segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A caldeira do diabo

Título: A caldeira do diabo
Autor: Grace Metalious
Páginas: 440

Peyton Place é uma pequena cidade dos Estados Unidos, com todas as vantagens e problemas de uma cidade pequena: todos se conhecem e se ajudam, mas também há as intrigas, fofocas e maledicências. Os mais velhos já estão resignados a permanecerem no local, mas os jovens querem, a todo custo, abandonar a cidade.

As divergências de moradores sobre questões locais, a chegada de um novo diretor da escola, um bêbado que espanca a mulher e depois desaparece, a guerra, a rebeldia dos filhos, são alguns dos aspectos que vão se misturando num caldeirão de emoções até chegar ao ponto de transbordar.

A história começa devagar e morna, tal qual uma cidade do interior mas, com a evolução dos acontecimentos, chega a um ritmo alucinado. Sem dúvida,vale a leitura.

Trechos interessantes:

"O veranico de outono é como uma mulher. Sazonado, arrebatado e ardente, mas inconstante; chega e parte quando bem lhe apraz, ninguém jamais sabendo exatamente se vai mesmo chegar ou por quanto tempo irá ficar." (pág. 7)

"Nessas ocasiões, quando a srta. Thornton estava muito cansada, sentia estar travando uma batalha inglória contra a ignorância, e era dominada por uma sensação de futilidade e desamparo. Que sentido havia em insistir interminavelmente com um menino para que memorizasse as datas da ascensão e queda do Império Romano, quando esse menino, ao se tornar adulto, ordenharia vacas como meio de vida, como o haviam feito seu pai e avô antes dele? Que lógica havia em martelar frações decimais na cabeça de uma menina, a qual, eventualmente, precisaria apenas contar o número de meses de cada gravidez?" (pág. 16)

"Se eu puder transmitir algo a uma criança, se eu puder despertar em apenas uma criança o sentimento da beleza, a alegria da verdade, a admissão da ignorância e a sede de conhecimentos, então estarei realizada." (pág. 17)

"Bem, então, pensava Allison, por que rezar afinal? Se Deus ia fazer de qualquer jeito o que Ele achasse melhor, para que o trabalho de pedir aquilo que a gente quisesse? Se a gente orasse, e Deus pensasse que o que se pedia merecia ser concedido, Ele sempre o faria. Se você não orasse, e fosse verdade que Deus age sempre para o nosso bem, você receberia, de todos os modos, o que Ele quisesse que você recebesse. A oração, pensou Allison, era um negócio tremendamente injusto e muito pouco esportivo, com todas as vantagens só para um lado." (pág. 60)

"-Você trancou a porta? - perguntou ele, quando já estavam lá fora.
-Isso é outra coisa que você terá de aprender sobre o tipo de vida numa cidade pequena - respondeu-lhe. - Se você começar a trancar a porta em Peyton Place, as pessoas logo pensam que você tem algo a esconder." (pág. 177)

"Ainda muito jovem, Tom percebera que havia duas espécies de pessoas: aquelas que se cercavam penosamente de conchas de sua própria fabricação, e as que não o faziam. As primeiras viviam em terror constante, receosas de que as conchas que haviam fabricado se abrissem e revelassem a fraqueza que estava por baixo; as outras, as que não o haviam feito, essas ficavam ou esmagadas ou se tornavam mais resistentes." (pág. 212)

"Deixe uma criança comigo até ela completar sete anos, pensou Tom, e ela será minha para sempre. Quando os fascistas dizem isso, são uns vagabundos e sequestradores, porém quando é a Igreja que o proclama, diz-se que é para pôr a criança nos trilhos." (pág. 214)

"Em Peyton Place, havia três motivos de escândalo: suicídio, homicídio e gravidez de moça solteira. Não tinha havido um suicídio na cidade desde que o velho dr. Quimby levara um revólver à cabeça e se dera um tiro, havia já muitos anos. Suicidando-se, Nellie Cross causara mais sensação na cidade do que jamais o fizera em vida." (pág. 286)

"Será mesmo verdade o que dizem quanto a bastardos geralmente serem bem sucedidos nos ramos de atividade que escolhem, por sentirem a necessidade de compensar o fato de não terem tido pais?" (pág. 324)

"-Oh, como eu o detesto! - havia ela respondido, cheia de veneno. - Como eu o detesto!
-Não - disse Tom -, você não me detesta. Você detesta a verdade, mas não me detesta. A diferença entre nós, Constance, é que a verdade não me incomoda, não importa quão sórdida ela seja. Mas detesto mentirosos." (pág. 326)

"-Se cada homem - declarou Seth, sem ouvir a observação do médico - deixasse de odiar e culpar o outro pelos insucessos e deficiências que ele próprio tem, veríamos o fim de todos os males do mundo, da guerra à maledicência." (pág. 333/334)

sábado, 22 de outubro de 2016

Conversas com um jovem professor

Título: Conversas com um jovem professor
Autor: Leandro Karnal
Páginas: 144

O livro, segundo o autor, é uma espécie de conversa com ele mesmo. Seria mais ou menos como dar conselhos (vindos de alguém com experiência) a alguém que está começando em sala de aula. As dúvidas básicas como, por exemplo, relacionamento com pais e alunos, elaboração de provas, comportamento dos alunos, conselhos de classe, etc, são abordadas e discutidas na sua visão prática (com bastantes exemplos) e não apenas de forma conceitual.

Escrito de maneira simples, o livro cumpre bem o seu papel, ao oferecer a quem está ingressando na profissão, várias dicas e conceitos, adquiridos ao longo do tempo. Se você é professor, tenho certeza que irá se identificar com muitas das situações ali descritas, além de ter vivenciado inúmeras outras. Ótima dica de leitura.

Trechos interessantes:

"Ainda há vontade de ser professor e, se não identifico mais a labareda que incinerava tudo no início, também é evidente que não vivo um universo de cinzas. É um lugar bom: o ponto do meio para a frente, o ponto de uma avaliação que escape de dois polos enganadores - o entusiasmo excessivo e a tristeza. Ambos embaçam a visão." (pág. 10)

"Uma primeira aula ruim tem efeitos menos visíveis do que uma primeira cirurgia ruim ou uma primeira ponte mal projetada. Porém, o sutil da função de professor é que a primeira cirurgia ruim ou pontes ruins podem ter relação com... aulas ruins. Quando pego um aluno em pleno doutorado que ainda não domina regras básicas do uso da crase, penso: há uns 10 ou 15 anos um professor errou e eu noto isso só agora." (pág. 17)

"Preciso dizer de forma clara: não acredito em reflexão sobre sala de aula vinda de pessoas que nunca nela estiveram como professores. Para mim, essas pessoas são como modelos jovens de 18 anos fazendo propaganda de produto contra rugas na televisão. Falam do que não sabem, do que não precisam e do que não entendem." (pág. 30)

"Lembre-se de uma regra de ouro: seus fracassos serão eventualmente criticados, mas seus sucessos causarão ódio muito maior." (pág. 48)

"Um exemplo de diferença de concepção de método que atinge tantas vezes o professor: se o pai é mais velho e teve uma escola com insistência na memorização, ele nunca entenderá, o fato de que se o filho sabia a matéria "de cor", como pode ter ido mal na prova. Para esse modelo, ainda muito forte, estudar era repetir. Alguns ainda insistiam que tinham "tomado" a lição dos filhos e eles sabiam todas as respostas. É muito complexo explicar que não se pode pedir a um professor que cobre exclusivamente memorização nas avaliações em pleno século XXI, como não se pode pedir a um médico que faça sangrias com sanguessugas. O conhecimento avança e as avaliações hoje são, ou deveriam ser, mais ricas e criativas." (pág. 61)

