiraldi, astrônomo e médico de Nápoles, anunciou a solução: naquele ano, eliminaria os 10 dias que iam de 5 a 14 de outubro. Em suma, o calendário seria atualizado com um golpe de caneta. O futuro receberia o mesmo tratamento. Como corretivo a longo prazo, o novo sistema estabeleceu cálculos para determinar quais anos seriam bissextos e quais não." (pág. 213)

"Quando o jovem poeta londrino John Keats escreveu as palavras 'muito viajei nos reinos de ouro e muitos estados e reinos formosos encontrei', ele queria dizer que viajava pela leitura. Nessa época, nunca havia se afastado muito de seu local de nascimento." (pág. 251/252)

"Na África, um dos famoso exploradores foi David Livingstone, um operário fabril escocês que se tornara missionário cristão. Já o médico Albert Schweitzer, nascido na Alsácia, passou a maior parte da vida ajudando as vítimas da lepra e da doença do sono no Gabão. Missionários, como o padre Damien, de origem belga, que morreu enquanto ajudava os leprosos no Havaí, eram os heróis do povo numa época em que ainda não se  pensava em aclamar com tal título os jogadores de futebol." (pág. 284)

"Às vezes, reclamava-se em sussurros - já que tal pensamento era uma verdadeira heresia - que, se o conhecimento e a sabedoria eram realmente tão importantes, por que a maioria dos especialistas se contentava com a posse de uma porção tão pequena e concentrada deles?" (pág. 287)

"Nada parecido fora visto na história do mundo. É comum que a culpa recaia sobre os generais, mas, na maioria dos países em guerra, até as mães, esposas e namoradas inicialmente apoiavam os conflitos, acreditando, com a ajuda da propaganda, que o incessante derramamento de sangue terminaria milagrosamente com a derrota do inimigo exausto." (pág. 293)

"O verão da fartura cedia seu lugar a um inverno de contenções. Thomas Hood, poeta inglês, uma vez escreveu:
Nem frutas, nem flores, nem folhas, nem pássaros - Novembro!" (pág. 319)

sábado, 14 de setembro de 2013

O mistério de Sittaford

Título: O mistério de Sittaford
Autor: Agatha Christie
Páginas: 220

Depois de ter lido inúmeros livros da "Rainha do crime", ainda não me acostumei à ausência de Mrs. Marple ou Hercule Poirot como personagem principal. Parece que fica faltando alguma coisa para dar consistência à história. Eu sei que é implicância minha, mas é como me sinto.

A história em si não tem novidades: um homem é assassinado, muitos teriam motivo mas, aparentemente, ninguém teria a oportunidade e a culpa inicialmente cai sobre aquele que não tem um álibi. O inspetor local e a namorada do acusado se desdobram para provar que o culpado é, como seria de imaginar, o menos provável.

Trechos interessantes:

"Uma jovem bonita, um tanto magra, sem dúvida, mas afinal todas as moças tinham esse tipo atualmente. Entretanto nos jornais liam-se que as curvas estavam voltando, o que já não era sem tempo. Afinal o que haveria de bom numa mulher se ela não se parecesse exatamente com o que é: uma mulher?" (pág. 12)

"Minha experiência me diz, sargento, que um homem que faz inimizades num lugar poderá criá-las em outro, mas admito que não podemos colocar inteiramente de lado essa possibilidade." (pág. 30/31)

"Ele não era um homem muito simpático... Estou certa de que não o foi. E nem uma pessoa a quem se pudesse recorrer numa dificuldade qualquer, sempre exigente e crítico. Não era o tipo de homem que soubesse aquilatar o valor da literatura. O sucesso... o verdadeiro êxito nem sempre é avaliado em termos de dinheiro, inspetor." (pág. 70)

"Na verdade o que queria era transformar o Sr. Enderby numa espécie de detetive particular a seu serviço. Para ir onde ela lhe indicasse, fazer as perguntas que ela própria gostaria de formular e ser como um servidor seu, de modo geral. Mas tinha consciência da necessidade de disfarçar essa intenção com palavras lisonjeiras e amáveis. Na realidade, ela seria o patrão, no caso, mas precisava de tato para persuadir o Sr. Enderby." (pág. 78)

