domingo, 28 de fevereiro de 2016

Última valsa em Viena

Título: Última valsa em Viena
Autor: George Clare
Páginas: 290

O livro - um relato biográfico do autor - narra a luta da família Klaar para fugir da perseguição de Hitler. Os Klaars eram judeus de Viena e, com a ascensão de Hitler ao poder logo começaram a sentir o ódio que o ditador tinha pelos judeus.

A maior parte do livro transcorre na adolescência de Georg Klaar (mais tarde, George Clare), quando ainda morava em Viena, mostrando sua vida, sua família e seus ideais. Ao assumir o poder, Hitler resolve acabar com os judeus, tornando a vida ali, insuportável. No fim ele consegue sair do país, mas seus pais não tiveram muita sorte e acabaram na câmara de gás. Relato triste, mas faz parte da mancha negra da história.

Trechos interessantes:

"Eu era jovem demais para entender que a pessoa nunca se livra de sua origem, que esta é uma parte essencial da identidade de cada um e deve ser valorizada, e que tudo o que se pode conseguir eventualmente é uma forma feliz de visão dupla que permite que se veja a Inglaterra e os ingleses de uma forma um pouco fora de foco, talvez, mas, ao mesmo tempo, de dentro e de fora." (pag. 14)

"Os movimentos nacionalistas adquiriram uma nova dimensão além do desejo de autodeterminação: o ódio. Os húngaros odiavam os austro-alemães, os tchecos e os croatas; os austro-alemães odiavam os húngaros acima de tudo; os tchecos odiavam todo mundo. Seguiu-se uma crise atrás da outra, um governo atrás do outro." (pág. 23/24)

"Eu nunca me esqueci da história que ele me contou a respeito do marido de tia Thalia, irmã de vovó Julie. Esse cavalheiro se deliciava em levar os filhos àquela excelente confeitaria existente em frente ao apartamento de minha avó, e que pertencia a Herr Beisiegl. Herr Teller - era esse o nome do cavalheiro - costumava sentar-se atrás da pequena mesa de mármore convencional, agrupava os filhos em volta dele e pedia café com creme batido, dois ou três bolos, ou uma outra coisa qualquer que estivesse com vontade de comer. Papai Teller tomava seu café e comia os bolos, e depois, satisfeito consigo mesmo, acendia o charuto. Durante todo esse tempo as crianças ficavam sentadas em volta da mesa, sem terem nem um copo de limonada para dividir entre si. A única festa permitida a eles era entrar na confeitaria. E eles sabiam muito bem, por experiência própria, que seu papel limitava-se a observar. Depois de bater gentilmente no estômago protuberante, Herr Teller levantava a mão direita, apontava o dedo para o filho mais velho, Erwin, e pronunciava as palavras imortais:
-Está vendo, meu caro rapaz, um dia, quando você for pai, também vai poder comer tantos bolos quanto quiser numa confeitaria." (pag. 28)

"Em My youth in Vienna, Arthur Schnitzler, o famoso escritor judeu-austríaco, cita a Resolução Waidhofer. Ela dizia:

'Todo filho de mãe judia, todo indivíduo com sangue judeu nas veias, nasce sem honra e deve, portanto, estar privado de todo sentimento humano decente. Tal pessoa não pode saber a diferença entre o que é puro e o que é sujo. Eticamente, ele é o que há de mais baixo. Segue-se daí que o contato com um judeu é desonroso; assim, qualquer contato com um judeu deve ser evitado. É impossível ofender um judeu, e portanto nenhum judeu pode exigir satisfação por qualquer insulto que possa ter recebido'." (pág. 38/39)

"A liberdade na Áustria é uma criatura heterogênea. Ela está em algum lugar entre a liberdade na Rússia e a liberdade na Alemanha. Na sua forma, ela é germânica; na sua execução, é russa. Com exceção da França e da Inglaterra, a Áustria tem, provavelmente, as leis mais liberais, tanto é assim que ela se parece muito mais com uma república que, em vez de um presidente, tem uma majestade no poder. Por infelicidade, no entanto, não se põe em prática o que é determinado pela lei, mas apenas o que convém ao inspetor de polícia responsável. Ele tem o direito de confiscar todas as liberdades garantidas pela lei, e temos razões para acreditar que ele use e abuse desse direito... Que estranho, entretanto: o governo da Áustria é tão incapaz de executar atos de justiça quanto é incapaz de executar atos de opressão; ele balança para lá e para cá - nós temos despotismo suavizado pela indolência." (pág. 72/73)

"Nem a direita nem a esquerda haviam desejado aquela matança. Mas ambas foram igualmente culpadas por envenenar a atmosfera política. O 15 de julho de 1927 não foi uma guerra civil. Foi apenas uma revolta de um dia, mas os acontecimentos desse dia desesperado tornaram inevitável a guerra civil de 1934." (pág. 113/114)

"Em tudo o que fez naquele dia, minha mãe mostrou uma profunda compreensão do seu filho de doze anos. Tentar fazer uma criança compreender que aquilo que aprende na escola é, em última análise, para seu próprio benefício e não para o bem de seus pais, nunca funciona. O que pode um conceito como 'em última análise' significar para uma criança? Ele diz respeito a um futuro que está anos à frente - e portanto a uma eternidade - do que ela pode conceber como realidade. Significa algo com uma vaga importância, em algum remoto período de tempo, compreensível do ponto de vista intelectual, mas sem sentido emocional, porque nenhuma criança é capaz de se identificar com o homem ou mulher que vai ser daí a dez anos. Mas uma criança pode identificar-se emocionalmente com os pais. O que eles sentem a respeito dela, isso é real. E a minha realidade, minha identificação, naquele dia, foi com mamãe. A mãe que tinha chorado comigo, tinha compartilhado a minha culpa, estava preparada para sacrificar por mim suas joias queridas, sobretudo por haverem pertencido à sua própria mãe, e por fim, tinha me levado ao cinema em vez de me castigar." (pág. 129/130)

"Eu sabia que tinha causado um grande sofrimento a meu pai, e apesar da fúria que sentia, percebi também quanto o amava e quanto dói ferir alguém a quem se ama." (pág. 168)

"Nunca tinha visto meu pai chorar antes, nunca tinha ouvido aquele som atormentado de dor e desespero de um homem chorando, nunca tinha presenciado aquela luta sufocada de um homem tomado pela dor que tenta recuperar o controle sobre si mesmo. Um homem, criado na crença de que chorar não é próprio de homens, não encontra alívio nas lágrimas como as mulheres encontram. Suas lágrimas não escorrem livremente dos olhos, mas saltam deles, quentes e cheias de agonia, turvando a visão e a alma." (pag. 210/211)

"[...]folheei distraidamente meu passaporte, contemplando o visto lituano, bem como o carimbo enfeitado com a suástica, feito pela seção de passaportes de Viena, e que dizia: 'Válido somente para uma viagem de ida e volta'. Todo judeu austríaco sabia que essa licença para voltar só era válida no papel. Quando se ia buscar o passaporte, era-se informado de que uma viagem de volta terminaria em Dachau, se a pessoa tivesse a audácia de voltar." (pag. 236)

"Todo mundo sabe que o simples fato de ser preso induz a vítima a um sentimento de culpa. Kafka, bem como os policiais do mundo inteiro, descobriu isso muito antes que eu, mas posso jurar que é verdade por experiência própria. Eu realmente me senti culpado - do quê, eu não sabia -, ao caminhar ao lado de Mandl sob os olhos vigilantes de dois guardas armados." (pág. 237/238)

"Meus pais tiveram de morrer porque eram judeus, porque pertenciam ao povo que deu ao mundo Jesus e um código de ética de acordo com o qual o mundo nunca foi capaz de viver.
A Igreja ensina que toda humanidade partilha a culpa pela morte de Jesus na cruz. Assim, toda a humanidade partilha a culpa pela morte de meus pais e de milhões de judeus, homens, mulheres e crianças, nas câmaras de gás." (pag. 283)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Os melhores contos de Bernardo Élis

Titulo: Os melhores contos de Bernardo Élis
Autor: Gilberto Mendonça Teles (org.)
Páginas: 174

O nome de Bernardo Élis é sempre reverenciado por ser um dos melhores escritores de nossa região. Seus contos, quase sempre utilizando a linguagem simples e natural do homem do campo, trazem à tona toda a alma e sensibilidade do povo goiano.

Aqui temos uma seleção variada e para todos os gostos, incluindo o célebre conto 'A enxada', conto este que já teve até uma versão para a TV, mas foi impedido pela censura política. Enfim, se você gosta de contos, aqui está uma ótima seleção.