"Seus alunos são seus alunos. Faz parte da dinâmica do sistema que eles tentem colar ou conversem, que falem mal de você pelas costas e que sejam eventualmente agressivos com você. Seus superiores são seus superiores. Também integra a dinâmica que haja certo enfrentamento. Ainda que Dante tenha colocado a felonia, a traição aos superiores, no mais profundo dos círculos do Inferno, poucas coisas são tão gostosas como falar mal do chefe." (Pág. 69)

"De todas as coisas que podemos tolerar dos outros, o sucesso é a mais difícil." (pág. 71)

"Como diz um dos grandes autores sobre o tema (von Clausewitz), a 'guerra é a continuação da política por outros meios'." (pág. 74)

"Se algum dia, um aluno que o irritou não atingiu a nota final por pouco, sempre prefira aprová-lo. Na dúvida, diz um ditado latino, devemos ser favoráveis ao réu. Um aluno que teve problemas comigo e não atingiu a nota é alguém que, automaticamente, coloca em dúvida minha avaliação." (pág. 78)

"Sempre e para encerrar: no caso de dúvida, absolva. Erre sempre pelo excesso de clemência. Reprove se necessário, mas que isso seja o mais consensual possível e nascido do desejo genuíno de que será melhor para o aluno. Não para a escola e nem para você, mas exclusivamente para o aluno. Na dúvida, absolva. É um erro médio aprovar quem não merece. É um erro gigantesco reprovar quem não merece." (pág. 88)

"Sou da opinião que não se deve deixar passar as coisas pequenas, para não surgir a necessidade de se corrigirem as grandes no futuro. Transportando para o dia a dia, se ignorarmos a prática da observação em nossos alunos, contribuiremos, mesmo que indiretamente, para o surgimento da indisciplina." (pág. 110)

"Quando temos dúvida sobre permanecer com alguém ou em algum lugar, é porque a soma das coisas negativas não é tão terrível que elimine a dúvida. Quando estamos num inferno total, não temos dúvidas: queremos sair. Dúvida revela, por vezes, que há coisas boas." (pág. 121)

sábado, 15 de outubro de 2016

Só as mulheres e as baratas sobreviverão

Título: Só as mulheres e as baratas sobreviverão
Autor: Claudia Tajes
Páginas: 134

Dulce se prepara para sair no sábado à noite e, ao procurar o vestido especial, descobre que uma barata está alojada sobre o mesmo. Incapaz de espantar a barata e sem ter outra opção, Dulce passa a noite travando diálogos imaginários com a barata.

Livro pequeno, cômico, fácil de se ler e aborda um tema recorrente nas mulheres: o pavor absoluto deste inseto. Tudo bem que a personagem leva tudo ao extremo, mas tem muita gente que convive com essa neurose.

Trechos interessantes:

"Nunca tive um vestido preto que me caísse tão bem. Dependendo das oscilações do meu peso, algumas eventuais gorduras escapam pelas cavas, e o crepe salienta não as curvas, mas a minha barriga. No geral, porém, faço uma boa figura com ele." (pág. 11)

"Pior foi a minha avó, que disse: vai ver, ela subiu na sua cama por causa do seu nome: Dulce. Doce. Barata gosta de doce. Logo, as baratas gostam de você.
Minha querida avó, onde você estiver, saiba que a senhora foi a responsável por traumatizar uma inocente menininha de seis anos. As baratas gostam de você. Isso lá é coisa que se diga?" (pág. 22)

"Em dez anos eu troquei de namorado trinta vezes. Troquei duas vezes de apartamento. Troquei de cabelo mil vezes, de partido político outras cinco, troquei tudo e só não trocava o número de celular porque alguém podia querer me ligar e não teria como me encontrar.
No fim, todo mundo continuou me encontrando, mais até do que eu gostaria. Continuaram ligando do meu trabalho para eu trabalhar nos meus dias de descanso e dos telemarketings para me vender coisas de que eu não preciso. Continuaram me pedindo donativos para creches, dinheiro emprestado sem juros, ligando das lojas para me avisar das liquidações, da dentista para lembrar a revisão atrasada, do banco para dizer que o cheque especial estourou, da família para contar algum problema novo, ou um velho mesmo.
Mas quando eu mais preciso, ninguém me liga." (pág. 67/68)

"Sabe o que mais? Vou comer um sanduíche. E com maionese, bacon, ovo e patê.
Essa barata não vai me destruir sozinha: eu vou colaborar também." (pág. 73)

"O nome é a prova de amor mais discutível que os pais dão aos filhos, você não acha? Porque eles tentam fazer o melhor, pensam, debatem, se informam. E volta e meia todo esse esforço sai pela culatra, como no caso do bebê da tia do lanche lá da revista, que pelo resto da vida vai se chamar Google. Mas ela deve ter registrado Gugol." (pág. 100/101)

"Da minha aparência, não tenho queixas. Há dois ou três anos, algumas garotas do colégio espalharam que eu seria igual ao Brad Pitt, se o ator americano fosse atropelado e pegasse varíola." (pág. 105)

domingo, 9 de outubro de 2016

O jogador

Título: O jogador
Autor: Fiódor Dostoiévski´
Páginas: 172

Essa obra é uma espécie de romance biográfico, tendo em vista que o autor, durante toda sua vida, sempre esteve envolvido com o jogo, perdendo somas consideráveis, amigos e boa parte de sua vida. O livro procura retratar o domínio que o jogo tem sobre o indivíduo, levando-o a arriscar sempre e sempre mais, com a esperança de reaver o que perdeu. E, nas raras vezes em que ganha, o jogador esbanja o lucro com naturalidade, acreditando que, quando quiser, logo obterá mais no jogo.


O prefácio relata a vida de Dostoievski, mostrando as agruras e percalços em que se envolveu. É difícil acreditar que, com tantos problemas, tenha sido capaz de publicar textos tão geniais. O final apresenta um complemento de leitura com 10 perguntas sobre o conteúdo do livro.

Trechos interessantes:

"Odeio-o porque tomou demasiada liberdade comigo e, outrossim, porque preciso de seus serviços. Mas não se impressione, conservá-lo-ei ao pé de mim apenas enquanto necessitar de você." (pág. 25)

"Em que é o jogo pior do que qualquer outro meio de se obter dinheiro? Do que o comércio, por exemplo? verdade é que, entre cem indivíduos, um apenas ganha. Mas que me importa?" (pág. 30)

"Oh! Esses jogadores entendidos! Plantam-se ali tendo nas mãos papéis cobertos de números, anotam cuidadosamente todos os golpes, contam, calculam as probabilidades e, após haverem recebidos todos os prós e contras, apontam e perdem... exatamente como os simples mortais que jogam sem raciocinar." (pág. 41)

"-Não sei se há alguma razão no que diz - insinuou o general, pensativo -, mas o que sei é que você se torna duma petulância intolerável quando se lhe dá um pouquinho mais de rédea..." (pág. 45)

"Imediatamente pus cem florins no vermelho, e ganhei; os duzentos de novo no vermelho, e ganhei; quatrocentos em noir, e ganhei; oitocentos em negro, e ainda ganhei. Possuía agora mil e setecentos florins e, isso, em menos de cinco minutos! Não há dúvida de que, em tais momentos, a gente esquece os reveses anteriores. Pois eu obtivera esse resultado arriscando mais do que a vida; ousara arriscar e voltava a pertencer à humanidade." (pág. 157)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Aula de inglês

Título: Aula de inglês
Autor: Lygia Bojunga
Páginas: 214

O livro apresenta as reflexões de um velho (o personagem não possui nome - é sempre chamado de professor ou aluno) sobre a existência, conflitos familiares, sexuais e sociais. Pela história nota-se que o professor teve uma paixão quando adolescente e outra agora, no final da vida, mas que durante toda a fase central da vida, a paixão nunca se fez presente.

Entre uma aula de inglês e outra, entre uma fotografia e outra (o professor também é fotógrafo) as relações humanas vão sendo esmiuçadas até o ponto de sabermos o que, de fato, é importante na vida. Livro recomendado aos jovens, de leitura fácil e agradável.

