segunda-feira, 2 de abril de 2018

Os 13 porquês

Título: Os 13 porquês
Autor: Jay Asher
Páginas: 254

Clay Jensen recebe pelo correio um pacote de fitas cassete e, ao ouvi-las, descobre que foram gravadas por Hannah Baker, uma colega de aula que se suicidou há pouco tempo. Descobre também que as fitas serão encaminhadas a todos que tiveram alguma influência no suicídio de Hannah. Portanto, se ele recebeu as fitas, de alguma maneira ele está envolvido.
A história é contada com narrativa dupla e simultânea. Enquanto Clay vai descrevendo suas ações e deslocamentos pela cidade, você acompanha também o relato de Hannah. Com temática e linguagem voltada para os adolescentes, a história se desenvolve de forma rápida e cheia de tensão.

Trechos interessantes:

Quem enviará uma caixa de sapatos cheia de fitas? Ninguém mais ouve fitas cassete. Será que tem algum jeito de tocá-las? (pág. 10)

Eu estava tão ansiosa a respeito de que tipo de beijo seria – porque minhas amigas descreveram tantos tipos e acabou sendo do tipo lindo. Você não enfiou a língua na minha garganta. Você não agarrou minha bunda. Nós simplesmente juntamos os lábios... e nos beijamos.
E foi isso.
Espere aí. Pare. Não volte a fita. Não precisa, porque você não perdeu nada. Deixe eu mesma repetir. Isso... foi... tudo... o... que... aconteceu.
(pág. 29)

Aqui vai uma dica. Se você tocar uma garota, mesmo sendo de brincadeira, e ela o empurrar para longe, deixe... ela... em paz. Não toque nela novamente. Em lugar nenhum! Simplesmente pare. Ela vai sentir nojo se você fizer isso. (pág, 48)

Aquela festa acabou se tornando uma noite de primeiras vezes. Eu vi minha primeiríssima briga de socos — que foi horrível. Não tenho ideia por qual motivo, mas começou bem atrás de mim. Dois caras gritavam e, quando me virei, um estava com o peito a poucos centímetros do peito do outro. Uma multidão começou a se juntar, incentivando-os a brigar. A muvuca se transformou numa muralha grossa, ninguém a fim de deixar a situação se acalmar. Tudo que precisavam era que um peito encostasse no outro, mesmo acidentalmente, para a coisa estourar.
E foi o que aconteceu.
(pág. 96/97)

Na aula de saúde, vimos, certa vez, um documentário sobre enxaqueca. Um dos entrevistados tinha o hábito de cair de joelhos e bater com a cabeça no chão, sem parar, durante os ataques. Isso desviava a atenção da dor que ele sentia no fundo de seu cérebro, onde não conseguia alcançar, para outra dor do lado de fora, sobre a qual ele tinha controle. (pág. 97)

Todo assunto era válido na comunicação entre jovens. Algo que, obviamente, incomodava muitos dos outros professores. Era uma perda de tempo, diziam. Eles queriam nos ensinar os fatos nus e crus. Eles compreendiam fatos nus e crus.
Faróis iluminam a janela da frente do Rosie’s de uma ponta a outra e eu fecho ligeiramente os olhos quando eles passam.
Eles queriam nos ensinar o significado de X em relação a Y em vez de nos ajudar a entender melhor a nós mesmos e aos outros. Queriam nos quando a Carta Magna foi assinada – não importa o que seja isso –, em de discutir controle de natalidade. (pág. 134)

Ninguém sabe ao certo quanto impacto tem na vida dos outros. Muitas vezes não temos noção. Mas forçamos a barra do mesmo jeito. (pág. 135)

Amanhã, eu vou me levantar, vou me vestir e vou a pé até o correio. Chegando lá, enviarei um pacote de fitas para Justin Foley. E, depois disso, não tem mais como voltar atrás. Irei à escola, atrasada demais para o primeiro período de aulas, e passaremos um último dia juntos. A única diferença é que eu saberei que é o último dia.
Vocês não.
(pág. 218)


domingo, 25 de março de 2018

O peão

Título: O peão
Autor: Steven James
Páginas: 408

Um assassino sádico tem o hábito de deixar junto aos corpos de suas vítimas, uma peça de xadrez: um peão. O agente especial do FBI Patrick Bowers é o encarregado de decifrar o enigma e capturar o assassino.

A história apresenta muitos momentos de angústia e tensão mas, pessoalmente, acho que do meio do livro para o final o autor abre muitas possibilidades, perdendo o charme e o foco da história.

Trechos interessantes:

"Assassinos muitas vezes deixam pistas ou bilhetes provocativos no local do crime. O mais comum são palavras escritas com sangue. Às vezes, uma carta escrita à mão é descoberta. Normalmente, quando os assassinos deixam alguma coisa, ela está sempre ensanguentada e suja. Eu já tinha visto de tudo.
Mas esse cara não. Ele deixou uma peça de xadrez de sequoia entalhada à mão no local de cada crime executado. As três primeiras eram peões brancos. Agora, estes três últimos eram pretos."  (pág. 24)

"Com o passar dos anos, tento esquecer os rostos, mas não consigo. Tantas faces jovens e promissoras. Parece que são sempre as mais atraentes que são assassinadas. A beleza desperta o pior em nós. Seria de se imaginar o contrário - que os tortos, os deformados, os malfeitos despertariam fúria e terror. Mas eles parecem suscitar apenas compaixão. Não; é a beleza que desperta a besta. Seja qual for o motivo, a elegância e a graça parecem sempre inflamar a mais profunda ira e a luxúria mais sombria no animal humano." (pág. 32)

"Eu tinha passado as últimas horas queimando as pestanas sobre os arquivos, procurando coisas que não se encaixavam ou que se encaixavam bem demais. Como meu mentor, o dr. Werjonic, costumava dizer: ‘A vida não é precisa. As peças que se encaixam bem demais revelam que há más coisas num quebra-cabeças. Continue procurando até não fazer mais sentido, e então estará mais perto de solucionar o caso’." (pág. 79)

"–Não há nada de civil na guerra, dr. Bowers. Essa expressão é um oximoro – como pobre menina rica, bom ladrão ou nudez recatada. – Ao dar esse último exemplo, ele olhou de relance para Lien-hua.
–Ou tente agir naturalmente – eu disse.
Ele voltou a prestar atenção em mim, com uma sobrancelha erguida.
–Hã? 
–Tente agir naturalmente. Também é um oximoro. Ou alguém age naturalmente ou está fingindo. Não adianta tentar. Devolvi o olhar dele sem titubear.
–Ah, a menos que você seja fingidor por natureza – ele disse, erguendo o copo de leve." (pág. 97)

"Lembrei que, anos antes, outro guia florestal me contou que “Apalaches” vem de uma palavra indígena que significa “montanhas infinitas”; e olhando para aquelas montanhas, eu não conseguia deixar de pensar que elas realmente prosseguiam infinitamente no espaço e no tempo – um origami ancestral do planeta, da época em que os continentes estavam unidos.
A brisa era constante ali, subindo do vale, nos envolvendo; a respiração matinal suave das colinas. Eu me perguntava como seria estar ali quando não havia vento. Que tipo de solidão deve ser, ter o dia decidindo sua forma ao redor, céu e sombras e picos e vales todos vestidos de um silêncio profundo e primal." (pág. 155)

"–David, sabe por que não faltam homens-bomba no Oriente Médio?
David não respondeu rapidamente. Ele parecia ponderar com cuidado as palavras, como se temesse decepcionar seu mestre.
–Porque o ódio deles é tão profundo, Pai?
–Não, David. Porque as crenças deles são tão profundas. O ódio é o resultado das crenças. É o fruto que cai da árvore da fé. Como o amor. As crenças sempre vêm primeiro. Para mudar o fruto, é preciso mudar a árvore; é preciso mudar as crenças. Uma árvore sempre vai dar seus próprios frutos. Jamais fará outra coisa. O grande profeta disse uma vez: ‘Toda árvore boa produz bons frutos; e toda árvore má produz frutos maus’." (pág. 240)

"Eu podia sentir o aperto familiar no peito, a sensação desesperada de impotência que você tem ao olhar por cima do ombro para algo doloroso do seu passado; algo que te assombra, mas que também faz parte de você. Você tenta fugir, mas aquilo está sempre ali, respirando na sua nuca. Não é verdade o que dizem. O tempo não cura todas as feridas. Às vezes, apenas joga sal nelas e fica rindo enquanto você se contorce."  (pág. 252)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Jack, o estripador em Nova York

Título: Jack, o estripador em Nova York
Autor: Stefan Petrucha
Páginas: 286

O autor se utiliza do criminoso mais famoso de Londres para criar um tipo de sequência de seus crimes, só que desta vez, acontecidos em Nova York. Claro que o autor não pretende retratar a história, tal como aconteceu, mas apenas criar uma atmosfera interessante para uma história policial.

Carver é um jovem num orfanato, que está prestes a ser colocado na rua se não encontrar quem o adote. O sonho de Carver é ser detetive para encontrar seu pai e, com esse intuito, é adotado por Hawking, um excêntrico detetive, que pretende lhe ensinar os detalhes da profissão. A polícia anda às voltas com crimes acontecidos na cidade, atribuídos a Jack, o criminoso londrino. Hawking vê ali uma oportunidade para pegar o criminoso e, ao mesmo tempo, ensinar a profissão ao garoto. Mas, como sempre, muitas reviravoltas acontecem na história.

Trechos interessantes:

"Quando Carver passou pelo batente, Hawking puxou uma pequena maçaneta e a porta se fechou. Havia um cheiro de máquina a óleo, e o diminutíssimo cômodo se encheu de um som não muito distinto do último estalido do tubo: o suave chiado constante de engrenagens secretas. O mais estranho é que o vento não havia parado. Mas agora a brisa não vinha da esquerda para a direita, mas de cima para baixo.
Maravilhado, Carver olhava ao redor no cubículo apertado.
Hawking deu de ombros.
-Você nunca entrou num elevador?" (pág. 39)

"-São brinquedos, meu rapaz, tudo brinquedos. Você verá cada vez mais geringonças quando ficar mais velho, mas, se eu puder lhe ensinar algo, aprenderá que essas coisas todas são apenas decorativas. O que importa é o que está dentro de você e o que você pode ver nas outras pessoas. Entende isso?
-Sim.
-Não, não entende. Quando nosso tempo juntos estiver prestes a acabar, talvez você comece a entender." (pág. 41)

"-Gosta de charadas? - perguntou Hawking. -Aqui vai uma. Olhe pras teclas na máquina de escrever:'QWERTY'. Já se perguntou por que elas estão organizadas assim?
Carver repetiu o que tinha ouvido falar.
-As letras mais comuns estão perto umas das outras pra acelerar a datilografia.
-Não. Isso é o que a maior parte das pessoas pensa, e a maior parte das pessoas é estúpida. Christopher Latham Sholes projetou a disposição em 1874 pra reduzir a velocidade do datilógrafo, a fim de evitar que as teclas emperrassem." (pág. 57)

"-[...]Você é do tipo que vê uma luz no fim do túnel e pensa que é um trem, não é? Anime-se, o pior ainda está por vir! - exclamou Hawking, colocando outra peça de latão no torno. -Seus romances policiais só mostram uma minúscula fração do trabalho de detetive, o crime genial, as pistas perturbadoras, a perseguição dramática, a batalha final sobre o cume de uma montanha, com ondas violentas quebrando vários metros abaixo... a justiça sendo feita! Se eles escrevessem sobre o mundo real, quatro quintos da história consistiriam no herói sentado numa biblioteca por meses seguindo pistas falsas. Mas ninguém pagaria um centavo nessas histórias." (pág. 79)

"Uma verdade dita com má intenção derrota todas as mentiras que possamos inventar." (pág. 122)

"-A vida não é feita de escolhas fáceis. Até mesmo aqueles que tentam fazer o bem fazem o mal. Aprenda a viver com isso ou não sobreviverá à semana." (pág. 166)

"-O senhor pode me dizer o que está acontecendo?
-Lamento, mas isso é mais do que já contei aos detetives. Mais do que isso, eu não sei. Portanto, não - disse, antes de abrir seu sorriso lustroso. -Sou muito bem pago pra saber apenas o que me mandam saber." (pág. 182)

"...Todos os livros do mundo são inúteis se você não sabe o que fazer com eles." (pág. 212)

"-Foi mais difícil do que eu imaginava. Não tecnicamente. Você não faz ideia de como é fácil começar uma rebelião depois de se infiltrar na cadeia. Mais fácil ainda é enforcar alguém no meio daquele belo caos. Ele nunca nem soube que era eu. Melhor assim, não acha?
-Seu próprio parceiro... - disse Carver.
-Um fato interessante: a maioria dos assassinatos é cometida por pessoas que a vítima conhece." (pág. 267)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Sedução da seda

Título: Sedução da seda
Autor: Loretta Chase
Páginas: 300

O livro é o primeiro volume da série "As modistas" que mostra o mundo da alta costura e da aristocracia do século XIX. Marcelline e suas duas irmãs possuem uma loja de moda em Londres. Preocupadas em conquistar clientes de alta classe, elas têm um sonho de vestir lady Clara Fairfax. Com esse objetivo, Marcelline se aproxima do duque de Clevedon, futuro marido de lady Clara, tentando impressioná-lo com a melhoria que podem fazer no guarda-roupa da futura duquesa.