Trechos interessantes:

O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava ensopadinho da silva. Dependurou numa forquilha a caroça, - que é a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva, - tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha." (pág. 27)

"Nesse tempo, dizia-me Anízio: - 'Na mulher a arte é bastante para redimir a prostituta; e por isso é a única forma digna de prostituição'." (pág. 36)

"Dona Rita costurava seus panos, no tarará da maquininha. Era preciso remendar e remendar sempre, fiel ao ditado: 'Remenda teu pano que durará um ano; remenda outra vez que durará um mês; torna a remendar que ainda há de durar'." (pág. 105)

"-Mas cuma é que esse pessoal veve? Num tou vendo ninguém não tocar roça, uai.
Para ela, todos deveriam fazer roça, criar bois, cavalos, porcos, tecer pano, fazer chapéu e sabão. Como não visse Reimundo fazer nada disso, tinha-o em má conta. 'Homem preguiçoso e inútil'." (pág. 107)

"-Chuva não deve de tardar - comentava capitão, espreitando o céu encardido.
-A chuva... - Neca repetia a palavra num eco, a boca seca, dente no dente. Não tinha terras para lavrar, nem gado para tratar, nem dinheiro para comprar mantimento quando viessem as colheitas. Portanto, tanto fazia chover ou não." (pág. 109)

"Mas Rosária exigia que as meninas, até que fossem dormir, dessem uma demão na labuta, que não deixassem de lavar os pés na bica, depois do que, que rezassem o padre-nosso e a salve-rainha e também o creindeuspadre, por via de uma premessa que não e d'hoje ela havera feito pra Nossa Senhora da Conceição que era madrinha de ambas as duas filhas dela. Entretanto, o tempo passando e Rosária mais a Veva e a Nhã enrolavam cumbersa mode desorientar as meninas e não permitir que elas entendessem certas coisas por causa que menina mulher é muito curioso demais de certas proveniências que só devem de ser entendidas ao seu devido tempo, mas que esse tal de Joãoboi não andava que nem o comum das gentes não porque ele não pissuía pé de gente não, ele pissuía era casco rachado tal e qual casco de boi." (pág. 123/124)

"Ela não ia deitar porque precisava terminar a colcha que principiara fazia muitos e muitos anos. Por que seria que a colcha não rendia, que tinha sempre uma coisa atrapalhando terminá-la? Até diziam que colcha de retalho a gente não deve nunca de acabar, porque no dia que a gente acaba uma colcha de retalhos, ela também acaba com a gente." (pág. 147)

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A vida secreta dos números

Título: A vida secreta dos números
Autor: George G. Szpiro
Páginas: 272

O livro apresenta 50 crônicas relacionadas à Matemática: pode ser um fato curioso, uma biografia interessante, uma pesquisa importante ou até mesmo uma curiosidade qualquer. Assim sendo, o livro é recomendado para quem tem uma certa afinidade com números. Para quem não tem, o livro se tornará muito tedioso.

As crônicas são variadas, algumas são simples, mas a maioria é bastante complexa. É um livro para ser lido com calma e tranquilidade. Para quem acha que a Matemática não tem utilidade alguma, talvez seja interessante conhecer algumas das crônicas.

Trechos interessantes:

"Futuras incorreções do calendário haviam,portanto, sido corrigidas, mas, o que fazer em relação àquelas acumuladas durante o milênio e meio que se passou desde que Júlio César introduziu seu calendário? O criativo do Papa Gregório resolveu o problema com uma tacada de mestre: em 1582, retirou 10 dias completos do calendário. Com esta solução drástica,o pontífice colhia um benefício adicional. Uma oportunidade para mostrar ao mundo e seus governantes quem era o verdadeiro senhor. Assim, na maioria dos países católicos, a quinta-feira, 4 de outubro de 1582, foi seguida pela sexta-feira, 15 de outubro." (pág. 19)

"Os russos mantiveram o calendário inalterado até a Revolução, quando foram forçados a eliminar 13 dias. A consequência curiosa é que a Revolução de Outubro ocorreu, na verdade, em novembro de 1917." (pág. 19)

"Trabalhar na teoria de primos gêmeos pode ser mais que um simples exercício intelectual, como Thomas Nicely, da Virgínia, descobriu na década de 1990. Quando buscava grandes pares de primos gêmeos, ele passou por todos os inteiros até 4 quatrilhões. O algoritmo exigia o cálculo da banal expressão x vezes (1/x). Mas, para sua surpresa, quando inseria certos números nesta fórmula, o resultado não era o valor 1 e, sim, um outro incorreto. No dia 30 de outubro de 1994, Nicely enviou uma mensagem de correio eletrônico a colegas, para informá-los que o computador consistentemente produzia resultados errados ao calcular a expressão anterior com números entre 824.633.702.418 e 824.633.702.449. Através da pesquisa com primos gêmeos, Nicely deparou-se com o notório bug do processador Pentium. Este erro custou à Intel, o fabricante, 500 milhões de dólares de indenizações - um primo exemplo (sem trocadilho) mostrando que matemáticos nunca sabem onde suas pesquisas, e erros, os levarão." (pág. 47)

É parte da vida dos matemáticos passar a maior parte do tempo sozinhos em pequenas salas, trabalhando em problemas seculares. Trabalhar nestas circunstâncias, longe do burburinho do mundo exterior, assegura um certo nível de qualidade. Como provas matemáticas somente são consideradas corretas após passarem pelo teste do tempo, alarde na imprensa é prejudicial à cuidadosa e prolongada análise de uma prova. Buscar este tipo de exposição pública é, para dizer o mínimo, inapropriado." (pág. 51/52)

"Coxeter tinha consciência de ser privilegiado e creditava a longa vida ao amor pela matemática, à dieta vegetariana, aos exercícios diários de 50 flexões de uma só vez e à grande devoção à matemática. Como disse a um colega, nunca esteve aborrecido e foi 'pago para fazer o que amava'." (pág. 99)

"Como um matemático tem a inspiração para chegar à solução de um problema investigado há anos e anos? A resposta de Specker é que isto não pode ser previsto. Uma ideia pode surgir de repente, sem mais nem menos, no meio do banho ou enquanto se faz a barba. No entanto, é importante - e ele estica o dedo para enfatizar o que diz - estar completamente relaxado. Tensão, ele insiste, é contraproducente. E mais uma coisa: nunca se deve ficar frustrado por um início falho. Muitas vezes, Specker enfatiza, um início falho contribui para pesquisa adicional ou, até mesmo, forma a base da pesquisa." (pág. 119/120)

"O fato de que muitas pessoas façam seguros para evitar riscos e, ao mesmo tempo, gastem dinheiro com bilhetes de loteria para correr riscos é um outro paradoxo, que ainda aguarda uma explicação." (pág. 199)

"Uma vez que estratégias fracas tenham desaparecido, até mesmo as estratégias bem sucedidas deixarão de prover grandes resultados, pois não haverá mais alguém para ser explorado. Portanto, as estratégias bem-sucedidas também desaparecerão, da mesma forma que predadores se tornam extintos quando não há mais presas para caçar." (pág. 247)

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O vencedor

Título: O vencedor
Autor: Tami Hoag
Páginas: 448

A autora apresenta um romance policial tendo como pano de fundo o mundo dos cavalos. Animais que valem milhões, tratados como objetos de luxo, para o deleite e inveja de alguns milionários.

Uma garota encarregada de cuidar dos cavalos desaparece e ninguém, a não ser sua irmã de 12 anos, se preocupa em saber do seu paradeiro. Para isso entra em cena a ex-policial Elena Estes, que agora se dedica aos cavalos. Relutante em reviver os fantasmas do tempo de policial e, ao mesmo tempo, compelida a ajudar a única pessoa preocupada com o desaparecimento da garota, ela se aprofunda cada vez mais no misterioso mundo hípico. Quanto mais se aprofunda, mais intrigas e segredos são descobertos, até o desfecho final.

Trechos interessantes:

"Fica-se mais vivo quanto mais perto se está de enfrentar a morte de frente." (Pág. 13)

"Algumas das melhores pessoas que conheci pertenciam ao mundo dos cavalos. Gente capaz de se sacrificar pelos animais que confiavam nelas. Gente de palavra, íntegra. E algumas das piores, mais odiosas e mais esquisitas pessoas que conheci pertenciam ao mundo dos cavalos. Gente capaz de mentir, trapacear, roubar e vender a própria mãe por um centavo, se achasse que valia a pena. Capaz de sorrir e dar um tapinha enquanto, com a outra mão, esfaqueia você." (pág. 23)

"As pessoas veem o que estão programadas para ver, raramente procuram por mais." (pág. 59)

"Descobri que as pessoas guardam melhor os segredos se elas também têm um." (pág. 122)

"-Devia processá-lo por calúnia, talvez assim ele sossegue - disse Paris, ríspida.
-Por difamação. Quando a mentira é dita, chama-se difamação; quando é escrita, calúnia - corrigiu Jade." (pág. 126)

"-Você precisa me contar, isso aqui é coisa séria. Não se trata apenas de alguns corcéis correndo no meio da noite. Uma garota morreu. Percebo que no seu mundo ela não devia esperar muito, mas, no meu mundo, assassinato é coisa grave. Todos os que a conheciam e tinham problemas com ela vão ter de contar suas andanças. Se você tem uma testemunha, é melhor dizer, senão vou acabar usando mais horas do seu precioso tempo." (pág. 206)