Trechos interessantes:

"Tinha lido uma entrevista de um fotógrafo famoso: a câmera era a melhor companheira dele; saíam sempre juntos e era através dela que ele via o mundo; as grandes fotos dele não tinham sido programadas: ele saía andando sem rumo e, de repente, ele sentia que uma cena qualquer estava 'pedindo para ser fotografada'; aí começava o que ele chamava de encantamento: o enquadramento: como é que ele ia enquadrar a cena? ela toda? pela metade? só sugerida? mais sombria? mais iluminada?" (pág. 30)

"-Aula de inglês muita gente dá, mas aula assim feito o senhor me deu esse tempo todo! puxa vida, foi sorte demais que eu tive. Quantas vezes eu cheguei aqui mal-humorada, distraída, apavorada, e o senhor sempre tão gentil, tão... sei lá! dedicado; parecia que nem percebia quando eu não prestava atenção. - Envolveu ainda mais a mão aninhada do Professor. - Sabia que eu nunca vi o senhor olhar pro relógio cuidando da hora da aula? Acho que se eu quisesse ficar aqui a tarde inteira o senhor era capaz de nem dizer nada e ir tocando a aula pra frente." (pág. 46)

"-E, de repente, sabe, professor, a gente vai jantar lá em Copacabana, no restaurante árabe que ele gosta, e quando sai do carro vê aquela turma dormindo na rua, criança, velho, uma família inteira embrulhada nuns trapos, e a noite tava tão fria que a minha revolta com essa coisa nossa de tanta riqueza de um lado e tanta miséria de outro saiu pelo ladrão: fiz uma cena ali mesmo, desatei a chorar, disse que ninguém fazia nada pra mudar essa história e que a gente também não: ia entrar no restaurante, ia comer à vontade, ia beber caipirinha, ia pedir sobremesa e depois entrava no carro pra continuar curtindo a noite e era tudo uma delícia[...]" (pág. 104)

"Mas ele tinha sido feliz, sim... com a câmera, com os livros, com a casa, com o mar, com a floresta [...] Mas, por quê?... Por que que, ansiando tanto ser feliz com uma mulher, tinha sido sempre aquilo: uma vez o sexo apaziguado, vinha logo a sensação de solidão se instalar entre os dois..." (pág. 164)

"-Sabe, Aluno, quando a gente vai chegando no fim da vida, a cada dia que passa a gente se lembra com mais insistência dos momentos em que foi verdadeiramente feliz. E quanto mais a gente lembra deles, mais quer lembrar, mais quer revisitar a felicidade e, assim, preencher as horas desses dias de espera." (pág. 174)

domingo, 2 de outubro de 2016

O sobrevivente

Título: O sobrevivente
Autor: Gregg Hurwitz
Páginas: 366

Livro repleto de ação e adrenalina do começo ao fim.
Nate voltou da guerra com alguns traumas, chegando ao ponto de se separar da esposa e filha, apesar de amá-las. Como se não bastasse, descobre que tem uma doença incurável e seus dias estão contados.
Resolve cometer suicídio para acabar com a agonia. Sobe em um prédio e está do lado de fora, pronto para saltar, quando vê um assalto em andamento no andar em que está. Resolve impedir o assalto e mata 5 criminosos, mas um deles escapa e ameaça acabar com a vida de Nate.
O resto do livro é Nate tentando se safar das ameaças dos criminosos a ele e sua família. Se você gosta de suspense, emoção, aventura e ação, este é o livro. Boa leitura.

Trechos interessantes:

"-Então... Você foi fincado com um abridor de cartas.
-Poxa, falando assim até parece que não foi nada.
A médica não fez mais que erguer as adoráveis sobrancelhas.
-Desculpe - disse Nate. - Costumo brincar para que as pessoas não percebam meus problemas de autoestima.
-Não está funcionando.
-É um projeto de longo prazo - respondeu ele, estremecendo ao exalar." (pág. 23)

"-Nada importante. Só uma palavra que ouvi outro dia. Tyazhiki. Acho que significa...
-Povo das Sombras - adiantou-se Ken. - Capangas importados pelos russos. Sem documento, sem visto, sem porra nenhuma. Totalmente clandestinos. São literalmente despachados num navio de carga até o porto de Long Beach e, de lá, só Deus sabe para onde. Fazem um serviço, depois voltam para casa. Não deixam nem uma pegada." (pág. 125)

"-Sabe o que acontece toda vez que olho para minhas filhas? - perguntou ele.
-Você lembra que o futuro é das crianças?
Abara olhou torto para ele, mas não riu.
-Fico me perguntando o que elas não estão me contando. Talvez por ser um agente. Mas você sabe como são as adolescentes. Tenho duas em casa. E é uma mentira atrás da outra. Não porque elas sejam desonestas ou algo assim, mas só porque a massa branca do cérebro delas ainda não está completamente formada." (Pág. 126)

"Janie estava confessando tudo aquilo que nos últimos anos ele havia sonhado ouvir de sua boca, mas, agora que seu sonho enfim se realizava, a sensação de vitória não era nem de longe a que tinha imaginado. Pelo contrário, tinha a impressão de que estava caminhando sobre uma fina camada de gelo que poderia se quebrar sob seus pés a qualquer instante. Bastaria um passo em falso para que desabasse na água gelada." (pág. 159)

"Não somos uma máfia. Também não somos russos. E na Rússia, os piores criminosos são os que estão na Duma e no Kremlin. Não existem leis. Apenas brechas nas leis. Além de favores e propinas. Vivemos sob o jugo da guerra já há muitas gerações. Não tememos a Deus. Não acreditamos em nada. Para sobreviver, você precisa ter força. E vontade de sobreviver. Aqui vocês precisam apenas de advogados. Que, aliás, eu tenho também. Um bando deles, quase todos judeus, trabalhando em equipe, virando noites quando é preciso. Protegem meus negócios. Minha liberdade." (pág. 205)

"-Será que eles tem uma jacuzzi? - aventou Jason.
-Você deveria saber - retrucou Nate. - O cara não é seu amigo?
-Tu não manja nada, né não? - ironizou Jason.- Ninguém é realmente amigo de ninguém na internet." (pág. 242/243)

"-Quando sua mãe morreu, cheguei ao fundo do poço, você sabe disso. Eu via que você só queria ficar fora do meu caminho, mas você era um menino, não sabia como. E eu não tinha a menor ideia do que fazer para ajudá-lo. Muito menos para me ajudar. É uma sensação terrível, saber que está fazendo uma cagada e continuar fazendo mesmo assim." (pág. 314)

"-Cometi tantos erros na vida... - observou Nate.- Mas os erros dos quais me arrependo são aqueles que não cometi." (pág. 329)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Sete faces do humor

Título: Sete faces do humor
Autor: Carlos Queiroz Telles et alii
Páginas: 126

Pequena coletânea de crônicas - apenas 7 no total - com uma característica comum: todas estão relacionadas ao humor (verbal, de comportamento, de personagem, grotesco, etc). A crônica em si é fácil de ser degustada, quando se relaciona ao humor então, melhor ainda.

Além das crônicas, o livro apresenta também uma descrição sobre os variados tipos de humor, uma relação de obras para serem apreciadas (que foram mencionadas nas crônicas) e ainda uma relação de filmes sobre a mesma temática. Livro pequeno, simples, mas muito agradável de se ler.