Apesar da história não apresentar nada de novo na fórmula "romance com final feliz", o que me chamou mais a atenção foram os detalhes da moda em si. Os vestuários da alta classe são detalhadamente comentados, bem como a vida social da aristocracia, trazendo um colorido especial à história.

Trechos interessantes:

"-Fico me perguntando qual o motivo da pressa - disse Marcelline. -Ela só tem 21 anos.
-E o que ela tem para fazer, além de ir a festas, óperas, bailes, jantares, passeios etc.? - comentou Leonie. -Uma moça da aristocracia que tem beleza, nível e um dote respeitável não devia se preocupar em atrair candidatos. Essa moça...
Nem precisou completar a frase. Elas já tinham visto lady Clara Fairfax em várias ocasiões. Sua beleza era impressionante: cabelos louros, olhos azuis, pele clara. Suas numerosas qualidades incluíam alta classe, uma linhagem impecável e um dote esplêndido; os homens se jogavam a seus pés por onde quer que ela passasse.
-Nunca mais na vida aquela moça será capaz de exercer tanto poder sobre os homens como agora - comentou Marcelline. -Ela devia esperar chegar mais perto dos 30 anos para se casar." (pág. 11/12)

"-É uma situação delicada. Devo ser agradável com os homens, que pagam as contas. Mas são as mulheres que desejam minhas roupas. Elas não terão vontade de dar preferência à minha loja se me virem como uma rival na disputa pela atenção de seus maridos." (pág. 31)

"-[...]Será que o senhor se deixou levar para tão longe das preocupações cotidianas da vida que não consegue nem entender? Não há nada neste mundo que seja realmente importante em sua vida, importante o suficiente para que deseje conquistá-lo, apesar dos obstáculos? Mas... que pergunta tola. Se o senhor tivesse um propósito na vida, estaria se entregando a ele, em vez de desperdiçar seus dias em Paris." (pág. 48)

"-Temos que ir aonde os aristocratas vão - explicara Marcelline.
-Não sei como eles não se cansam.
-Eles não são obrigados a trabalhar todos os dias, às nove da manhã." (pág. 58)

"Marcelline tinha plena consciência de que os negócios que ele queria discutir não eram as encomendas que lady Clara faria dali em diante. Ela fora tola em imaginar-se capaz de manipular aquele homem. Devia ter percebido que um duque está acostumado a ter tudo do seu jeito, em um nível que as pessoas comuns não podem imaginar. Já devia saber que o fato de conseguir tudo do jeito que quis durante toda a vida afetaria o cérebro dele e o tornaria totalmente diferente dos outros homens." (pág. 83)

"-Ela é a criatura mais ditatorial que conheci - afirmou ela.
-Sua Graça já teve a gentileza de mencionar esse meu defeito de caráter - disse Noirot, sem sequer olhar para Clevedon. -Sirvo as mulheres da moda o dia inteiro, seis dias por semana. Ou domino, ou sou dominada.
Ah, ali estava: a franqueza que desarma, fermentada por um toque de humor. Ela era mesmo insuperável." (pág. 149)

"-De qualquer maneira, não eram o que nós esperávamos. A Sra. Michaels ficou em estado de choque quando lhe informei que teríamos que servir as costureiras. Mas ela me disse que ficou totalmente surpresa quando as viu. Elas não se parecem com costureiras, de maneira alguma.
Os criados eram mais sensíveis a classes sociais do que os patrões. Podiam sentir o cheiro de comércio a cinquenta passos de distância. Eram capazes de detectar um impostor um minuto após ele abrir a boca." (pág. 231)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Por favor, cuide da Mamãe

Título: Por favor, cuide da Mamãe
Autor: Kyung-Sook Shin
Páginas: 236

Park So-nyo é uma coreana, de 69 anos e mãe de cinco filhos, que vai a Seul com o marido para visitar um dos filhos. Na estação, devido ao tumulto, ela se perde do marido e ele acaba embarcando sozinho no trem. Desde então ela nunca mais foi vista.

A família, preocupada com o sumiço de Mamãe, coloca anúncio nos jornais, espalha cartazes pela cidade, pergunta a todos na rua, mas ninguém sabe do paradeiro dela. Entre uma lembrança e outra, todos os membros da família percebem que, de fato, não conheciam Mamãe como pensavam e se desesperam ao sentirem-se, eles, perdidos, sem a presença daquela que organizava tudo no lar.

Trechos interessantes:

"Há momentos em que a pessoa só pensa no assunto depois que algo acontece. Momentos em que pensamos: 'Eu não devia ter feito isso'." (pág. 16)

"O amor de Mamãe por Hyong-Chol era tal que ela costumava preparar uma tigela de ramen para ele comer sozinho quando chegasse tarde da noite em casa, após ficar mais um pouco na escola para estudar. Tempos depois, você às vezes lembrava o assunto, e seu namorado, Yu-bin, retrucava:
-É apenas macarrão instantâneo. Grande coisa...
-Como assim? Ramen era a melhor coisa naquela época! Era um prato que comíamos escondidos para não precisar dividir com ninguém!" (pág. 21)

"Quase nada neste mundo acontece de forma inesperada quando refletimos com atenção. Mesmo o que alguém poderia considerar incomum, se pensarmos bem, é apenas alguma coisa que tinha probabilidade de acontecer. Deparar-se repetidas vezes com acontecimentos incomuns significa pouca reflexão sobre eles." (pág. 34)

"Sua mãe contou que às vezes ficava ressentida com a mãe dela, sua avó.
-Sei que ela precisava fazer tudo sozinha depois que ficou viúva, mas podia ter me mandado à escola. Meu irmão foi para uma escola dirigida por japoneses e minha irmã também, então por que só eu fiquei em casa? Vivi na escuridão, sem nenhuma luz, minha vida inteira..." (pág. 63)

"-A senhora gostava de ficar na cozinha? Gostava de cozinhar?
Mamãe olhou para você.
-Não gosto nem desgosto da cozinha. Eu cozinhava porque precisava. Precisava ficar na cozinha para que todos vocês pudessem comer e ir à escola. Como é possível alguém fazer só o que gosta? Há coisas que a gente precisa fazer quer goste, quer não. - Sua mãe olhava para você com uma expressão que dizia: 'Que tipo de pergunta é essa?' E resmungou: -Se fizer apenas o que gosta, quem vai fazer o que você não gosta?" (pág. 64)

"As mãos de Mamãe estavam congeladas. Ao segurá-las, prometeu a si mesmo que faria aquelas mãos e aquela mulher felizes a qualquer custo. Mas uma reprimenda escapou de sua boca e ele perguntou como ela tivera coragem de seguir um estranho só porque ele lhe dissera para fazer isso. Mamãe o repreendeu:
-Como consegue viver sem confiar nas pessoas? Há mais gente boa do que má! - E deu seu típico sorriso otimista." (pág. 79)

"Quando sua esposa viajava para Seul sozinha, muitas vezes você sentava-se assim, isolado, na varanda. Sua esposa telefonava de Seul para perguntar: 'Você comeu?' e você respondia 'Quando você volta?'.
-Por quê? Está com saudade?
-Não, não se preocupe comigo - você dizia. -Dessa vez fique o tempo que quiser.
O que você dissesse, ao ouvi-lo perguntar 'Quando você volta?', sua esposa retornava, sem se importar com o motivo que a tinha levado a Seul. Se você a repreendesse com um 'Por que voltou tão cedo? Eu lhe disse para ficar o tempo que quisesse!', sua esposa retrucava 'Acha que vim por sua causa? Vim para alimentar o cachorro', e olhava para você." (pág. 128/129)

"Sua esposa morou em Chinmoe desde que nasceu e até se casar com você. Você tinha 20 anos quando sua irmã lhe comunicou que você se casaria com uma jovem de Chinmoe em um mês. Afirmou que se tratava de uma jovem cujo horóscopo combinava perfeitamente com o seu. Chinmoe. Era uma aldeia nas montanhas, distante 10 ri, cerca de 40 quilômetros, da sua aldeia. Naquela época, as pessoas se casavam sem que jamais tivessem visto o rosto uma da outra." (pág. 133)

"Mamãe começou a dizer 'quando eu morrer...' cada vez com mais frequência. Você sabe, essa foi a arma dela por um longo tempo. Sua única arma quando se tratava de filhos que não queriam fazer as coisas do jeito que ela queria que fizessem. Não sei quando isso começou, mas, sempre que não aprovava alguma coisa, Mamãe dizia 'Faça isso depois que eu morrer'." (pág. 217)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Uma janela para o inferno

Título: Uma janela para o inferno
Autor: Brice Pelman
Páginas:

Romance policial da série Mistério, lançado pela Editora Abril em 1981. Essa série era composta por vários títulos, geralmente de pouca espessura e autores diversos. Esse título era o nº 28 da série.

Didier, um jovem de dezesseis anos que viaja num carro-casa com o pai e a mãe, descobre os prazeres do amor com a bela Viviane, uma mulher que mora sozinha num vinhedo. O envolvimento com Viviane traz complicações para Didier quando, para protegê-la, ele mata um indivíduo.

Trechos interessantes:

"Dei uma olhada no meu relógio de mergulho. Eram vinte e uma horas e onze minutos. Não precisava tanta exatidão assim, mas se não é pra ser exato, o que adianta ter um relógio?" (Pág. 5)

"Papai sempre chamava de novos-ricos todos aqueles que ganhavam mais do que ele. Quer dizer, todo mundo... Eu não tenho ideia do que Viviane tinha, de quanto ganhava, mas, na certa, o velho ia achar que ela também era uma nova-rica. Ou, então, ia dizer que era uma mina, uma piranha. Eram as palavras preferidas dele; o mundo era povoado por novos-ricos, vigaristas, minas e piranhas. Ah, não! Tinha também os filhos da puta. Abaixo de uma certa idade, os caras eram filhinhos da puta." (pág. 27)

"-Você não devia falar dessas coisas na frente de Didier! - disse ela, brava. -Olha só como ele está!
Papai sacudiu os ombros e usou a voz tipo Gabin:
-Didier já está na idade de ouvir essas coisas! Mantendo esse garoto todo protegido em algodão, você acha que vai fazer dele um verdadeiro homem, é?
-Um homem! Um verdadeiro homem! - resmungou minha mãe. -Ele tem muito tempo para ser um homem!
-A violência e o crime vão ser a ruína da civilização, e nosso filho precisa saber disso!" (pág. 39)

"Não era um sarro o que estava me acontecendo? Dois dias antes eu nunca tinha sequer visto uma mulher nua e, agora, graças a ela, tinha me tornado um perito, um amante de classe. Bom... claro. Também nesse meu caso havia o tal do reverso da medalha, de que todo mundo fala. Eu tinha matado um cara." (pág. 50)
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Advogado do diabo

Título: Advogado do diabo
Autor: Jonathan Maberry
Páginas: 318

A proposta do livro é mostrar a origem de Dana Scully, uma das personagens principais do seriado "Arquivo X". Seria, digamos assim, um rascunho do que viria a ser o seu trabalho futuramente. Aqui, Dana é uma garota de 15 anos e suas preocupações são as típicas da adolescência, com muitas dúvidas e quase nenhuma certeza.