"A incerteza é sempre o tormento do trabalho feito às escondidas. Eu construí um castelo de cartas, apresentando-me como uma pessoa para uns e outra para outros. Não me arrependia. Eu sabia dos riscos. O truque era colher os dividendos antes de ser descoberta e as cartas desmoronarem." (pág. 257)

"Só existe um jeito de saber para onde o vento está indo: cuspir nele." (pág. 294)

"Jamais sabemos o que se passa no coração do outro, o que os anima, o que os derruba, o que eles consideram corajoso, rebelde ou de sucesso." (pág. 302)

"-Quando cresci, vi que meu pai tratava a lady Justiça como uma mercadoria e vendia-a pelo lance mais alto. Achei que alguém precisava equilibrar o outro lado da balança, fazer um esforço para igualar as coisas." (pág. 347)

"De certa forma, Krystal era mais criança que Molly. A vida inteira sonhou ter um marido respeitável, uma linda casa e tudo decorado. Nunca imaginou que viver como uma boneca Barbie tivesse as mesmas ciladas que ser pobre. Tenho certeza de que ela nunca pensou que o ser humano é o mesmo em todas as faixas socioeconômicas." (pág. 359)

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cem sonetos de amor

Título: Cem sonetos de amor
Autor: Pablo Neruda
Páginas: 120

Sinceramente, a poesia não é o meu forte. Tenho muita dificuldade em entender o seu significado quando não está bem à vista. Até entendo uma poesia sem rima quando se trata de uma poesia moderna, quando a forma, muitas vezes, é o que interessa.

Mas na minha visão de leigo, o que me agrada num soneto é a disposição da rima. Apreciar cem sonetos onde não há uma única rima é muito pra mim. Foge ao meu entendimento...

Trechos interessantes:

"Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que fumaça, mostraram minha morada?" (pág. 13)

"E tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente." (pág. 18)

"Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira," (pág. 27)

"Não só pelas terras desertas onde a pedra salina
é como a rosa única, a flor pelo mar enterrada,
andei, mas pela margem de rios que cortam a neve
." (pág. 78)

domingo, 3 de janeiro de 2016

Histórias de alta-tensão

Título: Histórias de alta-tensão
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 266

Começando o ano com mais uma coletânea de Hitchcock. São 13 histórias seguindo o padrão já consagrado. Para quem já leu quase todas, parece que as histórias se repetem, já que são mais ou menos padronizadas, mas, mesmo assim, eu gosto muito.

Estou ficando muito exigente: das 13 histórias, apenas 2 mereceram um destaque da minha parte: "O homem no saguão" e "A arte da dedução".

Trechos interessantes:

"Os ciganos, especialmente as mulheres, envelhecem depressa." (pág. 29)

"Os ciganos são retraídos e suas vidas estão impregnadas por superstições com mais de 10 séculos. Conhecer o nome de um cigano, quando se é um estranho, significa ter poder sobre ele." (pág. 30)

"Contara tudo, como uma criança pequena que foge de casa, talvez pegando um bonde até o fim da linha ou algo parecido, depois sente fome e usa o dinheiro que tem no bolso para comprar um sorvete, finalmente volta para casa e é despachada para o quarto sem jantar, cansada, faminta, mas orgulhosa de sua façanha." (pág. 37)

"Todos nós temos lá no fundo impulsos sombrios, que normalmente conseguimos manter sob controle. Mas a hipnose pode liberar esses impulsos e um hipnotizador pode facilmente tirar proveito disso." (pág.90)

"-Sofisma... Lembro disso, do meu próprio curso de filosofia. Um argumento capcioso, baseado numa falsa premissa." (pág. 133)

"A primeira regra ao se cometer uma traição é providenciar para que o traído não possa se vingar." (pág. 211)

sábado, 26 de dezembro de 2015

A perseguição

Título: A perseguição
Autor: Sidney Sheldon
Páginas: 234

História fiel aos padrões de Sheldon, no entanto uma história curta e linear, sem nenhuma ramificação ou trama paralela. Não encontrei referência a este livro na Wikipédia (em inglês).

A história é simples: um magnata japonês morre num acidente aéreo e o filho, com 18 anos, deve assumir as empresas. O tio do garoto acha que o testamento foi injusto e ele é que deve herdar a empresa. Para que isso aconteça, só há uma maneira: o garoto deve morrer. O resto do livro é "a perseguição".

Trechos interessantes:

"Sabe por que os nossos negócios crescem tão depressa, Masao? Porque somos melhores do que os outros. Porque nos importamos mais. Somos afortunados por termos nascido japoneses. Em outros países, os trabalhadores fazem greve durante todo o tempo. Pensam apenas em si mesmos. No Japão, somos todos de uma só família, e o que é bom para um é bom para todos." (pág. 16/17)

"Não havia nenhum motivo para que ganhasse aquela corrida, nada significativo para ele. E, no entanto, sabia que tinha de continuar. Era uma questão de orgulho. Já que entrara na corrida, tinha de vencê-la. Não seria o segundo melhor." (pág. 60)

"Foi só então que Masao compreendeu o quanto sentira falta de sua língua. O japonês era uma língua tão civilizada, tão fácil de compreender!" (pág. 79)

"Masao nunca pensara sobre a fome antes. Quando uma pessoa é bem alimentada, não pensa em comida; mas quando uma pessoa está faminta, não consegue pensar em outra coisa." (pág. 101)

"Quando a vida é serena e suave, o Tempo é um amigo. Quando a vida fica repleta de problemas, o Tempo se torna um inimigo." (pág. 157)

"Masao tentara explicar a atitude dos trabalhadores no Japão.
-É como uma família. O trabalhador é bem cuidado enquanto viver. Sabe que não será dispensado. A prosperidade da companhia é também a sua prosperidade. E ele se orgulha de seu trabalho." (pág. 199)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Profecia

Título: Profecia
Autor: S. J. Parris
Páginas: 320

Outro romance histórico, seguindo a linha do primeiro (Heresia): Giordano Bruno desta vez está às voltas com espiões e dissidentes que planejam destronar a rainha Elizabeth para que a rainha católica Maria Stuart seja aclamada.

É um livro policial onde o detetive foi substituído pela figura histórica de Giordano Bruno, mas os ingredientes são os mesmos: mistério, suspense, crime, traição, etc. Leitura primorosa, fazendo com que você se sinta como se estivesse na própria Londres do século XVI.

Trechos interessantes:

"-'Quando ouvires falar de guerras e rumores de guerras, não te perturbes; pois é forçoso que essas coisas aconteçam, mas ainda não é o fim - pondero citando o Evangelho de Marcos." (pág. 27)

"Que rapaz de 17 anos, tendo provado a independência, devolveria de bom grado as rédeas do governo à sua mãe? Ele vai precisar de maior vantagem material do que de sentimento filial para ser convencido a apoiar a causa dela." (pág. 44)

"[...]sem dinheiro, títulos ou terras em meu nome, preciso me tornar indispensável aos homens de poder para progredir, e aprendi pelo método mais difícil que a maioria dos poderosos prefere quem os entretenha a quem os esclareça." (pág. 52)

"Por um instante, reflito sobre o caminho estabelecido para as jovens nascidas na nobreza: quão brevemente lhes é permitido brilhar, serem exibidas e admiradas em público em seu próprio meio social, só o tempo exato que levam para encontrar um marido adequado. O dia do casamento é o zênite de seu curto florescimento. Depois disso, esperam-se que desapareçam outra vez no segundo plano, que cubram os cabelos e se contentem com os reflexos da glória do marido e dos filhos." (pág. 153)

"Claro, foi meu antigo criado que testemunhou contra mim no patíbulo, mas um homem diz qualquer coisa quando está com uma corda no pescoço, não é?" (pág. 164)

"-Ele gostava de você - diz Castelnau mansamente. - Era um esquisitão, o Léon, meio fechado. Mas falava muito bem de você. Acho que você era quem ele mais via como um amigo nesse país.
-Eu deveria ter sido um amigo melhor - digo, e a voz sai rouca.
-Nós todos deveríamos tê-lo tratado melhor. O que dá pena é que nunca se pensou nisso enquanto ele estava vivo." (pág. 257)

"Mesmo assim, onde o dinheiro chega, o desespero vem atrás: mendigos tendo apenas míseras camadas de farrapos entre si e a umidade de outubro perambulam por perto das escadas, choramingando seus pedidos de esmolas aos comerciantes bem alimentados e cobertos de peles." (pág. 272)

"Oriundo de um país governado pelo açoite do Santo Ofício, sei muito bem com que facilidade um homem ameaçado pela dor física diz qualquer coisa passível de agradar àquele que pode ordenar que essa dor cesse." (pág. 286)

"-Se eu não soubesse que isso é impossível, Bruno, seria capaz de jurar que você fez um pacto com o próprio diabo. Você é indestrutível. Mas acho que o diabo não teria coragem de fazer essa aposta. Teria medo de você ser mais esperto que ele." (pág. 304)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A ladeira da saudade

Título: A ladeira da saudade
Autor: Ganymédes José
Páginas: 200

O livro narra a aventura de Lília, jovem sonhadora, na cidade de Ouro Preto. Cansada da rotina de São Paulo, Lília vai passar uns dias na casa de sua tia em Ouro Preto, onde faz novas amizades e encontra um novo amor.