Trechos interessantes:

"Outra divertida peça clássica é A farsa de Inês pereira, de Gil Vicente, teatrólogo português do entresséculo XV-XVI. Sua Inês Pereira é moça casadoura, que recusa um pretendente rico mas simplório, para optar por um nobre - só que falido. Depois do casamento, vê a bobagem que fez: o marido é muito ciumento e pão-duro. Após ficar viúva e casar-se com o comerciante, fala a frase-mensagem da peça: 'Mais quero asno que me carregue que cavalo que me derrube'." (pág. 12)

"Comecei a pensar que ia ter de viver o resto da minha vida naquela calçada.
Eu era um náufrago numa ilha deserta, com uma avó que teimava em pedir a certidão de nascimento dos comandantes dos navios salva-vidas." (pág. 21)

"No livro Dois amigos e um chato, o escritor - entre outras atividades - Sérgio Porto dá vários exemplos de humor verbal, através de seu heterônimo Stanislaw Ponte Preta, um carioca que representa um tipo de vida boêmia e bem-humorada do Rio de Janeiro, anos 50-60: 'Mulher e livro - emprestou, volta estragado'. 'Política tem essa desvantagem: de vez em quando o sujeito vai preso em nome da liberdade'. 'Entre as três melhores coisas da vida, comer está em segundo e dormir em terceiro'." (pág. 30/31)

"Aliás, tudo no mundo pode esperar meia hora. A gente passa a vida correndo atrás do conhecimento e da felicidade, mas na verdade ninguém tem obrigação de ser sábio nem feliz." (pág. 40)

"Se você conhecer o inimigo e a si próprio, não precisará temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhecer, mas não ao inimigo, para cada vitória conseguida também sofrerá uma derrota. Se você não conhecer o inimigo nem a si próprio, sucumbirá em todas as batalhas." (pág. 52)

domingo, 18 de setembro de 2016

Assassinos pelos quais me apaixonei

Título: Assassinos pelos quais me apaixonei
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 210

Coletânea com 14 contos de suspense e, como o título sugere, todas as histórias apresentam algum envolvimento com assassinatos. Muitas das histórias têm desfecho óbvio, mas algumas são até interessantes.

Particularmente gostei de "Bem vindo à minha prisão" e "Um risco especial". Há histórias de vários autores consagrados, como Fletcher Flora, Bill Pronzini, Nedra Tyre, Henry Slesar, entre outros.

Trechos interessantes:

"-É por minha causa, Stella. É minha aparência. Basta olhar para mim e ver. Várias pessoas já tiveram medo de mim várias vezes. Mulheres, principalmente. Há alguns sujeitos para quem as mulheres dão 'bola', e eles gostam disso. Dá-lhes uma chance de se aproximarem. Faz com que se sintam realmente bem. Mas eu não. O que eu consigo das mulheres é justamente o contrário. Elas dizem para eu me afastar. Como você, Stella. E eu não costumo gostar quando as coisas são desse jeito." (pág. 11)

"-Estive pensando nisso. Estive muito pensando sobre isso.
Sei que esteve, pensei. mas isso é um sonho, Pollard meu velho. Nunca vai se sentar nessa cadeira. Você é inseguro demais. Tem que aprender a movimentar-se, para chegar no alto da escada. É o que sempre acontece, em todos os lugares. Não é somente aqui. Mas gente como você nunca aprende." (pág. 52)

"Não sei ler uma só nota musical e nem mesmo toco algum instrumento. Simplesmente, gosto de música, é só." (pág. 58)

"Benrud mantinha uma gota de uísque rolando em sua língua. Eis uma coisa realmente nobre. Se os celtas não tivessem feito nada mais além do uísque e de terem dado ao mundo James Stephens e as equações canônicas de Hamilton, já teriam dado ao mundo o suficiente." (pág. 141)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Um gosto por morte

Título: Um gosto por morte
Autor: P. D. James
Páginas: 558

Quando um nobre é encontrado morto numa igreja, com o pescoço cortado com sua própria navalha, é natural que se pense em suicídio. Mas, e se ao lado do morto estiver um mendigo, também morto, com a mesma navalha? Aí a coisa complica.

Este é o panorama inicial que nos oferece a autora. Toda a trama se desenrola na tentativa de localizar o culpado pelas mortes. Um comandante da Scotland Yard é designado para elucidar o crime. Em resumo, um romance policial repleto de investigação.

Trechos interessantes:

"-Está muito frio, Darren. Não deveria botar seu casaco de lã? Ele encolheu os ombros e fez um gesto com a cabeça dizendo que não. Estava impressionada com a pouca roupa que vestia e como era resistente ao frio. Tinha a impressão de que vivia tremendo perpetuamente. Lembrou-se de que se agasalhar demais numa manhã gelada de outono seria considerado efeminado pelos homens." (pág. 16)

"Já chegara naquela idade em que o homem já não mais se incomoda com certos prazeres clássicos da juventude, mas irrita-se facilmente quando seus planos pessoais são perturbados." (pág. 33)

"Quando tinha apenas quinze anos, ao lado do corpo de sua mãe, não sentira a necessidade de pensar, quanto mais de murmurar, a palavra adeus na presença da morte. Não é possível falar com alguém que não está mais presente. Quase tudo o homem pode vulgarizar, menos a morte." (pág. 50)

"Dalgliesh não entendeu como Berowne sabia de sua predileção por arquitetura. Só poderia ser porque já lera seus poemas... E um poeta pode detestar que falem sobre seus trabalhos, mas, quando sabe que alguém realmente os leu, sente-se extremamente elogiado." (pág. 103)

"Imediatamente, o comandante lembrou-se das palavras de um velho sargento de polícia que conhecera quando ainda era um principiante na Scotland Yard:
-Meu filho... as quatro razões mais comuns para assassinar são: amor, luxúria, ódio e... lucro. E preste atenção: lucro sempre foi o motivo principal..." (pág. 155)

"A srta. Wharton fora ensinada desde criança a ter medo e esta é uma lição que ninguém desaprende." (pág. 196)

"Guardara dois versos de Shakespeare que lera por acaso na biblioteca da escola como diretriz filosófica para sua vida:
Não importa o que houve antes ou depois
Daqui por diante começo e termino comigo mesmo.
" (pág. 200)

"O homem é um animal e sempre pode viver melhor com seus semelhantes toda vez que está consciente do fenômeno. Sabemos que o homem é o mais inteligente e perigoso dos animais, mas ainda assim continua sendo um animal. Poetas e filósofos complicam as coisas, mas elas não são complicadas. As necessidades básicas são muito simples: comida, abrigo, calor, sexo e prestígio, exatamente nessa ordem de prioridade. As pessoas felizes sempre seguem tal orientação e ficam satisfeitas." (pág. 243)

"-Tenho certeza de que estamos diante de um caso de duplo assassinato, doutor.
-Acredito que sim. Mas vai ser muito difícil provar e temo que meu laudo pericial não possa ajudá-lo. O suicídio é o ato mais pessoal e misterioso que existe, inexplicável, porque o ator principal nunca está presente para explicá-lo." (pág. 257)

"-[...]E nunca esqueci o que ele me disse. Que algumas pessoas pensam no suicídio como mais uma opção para seus problemas. Que na sua opinião não era assim e, ao contrário, o suicídio representa a total falta de opções. E citou o filósofo Schopenhauer: 'O suicídio pode ser interpretado como uma experiência, um dilema que os homens oferecem à natureza para ver se a obrigam a responder. Mas trata-se de uma experiência tola, porque destrói a própria consciência que faz a pergunta e que devia aguardar a resposta'." (pág. 283)

"-Ele poderia ter citado mais adequadamente Nietzsche - disse Garrod. - 'A ideia de suicídio é um grande consolo. Pensando nele podemos com sucesso enfrentar uma noite de insônia'." (pág. 283)

"-Meu avô costuma dizer que uma mulher deveria casar-se pelo menos uma vez, mas não transformar o casamento num hábito." (pág. 357)

"Não podemos eliminar os amigos de nossas vidas e pensar que vão ficar à nossa disposição somente porque sentimos necessidade de voltar a ser humanos." (pág. 380)

"-Decência não tem nada a ver com nosso trabalho. Isto é uma guerra. Homens decentes podem travar as guerras, mas não vencê-las." (pág. 440)

sábado, 27 de agosto de 2016

O desaparecimento

Título: O desaparecimento
Autor: J. F. Freedman
Páginas: 464

A filha de Doug Lancaster, um magnata da televisão, foi sequestrada e, pouco tempo depois, encontrada morta. Mais de um ano depois, a polícia recebe uma denúncia anônima e prende um suspeito. Entra na história Luke Garrison, um advogado que já havia sido promotor, para defender o acusado.