Quando alguns garotos da escola morrem em acidentes de carro, Dana acha estranho o fato de, numa cidade pequena, várias mortes ocorrerem por acidente e em pouco espaço de tempo. Ela passa a ter visões dos alunos mortos e procura ajuda na loja de terapia e meditação que costuma frequentar. Apesar do esforço e dedicação de Dana, solucionar o caso não vai ser tão simples quanto ela espera.

Trechos interessantes:

"Dana não era tão zelosa quanto queria ser. A fé, como a crença em qualquer coisa que fizesse parte do mundo espiritual, exigia esforço da parte dela, mas ao mesmo tempo a interessava. Dana gostava do método e da estrutura de rituais e preces; eram como fórmulas para ela. Dana ia à igreja, mas não tanto quanto a mãe queria. Ela sabia que havia respostas ali, mas talvez não para suas perguntas. Ou talvez fosse o instinto que dizia para Dana que a igreja não responderia a todas as questões. Ela não tinha certeza." (pág. 15)

"Ouviram um som como de uma lancha a toda velocidade, e um borrão passou por elas. Dana vislumbrou o cabelo mais ruivo da família, as bochechas sardentas, uma camisa listrada e tênis gastos quando o Scully mais jovem passou por ela, irrompeu porta afora, pulou da varanda e desapareceu. Charlie, de dez anos, era daquele jeito. Era quase um fantasma na família, raramente interagia com alguém e vivia constantemente dentro da própria cabeça, perdido em sabe-se lá que fantasia solitária ele representava." (pág. 24)

"Melissa parecia ter vinte anos quanto tinha doze. A mãe tentou dizer para Dana que parecer uma mulher adulta naquela idade não era uma bênção, mas ela sempre invejou a silhueta de Melissa. 'Charme, uma personalidade extrovertida, um grande senso de humor e peitos', ponderou Dana ao catalogar os trunfos da irmã. 'E o que eu tenho? Melancolia? Notas melhores? Uma grande dose de esquisitice? É, isso vai conquistar todos os garotos.'" (pág. 33)

"-Se você esperar até que um ataque aconteça para planejar uma defesa - disse Miyu -, então já foi derrotada. Nós treinamos a vida inteira para estarmos preparadas para um ataque, de maneira que no momento nós reagimos corretamente, usamos a memória muscular, os reflexos e o desenvolvimento de uma habilidade repetitiva arraigada profundamente. Havia um ditado entre os samurais que dizia que treinamos dez mil horas para um único momento que pode nunca acontecer. Ah, mas se acontecer, então todo aquele treinamento valeu a pena. E... se não acontecer, então aquelas horas foram bem gastas, porque um samurai não é julgado pela agudeza de sua espada, mas pela agudeza da mente." (pág. 47)

"-Você também planeja se tornar um policial?
-Eu? Não exatamente. Eu quero ser um cientista forense.
-O que é isso?
-É alguém que trabalha para o departamento de polícia coletando e analisando provas. Manchas de sangue, impressões digitais, todo tipo de coisa. Há um ditado que diz 'o contato sempre deixa um rastro', e é isso que os peritos forenses procuram. Sabe nos seriados policiais quando o policial diz que está mandando algo para o laboratório? É o departamento forense. É ali que o verdadeiro trabalho policial ocorre." (pág. 88)

"-Acho que sim.
-Não - retrucou Luz do Sol, fazendo um sinal negativo com o dedo. - Essa é uma resposta imprecisa. Ou você concorda ou não. Tenha certeza, Dana. Não me venha com evasivas, nem se esconda atrás de truques de ofuscação.
Ela assentiu com a cabeça.
-Desculpe.
-Não se desculpe, também - disse ele. - Você veio aqui para aprender, e isto é uma lição. Jamais peça desculpas pelo que você não sabe. Não há vergonha nisso. A vergonha existe quando você se recusa a aprender ou quando finge não saber. Isso é ignorância proposital, e é desprezível." (pág. 169)

"-O futuro não é uma verdade absoluta, agente Gerlach. A chave para a sobrevivência é estar preparado para quando a oportunidade surgir." (pág.189)

"Tudo na vida de Dana parecia estranho, complicado e explosivo, e agora ainda tinha aquela confusão com Ethan. Aquilo realmente a magoou, porque ela gostava mesmo dele, e agora Ethan fazia aquilo. Ele mostrou que não era diferente de qualquer outro garoto, de qualquer outro homem. Dana era uma garota, e aquilo significava que ela era inferior. Foi o que Ethan tentou não dizer, mas foi o que saiu. O mundo não foi feito para garotas ou mulheres. Foi feito por homens que não queriam compartilhar nada. Nem o poder, nem o dinheiro, nem as vantagens, nada. Aquilo a deixou furiosa. Afinal de contas, era 1979. Tudo isso já não deveria ter sido resolvido àquela altura?" (pág. 238)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Por que o Brasil é um país atrasado?

Título: Por que o Brasil é um país atrasado?
Autor: Luiz Philippe de Orleans e Bragança
Páginas: 254

Eis um livro que deveria ser lido por todos os brasileiros, de forma a entender os conceitos básicos de política, economia e sociedade e conseguir compreender por que estamos nessa situação catastrófica e, quem sabe, vislumbrar alguma possibilidade de que possamos sair do buraco.

O livro analisa o processo político do Brasil desde sua origem, mostrando os principais problemas e entraves, à luz das Constituições e ainda é recheado de gráficos e exemplos. Mesmo quem não tem noções de política ou economia consegue assimilar a ideia principal do livro. Claro que não há uma resposta única à pergunta-título, mas, mesmo assim, várias sugestões são apresentadas.

Trechos interessantes:

"Chegamos ao momento atual em que fica óbvio que nossos governantes não nos protegem. Nem sequer nos representam; eles nos espoliam. Não temos mais o noblesse oblige, ou seja, a obrigação dos nobres. Nossos governantes gastam mais fortunas hoje do que aquelas consumidas pelos castelos reais de outrora. Preferem arrecadar 40% em impostos do que doar 2% diretamente para entidades beneficentes honestas e eficientes." (pág. 10)

"Quem não sabe o que é, não sabe o que quer. E, quem não sabe o que quer, não chega a lugar algum." (pág. 15)

"Em 2016 o desconhecimento da Constituição produziu ruídos como a qualificação de 'golpe' ao processo contra a ex-presidente Dilma Rousseff - narrativa que chegou a cruzar o Atlântico e influenciar alguns jornais de boa reputação. Uma olhadela rápida na própria Constituição esclareceria a dúvida e simplesmente aniquilaria o discurso do golpe em minutos. Depois, o Partido dos Trabalhadores passou a difundir que o impeachment seria, na verdade, um 'golpe constitucional'. Ora, ou é golpe ou é constitucional. É impossível que uma medida seja as duas coisas. Além disso, um golpe de Estado normalmente muda o regime - de totalitarismo para democracia, ou mesmo o contrário. Como se viu, não foi o que tivemos no país." (pág. 35/36)

"A Constituição japonesa de 1947 é um exemplo notável. Como o Japão saiu derrotado da Segunda Guerra Mundial, o texto foi fortemente influenciado pelos Estados Unidos. A Carta introduziu valores liberais, tais como os direitos de ir e vir, de liberdade de expressão e de livre associação. Instituiu ainda o habeas corpus, as eleições livres e o mecanismo de recall, que permite o afastamento de políticos eleitos de acordo com regras democráticas, bastando para isso que haja vontade popular. Um capítulo específico da Constituição estabelece que o país renuncia à participação em qualquer guerra, o que desarticulou definitivamente a cultura imperialista e belicista que antes predominava." (pág. 41)

"O brasileiro médio repete o clichê de que todo político é bandido e só defende os próprios interesses. Ainda assim, esse mesmo cidadão quer que o Estado se encarregue da gestão da sociedade, urra de cólera caso veja no Jornal Nacional que alguém está propondo a privatização dos Correios ou da Caixa Econômica Federal e acha inaceitável a possibilidade de que a Petrobras seja vendida. Reage com igual indignação quando o foco do debate é o ajuste na Previdência Social ou a flexibilização das leis trabalhistas. Ou seja: o brasileiro defende a preservação dos territórios em que os políticos atuam." (pág. 51)

"Em uma economia desenvolvida, há menos trabalho doméstico. Isso não ocorre porque o governo proibiu ou dificultou esse tipo de atividade, mas porque o mercado de trabalho oferece opções melhores aos trabalhadores. No Brasil, temos mais empregados domésticos porque para muitos trabalhadores, essa é a única alternativa. O problema, evidentemente, não está com o trabalho doméstico, com quem decidiu ser ou ter um empregado em casa, mas com as limitadas alternativas geradas por uma economia altamente regulamentada." (pág. 55/56)

"Segundo [Adam] Smith, uma economia próspera não surge de ações dos governos, mas sim de ações voluntárias de compradores e vendedores em mercados livres. Isso significa que nenhum grupo deve determinar artificialmente qual será a oferta ou a demanda de um produto ou serviço." (pág. 68)

"É de [Adam] Smith a frase: 'Nenhum país é próspero se a maior parte de sua sociedade é pobre ou miserável'." (pág. 76)

"A esquerda mundial e a esquerda brasileira sabem empregar a retórica política sem nexo com a realidade - e, quando convém, alteram a história e fatos para criarem novas realidade e retórica. Na retórica em questão o povo é iludido a crer que só existem duas opções: ou o Estado (o bonzinho) fica no controle de tudo, ou a oligarquia econômica do capital (grandes empresários malvados) se torna o controlador. Nessa visão, não há sequer menção da verdadeira opção defendida pelos defensores do livre mercado como Smith, Hayek e Mises. É justamente a omissão dessa opção na retórica populista da esquerda marxista que precisa ser combatida, no Brasil e no mundo." (pág. 81)

"A nova Constituição de 1988 contém artigos que representam todo o acúmulo de anseios por um sistema mais participativo que foram sufocados pelo regime militar, mas também traz consigo artigos que auferem direitos sociais excessivos, muito além das cláusulas utópicas contidas nas constituições de 1934 e de 1946. Mas o ponto que tornou a Constituição de 1988 a mais interventora entre todas as outras que já vigoraram na história do Brasil e que a colocou na contramão dos eventos históricos é o fato de que ela sepultou qualquer possibilidade de liberalismo econômico no Brasil." (pág. 90/91)

"Não existe apenas uma forma de liberalismo político - essa é uma ideia complexa que se configurou de vários modos em países distintos. Mas embora não seja tão simples definir o que é liberalismo, é bastante fácil definir o que não é: Estado interferindo na economia e na sociedade e se metendo na vida das famílias por meio de uma crescente e incontrolável burocracia nunca será liberalismo." (pág. 114)