O livro em si é mais uma aula de história já que apresenta em detalhes todos os aspectos de Ouro Preto, sua história, sua arquitetura, suas artes, seus poetas e tudo mais. Enfim, a história do livro é simples, mas os aspectos históricos são fascinantes.

Trechos interessantes:

"Em meu coração jovem há tantos caminhos que não consigo percorrer! Por que sou assim tão contraditória? Agora estou triste... agora estou alegre... Aqui estou radiante mas, ali adiante, sou toda lágrimas! Por que não sou sol-amarelo-calor-e-luz? Por que não aprendo a caminhar sem ter destino até o encontro dos braços que me amem? Braços que me aqueçam... braços que tirem de mim todo o sol que tenho para dar ao mundo!" (pág. 13)

Para Lília, todas as pessoas tinham dois eus: o eu de fora, o físico, que todo o mundo vê, e o eu de dentro, o invisível, que só aparece quando as pessoas são honestas, espontâneas, dedicadas... como acontecia com o pai. [...] Podiam existir pessoas bonitas por fora e feias por dentro? Talvez pudesse, porque Lília conhecia pessoas extremamente feias, porém com um eu interior maravilhoso!" (pág. 15/16)

"Para falar a verdade, entre ter um amigo falso e um inimigo franco, eu prefiro o inimigo franco porque posso confiar nele." (pág.30)

"Depois que Tampinha beijou tia Ninota, Lília também beijou-a. Estranho! Foi um gesto impensado! Até então ela nunca havia beijado espontaneamente a tia! Porém, o gesto da Tampinha foi tão natural que, sem querer, Lília fez igual. Com isso, pôs-se a pensar: 'Será que o amor é assim mesmo, aprendemos sem perceber e precisamos de alguém que nos ensine como fazer?'" (pág. 65)

"Das lojas, portas e janelas, abertas para a rua, emanava um cheiro misterioso. Mofo? Não era isso. Era cheiro de coisas antigas, de lembranças; 'Se saudade tiver cheiro, esse é o cheiro da saudade' - pensou, correndo o dedo sobre uma parede áspera." (pág. 133)

"Não são atitudes como a sua que consertam o mundo. Não vê? Existe uma grita geral por aí, dizendo que não há mais diálogo entre pais e filhos. Dialogar não é só perguntar como vai o corpo, a escola, o estudo, se está precisando de dinheiro ou gasolina para o automóvel. Dialogar é mais do que isso, Flávia... dialogar é a gente conversar com os olhos, com o coração. Aí, quando chega o momento certo, é que sabemos se o diálogo funcionou." (pág. 194)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A filha da minha mãe e eu

Título: A filha da minha mãe e eu
Autor: Maria Fernanda Guerreiro
Páginas: 272

Apesar do tema central ser a relação entre mãe e filha, o livro está repleto de situações de conflitos familiares de toda natureza: amor, ciúme, drogas, rejeição, preconceito, adoção, etc. A autora conseguiu realizar uma miscelânea de sentimentos entre as personagens do livro que, dificilmente, um leitor não conseguirá se situar em pelo menos um pedaço da historia.

O livro narra a história de Mariana que, ao ser mãe, rememora a sua própria convivência com a mãe e a falta de afinidade entre ambas, situação comum a muitas adolescentes. Com o desenrolar da história fica claro que todos têm seus problemas e que, de uma maneira ou de outra, acabam interferindo nas relações pessoais mas, no fim, descobre que o amor de mãe tem vária formas.

Trechos interessantes:

"Quando vi as duas listras azuis no teste de gravidez, tive uma certeza: preciso me sentir filha antes de me tornar mãe. Porque uma parte da minha alegria era inventada e, a outra, não era minha." (pág. 7)

"Essa era uma grande diferença entre os dois. Enquanto meu pai ressaltava como era prazeroso alguma coisa, apesar de ter que abrir mão de outra, minha mãe preferia falar primeiro que abdicava de alguma coisa pela obrigação de outra. Com ele, depois do trabalho, restava a alegria. Já com minha mãe, como a grande maioria das mães, estava ali noite e dia, no prazer sim, mas, principalmente, na obrigação de educar. E só hoje sei que isso faz toda a diferença no jeito como uma criança olha um adulto." (pág. 28)

"Minha mãe costuma dizer que ela podia esfolar vivo um dos filhos, mas que ninguém mais podia tocar um dedo. Era o direito da maternidade. O direito de errar porque estava tentando acertar." (pág. 60)

"Muitas vezes não é o que se diz que magoa, mas o tom com que se fala faz toda a diferença. E eu conhecia todas as variações de voz da minha mãe para saber que aquele clima não melhoraria no dia seguinte, nem no outro." (pág. 100/101)

"A verdade é que éramos duas estranhas que não sabiam demonstrar o sentimento que a outra precisava. De repente, tudo me pareceu tão simples e o tempo entre nós tão desperdiçado. Era fato o amor que existia entre mãe e filha, mas os caminhos escolhidos para demonstrá-lo não tinham sido os mesmos." (pág. 117)

"-Pai, você tem medo de morrer?
-Acho que num grau ou em outro todo mundo tem.
-Por quê?! Se a gente não lembra de nada antes de nascer, provavelmente também não vai lembrar de nada depois que morrer. Não deve ter dor nenhuma - falei, tranquila." (pág. 134)

"A mudança teria de ser como uma explosão. Partindo de um ponto pequenininho dentro dele e indo para fora, tomando conta de tudo ao redor. Seus hábitos teriam que mudar, seus amigos de balada, seu modo de encarar a vida e, sobretudo, na minha opinião, sua capacidade de lidar com frustrações.
Ele teria que aprender a não mais fugir para as drogas quando as coisas não saíssem como desejava. E o mais difícil: teria que buscar a felicidade em outro lugar, num lugar mais verdadeiro e não na química que, apesar de promover alegria, destruía seu corpo e, pouco a pouco, sua capacidade de raciocínio e convivência com as pessoas. Mas essa era uma decisão que pertencia a ele. Só a ele." (pág. 189)

"Notei que quando a gente percebe que os outros têm os mesmos problemas que a gente, isso ajuda a diminuí-los." (pág. 216)

"Mas não é nos sentimentos demonstrados que residem nossos maiores erros e sim naquele amor que, apesar de existir, não se mostra. Os pais querem tanto ser justos com os filhos que, às vezes, acabam sendo injustos." (pág. 259)

"Então, se você está receosa de achar que não vou ligar para o que você vai me contar só porque eu já vi isso um milhão de vezes, você está enganada. O ser humano sempre me surpreendeu. Isso porque ele tem o livre-arbítrio, o que faz toda a diferença na história de qualquer um. Provavelmente, a única coisa em você que é igual a todo mundo é o fato de sentir-se diferente." (pág. 262)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Dois dedos de prosa

Título: Dois dedos de prosa
Autor: Maria do Rosário Cassimiro
Páginas: 196

Este livro de crônicas é um grande marco da literatura goiana. A autora, especialista em educação e ex-reitora da UFG, discorre sobre a história de Goiás, suas personalidades, sua evolução e, principalmente, sobre Catalão - sua terra natal.

São narrativas agradáveis de se ler, mostrando a cultura e o comportamento do povo goiano, fatos estes cuja maioria é desconhecida pelos próprios goianos. Para quem é da terra é fácil se identificar com as personagens e bate aquele sentimento de saudosismo...

Trechos interessantes:

"Dou um conselho aos meus caríssimos leitores: poupem e verão como a medida lhes será frutífera. Só lamento que, nestes tempos de crise, meu conselho vá de encontro ao do presidente Lula, que mandou o povo gastar, conselho que contraria tudo o que aprendi na vida, em matéria de economia. Estendo minha mão à palmatória, quanto ao fato de não entender de macroeconomia. Mas de microeconomia entendo um pouco, e estou satisfeita com esse pouco. Tenho-me dado bem com ele." (pág. 15)

"Lembro-me de que há duas décadas, quando o governo federal lançou a Ferrovia Norte-Sul, a mídia nacional, notadamente a imprensa escrita, julgou a ideia pejorativamente, como se fosse uma tentativa de 'ligar o nada a coisa nenhuma'." (pág. 25)

"Guardo um profundo respeito pelos pioneiros. Aqueles que colocaram o primeiro degrau da escada. Como é difícil plantar o primeiro degrau!... Sobrepor o segundo, o terceiro, o quarto e todos os demais torna-se uma tarefa cada vez mais simples, uma vez que, ao colocá-los, encontramo-nos, já, na escada. Mas quem implanta o primeiro degrau ainda está com os pés no chão e tem de vencer, sem dúvidas, um mundo todo de obstáculos para se fazer chegar ao histórico primeiro marco." (pág. 45)

"Não dou por encerrada minha saga de batalhadora. Prosseguirei com minha missão. Ainda não posso, portanto, repetir as santas palavras do Apóstolo Paulo, pois se é verdade que conservo a fé, não é verdade que tenha terminado a tarefa." (pág. 63)