Nem Luke acredita na inocência de seu cliente, mas precisa defendê-lo. Todos os envolvidos têm coisas a esconder, fazendo a história se tornar muito complexa e dificultando cada vez mais a identificação do verdadeiro culpado. Como é típico neste tipo de história, os pequenos detalhes é que ajudarão a solucionar o caso.

Trechos interessantes:

"-Num sequestro sem testemunhas, os membros da família são os primeiros suspeitos - explica com paciência. - Principalmente numa situação sem nenhuma testemunha." (pág. 31)

"O problema é que democracia não quer dizer maior participação no controle. Significa apenas que outros passaram a controlar: os que se dispõem a dedicar tempo a isso, a trabalhar nos comitês, a assumir os cargos menores e assim por diante. Hoje em dia, ser político é uma ocupação de tempo integral." (pág. 84/85)

"Despem-se: ele tira, o jeans; ela, tudo o que está vestindo. A seguir, estão na cama, um abraçado no outro, e não é o sexo que importa, é o amor que fazem." (pág. 129)

"A velha casa está morrendo, tal como certos pacientes que atende: vidas prestes a abandonar este mundo e moças com medo de nele pôr novas, gente interessada em saber se está grávida, mas sem querer que a família saiba, ou que já sabe que engravidou e ainda não decidiu quando abortar." (pág. 213)

"Só os covardes se escondem de seus próprios demônios." (pág. 217)

"Não se pode defender um homem acusado de um crime, sobretudo de homicídio, do mesmo jeito que se monta um quebra-cabeça. Esta peça aqui, aquela, ali, tudo se encaixa e pronto. Nem todas as peças se encaixam, isso nunca acontece. Mesmo quando o júri chega a um veredicto, mesmo quando o condenado cumpre a pena, não acabou. Nunca acaba." (pág. 241/242)

"-Qual é o pior pesadelo de um promotor? - pergunta. E se incumbe de responder. -Acusar o homem errado.
Lovett fez uma careta.
-Esse é o segundo pior pesadelo.
-E o primeiro?
-É acusar o homem errado e a bomba estourar na sua mão." (pág. 258)

"O que verdadeiramente incomoda Logan é a referência ao taco de golfe como a possível arma do crime. Coloca Doug Lancaster ainda mais no centro da história. Cedo ou tarde, ele terá de enfrentar e dar um jeito de diluir isso se puder. Do contrário, será como estar com um elefante na sala: mesmo que não se fala nele, todo mundo o vê." (pág. 343)

"Pensa em Joe Allison, o seu cliente, e em todas as baboseiras que lhe contou. A droga é que precisa continuar defendendo esse cara, não tem escolha, o advogado não faz juízos morais, está preso às normas e aos códigos da profissão, independentemente de quem é ou do que fez o cliente." (pág. 391)

"Se, quando a interrogaram pela primeira vez, uma das parte lhe tivesse perguntado se havia acontecido alguma coisa depois de ela ter visto Joe Allison naquela noite, o resultado seria muito diferente. Mas ninguém perguntou. E, embora estivesse razoavelmente convencida de que a Sra. Lancaster havia matado Emma ou pelo menos a machucara, não teve coragem de falar voluntariamente sobre isso. Ela e sua família deviam a própria existência à Sra. Lancaster.
Ninguém perguntou. María não iria tomar a iniciativa de dizer nada: não nos Estados Unidos. Coisa que aprendeu no dia em que chegou: nunca tome a iniciativa de dizer nada." (pág. 458/459)

domingo, 21 de agosto de 2016

A sorte do agora

Título: A sorte do agora
Autor: Matthew Quick
Páginas: 222

Bartholomew tem mais de 30 anos e apresenta problemas mentais. Com a morte da mãe passa a ficar totalmente desamparado pois ela era a figura central em sua vida. Para tentar encaixar Bartholomew no mundo real entram em cena um padre, uma bibliotecária e um sujeito que adora falar palavrões e acredita em aliens.

Tentando seguir em frente Bartholomew cria uma correspondência fictícia com Richard Gere (ator modelo para sua mãe) onde discute os problemas enfrentados e, sob a orientação de Dalai Lama, tenta achar as soluções. O resultado é uma história diferente e instigante.

Trechos interessantes:

"Se você quer que os outros sejam felizes, pratique compaixão. Se você quer ser feliz, pratique compaixão.
Dalai Lama" (pág. 7)

"'O mundo gosta mais de dinheiro do que da verdade', minha mãe também costuma dizer. 'Então, estamos ferrados'." (pág. 26)

"Dalai Lama afirma que 'devemos reconhecer que o sofrimento de uma pessoa ou de uma nação é o sofrimento da humanidade. Que a felicidade de uma pessoa ou de uma nação é a felicidade da humanidade'." (pág. 34)

"A beleza está dentro de todos nós, Bartholomew. Às vezes, ela apenas se esconde. Isso é certo." (pág. 100)

"Quando nosso coração está repleto de empatia, um forte desejo de eliminar o sofrimento alheio surge dentro de nós." (pág. 108)

"Para cada coisa ruim que acontece, uma coisa boa também acontece. É assim que o mundo permanece em harmonia." (pág. 121)

"Pessoas como você, eu e Elizabeth... Por que nós existimos, porra?
[...]
Talvez porque o mundo precise de pessoas como nós?
Para que, porra? Não fazemos nada, merda! Eu só rasgo ingressos na porra do cinema! Qualquer um poderia fazer isso!
Bem, se não houvesse gente estranha e incomum para fazer coisas esquisitas ou não fazer nada, não poderia existir pessoas normais que fazem coisas úteis e normais, não é?" (pág. 167)

"No Ocidente, as pessoas muitas vezes pensam erradamente que os koans são enigmas, testes intelectuais, algo a ser resolvido. Mas uma interpretação mais correta seria a de que os koans são breves histórias sobre as quais meditar. Eles não têm resposta. Não podemos 'resolver' ou 'entender' estes koans mais do que podemos resolver ou entender uma estrela cadente, o rugido de um leão, o cheiro do orvalho fresco sobre as rosas ou a sensação da areia morna entre nossos dedos dos pés. Só podemos refletir a fundo sobre todas essas coisas e nos deleitar com o mistério. É um erro achar que há uma resposta ou uma solução correta, mas também é bom refletir." (pág. 184/185)
"O pior pensamento era que mesmo se eu conseguisse fazer algo útil com minha vida no futuro, mesmo que um milagre acontecesse e eu, de alguma maneira, finalmente tomasse jeito, minha mãe e o padre McNamee não estavam mais por perto para ver. Eles morreram conhecendo o Bartholomew do passado, e eu não estava nem um pouco contente com o Bartholomew do passado." (pág. 202)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Os doze mandamentos

Título: Os doze mandamentos
Autor: Sidney Sheldon
Páginas: 248

Chego a duvidar que este livro seja mesmo da autoria de Sidney Sheldon, já que foge totalmente do seu estilo. Trata-se de uma coleção de histórias simples - simples mesmo - que contam, de forma humorística, sobre os mandamentos legados a Moisés.

Pra início, o autor se acha no direito de alterar a quantidade de mandamentos, assegurando que são doze. Após um preâmbulo que destaca as virtuosidades dos mandamentos, passa a apresentar histórias em que as personagens violaram os mandamentos e se deram bem. Em suma, muito simples.