"E aqui chego à resposta-título deste capítulo para a grande pergunta do livro: 'Por que somos um país atrasado?'. Uma das respostas é porque o país vem sendo governado por uma sucessão de oligarquias." (pág. 129)

"As oportunidades e não necessariamente a renda ou o capital é que precisam estar acessíveis a uma massa crítica de pessoas para se criar a percepção de que todos podem sair da pobreza através de seus próprios esforços. Caso contrário, as pessoas sentem que existem obstáculos intransponíveis travando suas vidas. Desenvolvem a percepção de que estão presos à pobreza ou à mediocridade por mecanismos que nada têm a ver com seus esforços ou talentos. Essa percepção torna-se um risco para a estabilidade de um país." (pág. 159)

"O conceito original de tirania era de um governo em que o líder máximo não havia recebido o poder de forma legalmente prescrita - ou seja, que não era um monarca eleito ou hereditário.
O termo é utilizado de maneira precisa em Édipo Rei, de Sófocles. Nessa tragédia grega, quando Édipo assume o trono de Tebas após desvendar o enigma da Esfinge, ele é chamado de 'tirano'. Não há a menor sombra de componente negativo nessa designação. No desenrolar da peça, no entanto, a identidade de Édipo é revelada e todos descobrem que ele é efetivamente o herdeiro do trono de Tebas. É, portanto, o rei. A propósito, a tradução literal do título da obra de Sófocles é Édipo Tirano. A troca para 'rei' ocorreu para se evitar interpretações equivocadas por parte do público contemporâneo." (pág. 187/188)

domingo, 31 de dezembro de 2017

Laços de sangue

Título: Laços de sangue
Autor: Michael Cunningham
Páginas: 458

O livro relata a vida da família Strassos. Constantine, um jovem grego, vai para a América em busca de um futuro melhor. Ali se casa com Mary, descendente de italianos e inicia uma família. Teve três filhos mas não se deu bem com nenhum deles. Nunca conseguiu se entender com Billy, seu filho; tinha uma paixão incestuosa por sua filha Susan e era indiferente à sua caçula, Zoe.
Com o passar dos anos, Constantine vai conseguindo estruturar sua vida financeira, mas não tem o mesmo sucesso com sua família: seu filho se revela um homossexual, Susan embarca num casamento insosso para se afastar do pai, Zoe se prostitui e ele se separa de Mary. No fim, sua família tomou um rumo totalmente diferente do que ele uma dia imaginara.

Trechos interessantes:

"Embora amasse os três filhos, Billy era o único que ela conseguia ler. Para ele Mary comprava suéteres macios com decote em V, da Escócia. Quando ele entrou para a quinta série, comprou uma pasta de couro cor de vinho e um chapéu verde de caçador. Para as meninas, ela mobiliou uma casa de bonecas, que primeiro passou a noite no quarto de Susan e depois no de Zoe. A poeira se acumulava na mobília de madeira trabalhada, nas lâmpadas que funcionavam de verdade. Com um aperto de prazer culpado, Mary periodicamente limpava a casa de bonecas e rearranjava os pequenos móveis." (pág. 42)

"Se ele a segurasse ali mais um minuto - se dissesse que não se importava com as regras e a ira do pai dela - Susan poderia dar início ao longo processo de se apaixonar por ele. Mas a força de Todd residia em  fazer absolutamente tudo o que se esperava dele. Era conhecido por sua cooperação expansiva, alegre. Algumas vezes citava Will Rogers: 'Nunca encontrei um homem de quem eu não gostasse'." (pág. 61)

"Um dia eu vou matar o papai e, quando isso acontecer, não quero que as pessoas saiam por aí dizendo que eu perdi o controle, ok? Quando eu o matar não vou machucar ninguém mais, não vou quebrar nada. Mas ainda assim, quero que fique claro. Quero que você diga que ficou aqui fora comigo uma noite e que eu disse que ia matá-lo. Só ele. Ninguém mais. Você faz isso? Você faz isso pra mim?" (pág. 66)

"'Parece que o casamento está sendo um sucesso.'
'Acho que todo casamento é um sucesso, não é, não? Quer dizer, desde que realmente se casem, tá feito.'
'Se fosse só isso que importasse, eles poderiam ter ido a um juiz de paz e poupado a seu pai o gasto de quase cinco mil dólares.'
[...]
'Quando eu me casar', Billy disse, 'nós vamos a um juiz de paz. Se alguém quiser contribuir com cinco mil paus, a gente vai pegar a grana e passar, vamos dizer, um ano na Europa.'
'A garota com quem você se casar pode pensar de forma diferente.'
'Eu não me casaria com alguém que pensasse de forma tão diferente assim.'" (pág. 91/92)

"As duas primeiras vezes eles deixaram passar, depois a advertiram. Madame, acho que a senhora cometeu um engano. Tenho certeza de que a senhora não tinha intenção de pôr essa escova de cabelo dentro de sua bolsa. Quando tornou a fazer a mesma coisa, eles a prenderam.
Os tiras foram educados, ficaram até embaraçados. Isso era a América. Se você fosse um sujeito realizado, se tivesse ganho dinheiro, até a polícia queria acreditar na sua inocência. Para Constantine, o embaraço deles era mais aflitivo do que teria sido o ódio." (pág. 109)

"[...]'Não nego que já andei afanando nas lojas durante um certo tempo, mas, queridinha, isso não comprometeu de jeito nenhum minha capacidade de reconhecer um pervertido quando vejo um deles.'
'Um pervertido', disse o homem. 'Está certo. Você está me chamando de pervertido.'
'Pervertido', continuou o homem de peruca, 'é alguém que faz aos outros coisas que eles não querem que lhes sejam feitas. Ponto.'" (pág. 151)

"Zoe disse a Trancas: 'Não sei se você deveria estar fazendo isso.'
O rosto de Trancas continha sua luz arrebatada, furiosa. Ela já estava longe.
'Trinta dólares, Zo. Para um trabalho aí de uns vinte minutos. Mais uns nove caras e aquela Harley é minha.'
'Mas isso é prostituição.'
'Cara. A mesma coisa é ser garçonete ou secretária. Só que isso paga melhor.'" (pág. 157)

"E o que acontecera com seu filho? Aos vinte anos, ele era um garoto de pequenos óculos redondos, do tipo que as solteironas amargas usavam. Um garoto cujos cabelos tocavam os ombros finos com uma secura nervosa, como as cortinas de uma velha. Participante lá em Harvard, devotado aos humildes da terra, cujo trabalho, no cômputo geral de suas vidas, nunca fora tão duro quanto o de Constantine numa única semana. Ele podia contar umas histórias sobre condições desfavoráveis. Tentem vir para este país sem dinheiro nenhum, sem saber nada de inglês além de 'alô' e 'por favor'. Quantos homens poderiam construir o que ele construíra a partir de 'alô' e 'por favor'? Então vocês são pretos. Me desculpem. Agora me contem sua verdadeira história." (pág. 168)

"O que acontecera? Uma pessoa como Billy, um rapaz tão bem preparado, deveria estar devorando o mundo. Deveria andar a passos largos vida afora, forte como um cavalo, esperto como um lobo, extraindo o sangue dócil dos corações das mulheres. Quando Mary deu à luz um filho, Constantine se imaginara pegando punhados do futuro e os enfiando na boca do filho. Filhas, mesmo as melhores, desapareciam nas vidas dos homens. Mas um filho te carregava. Os prazeres dele te incluíam; você vivia na própria pele e também na pele dele." (pág. 169)

"E realmente o rio era lindo. Era um grande rio largo com árvores nas duas margens, e o senhor sabe que era difícil ter mais gente lá, pois não são muitos os que optam por andar tanto só para ver uma coisa que flui diretamente das torneiras da nossa casa..." (pág. 263)

"O que parecia impossível era a ideia de que ela pudesse morrer antes que Jamal tivesse idade suficiente para saber que ela era alguém que também fora criança. Se Zoe morresse enquanto  ele era ainda muito jovem, ela existiria na memória dele apenas como mãe. Ele se lembraria das bondades e dos erros. Construiria seu próprio mito e isso seria o que ele carregaria dela. Era assim que ela viveria depois da morte, como um exagero e uma abstração. Era uma ideia que ela detestava e que ao mesmo tempo, numa região bem longínqua no fundo de si, a fascinava." (pág. 306)

"'Eu queria sair com você um dia.'
'Os lugares aonde vou não são para meninos de dez anos.'
'O que é que você faz quando sai?'
'A gente já conversou sobre isso antes.'
'Quero ouvir outra vez.'
'Danço em cima do balcão do bar e falo com gente idiota. Se eu achasse que você estava perdendo alguma coisa, eu te levaria. Pode confiar em mim.'
'Então por que é que você sai sem parar?'
'Tenho talento para isso. As pessoas devem fazer aquilo em que elas são boas, você não acha?'" (pág. 341)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Especiais

Título: Especiais
Autor: Scott Westerfeld
Páginas: 350

O livro é a continuação da saga iniciada com "Feios" e depois "Perfeitos", um futuro utópico onde a beleza é levada ao extremo que os jovens ao atingirem a adolescência ganham de presente uma cirurgia que os torna simplesmente perfeitos.

Neste volume, não basta ser perfeito, tem que ser Especial. Tally faz parte de um grupo dos Especiais cuja função é algo assim como fiscalizar os Perfeitos. Seu objetivo principal é encontrar a cidade onde vivem as pessoas que se recusam a se transformarem em perfeitos. No final, Tally começa a se questionar se o fato de ser especial é algo realmente significativo.

Trechos interessantes:

"-Eu me lembro de tudo agora, David! Finalmente entendi! - Sua mente estava clara como a de um Especial, livre de emoções descontroladas de feios e pensamentos avoados de perfeitos. Tally percebeu a verdade sobre os Enfumaçados. Eles não eram revolucionários, não passavam de egocêntricos que brincavam com a vida dos outros, deixando um rastro de destruição." (pág. 53)

"Ela [Tally] geralmente adorava fogueiras pela maneira como davam vida às sombras e pela maldade de queimar árvores. Essa era a principal razão de ser especial: a pessoa existia para manter os demais na linha, mas isso não queria dizer que ela precisava se comportar." (pág.62)

"-Eu não quero ver as coisas desse jeito! Não quero sentir nojo de quem não for da nossa turma, Shay!" (pág. 93)

"Guerra biológica tinha sido uma das ideias mais brilhantes dos Enferrujados: criar bactérias e vírus para matar uns aos outros. Era uma das armas mais estúpidas que alguém poderia projetar, porque assim que os micro-organismos acabavam com os inimigos, eles geralmente iam atrás de quem os soltara." (pág.109)

"Tally percebeu que estava sentada no ponto cego da máquina. As câmeras não conseguiam virar para vê-la e o chassi blindado não tinha sensores para detectar seus pés. Aparentemente, quem projetara a nave voadora jamais imaginara que haveria um adversário em cima dela." (pág.267)

"Tally estava começando a se indagar se todas as cidades tinham departamentos de Circunstâncias Especiais ou se eram como Diego, que permitiam o livre trânsito das pessoas. Talvez a cirurgia especial- aquela que tornou Tally o que ela era - fosse algo que a Dra. Cable tivesse inventado sozinha. O que significaria que Tally realmente era uma aberração, uma arma perigosa, alguém que precisava ser curada." (pág. 273)

"A liberdade acaba destruindo as coisas, eu acho." (pág. 335)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Homem-máquina

Título: Homem-máquina
Autor: Max Barry
Páginas: 284

Charles Neumann é um engenheiro que trabalha num laboratório de pesquisas. Um dia, por acidente, ele perdeu uma das pernas em uma máquina e teve que usar uma perna mecânica. Ele percebeu que poderia fazer algumas inovações nessa perna de maneira a melhorar o seu funcionamento.