"Se existem tipos de trabalhos condenáveis aos mais jovens - e eles existem - não é proibindo indistintamente o trabalho a menores de qualquer idade que se fará a justiça. Em muitos casos- se não for na maioria deles - esses pequenos jovens jogados na ociosidade, tornam-se menores marginais, meninos de rua, instrumentos fáceis nas mãos de traficantes de drogas e de outros tipos de bandidagem, nas grandes cidades. Em geral, eles descuidam da escola, tornam-se rebeldes na família e se perdem para a vida, causando enormes males à sociedade e a si mesmos. A ociosidade, também, é uma escola - a pior delas." (pág. 66/67)

"Dizem, e a ciência o prova, que o mundo já foi dos dinossauros, de aves descomunais e de répteis gigantes. É tamanha a saga das transformações que, às vezes, me pergunto se chegará o dia em que algum ser vivente dirá: 'O mundo já foi dos humanos'." (pág. 119)

"Assim é que nos estamos acostumando ao fato de que o desenvolvimento chega sempre antes da educação. No comboio do progresso, a educação é o último dos vagões. É por isso que temos, até hoje, os nossos elevadores riscados, nossos bens públicos - telefones, lâmpadas, arborização, etc. - rabiscados ou danificados, porque o desenvolvimento chegou antes da educação. Quando se projeta uma hidrelétrica nos confins dos nossos sertões, ou as estradas penetram os ermos do nosso território pátrio, a escola não vai junto, chega muito depois, sempre atrasada." (pág. 134)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A estrela sobe

Título: A estrela sobe
Autor: Marques Rebelo
Páginas: 220

Leniza é uma garota pobre, que mora no subúrbio somente com a mãe e que tem um sonho desde criança: tornar-se cantora de rádio. No início, quando ainda era um sonho, aquele era, na sua imaginação, um mundo de glamour e satisfação e o fato de pertencer a este mundo garantia a realização de todos os seus desejos.

Mais tarde, quando passou de sonho a possibilidade, ela viu que era preciso mais do que apenas talento para alcançar aquele patamar. Mas, como era seu sonho, batalhou para isso. E, enquanto subia artisticamente, os seus valores morais iam caindo progressivamente. Ao chegar ao topo, não encontrou aquela alegria que ela imaginava.

Trechos interessantes:

"Mas sempre era uma espécie de liberdade andar na rua, não ter horas certas, conversar com este, conversar com aquele, conhecer gente, ver passar gente (por que se encontram nas ruas criaturas às quais, por um sorriso, um piscar de olhos, uma inclinação de cabeça, nos sentimos imediatamente ligados, confundidos os destinos e os desejos, e que passam, e em noventa por cento dos casos, nunca mais vemos?)" (pág. 26/27)

"Uma das habilidades (do diabo) consiste em nos apresentar como triunfos, as nossas derrotas." (pág. 72)

"O tique-taque do relógio aumentava ainda mais o silêncio. Lembrou-se das palavras ouvidas num silêncio assim, na casa pequena da Rua da América. Parecia que as estava ouvindo novamente, martelando o silêncio, tornando o silêncio maior, mais doloroso, mais ameaçador. 'Não devia perdoar. Eu só tenho te ajudado na vida. Você se esquece, você finge esquecer. Tenho sempre te ajudado nos momentos mais difíceis, dia e noite, sem uma queixa, tolerando tudo, suportando tudo. Nunca reclamei nada. Nada! Nada! Mas assim também é demais, Martin. Demais, passa da conta. O que os olhos não veem, o coração não sente, mas eu sempre vi tudo, Martin. Tudo, tudo!'" (pág. 102)

"Leniza levantou-se e encaminhou-se atrás dele para o mostruário, que ficava no fundo da comprida sala. -São muito caros?
Ele vergou-se, num gesto galante.
-Depende do que a senhorita chama caro...
-Sempre chamei caro a tudo que custa muito dinheiro, ué...
-Aí é que erra, se me perdoa dizê-lo. Custa caro o objeto cujo preço não corresponde à sua utilidade. Ora, não pode haver nada mais barato do que um rádio, porque não há objeto mais útil do que ele. É o mundo em casa. Informa, diverte, instrui." (pág. 119)

"Era lamentável como cantora, e, fato raro no meio, tinha perfeita consciência disso. 'Mas onde chego, abafo', dizia mostrando os dentes miraculosamente claros e iguais. E era verdade. A sua graça pessoal, a sua beleza muito retocada e o seu corpo tentador - e o que se propalava dos seus vícios! - faziam transformar a sua mediocridade vocal numa completa sedução, que ela sabia explorar com um tino admirável." (pág. 134)

"Sentia-se miserável,imunda, escória humana,campo de todos os pecados, lama, pura lama. Mas subira. Dois ou três degraus na escada do mundo. Via que já estava num plano bem acima, algumas figuras já ficavam menores, a miséria escondia-se já numa bruma longínqua. Mas precisava subir mais, sempre mais, custasse o que custasse." (pág. 154)

"[...]
-Tuas mãos não dizem isto...
-Mentem.
-Não acredito.
-Você sempre duvidou de todas as verdades e acreditou em todas as mentiras." (pág. 177)

"As horas correm. Cinco horas. Sua mãe apareceu com um prato de mingau. Entregou-lhe o prato olhando para o teto. Como o aceitou, como conseguira engoli-lo? E a mãe ao lado, esperando que ela terminasse. Oh, quão penosa era a presença da mãe! Como imaginar que um coração tão bom tivesse ficado tão duro, tão hostil, tão distante?" (pág. 216)

sábado, 28 de novembro de 2015

A dama do lago

Título: A dama do lago
Autor: Raymond Chandler
Páginas: 266

Clássico livro policial, de mistério e suspense, estilo "noir". Um magnata contrata um detetive particular para encontrar sua esposa desaparecida e as buscas começam num chalé nas montanhas, próximo a um lago que dá título ao livro.

Com a narrativa lenta e despretensiosa, comuns em livros do gênero, o autor vai inserindo mais detalhes na história, envolvendo o leitor em dramas e mistérios diversos até chegar ao clímax, mostrando que havia bem mais que um simples caso de pessoa desaparecida.

Trechos interessantes:

"'Quanto a estar sendo rude demais comigo', disse eu, 'a maior parte dos clientes começa chorando na minha camisa, ou então falando grosso para mostrar quem manda. Mas, de um modo geral, no fim eles ficam bastante razoáveis - se ainda estão vivos'." (pág. 25)

"'Não estava fazendo planos de casar com ela?'
Ele soltou uma baforada e falou por entre a fumaça: 'Pensei nisso, sim. Ela tem dinheiro. Dinheiro é sempre útil. Mas ia ser uma maneira muito desgastante de ganhá-lo'." (pág. 35)

"No canto inferior direito do para-brisas havia um cartaz branco escrito em letras maiúsculas:
ELEITORES, ATENÇÃO! VOTEM EM JIM PATTON PARA XERIFE. ELE ESTÁ VELHO DEMAIS PARA TRABALHAR." (pág. 65)

"'Deram cinco ou seis tiros nele', disse eu. 'Dois acertaram. Ele foi encurralado dentro do box do banheiro. Era uma cena muito sinistra, eu diria. Havia muito ódio num dos lados. Ou então uma mente muito fria'.
'Ele era alguém muito fácil de odiar', disse ela com uma voz vazia. 'E venenosamente fácil de amar. Mulheres, mesmo as mulheres direitas, cometem equívocos terríveis em relação aos homens'." (pág. 134)

"'O trabalho da polícia', disse ele, quase bondosamente, 'é um problema danado. Parece muito com a política. Exige o tipo mais elevado de homem, mas não existe nada nele que atraia o tipo mais elevado de homem. A gente tem que se virar com o que aparece, e o que aparece são coisas desse tipo'." (pág. 176)

"Atrás de mim vinha o som remoto e abafado de uma voz que parecia estar cantando a litania policial: 'Abra essa porta ou vamos arrombar.' Fiz uma careta na direção da voz. Eles não arrombariam nada, porque arrombar uma porta machuca os pés. Policiais são cuidadosos com os próprios pés. Aliás, os próprios pés são a única coisa que eles tratam com cuidado." (pág. 201)

domingo, 22 de novembro de 2015

A metade da laranja?

Título: A metade da laranja?
Autor: Ana Canosa
Páginas: 144

Livro pequeno, mas muito interessante. É como se fosse um papo descontraído com um psicólogo (a autora é psicóloga) sobre as atitudes comportamentais do ser humano. Sexo, casamento, relacionamentos, emoções, conflitos, tudo aqui é destrinchado, numa linguagem simples, franca e compreensiva.

Achei também interessante o fato da autora intercalar cada capítulo com um relato pessoal das consultas realizadas por ela (preservados os nomes dos envolvidos, é claro). Ali vemos que muitos problemas são comuns a muita gente e as soluções, ás vezes, podem ser simples.

