quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Cada mulher em seu lugar



Título: Cada mulher em seu lugar
Autor: Leona Blair
Páginas: 464

O livro me surpreendeu positivamente. A julgar pelo título e pela descrição resumida na contracapa, julguei inicialmente se tratar de uma história “água com açúcar” sobre um triângulo amoroso e com um final previsível. Mas não, apesar do triângulo amoroso ser a base da história, o livro vai além disso e consegue combinar emoções pessoais e assuntos políticos de forma harmoniosa.

Naomi ama Joshua, mas, sabe-se lá por que, casa-se com Arnold, o irmão de Joshua. Naomi e Arnold vivem na América e iniciam a construção de um império na área de cosmético. Enquanto isso Arnold, com espírito aventureiro, perambula pelo mundo à cata de dinheiro e armas para a construção do Estado de Israel. Com o passar dos anos muita acontece na vida de todos, mas nada consegue eliminar a paixão de Naomi e Joshua.

Trechos interessantes:

“Porém uma terra natal não bastava para esses homens. Eles almejavam nada menos do que um Estado judaico e estavam prontos a lutar por isso, quando chegasse a hora. Eram sionistas neste sentido, mas preferiam não rotular a si mesmos. Para o mundo, o sionismo significava comunismo, socialismo, amor livre — todos os vícios políticos e sociais. Esses homens não se preocupavam com nenhuma dessas coisas.”(pág. 33)

“— Primeiro vamos ver se o volume de vendas que obtivermos é o suficiente para cobrir as duas linhas. Era por esse motivo que havia dois tipos de potes e frascos – um branco e outro dourado — e dois tipos de rótulos: Aurora, para a linha mais barata, e Duquesa, para a dourada. Ambas continham exatamente o mesmo produto, mas o Duquesa custaria o dobro do preço. O Decreto Federal de Medicamentos e Alimentos de 1906 não regulamentava os cosméticos, e não existiam quaisquer exigências quanto ao conteúdo dos rótulos. Ninguém saberia que os dois preços compravam o mesmo produto, e, se isso incomodou Arnold a princípio, ele teve de aceitar o fato como prática estabelecida nessa indústria ou então perder dinheiro.”  (pág. 52)

“Então, agora os sionistas vinham levantar dinheiro na América! De negociantes como Arnold. No final das contas, todos precisavam de dinheiro, até mesmo idealistas como seu irmão pioneiro. E vinham obtê-lo com capitalistas sujos como ele próprio!”  (pág.61)

“Ficaram em silêncio, fumando e bebendo café. Uma das melhores coisas em Lazar, refletiu Joshua com gratidão, era que nunca conversava quando não havia nada a dizer.”  (pág.81)

“— Que o diabo me carregue se algum dia conseguirei entender por que uma indústria de pinturas e pó-de-arroz ganha tanto dinheiro — dizia Martin. — As pessoas não precisam de batom e creme facial. Precisam de um lugar para dormir, de comida para lhes encher a barriga e alguma coisa que as mantenha aquecidas.
É porque vendo sonhos — Arnold sempre insistia. — E nas épocas difíceis, as pessoas necessitam de sonhos mais do que nunca.”  (pág.102)

“Quando um país começa a queimar livros, algo está terrivelmente errado e não são os livros. Sabe que agora não podem publicar nenhum livro na Alemanha sem a aprovação de um vigaristazinho pegajoso chamado Goebbels? Há uma suástica ondulando em quase todos os prédios. E as prisões estão repletas de opositores do regime.” (pág. 119/120)

“Ele e o irmão nunca se compreenderiam, mas isso não era motivo para desconfiar. Os dois eram diferentes demais para que qualquer rivalidade fosse significativa. Sarah havia dito isso certa vez, naquele seu jeito perspicaz: ‘Como um pêssego pode sobrepujar um gerânio? Vocês são duas espécies diferentes’.”  (pág. 155)