Ele se sentiu tão bem com o resultado que resolveu, propositadamente, perder a outra perna para também implantar uma nova perna mecânica. Daí para a frente a preocupação de Charles era procurar em seu corpo o que poderia ser trocado por partes mecânicas. Seria possível ao homem inventar-se a si mesmo?

Trechos interessantes:

"Ao acordar, fui pegar meu celular e ele não estava lá. Comecei a tatear pela mesinha de cabeceira, meus dedos se enfiando entre romances que eu não lia mais porque, quando se vira adepto dos e-books, não há mais volta." (pág.7/8)

"Não tinha nada em cima da mesinha de centro, mas embaixo havia um monte de obras de referência em que eu não tocava desde o surgimento do Google. Uma lista telefônica, por algum motivo. Uma lista telefônica. Três milhões de folhas feitas de árvores mortas empilhadas como um monumento à ineficiência do papel como plataforma de distribuição de informação." (pág. 8)

"Sou um sujeito inteligente. Reciclo meu lixo. Um dia encontrei um gatinho perdido e o levei para um abrigo. Às vezes faço piadas. Se há algo de errado com seu carro, posso dizer o que é só de escutá-lo. Gosto de crianças, menos das que são mal-educadas com adultos e cujos pais simplesmente ficam ali parados, sorrindo. Tenho um emprego. Possuo um apartamento próprio. Raramente minto. Pelo que sei, são qualidades que as pessoas procuram em alguém. Só posso pensar que deve ser outra coisa, algo que ninguém menciona, porque não tenho amigos, vivo longe da minha família e não namorei ninguém na última década. Um cara no Controle dos Laboratórios atropelou e matou uma mulher, e ele é convidado para as festas. Não entendo isso." (pág. 12/13)

"Finalmente ele ligou o carro e saiu cantando pneus. Fiquei vendo o carro virar a esquina voando, já a uns 70 ou 80 quilômetros por hora. Continuei meu caminho. Senti-me ligeiramente ofendido por uma pessoa tão má ter um carro tão bom. Porque o carro era o auge de mil  e tantos anos de progresso científico. Mas o sujeito era um babaca. Fiquei me perguntando quando isso havia acontecido: quando tínhamos começado a fazer máquinas melhores que pessoas." (pág. 60/61)

"-[...]Mas qual é o problema da área médica? O mercado é limitado a pessoas doentes. Imagine: você investe 30 milhões no desenvolvimento da maior válvula arterial do mundo e aí chega alguém e cura doenças cardíacas. Seria um desastre. Não para as... não para as pessoas, obviamente. Quero dizer para a empresa. Financeiramente. Sabe, esse é o tipo de risco comercial que deixa o pessoal lá de cima nervoso na hora de fazer grandes investimentos de capital." (pág. 86)

"Ninguém tem culpa de agir de forma violenta quando seu cérebro é inundado por vasopressina. É o que acontece, só isso. Você solta um copo, ele cai em direção ao chão. Talvez não seja esse o resultado que você queria, mas não culpe o copo. Não faça um julgamento moral porque a causa produziu um efeito. Somos máquinas biológicas. Temos necessidades movidas por substâncias químicas. Injete um determinado coquetel químico em uma freira, e ela vai começar a distribuir socos. Isso é fato." (pág. 103)

"Uma vez li que a gente precisa de duas coisas para ser feliz: entre saúde, dinheiro e amor, apenas duas dessas três opções. Eu me reconfortava com essa ideia enquanto tinha um corpo inteiro, um emprego e nenhum amor. Isso fazia com que eu sentisse que não estava perdendo muita coisa. Mas agora eu percebia que isso era uma bobagem sem tamanho, porque saúde e dinheiro não se comparavam de forma nenhuma a amor."(pág. 124)

"-Uma coisa que me surpreende neste lugar - disse Jason. -Nunca se ouve alguém dizer não deveria. Tipo, você não deveria fazer isso. Eles dizem que alguma coisa é impossível ou cara demais. Mas nunca errada. E sei que somos engenheiros, não filósofos. Li a declaração de missão. Mas às vezes eu gostaria que tivéssemos alguma documentação ética. Eu meio que gostaria que alguém muito sábio me dissesse que existem algumas coisas que não devem ser feitas ainda que seja possível fazê-las." (pág. 160)

"O Gerente jazia a poucos metros de distância. Ele não parecia nem um pouco melhor visto mais de perto. Fiquei enjoado, depois senti raiva, porque, se o Gerente tivesse Partes Melhores, estaria bem naquele momento. Estaria andando por aí em pernas mecânicas e eu não me encontraria naquela situação. Que tipo de CEO organizava um projeto para fabricar peças artificiais e não usava nenhuma delas? Era ridículo." (pág. 178)

"Há uma expressão que diz: Para quem só tem um martelo na mão, tudo na vida é prego." (pág. 183)

"-Quero que você diga que Lola é perfeita do jeito que ela é.
Hesitei. Será que existe alguém realmente perfeito? Ninguém pode ser perfeito na maior parte do tempo. Ninguém pode ser perfeito em apenas alguns momentos. Ou você é perfeito ou não é. E eu não acho que a biologia trabalhe com a noção de perfeição. Biologia é ciência aproximada. É uma questão de ser razoavelmente boa. Um vácuo é perfeito. Pi é perfeito. A vida não." (pág. 201)

"Existem cinco estágios de luto. O primeiro é a negação. Por exemplo: Minhas pernas não podem estar mortas. Não podem. O seguinte é a raiva: Você matou as minhas pernas, saia daqui, tire suas mãos de mim, etc. Esse estágio inclui gritos e demonstrações de raiva. Algumas acusações injustas. Lágrimas e sentimentos feridos.
Depois a barganha. É uma fase mais calma. Que pelo menos a bateria fique bem. Por favor, que a bateria ainda esteja funcionando. A quarta, depressão. Elas morreram. Eu morri. É uma espécie de autopiedade. Um fechamento em si mesmo. O último estágio é a aceitação. Não incluo exemplos porque eu ainda estava muito, muito longe da aceitação." (pág.207/208)

"Quando entrei na banheira, uma película de gordura se destacou da minha pele, formando um redemoinho ensebado de Mandelbrot. Eu era o centro de uma galáxia de suor e sujeira que ia se dissolvendo. Eu não havia percebido a intensidade do meu fedor. A gente pode se acostumar a qualquer coisa. Nosso cérebro só reclama quando ocorrem mudanças." (pág. 211/212)

"Mas o senhor sabe como são os usuários. Eles nunca dedicam o tempo necessário para compreender bem a tecnologia. Só querem aprender o essencial. O suficiente para fazer com que ela funcione. E isso simplesmente não é viável quando a tecnologia é tão poderosa. Acho que realmente chegamos ao ponto em que usuários nesse aspecto estão se tornando obsoletos." (pág. 244)

domingo, 3 de dezembro de 2017

Tocaia Grande

Título: Tocaia Grande
Autor: Jorge Amado
Páginas: 506

Natário é o capataz da fazenda Atalaia, uma grande propriedade cacaueira do sertão da Bahia, de propriedade do Coronel Boaventura. Ao realizar uma tocaia para atender aos "interesses" do Coronel, Natário achou que o local era adequado para o desenvolvimento de uma cidade. Dessa ideia surgiu um povoado que, dadas as circunstâncias, recebeu o nome de Tocaia Grande.

O livro relata a evolução da cidade, desde a primeira picada aberta até tornar-se uma cidade de fato. Começando como pouso de tropeiros, Tocaia Grande demorou muitos anos para se firmar como um povoado e depois como cidade. Para isso, muitos nomes foram extremamente importantes como o Capitão Natário, o turco Fadul, o negro Tição, além das prostitutas que faziam a vida no local. Tocaia Grande prosperou, mas não sem sacrifício.

Trechos interessantes:

"Ouvidos à escuta, tentando distinguir rumor de passos em meio à comoção da borrasca - o zunido do vento, o estrondo do trovão, o barulho medonho da queda de um pé de pau atingido pelo raio -, encharcados, cobertos de lama, distribuídos por detrás das árvores, no alto da colina, os cabras esperam, tensos. Habituados ao tempo longo das tocaias, temperados no perigo e na luta, íntimos da morte, ainda assim não conseguem impedir incômoda sensação de agonia diante da fúria da natureza, o fim do mundo. Procuram manter a calma, controlar o sobressalto; medo maior sentem de Natário: da intempérie poderão escapar com vida, de bala do capataz nem por milagre." (pág. 26)

"Chegado ao Brasil há quinze anos, Fadul viera para trabalhar e enriquecer. Enriquecer é a meta de todos os homens, para alcançá-la Deus lhes dá alma e inteligência. Uns cumprem à risca o mandato do Senhor, ganham dinheiro e se estabelecem, outros não conseguem; alma pequena, inteligência curta ou tão-somente pouca disposição para o trabalho, preguiça, malandrice." (pág. 39)

"Não cabia discussão: lavra nenhuma no mundo se compara à do cacau, nenhuma compensa tanto e tão rapidamente. Plantar cacau é o mesmo que semear ouro em pó para colher barrotes." (pág. 47)

"Dali não arredaria pé: nem por conselho de doutor, nem por ameaça de jagunço, nem por engodo de mulher. Ainda não nascera fêmea capaz de obrigá-lo a desistir, de mudar o curso do destino. Quem perde a cabeça por mulher a ponto de abandonar o uso da razão acaba na penúria, objeto de riso e de debique, avacalhado." (pág. 83)

"Com o filho doutor ali à mão, o Coronel não mais precisaria utilizar os serviços de outros bacharéis para cuidar-lhe os interesses nos fóruns e cartórios, tampouco depender de terceiros a quem eleger para cargos de confiança, a quem delegar comandos. Ficava a salvo de aleives e falsidades, de surpresas: assunto mais traiçoeiro do que a política só mesmo a justiça. Por isso andam sempre juntos, de mãos dadas." (pág. 117)

-[...]O que é que tu pensa? Que isso aqui é uma cidade? Isso aqui é uma tapera com uma bodega, quatro putas e com nós no barracão do Coronel: é cada um por si e Deus por todos. Se tu quiser, fica aqui com nós que nada vai assuceder.
Caminhou até junto à porta onde Bernarda estava aflita e tensa e lhe disse sem rancor:
-Mas se tu não quiser ficar, se arresolver se matar pelo turco, pode ir. Nós não sai daqui. Se eles vier nós ensina eles com quantos paus se faz uma cangalha. A gente só tem uma vida e uma morte pra gastar." (pág. 167)

"Cada vivente, por mais miserável e despossuído, por mais coitado e sozinho, tem direito a uma quota de alegria, não há sina que seja inteira de amargura. Não importa o custo, o preço a pagar. A própria Jacinta pagara preços absurdos por um capricho, a chama de um desejo. Nunca se arrependera nem mesmo quando, após fenecerem a excitação e o júbilo, a solidão medrara cinzenta e acerba. Afinal, que se leva da vida além da dolência e da ânsia, da agonia e da ventura de um xodó? Vale a pena correr o risco: por mais caro que seja o preço, será barato." (pág. 237)

"No fim da página, sob a assinatura: 'sua para sempre Maria José Batista', ela pusera uma quantidade de vírgulas, pontos finais, pontos de exclamação e de interrogação para ele espalhar na carta onde conveniente fosse." (pág. 288)

"Nos cabarés, os fazendeiros espoucavam champanha, presenteavam as comborças com anéis de brilhante, pulseiras de ouro, colares de pérolas. Para um coronel ser deveras respeitado, devia possuir casa civil e casa militar: na civil, esposa austera e religiosa, rainha do lar, devotada aos cuidados da família, aos deveres de mãe; na militar, amante vistosa e chique, posta aos trinques, boa de cama, alegre companhia, para deleite da vista e regalo do corpo e para fazer inveja." (pág. 349)