Trechos interessantes:

"Entenda verdadeiramente o seguinte: nem todo mundo gosta de você, e há realmente quem o ache um saco! Portanto, acredite quando alguém lhe disser que você não agradou, porque isso não é 'viagem', neurose nem loucura alheia! Nem sempre você vai agradar mesmo! E tem mais... é possível que este bilhete vermelho venha justamente quando a paixão já estava começando a enfraquecer, e a pobre coitada da 'rotina' apareceu para estragar tudo. É comum, e sabe por quê? Porque é quando a paixão diminui que as parcerias realmente começam... 'ser parceiro' é admitir que o outro é tão falho quanto nós mesmos, mas ainda assim nós o admiramos e o queremos." (pág. 20)

"Há dois grupos de pessoas: as âncoras, que colocam nossa vida para baixo, e as pessoas do tipo 'balão', que nos puxam para cima. Sim, existem também aquelas que são 'meio-termo', que nunca dão opinião,  que não elogiam ou te desqualificam, mas ainda acredito que esse grupo fica mais próximo de gente âncora; nós gostamos de elogios, de opiniões e até mesmo de criticas, que sejam construtivas, ao passo que os que nunca se posicionam costumam nos deixar inseguros, temerosos ou com raiva." (pág. 34)

"É o que sempre digo: intimidade é bem diferente de simbiose, quando um se funde ao outro e a individualidade se perde. Se eu conto tudo para o outro, me esvazio, deixo até de ser interessante e surpreendente." (pág. 46)

"Se alguém souber onde estão vendendo orgasmos, eu gostaria de ser avisada, para poder presentear muita gente!" (pág. 49)

"Sexo no casamento é como cinema: tem a fase da ficção, do romance, da comédia romântica, do pastelão e do drama. Às vezes, tem até a fase do terror! Mudam-se as emoções, mas o enredo é quase sempre igual. E o pior, mesmo, é quando chega a fase do documentário... tudo fica descritivo, sem fantasia!" (pág. 60)

"O segredo da felicidade é simples: basta entender um pouquinho sobre o valor da liberdade para 'ser' quem somos, sem precisarmos abandonar nossa identidade em nome de um relacionamento. Quanto mais livre somos, mais vontade temos de voltar!" (pág. 69)

"Por mais que os cientistas procurem os genes da monogamia, a maioria das pessoas diz que não, o homem não é monogâmico por natureza. Segundo eles, o que aconteceu, num dado momento do desenvolvimento humano, foi a necessidade de regrar o comportamento sexual e afetivo, para que nossa espécie pudesse se desenvolver." (pág. 81)

"Lamentavelmente, não são poucas as pessoas que se escondem atrás das atitudes dos outros, projetando neles suas próprias dificuldades; ou os que se entorpecem com álcool, drogas ou excesso de trabalho. Para assumir a responsabilidade sobre sua vida, é necessário reconhecer suas próprias atitudes tóxicas, o que pode ser muito doloroso: quem não sofre ao admitir que está vivendo uma vida cheia de lixo, na forma de raiva, ressentimento, falta de perspectiva e prazer? Fica mais fácil
culpar alguém."(pág. 101)

"Por fim (ou talvez para começar), é preciso refletir: o que cada um tem feito para ser amado, querido e acarinhado? Só o fato de ser filha ou filho, mãe, pai, irmã ou irmão, esposa ou marido, e mesmo avó, não garante amor. Ninguém consegue amar com devoção alguém que não se faz ser amado. Não adianta cobrarmos afeto, generosidade ou educação se nós somos frios, egoístas, rabugentos e inacessíveis.'Porque eu sou sua mãe!' é uma frase que permite pedir respeito, não amor. Amar não é um verbo imperativo, e, para conjugá-lo, é preciso ter liberdade. O amor não vem pronto, é um sentimento que cresce, amadurece e deve ser cultivado." (pág. 120)

"Não me canso de perguntar: em que ser homossexual, ou bissexual ou, mesmo, assexual (pessoa que não gosta de sexo) desabona alguém? Por que sua preferência o tornaria melhor ou pior do que outra pessoa? Sobre quais valores estamos baseando a educação e o convívio em sociedade, para que o mundo seja melhor?" (pág. 126)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A invasão dos ratos

Título: A invasão dos ratos
Autor: James Herbert
Páginas: 142

Livro muito antigo, mas não encontrei em nenhum lugar a data de publicação. História de terror, cuja leitura não me agradou muito por se tratar de animais asquerosos. Mas a história em si é simples e coerente, só as personagens não me agradaram.

Numa cidade da Inglaterra, ratos gigantes aparecem aos montes e passam a atacar as pessoas, sejam elas homens, mulheres ou crianças. Um professor da escola local ajuda a polícia a tentar controlar o caos que se estabeleceu. O final da história é interessante.

Trechos interessantes:

"Que se podia esperar, quando se viviam na zona das docas, os pais trabalhando nas docas ou nas fábricas, a maioria das mães trabalhando também, de forma que os garotos quando saíam da escola para casa iam para uma casa vazia. E, quando os pais chegavam, não tinham tempo para eles. Apesar disso, no tempo dele ainda tinha sido pior. Hoje em dia os estivadores ganham bom dinheiro e os operários também. Muito mais que ele como professor. Hoje a grande diferença entre trabalhadores e classe média é a pronúncia." (pág. 12/13)

"Passou-se algum tempo até serem recebidos pelo médico, que era muito novo, muito mais novo do que Harris. Quando médicos e policiais parecem garotos, a velhice está à porta, divagou Harris." (pág. 18)

"Não, de nada servia exagerar com a autoridade, pois sabia que apatia existe a todos os níveis. O funcionário do gás esquece de reparar um escapamento. O mecânico que não aperta bem uma porca. O condutor que guia a mais de setenta quilômetros com nevoeiro. O leiteiro que deixa uma garrafa em vez de duas. Era tudo questão de proporção. Não era esse o significado do Pecado Original? Todos temos culpas." (pág. 47)

"Mas talvez a fuga mais fantástica de todas fosse a do jornaleiro, na sua volta matinal, que tomou um atalho e viu-se de repente no meio de trinta ou quarenta ratos gigantes. Espetacularmente calmo para um garoto de quatorze anos, avançou tranquilamente por meio deles, tendo o cuidado de não pisar nenhum. Sem qualquer razão aparente, deixaram-no passar incólume. Ninguém teria acreditado no rapaz, se não tivesse sido visto da estrada por dois homens a caminho do trabalho. Não havia explicação para o fenômeno, nenhuma razão lógica." (pág. 89)

"O caso é que quanto mais poder se tem, mais fácil se torna encontrar soluções para os problemas. Basta rodear-se de gente capaz, eles trazem as respostas e você toma a glória. O difícil era chegar a essa posição de autoridade, mas uma vez conseguida o resto era fácil." (pág. 98/99)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Deixados para trás

Título: Deixados para trás
Autor: Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins
Páginas: 416

Durante um voo de rotina o piloto é surpreendido com a notícia de que vários de seus passageiros simplesmente sumiram, restando apenas as roupas nos assentos. Mais tarde descobre-se que não foi um caso isolado: no mundo inteiro, inúmeras pessoas haviam desaparecido da mesma forma. Na falta de uma explicação lógica, as pessoas entenderam que havia chegado o dia do juízo final, aquelas pessoas haviam sido arrebatadas e as demais deixadas para trás.

A história do livro é centrada nisso e mesmo não discutindo de uma forma fanática a religião, no fundo, o objetivo é um só: direcionar para o aspecto religioso. Há alguns trechos envolvendo política, comunicação, jornalismo, etc. mas a maior parte é a discussão do aspecto religioso. Acho que o grande mérito do livro é, justamente, não dar respostas, deixar a situação em aberto.

Trechos interessantes:

"No fim da saleta, ele parou diante da porta com painéis em relevo que dava acesso ao quarto do casal. Que lugar bonito e bem-ornamentado Irene fez, com que gosto ela decorava todos os cantos da casa! Tinha ele alguma vez dito a ela que apreciava isso? Tinha ele alguma vez apreciado isso?" (pág. 71)

"-O que dizer daquela sua sarcástica insistência para que sejamos inteiramente sinceros?
-Dizer toda a verdade nem sempre significa dizer tudo o que fazemos. Você diz à sua tripulação que vai fazer uma pausa para ir ao banheiro, mas não entra em detalhes sobre o que vai fazer lá, não é mesmo?" (pág. 91)

"Finalmente, ele passou a compreender por que as famílias enlutadas se queixavam quando o corpo de um parente estava mutilado demais para ser reconhecido ou tinha sido completamente destruído. Elas costumavam dizer que não fazia sentido alguém lacrar o caixão, sem permitir que o corpo fosse visto, e que o sofrimento se tornava maior porque era difícil aceitarem a ideia de que a pessoa tinha morrido.
Isso sempre pareceu estranho para ele. Que motivos teria alguém para desejar ver o corpo da esposa ou do filho estendido num caixão à espera do funeral? Não seria melhor recordar deles vivos e felizes como eram? Mas ele agora compreendia melhor." (pág. 93)