“O futuro o aterrorizava. O futuro estava escrito no passado. O crime era grande demais para ser compreendido, mas, com o tempo, seria aceito; este era o mal. E, uma vez aceito um massacre dessa magnitude, o mundo poderia aceitar outro ainda maior. Após um tempo, nenhuma infâmia seria grande demais. Depois do assassinato planejado de catorze milhões de pessoas, seria fácil matar vinte milhões, cinquenta milhões, toda a espécie insana, incômoda e desonrada como era pelos milênios de crimes contra si mesma.”(pág. 229/230)

“— Oscar Wílde disse que a vida tem apenas duas tragédias: uma é não obter o que deseja, e a outra é obtê-lo.”  (pág. 258)

“O casamento não se limita a sexo, mas este é uma parte importante dele. A vida não se limita à paixão, mas como é terrível sua ausência absoluta.”  (pág. 331)

“Princípios eram um luxo desfrutado por poucos. Se tivesse lhe restado algum, Joshua não conseguiria realizar seu trabalho. De quem seria a vida que pereceria na mira de uma arma colocada por ele nas mãos de um soldado desconhecido? De quem seria a carne destroçada por uma das granadas que comprou? Quantas vidas seriam eliminadas por sua causa? Contudo, essa tarefa precisava ser executada, e, se não tinha escrúpulos em realizá-la, não tinha para mais nada.” (pág. 349)

“— Certa vez, quando eu era pequena, meus irmãos e eu dissemos à minha mãe que ela devia preferir um de nós, que não podia amar todos da mesma maneira. Mamãe acendeu uma vela e respondeu: ‘Isto é como o amor’. Depois fez cada um de nós acender uma vela na sua. Todas cintilaram exatamente do mesmo jeito, e a dela também tinha o mesmo brilho. É possível acender mil velas e ainda assim ter outras mil para acender.”(pág. 387)

domingo, 12 de agosto de 2018

...Longe da terra



Título: ...Longe da terra
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 212

José Mauro é, de longe, o meu escritor favorito. Ele consegue descrever a minha terra (Goiás) de uma maneira simples e, ao mesmo tempo, muito profunda. Sei que há vários escritores com esta característica, mas desde o primeiro livro dele que li, me identifiquei bastante com sua escrita e desde então o adotei como escritor predileto.

Longe da Terra é versão romanceada da época que o autor perambulou pelas selvas goianas, às margens do Araguaia, quando ainda não havia estradas em abundância e o principal meio de transporte eram as embarcações. Mostra a cidade de Aruanã em seus primórdios, quando ainda era chamada Leopoldina, havia mais índios que brancos e civilização era alguma coisa muito, muito distante.

Trechos interessantes:

“Eu me lembro que o Chico barbeiro chegou por aqui todo animado. Abriu um salão. Improvisou uma cadeira de braços. Colocou um espelho grande na parede. Arranjou um tamborete. Em cima dele botou umas tesouras, duas navalhas emagrecidas e marrons, uma cuia, um pincel de barba, um... um... como é mesmo o nome daquilo?...um negócio que borrifa o rosto depois de feita a barba, uns pedaços de jornal cortados em losangos desencontrados para limpar o sujo da barba com sabão.
Ficou um salão mais que luxuoso. Se ficou! Chico barbeiro cruzou os braços e esperou num orgulho de artista. E quase que ficou de braços cruzados para o resto da vida.
O povo vinha contar histórias e ouvir casos. Nada mais que isso. Não que ninguém quisesse fazer a barba. Querer todo mundo queria. É bom a gente ficar com o rosto liso, macio, limpo. Mas cadê dinheiro? Ninguém tem. Ninguém teve. Ninguém terá.” (pág. 13)

“Daqui a pouco, passarão os papagaios e os periquitos selvagens. Farão uma algazarra, rasgando o céu e criando uma sombra negra contra o sol. Eles sempre passam. Ao amanhecer, ao meio-dia e ao entardecer. Vão para qualquer parte onde haja uma roça a devastar. Aqui eles nunca pousam. Ninguém trabalha a terra. Dá muito trabalho.
Não que a terra deixe de dar. Onde já se viu um lugar de Goiás que seja estéril? A terra roxa é tão fértil que só em se pensar em plantar, ela germina. Mas ninguém pensa porque dá trabalho.
É a Terra da Promissão. Entretanto, maior que a fertilidade da terra é a indolência dos homens.” (pág. 14)