"No balcão de seu próspero negócio, Fadul Abdala ouvia os relatos assustados, os maus presságios. Todos eles, os fazendeiros, os alugados, as raparigas e o tocador de harmônica preocupavam-se com a floração das roças, os incipientes bilros nascendo nos cacaueiros, com o temporão e a safra.
Escutando, constatava que ninguém se referia ao destino dos viventes. Calculavam o montante dos prejuízos causados pela enchente do rio Cachoeira, mas com a sorte dos retirantes sem pouso e sem comida, apinhados em Ferradas, ninguém se preocupava nem deles se compadecia. (pág. 354/355)

"Zilda balançou a cabeça, em concordância: não estavam discutindo, apenas conversando. Conhecia o marido e sua maneira de pensar: quem tem mando e autoridade, tem obrigações. De nada adiantaria argumentar, menos ainda se opor. Cumprira sua parte, expusera seus temores: a ele competia decidir, a ela obedecer." (pág. 396)

"-Me disseram que Venturinha ofereceu lhe pagar o que você pedisse.
-Coronel, eu penso que todo homem tem vontade de ser dono de sua sina. Quando eu comecei a ganhar a vida, acompanhando romeiro lá no São Francisco, ouvi o povo dizer que a sina da gente tá escrita no céu e ninguém pode mudar, mas meu pensar é diferente. Acho que cada criatura tem de cuidar de si e sempre tive vontade de ser dono de mim mesmo. Servi o Coronel por mais de vinte anos: tinha dezessete quando arribei por aqui, já festejei quarenta e dois. Nunca prometi servir à viúva ou ao filho. Nem nunca ele me pediu." (pág. 444)

domingo, 26 de novembro de 2017

O filósofo peregrino

Título: O filósofo peregrino
Autor: Marcos Bulcão
Páginas: 374

O livro é um relato de viagem do autor quando percorreu a pé a Via Francígena, uma rota de peregrinos que vai de Canterbury (Inglaterra) até Roma (Itália), numa extensão de aproximadamente 2 mil quilômetros e atravessando quatro países.

A Via Francígena, apesar de antiga, não é tão conhecida como o Caminho de Santiago e poucas são as pessoas que se aventuram a percorrê-la. O relato do autor apresenta mapas, altimetria, fotos e detalhes de todo o percurso, dividido em pequenas etapas. Além dos desafios e dificuldades o livro mostra também as reflexões e devaneios do autor durante o percurso.

Trechos interessantes:

"Muitas vezes as possibilidades que se apresentam diante de nós parecem igualmente boas naquele momento, então decidimos, despreocupados, por aquele caminho em vez daquele outro. Mas o que frequentemente esquecemos é que esses caminhos alternativos não seguem necessariamente 'rotas paralelas' ou próximas, e dificilmente haverá um 'outro dia' para voltar e percorrer aquele caminho - 'contar aquela história' - que se deixou para trás... (pág. 30)

"Quero a vida estável, com mulher e filhos, um trabalho, uma carreira, um papel marcante e reconhecido na sociedade, mas não menos uma vida nômade, com liberdade para ir aonde quiser e no momento em que a sede de novidade sobrevier, sem necessidade de justificar meus atos ou mudanças, de humor ou cidade, país ou profissão, porque eu estaria tão próximo do anonimato quanto possível." (pág. 31)

"Deste modo, o ápice do dia ficou mesmo reservado para a recepção na Abadia de Wisques. Sim, ali fui tratado como um verdadeiro peregrino, no seu mais profundo sentido, desde o primeiro momento em que lá pisei.
De fato, logo que entrei, encontrei um monge, a quem me identifiquei como peregrino. Em total deferência, ele me tomou a mochila das mãos e, antes mesmo que pudesse 'protestar', me pediu que o acompanhasse aos 'meus' aposentos. A caminhada se fez em silêncio. Chegando ao quarto, agradeci-lhe ainda uma vez, ao que ele me disse que passaria mais tarde para me chamar para o jantar." (pág. 56)

"'Acredito em Deus porque meu pai e o pai do meu pai e o pai do pai do meu pai acreditavam.' Como acreditam em Alá os que nascem no Egito ou no Marrocos; como acreditam em Buda ou Confúcio os que nascem na China ou Japão; como acreditavam em Zeus, Hera e Afrodite os gregos do passado; como acreditavam em todo tipo de deuses e entidades sobrenaturais os povos anteriores a eles." (pág. 60)

"De fato, o que está em jogo, verdadeiramente, nesta caminhada? Será que já tenho condições de responder a essa pergunta? Uma primeira tentativa é dizer que ela satisfaz pelo menos dois dos três elementos da minha 'sagrada trindade': amor, conhecimento, esporte/aventura." (pág. 71)

"País, cidade, amigos e família são como peças de roupa no inverno. Sem eles, sente-se frio. E eu quero sentir frio." (pág. 72)

"De um lado nada o obriga a andar, a fazer esse esforço. São os momentos em que a mente diz que a experiência será válida mesmo se você não percorrer todo o trajeto a pé, que você pode selecionar os trajetos mais bonitos para fazer ou, ainda, só andar nos dias em que estiver se sentindo bem e disposto.
De outro lado, há a mente do 'atleta', que insiste para que você prossiga, que diz que não há nada impedindo-o de continuar, que o corpo dá conta do recado, que as dificuldades fazem parte de todo grande feito e que são elas, no final da conta, que tornam grande um feito. De fato, se escalar o Everest fosse fácil, acessível a qualquer pessoa com um pouco de tempo e disposição física, ele não figuraria na lista dos grandes desafios do esporte." (pág. 80)

"Uma lição disso tudo: o 'mínimo' de que precisamos é sempre menos do que inicialmente pensamos. Um valioso aprendizado, ao mesmo tempo, de desprendimento e adaptação." (pág. 85)

"Frequentemente tenho longas conversas comigo mesmo, e sou tão inteligente que algumas vezes não entendo uma palavra do que estou dizendo. [Oscar Wilde]" (pág. 159)

"Uma vez me perguntaram qual o 'público-alvo' deste livro e eu não soube responder. Bem, acho que agora eu sei. 'Meu' público é o dos parágrafos anteriores, é aquele para quem essas palavras fazem algum sentido, despertam questões, pistas e, quem sabe, com alguma sorte, soluções." (pág. 171)

"Tive de responder algumas vezes à pergunta: mas por que decidiu andar de Londres a Roma, percorrer seus quase 2 mil quilômetros? Amigos, parentes e uma infinidade de desconhecidos me fizeram a mesma pergunta. Dei também, a cada momento, uma infinidade de respostas, mas, em geral, sempre tentava 'sofisticar' um pouco as razões: para meditar; colocar os pensamentos em ordem; reganhar perspectiva sobre minha vida; enfim, um modo especial de viajar, conhecer pessoas, paisagens, culturas etc.
É claro que todos esses aspectos são parte da resposta, mas o que percebo também é que uma das grandes motivações para andar esses 2 mil quilômetros, atravessar esses quatro países, foi o amor pela aventura, o desafio. Tal como um maratonista ou alpinista, fui também movido pela ideia de realizar um grande feito atlético, algo grandioso sob qualquer ponto de vista e, ainda assim, viável para minhas condições pessoais. Um modo privilegiado, enfim, de prestar um grande tributo ao esporte." (pág. 234)

"A palavra que transforma é a palavra falada, a palavra ouvida, não tanto a escrita." (pág. 241)

"Tempo... a mais valiosa das commodities, me disse uma vez o sábio Gustavo Queiroz, numa de nossas conversas que valeu mais do que anos de terapia." (pág. 332)

"Algumas pessoas vendem seu tempo em troca de dinheiro, poder, prestígio. Eu frequentemente troquei prestígio, poder e dinheiro por tempo, por mais liberdade de movimento. De fato, na famosa disputa 'tempo vs. carreira', sempre que precisei optei pelo primeiro." (pág. 333)

"De minha parte, e obviamente sem querer confrontá-lo [Monsignor Vercesi] de uma forma mais direta, eu dizia, quase me desculpando, que a promessa de uma vida eterna não representava para mim nenhum grande atrativo. Ao contrário, saber que essa vida, terrestre, terrena, é a única que temos à disposição a valoriza ainda mais, me faz querer fazer dela o máximo possível.
E esse 'máximo', na minha visão, incluía tentar levar uma vida de tolerância e respeito ao próximo, e eu tentava fazer isso - não por medo de punições ou por esperança de recompensas na suposta vida após a morte -, mas sim e sobretudo porque podia perceber que agindo assim a vida ao meu redor ficava necessariamente melhor, mais rica e feliz." (pág. 363/364)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O segredo da Dinamarca

Título: O segredo da Dinamarca
Autor: Helen Russell
Páginas: 366

Os dinamarqueses são considerados as pessoas mais felizes do mundo. A autora é uma jornalista inglesa que resolveu por à prova esse conceito. Ela resolveu acompanhar o marido que recebera uma proposta de trabalho de uma empresa dinamarquesa e ficar por lá durante 12 meses para descobrir se os dinamarqueses realmente se sentem felizes.

Apesar das dificuldades iniciais - idioma, costumes, falta de amigos, clima - aos poucos foi estabelecendo contato com os dinamarqueses e efetuava a seguinte pergunta: "Numa escala de felicidade de 0 a 10, que nota você daria a si mesma". A maioria esmagadora dos entrevistados concedeu nota 9 ou mais.

Trechos interessantes:

"A ideia de que poderíamos mudar a maneira que vivíamos fervilhava inquieta na minha cabeça, onde antes havia apenas uma aceitação estoica. O projeto Jessica Fletcher parecia, de repente, muito distante, e eu não tinha certeza de que poderia continuar naquele mesmo ritmo por mais trinta anos. Também me ocorreu que desperdiçar metade da nossa vida na expectativa da aposentadoria (embora uma muito boa) beirava ao absurdo e era algo ultrapassado. Eu não era uma serva medieval, arando a terra até cair de exaustão. Eu trabalhava na Londres do século XXI. A vida deveria ser boa. Agradável. Fácil, até. Então, o fato de que eu estava sonhando com a aposentadoria aos 33 anos já era um sinal de que alguma coisa tinha que mudar." (pág. 15/16)

"-Os dinamarqueses não acreditam que comprar mais coisas traga felicidade - disse Christian. -Um carro maior só faz você ter que pagar mais impostos. Uma casa maior só faz você levar mais tempo para acabar a faxina." (pág. 20)

"E fiquei ainda mais chocada quando Christian me disse que os dinamarqueses acreditam tanto que seus filhos estão em segurança que deixam os carrinhos de bebê do lado de fora das casas, dos cafés e dos restaurantes. Parece que eles também  não trancam as bicicletas nas ruas e deixam as janelas das casas abertas. Tudo isso porque a confiança nas outras pessoas, no governo e no sistema como um todo é muito alta." (pág. 22)

"Estávamos indo para o oeste da Escandinávia, a zona rural da Jutlândia, a península da Dinamarca, no extremo norte da Alemanha. A minúscula cidade de Billund, ao sul dessa península, tinha uma população de apenas 6.100 habitantes. Conheço gente que tem mais amigos no Facebook do que isso." (pág. 25)

"-Janeiro na Dinamarca é tempo de ficar em casa, com a família. Ninguém sai muito. Os dinamarqueses ficam 'debaixo das cobertas', literal e metaforicamente falando, de novembro até fevereiro. Então não se surpreenda se você não vir muita gente andando por aí, especialmente nas áreas rurais." (pág. 40)

"-Essas pessoas são os locatários, certo? - pergunto à corretora. -A imobiliária os incentiva de algum modo a fazer uma superfaxina e arrumação antes de começarem a receber visitas?
Ela me olha confusa.
-Faxina? Arrumação? Antes das visitas? É isso que os ingleses fazem? - pergunta ela com uma cara de reprovação. -Os dinamarqueses tentam manter suas casas bem arrumadas o tempo todo." (pág. 46)