"Poucas pessoas quiseram argumentar com Deus, tentando dizer-nos que tinham sido realmente crentes e deveriam ter sido arrebatadas com os outros, mas todos estávamos convencidos da verdade. Éramos pseudocristãos. Não havia um único entre nós que não soubesse o que significa ser um verdadeiro cristão. Sabíamos que não o éramos e que tínhamos sido deixados para trás." (pág. 176)

"Inúmeras pessoas pensaram que estavam no caminho para Deus ou para o céu por praticar boas obras, mas essa foi provavelmente a concepção mais equivocada que já houve. Perguntem a qualquer pessoa na rua o que ela pensa que a Bíblia ou a igreja diz a respeito de ganhar o céu, e nove entre dez dirão que, para ir para o céu, é preciso fazer o bem e viver uma vida reta." (pág. 182)

"Fui um homem de negócios acima da média na Romênia, quando ainda frequentava a escola secundária. Estudei muitas línguas à noite, aquelas que eu precisava conhecer para ser bem-sucedido. Durante o dia, administrava meus negócios de importação-exportação e consegui tornar-me um homem de dinheiro. Mas o que eu entendia por riqueza era insignificante diante do que se poderia fazer com ela." (pág. 264)

"-O que você vai decidir a respeito do convite para a nova função?
-Tenho 24 horas, lembra-se?
-Não use todo esse tempo. Se responder muito depressa, vai parecer ansioso; se demorar, indeciso." (pág. 293)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Nossas câmeras são seus olhos

Título: Nossas câmeras são seus olhos
Autor: Fernando Barbosa Lima
Páginas: 200

Fernando Barbosa Lima é um profissional da televisão, tendo trabalhado nas principais emissoras de televisão do país e criado mais de cem programas televisivos. Em suma, é uma autoridade em televisão e o livro nos mostra a evolução da televisão no Brasil, através da descrição de seus programas.

A história é contada através de relatos envolvendo atores, diretores e funcionários das empresas de televisão. Nisso mistura-se política, cultura e desenvolvimento ao mostrar a evolução da TV brasileira, não somente no aspecto material mas principalmente no aspecto de conteúdo. Mesmo que você não seja um adepto da televisão, pode-se achar muita coisa interessante no livro.

Trechos interessantes:

"Nenhum veículo de comunicação, em toda a história da humanidade, teve a força que tem a televisão.
[...]
Uma criança brasileira, por exemplo, assiste a mais de seis ou sete horas de televisão por dia, tempo superior ao que ela passa na escola, junto com amigos ou com a família. Como será o futuro dessa criança num Brasil do Terceiro Mundo?" (pág. 20)

"A boa repercussão do programa [Em poucas palavras] nos mostrava que uma televisão com conteúdo tem seu público, seus admiradores. Ao mesmo tempo, pensávamos e questionávamos o fato de a televisão, muitas vezes, estar apelando para uma grande audiência, baixando o nível dos programas e produzindo puro lixo. Entretanto, esses programas de baixo nível, absolutamente idiotas, atingem um público que, mesmo numeroso, mesmo dando alto Ibope, não tem poder aquisitivo para comprar os produtos anunciados. Nunca entendi por que boa parte dos anunciantes nunca levou isso em consideração. Pior, além de não vender, a marca desses anunciantes perde prestígio em meio a tanta vulgaridade." (pág. 41)

"-Coronel, seu filho Heraclinho (que era deputado) é uma boa pessoa, mas mente demais.
O coronel explicou:
Não é bem assim, meu filho; o Heraclinho só tem um defeito. Ele fala demais. A verdade acaba, e ele continua falando..." (pág. 49)

"E o general Castelo Branco, um pseudoliterato que sonhava com a Academia Brasileira de Letras e à noite gostava de frequentar teatros, assumia como ditador; exatamente por ser o primeiro ditador, foi quem mais prendeu e cassou direitos de milhares de intelectuais, políticos, estudantes, operários e camponeses. Nem Médici cassou direitos de tantos e prendeu tantos como Castelo Branco." (pág. 76)

"Nos países do Primeiro Mundo, à exceção de Portugal, as televisões não passam novelas em horário nobre. Por quê? É simples: nesses países as pessoas não querem ficar amarradas à noite vendo novelas. Preferem ir ao cinema, jantar fora, assistir a uma peça teatral ou uma ópera; muitas vezes, ler um bom livro. É outro nível de cultura, outro mundo." (pág. 88)

"No Xingu, o cacique Raoni disse para Washington, numa conversa gravada, uma das frases mais apropriadas que já ouvi:
-O índio, quando quer virar branco, fica bobo.
Traduzindo: quando se quer ser uma coisa que não é, se fica idiota. (pág. 145)

"Em outra ocasião, um famoso fotógrafo da revista Manchete foi convocado á sala de seu Adolpho, que lhe mostrou o último número da revista Geographic Magazine com suas fotos impecáveis, questionando:
-Por que não fazemos fotos tão boas?
-Seu Adolpho, imagine só as câmeras que esses fotógrafos da Geographic têm e compare com as nossas.
Seu Adolpho, sem se dar por vencido, retrucou imediatamente:
-Você acha que se Machado de Assis tivesse uma caneta Parker 51 escreveria melhor?" (pág. 161)

sábado, 31 de outubro de 2015

O testamento

Título: O testamento
Autor: John Grisham
Páginas: 438

Troy Phelan, um milionário de 84 anos com três ex-esposas e seis filhos desajustados, está prestes a assinar seu último testamento, na presença de três psiquiatras. Depois de assinado, retira do bolso outro testamento, assina na presença de seu advogado e salta do prédio para a morte. Neste último testamento, Troy Phelan deixa toda sua fortuna para uma filha ilegítima, que ninguém sabia de sua existência, deixando os filhos e as ex-esposas sem nada.
O resto do livro é a localização da filha ilegítima e a revolta dos filhos que se sentem injustiçados. A história prende o leitor, que se vê às voltas com as questões legais e éticas do caso. Outro fato interessante é que a filha ilegítima está no Brasil e assim, grande parte da narrativa versa sobre terras brasileiras, especialmente o Pantanal. Boa leitura.

Trechos interessantes:

"O problema que existe em ter dinheiro é que todo mundo quer um pouco." (pág. 12)

"-Parece fraudulento - Durban disse. -Ele os atrai com a promessa de dinheiro, satisfaz seus psiquiatras, e no último segundo assina um testamento que os exclui completamente.
-Foi fraudulento, mas isso é um testamento, não um contrato. Um testamento não é um presente. De acordo com a lei da Virgínia, ninguém é obrigado a deixar um centavo para os filhos." (pág. 37)

"Nate ficou agradavelmente surpreso ao ver que todos os rostos estavam atrás de uma grande variedade de jornais da manhã. O noticiário era tão moderno e bem-feito quanto nos Estados Unidos e estava sendo lido por pessoas ávidas pelas notícias. Talvez o Brasil não fosse tão atrasado quanto tinha pensado. Aquela gente sabia ler!" (pág. 87)

"Como está se sentindo?
-Muito melhor - Nate disse, quase envergonhado. Mas a vergonha era uma emoção que havia abandonado há anos. Os viciados não sabem o que é sentir vergonha. São tantas as ocasiões vergonhosas que acabam imunes a elas." (pág. 139)

"Quando o explorador português Pedro Álvares Cabral pela primeira vez pisou no solo brasileiro, na costa da Bahia, em abril de 1500, havia no país cinco milhões de índios, em novecentas tribos. Tinham mil cento e setenta e cinco línguas diferentes e, a não ser por pequenas escaramuças entre as tribos, viviam em paz.
Depois de séculos submetidos aos processos de 'civilização', impostos pelos europeus, as populações indígenas estavam dizimadas. Apenas duzentos e setenta mil sobreviveram, em duzentas e seis tribos, que usavam cento e setenta línguas diferentes. A guerra, o assassinato, a escravidão, as perdas territoriais, as doenças - nenhum método de exterminação foi esquecido pelas culturas civilizadas." (pág. 179)

"-O cacique gostou de vocês?
-Evidentemente. Quer que passemos a noite aqui.
-O que acha do meu povo?
-Estão todos nus.
-Sempre estiveram.
-Quanto tempo levou para se acostumar?
-Eu não sei. Uns dois anos. Aos poucos a gente se acostuma, e com todo o resto. Nos primeiros três anos tive muita saudade de casa e agora, em certos momentos, eu gostaria de dirigir um carro, comer uma pizza e ver um bom filme. Mas a gente se adapta." (pág. 234)

"-Você teria uma família e amigos se fosse para a casa agora. Seria famosa.
-Outro bom motivo para ficar aqui. Aqui é o meu lar. Eu não quero o dinheiro.
-Não seja tola.
-Não estou sendo tola. O dinheiro não significa coisa alguma para mim. Isso devia ser óbvio.
-Você nem sabe quanto é.
-Não perguntei. Trabalhei hoje sem pensar no dinheiro. Farei o mesmo amanhã e depois de amanhã." (pág. 238)