Trechos interessantes:

"Moisés disse a seu povo que quem violasse aqueles mandamentos seria punido.
Esse é o lado de Moisés. Mas vou contar algumas histórias sobre pessoas que violaram os Mandamentos de Deus. E o que aconteceu com elas? Tornaram-se ricas, famosas e felizes." (pág. 22/23)

"No dia seguinte, quando Ralph almoçava num restaurante, a garçonete derramou café quente em sua mão, que ficou queimada. Ralph foi levado ao pronto-socorro.
No hospital, Ralph seguiu por um corredor que acabara de ser encerado, escorregou, levou um tombo e quebrou a perna.
Puseram-no numa maca e levaram-no para a sala de radiografia. Ali, o interno esbarrou na maca, Ralph caiu e quebrou o braço.
Passou duas semanas no hospital; ao voltar para casa tinha um braço e uma perna engessados, e a mão enfaixada." (pág. 69)

"Roger conversou com a esposa.
-Não vai sobrar nenhum dinheiro em nossa poupança. Sua mãe está gastando tudo.
-Querido, mamãe é uma velha. Vamos deixar que ela se distraia um pouco.
-Uma velha? - gritou Roger. - Ela viverá mais do que nós. Nada pode matá-la. Se a mandassem para a jaula de um leão, o leão acabaria morrendo. Ela falaria até o leão se suicidar." (pág. 111)

"A verdade é que Tom tinha medo de Marvin Gable, um homem autoritário que gostava de ser mesquinho com seus empregados. Era muito rico, mas não passava pela sua cabeça partilhar essa riqueza. Pagava os menores salários da cidade e se gabava por isso." (pág. 147)

"-Como pode chamar aquilo de casa? Não passa de uma pilha de madeira apodrecida! Eu não deixaria nem mesmo meu cachorro viver ali!
-Não tem nenhum cachorro.
-Claro que não. Não teríamos condições de alimentá-lo. Nem nós comemos direito, porque todo o dinheiro vai para aquela estúpida conta de poupança." (pág. 197)

"Os amigos viviam dizendo que David era um tolo por ser sempre tão honesto, que de vez em quando uma pessoa tinha de dizer uma mentira." (pág. 215)

sábado, 6 de agosto de 2016

O outro gume da faca

Título: O outro gume da faca
Autor: Fernando Sabino
Páginas: 104

Aldo Tolentino descobriu-se traído pela esposa e resolveu dar fim à situação. Planeja o crime perfeito para matar a esposa e o amante e, ao executá-lo, percebe que o plano é perfeito demais. Quando resolve confessar o crime, descobre que ninguém acredita nele.

A novela é parte da trilogia "A faca de dois gumes" que entre revelações de intriga, amor e mistério acaba na eterna discussão do crime perfeito. É uma história pequena, simples, de linguagem fácil, mas nem por isso menos interessante.

Trechos interessantes:

"Ai daquele que sabe: há de pagar pela culpa de ter sabido pouco. [Soren Kierkegaard]" (pág. 8)

"-Sabe de uma coisa, Dr. Tolentino? Pode parecer estranho, mas o marido traído desperta mais desprezo que a mulher e o amante. A não ser que ele se vingue." (pág. 66)

"Começava a perceber que o seu plano, tão exaustivamente concebido e executado, até mesmo com o imprevisto do crime que não chegou a premeditar, era um álibi de tal maneira perfeito que não havia como destruí-lo - faca de dois gumes, capaz de salvá-lo mas de ser a perdição de seu filho." (pág. 92)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

As filhas sem nome

Título: As filhas sem nome
Autor: Xinran
Páginas: 290

Inconformado pelo fato de não ter filhos homens, um pai resolveu que não colocaria nome nas filhas, de tal forma que elas foram sendo chamadas simplesmente por números, na ordem que iam nascendo... A filha Três, determinada a mudar de vida, saiu da aldeia rural e foi para a cidade grande, iniciar uma nova vida. Depois de Três (e induzida por ela) partiram também Cinco e Seis.

O livro relata a adaptação delas aos costumes da cidade, entremeadas pela lembrança constante das orientações da mãe. O livro procura mostrar a discriminação com que as mulheres chinesas são tratadas e a tentativa de algumas dessas mulheres a mudarem os hábitos tão arraigados em sua cultura. Para nós, ocidentais, parece um absurdo que ainda existam coisas semelhantes no mundo...

Trechos interessantes:

"Sua filosofia era que, se alguém não tem dinheiro para se divertir, é necessário jogar um pouco de conversa fora para dar cor à vida, senão a pessoa enlouquece de tédio." (pág. 24)

"Ela se lembrava das palavras da sua mãe: 'Se alguém salva a sua vida com um gole de água, nem mesmo cavar um poço será o suficiente para retribuir esse gesto'." (pág. 30)

"As pessoas com melhor nível de educação imediatamente ficaram com uma pulga atrás da orelha. Para elas, tratava-se apenas de mais uma manobra política disfarçada, e era melhor não se envolver. Afinal de contas, o primeiro porco a engordar é o primeiro a ir para a mesa." (pág. 53)

"Talvez na cidade houvesse mais respeito pela ideia de beleza. Seis pensou com tristeza nas garotas que haviam sido suas colegas no primário e que agora estavam todas casadas. Se tentassem parecer bonitas, tornavam-se motivo de escárnio. Isso era algo que simplesmente não se fazia." (pág. 92/93)

"Sabia que todos a tomavam por uma idiota, então seguia o conselho de sua mãe: 'Não abra a boca, assim ninguém, por mais inteligente que seja, poderá fazer você de boba'." (pág. 115)

"'Oh, Cinco',Três disse, 'usar as coisas dos outros não é a mesma coisa que pegar emprestada alguma coisa da sua família! O que a mãe nos disse antes de partirmos? Mesmo se não há arroz na casa da sua família, é melhor morrer de fome do que pegar o mingau das outras pessoas'!" (pág. 130)

"Um chinês que começara havia pouco tempo a aprender inglês deu um encontrão em um inglês na rua e pediu desculpas em inglês: I am sorry. O inglês respondeu I am sorry too. O chinês, pensando que precisava ficar à altura da educação do inglês, disse: I am sorry three. O inglês não entendeu: What are you sorry for? O chinês, determinado a não passar por uma pessoa rude, disse: I am sorry five." (pág. 138/139)

"Os antigos costumavam dizer que 'o homem sábio não demonstra medo diante do inesperado e não demonstra raiva diante de acusações injustas'." (pág. 155/156)

"Se as pessoas não têm ninguém com quem se comparar, não sabem que estão sofrendo injustiças. São as comparações que deixam as pessoas infelizes: aqueles que não sabem o que é uma fortuna, não sabem o que é a pobreza. Somos tão pobres aqui que nem mesmo os oficiais da vila vêm nos visitar. Por que quereriam? O que ganhariam com isso? Um bocado de água salgada e uma fatia de pão de batata-doce... Se eu saísse por aí falando sobre a vida das pessoas ricas para todos, acha que gostariam de mim? Quanto menos as pessoas tiverem de se preocupar, melhor. Podem ser pobres, mas estão em paz. Não causam problemas, e isso é o mais importante." (pág. 220/221)

"Felicidade é saber aceitar o próprio destino..." (pág. 221)

"'O marido a trata bem?', perguntei.
A jovem olhou para mim como se eu fosse um ser extraterrestre. O que 'bem' e 'mal' significam para ela? Você apenas vai com a pessoa com a qual os seus pais a casam, independentemente de quem seja! Esse foi o destino de milhões de mulheres chinesas desde o início dos tempos..." (pág. 271)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Operação Perfeito

Título: Operação Perfeito
Autor: Rachel Joyce
Páginas: 304

Byron, um garoto de 11 anos, foi informado pelo colega que dois segundos seriam adicionados ao tempo para corrigir a sincronia do movimento da Terra. Byron ficou tão perturbado com a notícia que, qualquer coisa diferente que acontecia, ele atribuía ao acréscimo dos dois segundos. E várias coisas aconteceram...