"Desejaria, de todo coração, ter conhecido, nem que fosse apenas de passagem, o falecido capitão. É tão difícil formar uma opinião sobre uma pessoa que nunca se viu [...]." (pág. 107)

"[...]Num lugar como este tem-se que ensinar as pessoas a deixarem um homem em paz. Estão sempre batendo à nossa porta, se insinuando e bisbilhotando. Não me incomodo de ver pessoas aqui quando estou disposto... mas tem que ser a meu modo e não do delas. Nem o velho Trevelyan, com seus ares de senhor feudal, entrava aqui quando queria. Não há viva alma neste lugar que me venha incomodar agora." (pág. 124)

sábado, 7 de setembro de 2013

Memórias de uma gueixa

Título: Memórias de uma gueixa
Autor: Arthur Golden
Páginas: 458

A cultura japonesa sempre me fascinou. Tenho a impressão de que é um país que parou no tempo, com seus costumes, tradições, sua história enfim. Parece sempre guardar uma aura de tranquilidade, com seus belos jardins e aquele caminhar suave das pessoas, com gestos macios e ritmados... Ou seja, a mim parece sempre uma imagem poética.

O livro, como eu esperava, traz um pouco dessa magia, contando a história de vida de uma gueixa. É interessante notar como nós, ocidentais, temos uma visão deformada a respeito dos hábitos e costumes de outros povos. O livro nos mostra que a vida de uma gueixa é dificuldade e sofrimento, mas também beleza e glamour.

Trechos interessantes:

"Em criança eu achava que o oceano tinha um resfriado terrível, porque estava sempre chiando, e em certos acessos soltava um espirro enorme - o que significa uma lufada de vento com respingos tremendos." (pág. 10)

"Eu nunca tinha visto um automóvel. Vira fotografias, mas me lembro de ter ficado surpresa de ver como... bem, como pareciam cruéis, por eu estar tão assustada, como se se destinassem antes a machucar pessoas do que a ajudá-las." (pág. 40)

"Devo lhe dizer algo sobre pescoços no Japão, se ainda não sabe; é que via de regra os homens japoneses sentem a respeito de um pescoço e garganta de mulher o mesmo que os homens no Ocidente podem sentir com relação às pernas. É por isso que as gueixas usam as golas de seus quimonos tão abertas atrás que se veem as primeiras vértebras de sua espinha; suponho que é como uma mulher em Paris usando saia bem curta." (pág. 69)

"-Nenhum de nós recebe neste mundo a bondade que deveria receber - ele me disse, e por um momento apertou os olhos como para dizer que eu refletisse a sério naquilo." (pág. 122)

"Nós humanos somos apenas parte de algo muito maior. Quando caminhamos podemos esmagar um besouro, ou simplesmente causar alguma agitação no ar, de modo que uma mosca pouse onde de outra forma não iria parar. E se pensarmos no mesmo exemplo, mas conosco em lugar do inseto, e com o universo no papel que nós tínhamos desempenhado, fica perfeitamente claro que todos os dias somos afetados por forças que não controlamos, assim como o pobre besouro não controla nosso gigantesco pé descendo sobre ele." (pág. 137)

"Não fingirei que nunca vinha gente pobre a Gion, mas raramente víamos alguém como aqueles camponeses famintos, pobres demais até para tomarem banho. Eu jamais teria imaginado que eu - uma escrava aterrorizada pela maldade de Hatsumomo - tivesse uma vida relativamente afortunada durante a Grande Depressão. Mas naquele dia entendi que era verdade." (pág. 198)

"A dor é uma coisa muito esquisita; ficamos tão desamparados diante dela. É como uma janela que simplesmente se abre conforme seu próprio capricho. O aposento fica frio, e nada podemos fazer senão tremer. Mas abre-se menos cada vez, e menos ainda. E um dia nos espantamos porque ela se foi." (pág. 271)