"-[...]A terra é tudo para os índios. Sua vida. A maior parte foi tomada pelos homens civilizados.
-Já ouvi essa história antes.
-Sim, já ouviu. Nós dizimamos sua população com banhos de sangue e doença e tomamos sua terra. Então os mandamos para as reservas e não podemos compreender por que não se sentem felizes." (pág. 245/246)

"O despachante é parte essencial da vida no Brasil. Nenhuma casa de comércio, banco, empresa de advocacia, grupo de médicos ou pessoa com dinheiro pode operar sem os serviços de um despachante. É o homem que facilita tudo. Num país onde a burocracia é antiquada e lenta, o despachante é o homem que conhece os funcionários da prefeitura, o pessoal dos tribunais, os burocratas, os agentes da alfândega. Conhece o sistema e sabe o que fazer para que funcione. No Brasil não se consegue nenhum documento oficial sem a longa espera nas filas e o despachante é o homem que fica na fila por você. Por uma pequena quantia ele espera oito horas para renovar a vistoria do seu automóvel, depois a prega no pára-brisa enquanto você está trabalhando. Ele faz o serviço de banco, de encomendas, de correspondência - uma lista interminável." (pág. 314)

sábado, 17 de outubro de 2015

O príncipe dos canalhas

Título: O príncipe dos canalhas
Autor: Loretta Chase
Páginas: 288

Marquês de Dain (conhecido também como lorde Belzebu) foi rejeitado pelo pai, humilhado pelos colegas de escola, abandonado pela mãe, leva uma vida pecadora e depravada e nenhuma dama respeitável sequer se aproxima do mesmo. Eis que surge em cena Jessica Trent, uma mulher independente, que não tem meias palavras e que tem por objetivo livrar o irmão das influências nefastas do marquês.

O encontro dos dois provoca conflitos interessantes: o marquês fica revoltado por encontrar uma mulher a quem ele não consegue dominar e a jovem dama sente-se atraída pela figura repulsiva do marquês. A sequência da história é o que mais ou menos se espera de um romance desta categoria, com um final feliz, é claro. Leitura simples, mas agradável.

Trechos interessantes:

"Dali em diante, decidiu que adotaria o seguinte lema de Horácio: 'Ganha dinheiro honestamente, se puderes; senão, como puderes'." (pág. 14)

"'Esposa ou amante, são todas iguais', ele costuma dizer aos amigos. 'Quando uma dama - virtuosa ou não - se prende a você, você se torna o dono de uma propriedade problemática, onde os arrendatários estão sempre em pé de guerra e pela qual você precisa despender muito trabalho e dinheiro. Tudo pelo privilégio ocasional - que depende dos desejos dela - de conseguir o que você poderia ter com qualquer meretriz em troca de alguns xelins'." (pág. 73)

"'Não há animal mais invencível do que a mulher', dissera Aristófanes. 'Nem o fogo nem qualquer felino selvagem consegue ser tão implacável'." (pág. 105)

"-Eu? Ajudar? - perguntou ele, incrédulo. - Para que diabo servem os criados, sua cabecinha de vento? Eu não lhe disse que pagaria tudo? Se ninguém em casa tem competência para fazer o serviço, então contrate alguém. Se você quer ser uma marquesa rica, por que não começa a agir como uma? As classes trabalhadoras trabalham - explicou ele, com uma paciência exagerada. - As superiores lhes dizem o que fazer. Não se deve ir contra a ordem social." (pág. 117/118)

"Vawtry não se preocupava com os comerciantes a quem devia; as notas promissórias que passara aos amigos é que lhe causavam ansiedade profunda. Se não conseguisse saldá-las, não teria mais amigo nenhum. Um cavalheiro incapaz de pagar suas dívidas não seria mais considerado um cavalheiro. Essa ideia era ainda mais apavorante do que a ameaça dos agiotas ou das prisões para devedores." (pág. 134)

"Com o mundo em ordem, Dain dedicou um tempo preguiçoso do banho para revisar seu dicionário mental. Removeu sua esposa da categoria geral denominada 'Mulheres' e deu a ela uma seção própria. Fez uma anotação onde indicava que ela não o achava repugnante e propôs várias explicações: (a) visão e audição prejudicadas, (b) um pequeno defeito em seu intelecto, que, em todos os outros assuntos, era impecável, (c) uma excentricidade da família Trent ou (d) um ato de Deus. Como o Todo-Poderoso nunca havia lhe concedido a dádiva de um único ato de gentileza em pelo menos 25 anos, Dain pensou que já não era sem tempo, mas agradeceu ao Pai Celestial mesmo assim e prometeu ser um bom marido." (pág. 191)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A criação

Título: A criação

Autor: Edward O. Wilson
Páginas: 192

Edward Wilson, um dos maiores biólogos do mundo, faz um claro apela à vida. Tenta sensibilizar a todos, mostrando que pouco sabemos sobre a vida na Terra e temos ainda menos preocupação em ampliar os conhecimentos. Necessitamos da Natureza, mas a tratamos como se ela fosse um objeto secundário.

O livro é escrito na forma de uma carta a um pastor evangélico, conclamando a união da ciência e da religião em prol da vida. Apesar do abismo existente entre estas duas vertentes, o autor argumenta que devemos deixar de lado as questões menos importantes e unirmos força para defender a Criação. Excelente livro.

Trechos interessantes:

"A espécie humana adaptou-se física e mentalmente à vida na Terra, e a nenhum outro lugar. Nossa ética é o código de conduta que temos em comum, com base na razão, na lei, na honra e em um senso inato de decência, ainda que alguns o atribuam à vontade de Deus." (pág. 12)

"Mas o que é a Natureza? A resposta mais simples possível é também a melhor: a Natureza é aquela parte do ambiente original e de suas formas de vida que permanece depois do impacto humano. Natureza é tudo aquilo no planeta Terra que não necessita de nós e pode existir por si só." (pág. 23)

"É prudente deter a destruição final e permanente da Natureza, pelo menos até que compreendamos mais exatamente o que somos, e o que estamos fazendo." (pág. 38)

"É possível que nunca cheguemos a avistar pessoalmente certos animais raros - podemos lembrar o lobo, o pica-pau-bico-de-marfim, o panda, o gorila, a lula-gigante, o grande tubarão-branco, o urso-pardo -, mas precisamos deles como símbolos. Eles proclamam o mistério do mundo. São as joias da coroa da Criação. Só saber que eles existem em algum lugar, estão vivos e passam bem é importante para o espírito, para que a nossa vida seja inteira. Se eles vivem, então a Natureza também vive. Com certeza nosso mundo estará em segurança, e nós estaremos em uma situação melhor. Imagine o choque desta manchete: ABATIDO O ÚLTIMO TIGRE - A ESPÉCIE ESTÁ EXTINTA." (pág. 69)

"Não há nenhuma solução disponível, posso lhe garantir, para salvar a biodiversidade da Terra, além da preservação dos ambientes naturais em reservas grandes o bastante para manter as populações silvestres de forma sustentável. Só a Natureza pode servir como arca de Noé planetária." (pág. 104)

"Os cientistas são para a ciência aquilo que os pedreiros são para as catedrais." (pág. 119)

"No longo caminho à frente, a biologia de modo geral e os estudos sobre a biodiversidade em particular necessitam de um mapa. Pastor, se o senhor está se perguntando o que tem a ver esse pré-requisito com a Criação, devo lhe dizer que nós pouco sabemos sobre o que está acontecendo com a maior parte da vida na Terra porque nem sequer sabemos o que ela é. A humanidade não precisa de uma base na Lua nem de uma viagem tripulada a Marte. Precisamos de uma expedição ao planeta Terra, onde provavelmente menos de 10% das formas de vida são conhecidas pela ciência, e menos de 1% destas já foram estudadas além de uma simples descrição anatômica e algumas anotações sobre sua história natural." (pág. 133)

"Archer era um profissional e me tratava como se eu também fosse. Ele fez com que me sentisse confiante. Ensinou-me a falar a linguagem de um verdadeiro pesquisador científico. Não se importava com dinheiro nem fama; importava-se com a classificação e a biologia das aranhas. Eu não compreendia todas as palavras, mas captava a música." (pág. 147)

"Da liberdade de explorar vem a alegria de aprender. Do conhecimento adquirido pela iniciativa pessoal advém o desejo de obter mais conhecimentos. E ao dominar esse novo e belo mundo que está à espera de cada criança, surge a autoconfiança. Cultivar um naturalista é como cultivar um músico ou um atleta: excelência para os talentosos, prazer por toda a vida para os demais, benefício para toda a humanidade." (pág. 166)

"Deus fez a Criação, é o que o senhor diz. Essa verdade está claramente expressa nas Sagradas Escrituras. Vinte e cinco séculos de teologia e boa parte da civilização ocidental foram construídos com base nessa convicção. Mas não é assim, digo eu, respeitosamente. A vida se fez a si mesma, por meio de mutações aleatórias e da seleção natural das moléculas codificadoras. Por mais radical que pareça tal explicação, ela tem o respaldo de um imenso volume de provas interconectadas. Talvez ainda se chegue a demonstrar que essa teoria está errada; no entanto, a cada ano isso parece menos provável." (pág. 186)