A mãe se mata, o pai o abandona, o melhor amigo se muda, ele transforma-se num paranoico, passa por instituições de apoio e nunca mais consegue ser uma pessoa normal. Tudo isso começou por causa dos dois segundos... Livro tenso e sombrio, mas interessante.

Trechos interessantes:

"-A gente vai se atrasar.
-A gente nunca se atrasa - disse Byron. Era uma regra do pai deles. Um inglês deve sempre ser pontual.     (pág. 19)

"James Lowe contou para Byron, certa vez, que fazer mágica era uma questão de brincar com a verdade. Não era uma mentira. O que as pessoas viam, disse ele, dependia muito do que estavam procurando." (pág. 34)

"-[...]Embora seu pai seja um homem muito inteligente, é claro. Muito mais do que eu. Nunca li um livro do começo ao fim.
-Você lê revistas. Você lê livros de receita.
-Sim, mas eles têm fotos. Livros inteligentes só têm palavras." (pág. 39/40)

"Existem lacunas em sua memória, lacunas de semanas, de meses, e às vezes até de mais. Relembrar o passado é como viajar para um lugar onde ele esteve uma única vez, e descobrir que tudo foi suspenso e desintegrado." (pág. 72)

"Paula diz que o problema é que pessoas como Jim são boas demais. E ele sabe que o problema não é esse. O problema é que as pessoas precisam que outras pessoas - como Eileen - sejam ruins demais." (pág. 130)

"Eles conversam sobre várias coisas. A jardinagem dele, as novidades no café do supermercado. Quando ele descreve o aconchego ela gargalha bem alto, e ao ouvi-la gargalhando ele também enxerga o lado engraçado da história, e não sente mais medo. Ele pensa no quanto gostaria de ter aquilo na vida, a gargalhada dela, sua forma de enxergar as coisas, e se pergunta se é isso que as pessoas buscam em um parceiro ou amigo: a parte de si mesmos que está faltando." (pág. 212)

"Às vezes é mais fácil, pensa ele, viver os erros que cometemos do que reunir a energia e a imaginação necessárias para consertá-los." (pág. 294/295)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Contos maravilhosos caucasianos - Saga Azerbaijana

Título: Contos maravilhosos caucasianos - Saga Azerbaijana
Autor: Imam Raguza
Páginas: 118

O livro apresenta uma tradução do sueco para o português dos contos comuns aos povos da região do Cáucaso. São contos semelhantes às nossas lendas e que são transmitidos, geralmente, de forma oral de uma geração à outra. Na essência, os contos se assemelham a muitos outros que são comuns à nossa cultura, mudando-se apenas as personagens.

Encontrei o livro por acaso na biblioteca da escola em que trabalho e, mais por curiosidade que por prazer, me dediquei à sua leitura. A história em si é simples, o livro é pequeno e apresenta uma fonte com tamanho grande, possibilitando a conclusão da leitura em poucos minutos.

Trechos interessantes:

"Antes,
ele se orgulhava só de imaginar que,
em nenhum outro lugar do mundo,
houvesse alguém que,
em generosidade,
dele pudesse sequer se aproximar.

Mas agora estava convencido de que,
em verdade,
Ferbad era mais generoso do que ele." (pág. 22/23)

"Com esta voz,
você não pode ser o nosso muezzin.
Entre a sua voz e a dele,
a diferença é tão grande
quanto a distância entre o céu e a terra." (pág. 44/45)

"Somente agora,
eu pude entender
o que significavam
aquelas palavras de minha mãe,
bem como o tipo de pessoas
que eram os meus amigos,
e o quanto me haviam enganado." (pág. 92/93)

domingo, 17 de julho de 2016

Livro de Ana

Título: Livro de Ana
Autor: Ursulino Leão
Páginas: 188

O livro data de 1972 e é uma coletânea de crônicas que o autor publicou nos jornais da região, no período de 1951 a 1967. Quase todas estão relacionadas à cidade de Anápolis, cidade bem conhecida e admirada por Ursulino Leão.

A crônica é um gênero temporal, ou seja, geralmente está ligada a um período específico. Ela é importante para conhecermos as necessidades e os problemas vivenciados, nesse caso, pela população de Anápolis no período mencionado. Mesmo assim, muitos dos problemas citados ainda estão em voga até os dias de hoje...

Trechos interessantes:

"Naqueles velhos tempos, eram outras as brincadeiras e a infância se prolongava, bendita e alegre. A fabricação de brinquedos não atingira ainda o espantoso desenvolvimento de hoje. Não se viam bonecas que andam. Nem bichos que correm. E os poucos velocípedes que se vendiam, custavam o olho da cara. A meninada, pois, se largava para as pescarias estabanadas. Ou ia caçar passarinhos nas redondezas. Ou, simplesmente, vagabundeava..." (pág. 20)

"Pôncio Pilatos, examina-o Fulton Sheen, visando as relações da Religião com a Política. E se aprofunda no assunto magnífico, considerando a supremacia que o político, sobre o espiritual, vai alcançando no mundo de hoje. O Pilatos, dos templos bíblicos, figura o Estado onipotente que desconhece limites ao seu poder. E é uma advertência: 'o grande perigo de agora, não é a religião na política, mas a política na religião. Tendem os Estados a dominar a família, a cultura e a alma. Haverá, no futuro, uma religião de Deus e uma religião do Estado'." (pág. 28)

"É para buzinar, a buzina. Não há dúvida. Mas buzinar à toa, não. Floresta de Miranda, na 'Tribuna da Imprensa', tratando de assuntos referentes ao tráfego, salientou que o motorista britânico não usa buzina. Embora não haja proibição nesse sentido. 'Ou o caminho está livre e, nesse caso, ela não se faz necessária, ou está impedido, e também não é preciso usá-la', afirma o comentarista. Mas, uma buzinada, de quando em quando, talvez seja útil. Rápida, educada. A título de aviso. Buzinar a cada momento, ensurdecedoramente, sem motivo algum, valha-me Deus, ó choferes!" (pág. 34)

"Goiaz, sem 'z', com aquele acento antipático, por cima, é o mesmo que Bahia sem 'h'. Às favas a Gramática e viva o gosto da gente!" (pág. 36)

"A gente tolera, com algum esforço,que a velha Colônia não haja combatido a brutal destruição de nossas florestas. A sua economia repousava na monocultura, que se nutre de grandes áreas, insaciavelmente. A administração portuguesa, ávida de lucros, não atinava com a necessidade de poupar as matas brasileiras. E o colono, por sua vez, cuidava apenas de enriquecer. À sua prosperidade pouco importava que a terra fosse ou não rudemente espoliada." (pág. 53)

"Na verdade, pintura moderna é estranha arte!" (pág. 95)

"[...] de tudo o que vimos, muita coisa, sem dúvida, me fugiu à compreensão. Estava, porém, comigo a palavra - explicação e estímulo - de Picasso: 'todo o mundo quer compreender a pintura. Por que não buscar compreender o canto de um pássaro? Por que amamos a noite, as flores, tudo que nos rodeia, sem precisar compreender? Mas no caso de um quadro as pessoas fazem questão de compreender'." (pág. 96)

"Como aquele réu, citado por J. Pinto Loureiro, que, no Tribunal do Júri, depois de ouvir a própria biografia, narrada pelo seu defensor, confessara não saber que havia sido tão desgraçado, - convém a paráfrase - faz bem provável que nem todo advogado sinta o quanto se faz necessária a sua presença atuante no mundo de hoje." (pág. 168)

domingo, 10 de julho de 2016

Histórias de arrepiar os cabelos

Título: Histórias de arrepiar os cabelos
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 206

Mais uma coletânea de histórias de mistério e suspense, organizadas sob o nome do mestre do suspense. Em alguns dos livros desta série há um texto introdutório (somente para jogar conversa fora), como tendo sido escrito pelo próprio Hitchcock. Este exemplar é um deles.