“O preto Virgílio passava todas as manhãs, para ver o quanto o rio tinha crescido. Depois então, saía pastoreando, debaixo da chuva, as duas vacas que constituíam a sua grande fortuna. Aquela fortuna que não causava inveja a ninguém. O povo ali não ambicionava nada dos outros. Porque a própria inveja era capaz de produzir uma indução ao trabalho por meio de uma indução de posse. E então para que invejar?” (pág. 25)

“Em compensação, major Sant’Ana foi povoando a terra. Enchendo a cidade e as margens do Araguaia de filhos de diversas espécies e colorações. Estabelecendo uma promiscuidade de raças.
Os seus filhos vagueiam pelas brenhas e vivem uma vida de sertanejo comum. Não têm a perversidade do negro. Uns se conservam em Leopoldina, outros foram descendo e se grudaram por outras plagas do Araguaia,.. São bons, apesar da mistura das raças e da diferenciação da cor.
Estranho que de uma mistura de raças, onde os seres uniam a preguiça com a crueldade, o medo com a ignorância, a ingenuidade com os instintos bestiais, só se poderia esperar um produto legitimamente deteriorado. Mas a triste experiência deu um resultado negativo que, felizmente, para os seres humanos e semelhantes, tomava a melhor forma de positivo.” (pág. 46)

“...Não quero outra vida
Pescando no rio de Jereré
Dormindo no rancho onde há siri-patola
Até dá cum pé...

Quando no terrêro faiz noite de lua
E vem a sôdade me aturmentá
Eu me vingo dela
Tocando a viola de papo pro á...

Ai, meu Deus, que antigamente, na cidade, eu também já cantara essa canção. Achava impossível que aquela letra fosse verdadeira. Como poderia um homem ser capaz de tanta preguiça, de tanta falta de realização?
Não. Que absurdo. Não havia ser vivente qualquer, que se sujeitasse, que se limitasse numa situação de letargia...
Isso, antigamente. Agora...” (pág. 50/51)

“Um dia, agora estou decidido. Escreverei um livro, onde a trama principal será a indolência. Onde o povo viva tão perto e tão longe da terra. Relevando e revelando a preguiça que jorra dessa Terra da Promissão não germinada.” (pág. 86)

“A vida revivia agora de um grande período de inatividade. E era bom. Quem não ia à pesca, se atarefava em qualquer coisa, exceto plantar. Por que raios, ninguém gostava de plantar?” (pág. 107)

“Amarrei o cordão em volta da cintura. Como estou pobre! Minha calça é uma série de remendos que se continua em buracos mal tapados. Toda a minha roupa se acabou semelhante ao meu orgulho. Sou um ser humano vaidosamente notável e desprendido. Nada tenho. Nada possuo. Nada sou. Minhas camisas se foram. Até uma que era branca, que eu guardava religiosamente para se um dia eu voltasse à cidade... Mas não voltarei.” (pág. 163/164)

“Em menos de quinze minutos voltava o cabo Milton. Carregava um belo tucunaré. Não esperava que ele se demorasse mais que esse tempo. No Araguaia, a gente joga o anzol e fala:
–Preciso de um tucunaré. Tenho dez minutos para esperar...
O rio atende ao pedido. Naturalmente que assim fazendo, ele, com um peixe a menos, poderia respirar melhor nas suas águas.” (pág. 177)