-"'Não é necessário mostrar serviço'. Se alguém gosta de bancar a vítima, ficando até tarde ou trabalhando demais, é mais provável que receba um folheto sobre eficiência ou gerenciamento do tempo do que solidariedade.
-Caramba!
Uma mudança e tanto em relação à nossa vida em Londres. Lá, responder um e-mail à meia-noite ou ficar trabalhando até as 20h é considerado uma questão de honra. Mas, na cultura dinamarquesa, isso apenas mostra que você não é capaz de fazer o seu trabalho no tempo certo." (pág. 72/73)

"Existem aproximadamente 80 mil associações na Dinamarca e em torno de 90% dos dinamarqueses são membros de alguma sociedade, e o dinamarquês é, em média membro de 2,8 clubes. Bjarne me fala que eles têm um ditado aqui: 'Quando dois dinamarqueses se encontram eles formam uma associação.'" (pág. 94)

"Uma das razões pela qual os nativos de língua inglesa têm tanta dificuldade com a nossa língua é que a maioria dos dinamarqueses fala inglês. Nós não estamos acostumados a ouvir alguém falar dinamarquês com um sotaque diferente, isso é estranho para nós. Se encontramos um estrangeiro, nós nos habituamos a falar alemão, inglês ou espanhol com ele." (pág. 102)

"-Na Dinamarca, as igrejas simplesmente estão ali para servir os indivíduos - diz Manu. -É como nosso sistema de seguridade social: está ali para o caso de se precisar dele." (pág. 145)

"Tenho ficado tonta com frequência e a toda hora com vontade de tirar uma soneca. E zangada. E dengosa. Pensando bem, estou quase completando a lista dos sete anões." (pág. 205)

"Digo a ele [Bo] que, sempre que compro frutas e legumes aqui na Dinamarca, eles estragam mais depressa do que estou acostumada.
-Isso é porque nós não os enchemos de produtos químicos, o que é muito bom! - me ensina Bo. -Na Dinamarca, preferimos frutas e vegetais frescos." (pág. 245)

"Se estou entendendo direito, os dinamarqueses continuam felizes no inverno porque é tão horroroso do lado de fora que vir para casa provoca uma onda enorme de alívio e gratidão por ter sobrevivido à natureza.
-Então ninguém sai de casa?
-Bem, podemos sair, é claro - admite ele. -Só temos que nos vestir de maneira adequada. Temos um ditado na Dinamarca que é o seguinte: não existe tempo ruim, apenas roupas erradas." (pág. 296)

"-As pessoas pagam seus impostos com prazer na Dinamarca porque sabem que terão a melhor assistência social do mundo. Temos escolas, universidades, médicos, hospitais, tudo de graça, um pagamento automático de férias muito generoso, e os patrões pagam por um bom sistema de aposentadoria que realmente beneficia os dinamarqueses e aqueles que se instalam aqui. A maioria dos dinamarqueses vai precisar dos serviços do Estado em algum momento ou outro da vida, com um membro da família que ficou doente ou algo assim, então compreendem a infraestrutura e sabem que o dinheiro deles está sendo bem usado." (pág. 304)

"-Ter um filho é como ter seu coração do lado de fora do peito - me diz Mãe Americana, e ela tem razão. Quero protegê-lo e fazer com que tudo seja cheio de luz e alegria para ele. O simples fato de ter uma pessoinha perto de mim faz com que eu decida me esforçar ao máximo para tornar o mundo melhor." (pág. 352)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Simples assim

Título: Simples assim
Autor: Martha Medeiros
Páginas: 238

Martha Medeiros é uma das cronistas mais conceituadas do país. E não é para menos, suas crônicas são simplesmente fantásticas, revelando humor, indignação, euforia, entusiasmo, revolta, tudo na medida certa. Qualquer que seja o assunto a ser discutido, ela sempre tem uma palavra afiada e certeira.

Várias são as crônicas do livro que eu considero destaques, mas, duas especificamente chamaram a minha atenção. São crônicas que reforçam a diferença gritante entre o Brasil e os países realmente de primeiro mundo, onde a cidadania está em primeiro lugar, ao invés de lucros e propinas. Para mim, os destaques são: "O galão d'água" e "Simples assim".

Trechos interessantes:

"Da série 'Morro e não vejo tudo': cerca de 200 mil pessoas de mais de 120 países se inscreveram para participar do programa de assentamento em Marte, projeto elaborado pela organização holandesa Mars One. Os brasileiros ficaram em terceiro lugar em número de inscritos - perderam apenas para americanos e chineses." (pág. 11)

"Ele [Bansky] defende o grafite como uma arte honesta e popular. Diz que é uma resposta aos milhares de anúncios publicitários estampados em painéis gigantescos por toda a cidade, inclusive nas laterais dos ônibus: por que todos aceitam que a cidade se desfigure com publicidade e não com o grafite artístico? Ele mesmo responde: porque as pessoas não sabem reagir diante do que não gera lucro." (pág. 27)

"...você não é o que você faz para ganhar dinheiro, você é o que você faz para ser feliz." (pág. 30)

"Não odeio filas porque não odeio nada, mas não é um acontecimento pelo qual eu anseie. Fila, para mim, é a representação máxima da perda de tempo, e tempo é algo que valorizo mais do que pérolas, jades, rubis." (pág. 57/58)

"Pessoas viajam pelo mundo para conhecer monumentos, comer, comprar. A atenção geralmente é voltada para o que se pode fotografar com a câmera e administrar com o bolso. A Tailândia e o Camboja são realmente fotogênicos. Quanto às compras, o mundo virou um supermercado gigante e o que se comercializa lá é vendido aqui também, compra-se mais por impulso do que pela novidade. O que não se globalizou (ainda) é o espírito do lugar, e isso é que verdadeiramente encanta: a reverência que não é submissão, mas respeito. O silêncio que não é timidez, mas educação." (pág. 64)

"Quanto mais se grita e esperneia por aí, mais atenção eu dou aos singulares que brilham em voz baixa."(pág. 116)

"Tudo que dá errado pode dar muito certo. A vida joga os dados, distribui as cartas, gira a roleta: a nós, cabe apenas continuar apostando." (pág. 118)

"Um policial em cada esquina. Nota fiscal entregue em todas as transações comerciais. Lixeiras por toda parte. Ruas bem sinalizadas. Transporte farto, barato e que cumpra horários. Hospitais com vagas dia e noite. Escolas eficientes. Confiança em vez de burocracia. Sinceridade em vez de enrolação. Agilidade em vez de empurrar com a barriga. Se todo mundo concorda que é assim que tem que ser, por que não acontece, quem emperra?" (pág. 141)

"Estava descendo uma ladeira do Chiado, em Lisboa, quando passei por um mendigo. Seria mais um entre tantos que ocupam as calçadas, mas percebi que ele estava cercado de cartazes dizendo que a esmola iria para o uísque, o vinho, a cerveja, a ressaca. Um mendigo engraçadinho. Fiquei observando. Os turistas passavam, riam e distribuíam moedas não por caridade ou desencargo de consciência. Era couvert artístico." (pág. 176)

"Te tornarás só quem tu sempre foste. O que os deuses te dão, dão no começo." [Fernando Pessoa] (pág. 188)

"Uma coisa é se manifestar - inclusive com humor - a fim de pressionar pelo fim da impunidade. Demonstra amadurecimento da população. Mas no momento em que chamamos a presidente de vaca, fazemos brincadeiras sórdidas alusivas ao rosto de Cerveró ou culpamos o PT pelo espirro do cachorro do vizinho trocamos a maturidade da nossa imaginação por um bullying coletivo que mais revela nossa pobreza de espírito do que grandeza como nação." (pág. 206)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Campo de estrelas

Título: Campo de estrelas
Autor: Thales Guaracy
Páginas: 192

Ivan é um publicitário de 40 anos que descobre a existência de um câncer e procura, de todas as formas possíveis, lutar contra esse mal. Seu pai, Marcial, revela que pretende percorrer o "Caminho de Santiago" e Ivan espera se curar brevemente para acompanhar o pai nessa jornada.

Enquanto isso, Ivan vai relembrando a grande aventura que fizera, junto com o pai, a Machu Picchu. Lembra as dificuldades, as angústias, os mistérios e a recompensa por ter concluído o passeio, apesar de tantas adversidades. Com isso, Ivan vai usando as lembranças da viagem realizada para amenizar os sofrimentos de sua doença, enquanto imagina realizar a nova aventura com o pai.

Trechos interessantes:

"O homem que pregava a racionalidade acima de tudo, que divinizara a força da palavra, acreditara na onipotência do pensamento, dava uma vitoriosa guinada para os caminhos etéreos da mais deslavada religiosidade. A racionalidade é a ilusão dos intelectuais. Sendo um deles, Marcial descobrira que sabia tanto quanto outros com menos estudo, que aceitavam os mistérios da vida sem discussão ou preocupação lógica." (pág. 8)

"-Passei a vida aprendendo nos livros - disse Marcial; enquanto falava, sua voz ia se apagando, até se tornar um murmúrio. -Descobri que o grande aprendizado é com as pessoas." (pág. 10)

"A dramaticidade se acentuava pelo fato de que nunca fora hospitalizado, nem tivera problemas mais grave - na infância, sequer quebrara um braço. Imaginara que adoecer seriamente, andar numa cadeira de rodas ou depender de algum aparelho para viver devia ser insuportável. Porém, sentindo-se ligado à vida somente por aquele canudo incorporado à genitália, dispunha-se a arrastar aquele apêndice para sempre caso necessário. Pela sobrevivência, aceitava até virar terminal de uma garrafa plástica." (pág. 23)

"O efeito mais devastador da doença ocorria na sua cabeça, onde o rato da dúvida roía-lhe a paz. A vida antes era o futuro; de repente, podia ser apenas o passado. A súbita consciência da condição humana lhe caíra como um raio." (pág. 25)

"Lá, numa pequena sala, havia um brasão da República colado na parede, atrás de uma mesa onde repousavam alguns carimbos e uma efígie de Nossa Senhora Aparecida. Aquele era o posto de fronteira da Polícia Federal. Nem isso aliviou Ivan. Se aqueles eram os policiais por ali, imaginava os fora-da-lei." (pág. 35)

"Na Bolívia, como Ivan já pressentira, valia mais que em qualquer outro lugar a máxima de que o ruim sempre pode piorar." (pág. 41)

"Dizem que os cães são capazes de recuperar a consciência de forma imediata. Graças a isso, por exemplo, podem escapar de um atropelamento, passando do sono à ação sem nenhum estágio intermediário, ao sentir no corpo o roçar do pneu." (pág. 52)

"A Bolívia tinha tão poucas cidades importantes que todas se consideravam capitais de alguma coisa. La Paz era a capital política. Oruro ficava sendo a capital cultural. A Santa Cruz coubera o título de capital econômica do país." (pág. 71)

"Antes, quando achava que nada mais tinha a aprender, Ivan acreditava que a humildade era a virtude de quem não tinha outra. Aprendia agora a humildade mais genuína, não ligada à pobreza ou falta de ambição, mas a ensinada pela absoluta necessidade do ser humano do seu semelhante. Ele, que se achara auto-suficiente por tanto tempo, via naquelas circunstâncias quanto dependia dos outros." (pág. 88)

"-Existe um monte de coisa que uns farsantes vendem por aí - disse Roger. -Nada disso garante a cura. Mas, se você quiser tomar o chá, creio que pelo menos não te fará mal.
-E se eu ficar curado?
-Aí você vai dizer que foi o chá, e não o médico, mas tudo bem - disse ele, rindo.' (pág. 122/123)

"Ivan voltou à rotina, mas passou a desfrutar mais do seu bem-estar. A experiência do câncer o modificara. Não estar melhor nem pior do que ninguém já era um privilégio. Dava valor ao simples fato de não precisar ir ao banheiro a todo instante, ou não ter dor ao urinar. Operações do dia-a-dia, antes despercebidas, como o mero ato de respirar, ganhavam nova magnitude." (pág. 139)

"A saúde plena é uma bênção impagável a que se dá o devido valor somente quando a perdemos." (pág. 139)

"A cabeça fazia toda a diferença. Viver pensando na morte é morrer mil vezes todos os dias, tirando o próprio prazer da vida." (pág. 189)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O pesadelo

Título: O pesadelo
Autor: Lars Kepler
Páginas: 446

O corpo de uma mulher jovem foi encontrado num barco, próximo a Estocolmo. As aparências dizem que não, mas ela foi assassinada. No dia seguinte um homem é encontrado morto, pendurado num lustre num apartamento de pé-direito alto. As aparências dizem que não, mas ele cometeu suicídio. Há alguma relação entre essas duas mortes?