O livro reúne um total de 14 histórias de gêneros variados. De todas, apenas cinco delas chamaram a minha atenção. Destaco especialmente  "Ódio às crianças" e "Variações de um episódio".

Trechos interessantes:

"-É - disse Gus. -Femme fatale. É o que ela era, isso mesmo... fatal. E existem cinco homens, mortos há quarenta anos, para provar. E de fato, se não fosse um acaso da sorte, eu estaria morto como eles. - Meneou a cabeça com tristeza. -E tudo por causa do amor. É uma coisa perigosa esse tal de amor. Tudo que tenho a dizer é: não se meta com ele. O amor é mais forte do que qualquer pessoa." (pág. 18)

"Martha concluiu que estava falando com uma daquelas raras pessoas que não gostavam de admitir seus impulsos suicidas. A maioria dos suicidas em potencial não tinha esse tipo de constrangimento. A antiga crença de que as pessoas que ameaçavam suicidar-se nunca o faziam já havia sido desmentida há muito tempo. Conhecia histórias de muitos suicidas que haviam ameaçado repetidas vezes de tirar a própria vida antes de fazê-lo realmente. No entanto, havia casos em que o suicida não dava nenhum aviso antecipado." (pág. 27)

"Entendo um pouquinho de tudo. Meu cabedal de conhecimentos gerais é talvez maior do que a média, se quer saber a verdade, mas com relação a falsificação, não sou ninguém. Nem mesmo sei como se escreve.
Cédulas falsas e moedas nunca me atraíram nem um pouco. Na verdade, a ideia de falsificar dinheiro nunca me agradou. Gosto muito do verdadeiro para meter-me com substitutos baratos." (pág. 64)

"Um sonho pode ser mais importante do que a própria vida..." (pág. 96)

"Bateu levemente sob os números cromados: 421. Uma joia mnemônica, o segundo número era a metade do primeiro, o terceiro a metade do segundo. Lembrando-se do primeiro, sabe-se os outros." (pág. 177)

domingo, 3 de julho de 2016

O sobrevivente

Título: O sobrevivente
Autor: Aleksander Henryk Laks / Tova Sender
Páginas: 174

O livro relata os horrores testemunhados por uma pessoa que escapou de Auschwitz. Os livros de história nos ensinam sobre as atrocidades do holocausto, mas nada se compara ao relato de alguém que viveu na própria pele todo tipo de sofrimento.

O sobrevivente não era brasileiro (como faz crer o subtítulo), mas um polonês que, após escapar de Auschwitz, conseguiu se radicar no Brasil. Para quem gosta de relatos biográficos e quer aprender um pouco mais sobre história, eis aí uma boa dica.

Trechos interessantes:

"Achávamos que ganharíamos a guerra contra Hitler. Éramos ingênuos; não havíamos vivenciado ainda nenhum tipo de violência na nossa curta e feliz infância." (pág. 25)

"Os judeus tiveram que executar trabalhos forçados, como fazer faxina nos quartéis sem material de limpeza, com as próprias mãos. Igualmente com as mãos limpavam as ruas e os bueiros. Eram obrigados a passar por todo gênero de humilhações, como cavar valas, tirar a roupa e atirar na vala, e dançar sobre a roupa cantando os cânticos sagrados." (pág. 35)

"Eram muitos os enfermos, mas não havia nenhum medicamento. Entre nós, difundiu-se a crença de que a casca de batata continha todas as vitaminas, além de elevadas qualidades terapêuticas para as enfermidades e pestes que grassavam no gueto. Durante todos aqueles anos, a casca de batata foi o nosso remédio." (pág. 44)

"As deportações prosseguiam, ninguém sabia para onde. Nós, que permanecíamos no gueto, defendíamos a nossa sanidade mental tentando não acreditar no pior. Nós nos enganávamos para sofrer menos. Enganávamos uns aos outros. Sobreviver tornou-se uma obsessão. Investíamos todas as nossas forças numa só direção: sobreviver, sobreviver, obter mais um pedaço de pão, um pouco de sopa, um dia a mais, conseguir acordar no dia seguinte. Evitávamos fazer conjecturas quanto àquilo que temíamos." (pág. 59)

"Tenho muitas marcas. Tenho cicatrizes de todo tipo. Minha alma está cheia delas. Meu corpo também. Minha memória, meu pensamento, meu sono, meus sonhos, meus dias e minhas noites." (pág. 111)

"-Meu filho! Não posso andar, mas você deve prosseguir. E, se sobreviver, jamais deixe de contar o que nos ocorreu. Sei que não entra na cabeça de ninguém que algo assim possa acontecer; que seres humanos possam chegar a um nível tão baixo de crueldade e fazer o que fizeram a outros homens. Mas você tem que contar. Se pelo menos uma pessoa acreditar, você já terá feito a sua parte." (pág. 127)

"O fim da guerra e a nossa libertação marcaram o início de uma outra batalha. Tínhamos que recomeçar; sem parentes, casa, dinheiro, comida, roupas ou documentos. Nada. Além de tudo, permanecíamos no meio de gente hostil. Ninguém se importava com a nossa situação, e continuávamos abandonados. Ninguém veio ajudar; não havia comida, médicos ou remédios. Eles nos libertaram por acaso. Nós estávamos lá, simplesmente..." (pág. 149/150)

"Espero que o meu passado não seja o futuro das gerações que estão por vir. Procuro mostrar aos jovens como as mentes das pessoas foram esvaziadas e dominadas por um louco, por ideias absurdas, e como se perdem o controle e o discernimento dos próprios atos. Alerto sempre para esse perigo..." (pág. 167)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Contos novos

Título: Contos novos
Autor: Mário de Andrade
Páginas: 152

Encontrei o livro por acaso e, folheando, comecei a ler um dos contos (O poço). Entusiasmei e levei o livro pra casa para ler o restante. O bom dos contos é que são histórias curtas e pode-se ler em pequenos intervalos.

São nove contos, no total, e ainda uma análise detalhada de cada conto, típico para que vai prestar vestibular. No fim do livro há ainda alguns testes sobre o conteúdo. De todos os contos o que mais gostei foi realmente "o poço".

Trechos interessantes:

"Ia devagar porque estava matutando. Era a esperança dum turumbamba macota, em que ele desse uns socos formidáveis nas fuças dos polícias. Não teria raiva especial dos polícias, era apenas a ressonância vaga daquele dia. Com seus vinte anos fáceis, o 35 sabia, mais da leitura dos jornais que de experiência, que o proletariado era uma classe oprimida. E os jornais tinham anunciado que se esperava grandes 'motins' do Primeiro de Maio, em Paris, em Cuba, no Chile, em Madri." (pág. 47/48)

"Só quem estava imaginando que enfim se arranjara na vida era o vigia, esse, um caipira da gema, bagre sorna dos alagados do rio, maleiteiro eterno a viola e rapadura, mais a mulher e cinco famílias enfezadas. Esse agora, se quisesse, tinha leite, tinha ovos de legornes finas e horta de semente. Mas lhe bastava imaginar que tinha. Continuava feijão com farinha, e a carne-seca do domingo." (pág. 83)

"Ora em mim sucede que a inveja não consegue nunca se resolver em ódio, nem mesmo em animosidade: produz mas uma competência divertida, esportiva, que me leva à imitação." (pág. 107)

"O melhor alívio para a infelicidade da morte é a gente possuir consigo a solidão silenciosa duma sombra irmã. Vai-se pra fazer um gesto, e a sombra adivinha que a gente quer água, e foi buscar. Ou de repente estende o braço, tira um fiapo que pegou na vossa roupa preta." (pág. 120/121)