“E a história daqueles índios que iam comprar fumo nas canoas que passavam, com notas de 100, 200 e 500 mil-réis? Aquilo também é justo?
–Justíssimo. Antes de os brancos chegarem por aqui, não havia muita ambição entre os carajás. Ou mesmo entre qualquer outro índio. Não havia. Agora eles querem fumo. É um vício. E todo vício exige do homem qualquer sacrifício. Eles querem fumar. Encher os aricocós de fumo. Esse vício torna-se caro, porque eles não têm o miserável dinheiro. Mas eles têm que fumar. Pedem ao branco. Não recebem. Entretanto se tivessem dinheiro, os brancos que passam lhes venderiam fumo. Que fazer? Arranjar primeiro dinheiro. De qualquer jeito. E eles o arranjam...
– E você aprova o modo como eles arranjam esse dinheiro?
–Plenamente. Eles não têm o senso da propriedade. Não sabem o valor do dinheiro. Sabem que ele vale e que com ele poderão comprar o fumo. Desce uma canoa. É um branco. Pode ser um garimpeiro. Uma emboscada. Um corpo às piranhas e o dinheiro na mão. O maldito dinheiro, que compra o fumo e sustenta o vício. Outro branco que passar lhe venderá o fumo. Porque ao deparar o dinheiro, com uma nota graúda de duzentos mil-réis, não enxergará o dinheiro e sim um aviso: o que passou antes pagou com a vida, um fumo que não quis dar... O fumo. Afinal uma tara que o branco trouxe...” (pág. 185/186)

“A vida existiu antes de você e sem necessidade de você. Tudo é continuação. Essa pequena importância que você se dá, é um reflexo da comodidade exposta no seu burguesismo. Mas não adianta.” (pág. 187)

“Uma sensação de admiração me atacou ao atingirmos o começo da ilha. Djoé ia explicando.
–Se chama de Bananal, dotô, num é purque tenha mata de banana brava, não. É purque se parece cum uma banana cumprida. São cem légua de cumprimento e quarenta de largura... Tá vendo ali, doto? É o Araguaia que se devide. Do lado que nóis vai ele continua Araguaia. Do ôtro, se chama de javaé. Ali é lugá de aldeia de Javaé. Na metade da ilha tem muita aldeia de índio Javaé.
– É verdade que índio Javaé era o mesmo carajá, Djoé?
– É sim. Eles brigaro e se afastaro da gente. Mas ainda fala a mesma língua e usa “omurarê” debaixo dos olhos e no braço esquerdo.” (pág. 191)

terça-feira, 31 de julho de 2018

Um ano na Provence



Título: Um ano na Provence
Autor: Peter Mayle
Páginas: 240

Relato de um casal inglês que resolveu se mudar para a região provençal no sul da França. Considerado um dos lugares mais charmosos do mundo, a Provence sempre atrai muitos turistas de todas as nacionalidades, fugindo do inverno e ávidos por um pouco de sol. Peter, um ex-publicitário, resolveu contar sua experiência de se adaptar à nova morada, sempre de uma forma muito irônica e agradável de ler.

O livro é dividido em 12 capítulos, cada um relatando sobre um mês e suas características peculiares. Aqui se comenta o processo de adaptação à nova cultura, os vizinhos, problemas com reformas e com os trabalhadores, problemas com hóspedes e, principalmente, muita coisa relacionada à gastronomia e cultura local. Sem dúvida, uma ótima leitura.

Trechos interessantes:

“Descobrimos que no campo os vizinhos assumem uma importância que nem de longe têm nas cidades. Alguém pode morai anos num apartamento em Londres ou Nova York e mal falar com as pessoas que morara a 15 centímetros de distância, do outro lado de uma parede. No interior, porém, mesmo que você esteja separado da outra casa por centena de metros, os vizinhos fazem parte da sua vida, e você, da deles.” (pág. 10)

“Enquanto isso, alguns milhares de quilômetros ao norte, o vento que tinha começado na Sibéria estava ganhando velocidade para a parte final de sua viagem. Já tínhamos ouvido histórias sobre o mistral. Ele enlouquecia as pessoas e os animais. Era uma circunstância atenuante em crimes violentos. Soprava quinze dias sem parar, arrancando árvores, virando automóveis, quebrando janelas, jogando velhinhas na sarjeta, destroçando postes telegráficos, uivando pelas casas como um fantasma frio e maligno, causando la grippe, brigas domésticas, feitas no trabalho, dores de dente, enxaquecas. Todo problema na Provence cuja culpa não pudesse ser atribuída aos políticos era decorrente do sâcré vent, do qual os provençais falavam com uma espécie de orgulho masoquista.” (pág. 13)