Este é somente o início de uma empolgante história de muito suspense e reviravolta. Ainda mais quando o assassino descobre que matou a mulher errada... Enfim, um livro policial com muita adrenalina do começo ao fim. O livro é ambientado na Suécia, o que garante pelo menos originalidade nos nomes das pessoas e locais.

Trechos interessantes:

"-Então, como acha que ele morreu?
-Acho que ele apertou o laço ao redor do pescoço - respondeu em voz baixa.
-Como ele conseguiu colocar o laço ao redor do pescoço?
-Não sei... Talvez tenha precisado de ajuda.
-Que tipo de ajuda?
A senhora revirou os olhos, e por um instante Joona pensou que ela iria desmaiar. Em vez disso, ela se firmou colocando uma das mãos na parede, depois o encarou.
Suavemente, ela disse:
-Sempre há pessoas prestativas por perto." (pág. 36)

"Ver o corpo morto de um ente querido é impiedoso - o maior medo de todos. Os especialistas dizem ser um passo necessário no processo do luto. Joona lera que assim que uma identificação é feita há certo tipo de libertação. Não é mais possível sustentar fantasias de que a pessoa ainda vive. Esses tipos de fantasias e esperanças levam apenas a frustração e vazio.
Essas não passam de palavras vazias, pensa Joona. A morte é horrível e nunca dá a você nada em troca." (pág. 65)

"-Você pode juntar tudo que encontrar, todos os telefonemas feitos na última semana? Todas as mensagens de texto? E os saques bancários? Todas essas coisas: recibos, bilhetes de ônibus, reuniões, atividades, horas de trabalho...
-Certamente posso!
-Por outro lado, talvez você queira apenas esquecer tudo isso - diz Joona. -Não está na hora da sua fisioterapia?
-Você está brincando? - reage Erixson, quase sem conseguir conter a indignação. -Aliás, o que é fisioterapia senão desemprego disfarçado?" (pág. 129/130)

"A empregada estivera lá para limpar o apartamento, arejar os cômodos, pegar a correspondência e trocar os lençóis.
Os dois sabem que isso não é incomum depois de uma morte repentina. As pessoas se recusam a aceitar que a vida vai mudar. Elas mantêm a antiga rotina."(pág. 169)

"Disa pega sua taça e diz relaxada:
-É que tem um cara no museu que está me convidando para jantar há seis meses.
-As pessoas ainda convidam as outras para jantar atualmente?" (pág. 189)

"Axel vai até seu bar e tira uma das mais caras garrafas de uísque de sua coleção. É um Macallan 1939, do primeiro ano da Segunda Guerra Mundial. Ele serve-se de meio copo, depois vai ao sofá e se senta. Escuta a música com os olhos fechados. A voz jovem de Bowie e o piano descuidado. Ele sente o aroma de barris de carvalho, reservatórios pesados e adegas escuras, palha e cítricos. Ele bebe e o álcool forte queima seus lábios enquanto enche sua boca. Conservando seu sabor precioso, esse uísque tem esperado décadas: gerações, mudanças de governo, guerra e paz." (pág. 366)

"-[...]As pessoas dizem que Paganini odiava sua aparência... Eu pessoalmente acredito que ele vendeu a alma ao diabo para que outros o adorassem. Ele chamava a si mesmo de macaco, mas quando tocava as mulheres se arrastavam para ele. Valia o preço. Ele tocava de forma tão inacreditável que as pessoas diziam sentir o fogo do inferno ao redor dele." (pág. 411)

domingo, 15 de outubro de 2017

Mulherzinhas

Título: Mulherzinhas
Autor: Louisa May Alcott
Páginas: 310

Assisti ao filme "Quatro destinos" e, como gosto de filmes antigos, me identifiquei logo com ele. Só muito depois é que vim a saber que o filme era baseado em um livro (Mulherzinhas). Bem depois li "O senhor March" e - não sabia - era uma espécie de continuação do livro Mulherzinhas. Depois de tudo isso é que, finalmente, deparo-me com o livro em questão.

O livro relata a vida de uma mãe e quatro filhas durante a Guerra Civil Americana. O pai estava na guerra enquanto mãe e filhas tentam levar a vida da melhor maneira possível, enfrentando as tribulações diárias, as doenças, as tristezas e desilusões. Era uma época de muita inocência e pureza, onde, apesar da pobreza e dificuldade, todos se ajudavam e com isso, a vida tornava-se mais agradável.

Trechos interessantes:

"-Você tem de usar luvas, ou então eu não vou - gritou Meg decidida. -As luvas são mais importantes do que qualquer outra coisa. Eu ficaria mortificada se você fosse sem luvas.
-Então vou ficar onde estou.
-Você não pode pedir luvas novas a mamãe, elas são muito caras e você é descuidada demais. Ela disse, quando você estragou as outras, que não compraria mais nenhuma neste inverno. Será que você não pode dar um jeito para que elas fiquem apresentáveis? - perguntou Meg, ansiosa.
-Posso segurá-las dobradas na mão, assim ninguém vai saber o quanto estão manchadas. É tudo o que posso fazer. Não! Vou dizer como a gente pode dar um jeito: cada uma usa uma luva boa e segura uma ruim, entendeu?" (pág. 39)

"-Meu nome é Theodore, mas eu não gosto, porque os colegas me chamam de Dora, então eu mandei que me chamassem de Laurie, em vez do outro nome.
-Eu também detesto o meu nome, é tão sentimental. Eu queria que todo mundo dissesse Jo, em vez de Josephine. Como você fez para que os garotos parassem de chamá-lo de Dora?
-Eu bati neles.
-Já que não posso bater na tia March, acho que vou ter de aguentar isso." (pág. 45)

"Jo por acaso agradara a tia March, que era coxa e precisava de uma pessoa ativa para cuidar dela. A velha senhora sem filhos havia uma vez se oferecido para adotar uma das meninas quando ocorreram os problemas, e ficou muito ofendida por seu oferecimento ter sido recusado. Alguns amigos disseram aos Marches que eles tinham perdido toda a oportunidade de serem lembrados no testamento da velha senhora rica; mas os Marches, que não eram deste mundo, apenas disseram:
-Não daríamos nossas filhas nem por uma dúzia de fortunas. Ricos ou pobres, vamos ficar juntos e seremos felizes uns com os outros." (pág. 56)

"-A senhora quer dizer que está contente por eu ter sido humilhada na frente da escola toda? - exclamou Amy.
-Eu jamais escolheria essa maneira de corrigir um erro - replicou sua mãe -, mas não tenho certeza se não lhe fará mais bem do que um método mais brando. Você está começando a ficar muito convencida, querida, e é mais do que tempo de se empenhar em corrigir isso. Você tem uma porção de pequenos talentos e virtudes, mas não há necessidade de exibi-los, pois a vaidade estraga o caráter mais excelente. Não há muito perigo de que o verdadeiro talento ou a bondade sejam ignorados por muito tempo. Mesmo se forem, a consciência de tê-los e de empregá-los bem deve satisfazer a pessoa, e o grande encanto de qualquer dom é a modéstia." (pág. 98)

"-[...] Jo, querida, todos nós temos as nossas tentações, algumas bem maiores do que a sua, e muitas vezes leva-se a vida toda para vencê-las. Você acha que seu temperamento é o pior do mundo, mas o meu antigamente era exatamente igual ao seu.
-O seu, mamãe? Ora, a senhora nunca fica com raiva! - E, por um momento, a surpresa fez Jo esquecer o remorso.
-Há quarenta anos tento corrigir meu temperamento e consegui apenas controlá-lo. Tenho raiva quase todos os dias de minha vida, Jo, mas aprendi a não demonstrá-la." (pág. 110)

"Minhas filhas queridas, tenho ambições por vocês, mas não de que tenham sucesso na sociedade - casem com homens ricos apenas porque são ricos, ou tenham casas suntuosas, que não são verdadeiros lares porque falta amor. Dinheiro é uma coisa necessária e preciosa - e quando bem usado, algo nobre -, mas quero que nunca pensem nele como a primeira ou a única meta pela qual lutar. Eu preferia vê-las casadas com homens pobres, se estivessem felizes, amadas, satisfeitas, a que fossem rainhas em seus tronos, mas sem amor-próprio e paz." (pág. 133)

"A pobreza raramente desencoraja um apaixonado sincero. Algumas das mulheres mais honradas e melhores que conheço foram moças pobres, mas tão dignas de ser amadas que não ficaram solteironas. Deixem isso ao tempo. Façam feliz este lar, de modo que possam estar preparadas para ter o seu próprio, se ele lhes for oferecido, e satisfeitas aqui, se ele não o for." (pág. 133)

"Tenham horas regulares para o trabalho e para a diversão; façam com que cada dia seja ao mesmo tempo útil e agradável e provem que vocês compreendem o valor do tempo, empregando-o bem. Assim, a juventude será deliciosa, a velhice trará poucos arrependimentos e a vida se tornará um belo sucesso, apesar da pobreza." (pág. 158)

"Os olhos de Jo brilharam, pois é sempre agradável quando acreditam na gente; e o elogio de um amigo é sempre mais delicioso que uma dúzia de lisonjas de jornal." (pág. 199)

"-Tenho pensado muito ultimamente sobre meu 'monte de defeitos', e ser egoísta é o maior de todos, por isso vou me esforçar para curar-me disso, se puder. Beth não é egoísta, e é por isso que todos gostam dela e se sentem tão mal ao pensar em perdê-la. As pessoas não sentiriam nem a metade por mim, se eu estivesse doente, e não mereço que fiquem, mas gostaria que muitos e muitos amigos me amassem e sentissem a minha falta, por isso vou tentar ser como Beth tanto quanto puder. Tenho tendência a esquecer minhas resoluções, mas se tivesse sempre comigo algo que as lembrasse, acho que me sairia melhor." (pág. 259)

"-Dinheiro é uma coisa boa e útil, Jo, e espero que minhas filhas nunca sintam muito amargamente sua falta, nem fiquem tentadas demais por ele. Eu gostaria que John estivesse solidamente estabelecido em algum bom negócio, que lhe desse um rendimento suficiente para livrá-lo de dívidas e sustentar Meg com conforto. Não ambiciono uma esplêndida fortuna, uma posição invejável ou um grande nome para minhas filhas. Se a posição e o dinheiro acompanharem o amor e a virtude, eu os aceitarei de bom grado, e ficarei contente com a boa sorte de vocês; mas sei, por experiência, quanta felicidade genuína pode haver numa casinha simples, onde se ganha o pão de cada dia, e algumas privações fazem doces os poucos prazeres. Estou satisfeita de ver Meg começar modestamente, pois, se não estou enganada, ela será rica com a posse do coração de um homem bom, e isso é melhor que uma fortuna." (pág. 262/263)