"Fiquei pensando em quanto aquele homem pagara por aquele privilégio. E lembro-me de que a certa altura desejei que ele estivesse se divertindo mais do que eu. Não senti mais prazer do que se alguém tivesse esfregando uma lixa dentro de minhas coxas até eu sangrar." (pág. 300)

"-Você tem dezoito anos, Sayuri - prossegui ela. - Nem você nem eu sabemos qual é o seu destino. E talvez você nunca saiba! O destino não é sempre como uma festa no fim da tarde. Às vezes é apenas lutar na vida, dia após dia." (pág. 311)

"-Não podemos perder tempo pensando nessas coisas. Nada é mais triste do que o futuro exceto talvez o passado." (pág. 354)

"Fui ao nosso okiya e olhei saudosa a pesada fechadura de ferro na porta. Quando estava trancada lá dentro, eu queria sair. Agora a vida mudara tanto que, estando trancada do lado de fora, eu queria entrar de novo. Mas era uma mulher adulta agora - livre, se eu quisesse, para sair de Gion e nunca mais voltar." (pág. 370)

"Embora deva dizer que só depois de viver longo tempo num estado de contentamento pude finalmente olhar para trás e admitir quanto minha vida fora desolada. Estou certa de que de outro modo jamais poderia ter contado minha história. Acho que ninguém pode falar da dor enquanto ainda a sofre." (pág. 441)

"Segurava a bengala com suas duas frágeis mãos, de olhos fechados, e inspirava profundamente o aroma do passado.
-Às vezes - suspirou ele - acho que as coisas que recordo são mais reais do que as que vejo." (pág. 449/450)

domingo, 1 de setembro de 2013

Aquela canção

Título: Aquela canção
Autor: Publifolha
Páginas: 176

O livro reúne 12 contos, cada um de autor diferente e desenvolvido em torno de uma canção popular. O livro traz também um CD com as músicas que serviram de inspiração para a criação dos contos. No início de cada conto há também a letra da música relacionada.

Como são autores e estilos diferentes, gostei da maioria, exceto uns quatro que não soube apreciar. Mas trata-se de gosto pessoal, nem sempre se pode agradar a todos. Qualidade todos têm, portanto a seleção vai do estilo de cada um.

Trechos interessantes:

"De modo que eu te peço, pelo amor que você teve ao seu cachorro que morreu, e que foi a melhor companhia que você teve na vida, como faz questão de me lembrar quase todos os dias, que seja a última vez que vamos falar nesse assunto." (pág. 8)

"Chamava-se Napoleão. Nome pomposo demais para um rapaz magrinho, moreno, desmilinguido, desdentado. Mas representava a esperança de seu pai, já falecido, que ao batizá-lo assim pensara num futuro glorioso para o filho." (pág. 49)

"Enfim, o Rancho Fundo não fica bem pra lá do fim do mundo. Ou talvez fique, mas a verdade é que o fim do mundo não é tão ruim quanto parece." (pág. 57)

"A sorte masculina é que, na geografia feminina, a vulva fica mais próxima do coração do que da cabeça." (pág. 83)

"Naquela época eu já perdera o brilhante futuro que, num passado recente, alguns críticos me haviam prometido." (pág. 87)

"Dona Marta morreu atingida a tiro por um assaltante, num subúrbio de Roma, cidade de onde viera a sua família, e para onde se mudara com medo da violência no Brasil." (pág. 92)

"Fico o tempo todo pressentido que vou perder a visão. Esse medo vai crescendo durante o sonho, até que acordo assustado. Aí é que o susto aumenta até virar pânico, porque me lembro de repente que já estou cego. O quarto está totalmente escuro, mas sei que não é só porque ainda não amanheceu: é porque não vai amanhecer. Entende? O verdadeiro pesadelo começa quando acordo." (pág. 115/116)

"Se o coração acelerava, que acelerasse. Se naquele mundo do circo tanta coisa se fingia, era porque as coisas fingidas são mais verdadeiras, e nenhuma dor, nenhuma vergonha admitia ser varrida para baixo do tapete." (pág. 171)