“A morte de um morador faz surgir pequenos avisos pesarosos, que são expostos nas janelas de lojas e de casas. O sino da igreja dobra, e uma procissão trajada com formalidade incomum segue vagarosa na direção do cemitério, que costuma se situar num os pontos mais altos do povoado. Um velho explicou o motivo para essa localização.
– Os mortos têm direito à melhor vista porque vão ficar por lá muito tempo – disse ele, rindo tanto da própria piada que teve um acesso de tosse e fez com que eu me preocupasse com a possibilidade de haver chegado a sua vez de ir se juntar a eles.
Quando lhe falei do cemitério na Califórnia em que se paga mais por um túmulo com vista do que por acomodações mais modestas, ele não se surpreendeu nem um pouco.
– Sempre haverá tolos, mortos ou vivos – concluiu.” (pág. 38/39)

“Aprendemos que o tempo na Provence é um artigo muito elástico, mesmo quando descrito em tomos claros e específicos. Un petit quart d’heure [daqui a quinze minutinhos] significa em algum momento no dia de hoje. Demain [amanhã] significa em algum dia desta semana. E, o segmento mais elástico de todos, une quinzaine [daqui a quinze dias] pode querer dizer três semanas, dois meses ou no ano que vem, mas nunca, jamais, em tempo algum representa o período de quinze dias. Aprendemos, também, a interpretar a linguagem dos gestos que acompanha qualquer conversa sobre prazos. Quando um provençal o encarar e lhe disser que baterá à sua porta pronto para começar o trabalho na terça-feira que vem sem falta, o comportamento das mãos dele é de importância vital. Se estiverem paradas ou lhe dando tapinhas de confirmação no braço, você pode esperá-lo na terça. Se uma das mãos estiver estendida à altura da cintura, com a palma para baixo, e começar a balançar para lá e para cá, corrija a data para quarta ou quinta-feira. Se esse movimento da mão apresentar um tremor agitado, ele na realidade está falando na semana seguinte ou só Deus sabe quando, dependendo de circunstâncias fora do seu controle.” (pág. 54)

“No que diz respeito a todos os produtos comestíveis na França, certas regiões têm a reputação de produzir os melhores – as melhores azeitonas são de Nyons; a melhor mostarda, de Dijon; os melhores melões, de Cavaillon; o melhor creme de leite, da Normandia. Segundo a opinião geral as melhores trufas vêm do Périgord, e é natural que se pague mais por elas. Mas como saber se a trufa comprada em Cahors não foi desenterrada a centenas de quilômetros dali, no Vaucluse? A menos que você conheça seu fornecedor e confie nele, não poderá ter certeza. E, pelas informações privilegiadas de Ramon, 50% das trufas vendidas no Périgord haviam nascido em outras regiões e sido ‘naturalizadas’.” (pág. 71)

“Quando entramos em casa, o telefone estava tocando. É um som que nós dois detestamos, e sempre damos desculpas para ver quem consegue evitar atende-lo. Temos um pessimismo inato diante de telefonemas. Eles têm o hábito de ocorrer em horas inconvenientes e de ser por demais repentinos, lançando a pessoa que atende numa conversa que ela não estava esperando. Já as cartas são um verdadeiro prazer, especialmente por permitirem que se reflita sobre a resposta. Só que hoje as pessoas já não escrevem cartas. Ou são muito ocupadas, têm muita pressa ou dizem não confiar nos correios, desdenhando o serviço que consegue entregar as contas com uma precisão infalível.” (pág. 73)

“É uma lei da natureza que, quando o telefone toca entre o meio-dia e as três da tarde num domingo, quem chama só pode ser um inglês. Jamais passaria pela cabeça de um francês interromper a refeição mais descontraída da semana.” (pág. 84)

“Estávamos descobrindo como era viver quase o tempo todo com hóspedes. A primeira leva havia chegado para a Páscoa, e outras tinham reservas até o final de outubro. Convites meio esquecidos, feitos na distante segurança do inverno, agora manifestavam seu efeito trazendo hóspedes à procura de abrigo, bebida e banhos de sol. A moça da lavanderia supôs, pela quantidade dos nossos lençóis, que estávamos no ramo hoteleiro, e nos lembramos dos avisos de moradores mais experientes.” (pág. 105)

“O instrumento para advertências e discussões é o dedo indicador, numa de suas três posições de funcionamento. Espetado para o alto, rígido e imóvel, abaixo do nariz do interlocutor, ele recomenda precaução: cuidado, attention, nem tudo é o que parece ser. Mantido logo abaixo do nível do rosto e agitado rapidamente de um lado para outro como um metrônomo nervoso, ele indica que o interlocutor está tragicamente desinformado e totalmente enganado no que acabou de dizer. A opinião correta é, então, apresentada, e o dedo deixa o movimento de um lado para outro, passando para uma série de investidas e cutucadas, seja tocando o peito se a pessoa carente de esclarecimentos for homem, seja permanecendo a alguns discretos centímetros do tórax caso se trate de uma mulher.” (pág. 119)

“Quando um inglês está num coquetel, a taça fica firmemente aparafusada à sua mão, enquanto ele conversa, fuma ou come. É só com relutância que ele põe a taça de lado, para atender a necessidades que exijam as duas mãos, como assoar o nariz ou ir ao banheiro. Mas ela nunca fica muito longe ou fora do seu campo visual.
Com os franceses, é diferente. Mal eles recebem uma taça e já a deixam em algum lugar, supostamente por considerarem difícil conversar com uma única mão livre. É assim que as taças vão se reunindo em grupos, e depois de cinco minutos é impossível sua identificação. Os convidados, sem querer apanhar a taça de outra pessoa mas incapazes de determinar qual é a sua, lançam olhares compridos para a garrafa de champanhe. Novas taças são distribuídas, e o processo se repete.” (pág. 232)

“Acordamos para uma manhã de sol, o vale deserto e silencioso, e nossa cozinha sem eletricidade. O pernil de cordeiro que estava pronto para ser levado ao forno foi adiado; e nós encaramos a possibilidade apavorante de comer pão e queijo no almoço de Natal. Todos os restaurantes da região já estariam com suas reservas esgotadas havia semanas.
É em horas semelhantes, quando a crise ameaça o estômago, que os franceses exibem o lado mais solidário de sua natureza. Conte-lhes histórias de lesões físicas ou desastres financeiros, e eles vão rir ou demonstrar uma compaixão educada. Conte-lhes, porém, que está enfrentando alguma dificuldade de ordem gastronômica, e eles moverão céus e terra, e até mesmo mesas de restaurante para ajudá-lo.” (pág. 236)

terça-feira, 24 de julho de 2018

Você está aqui



Título: Você está aqui
Autor: Christopher Potter
Páginas: 358

Nada como um livro desses para jogar um balde de água fria na ilusão do ser humano de se achar superior a tudo. Aqui se consegue perceber a transitoriedade e diminuta importância da raça humana. O que é o ser humano comparado com a vastidão do cosmos?

O livro discute a eterna dúvida do ser humano: ‘de onde viemos e para onde vamos?’, pergunta esta que não tem sentido ou talvez nunca seja respondida. Vários assuntos são abordados como o tempo de existência do universo, dimensão e existência de outros universos, tempo de vida do nosso sol, dimensão do átomo e suas partículas, surgimento da vida e vários outros temas que o ser humano anseia desesperadamente por respostas. Haverá resposta?

Trechos interessantes:

“Se o Universo inclui tudo o que existe, onde ele está incluído? Agora sabemos, nos dizem os cientistas, que o Universo visível é uma região de radiação que evoluiu e que não está incluída em parte alguma. Mas essa descrição levanta perguntas ainda mais perturbadoras que a pergunta que esperávamos fosse respondida em primeiro lugar, e por isso logo colocamos o Universo de volta em sua caixa e tentamos pensar em alguma outra coisa.” (pág. 12)

“Os seres humanos estão numa enroscada. Por um lado sabemos que existe alguma coisa, pois todos estamos certos da nossa existência; mas sabemos também que o nada existe, porque temos medo de termos vindo de lá e de para lá estarmos nos dirigindo. Nosso intelecto sabe que o nada da morte é inescapável, mas na verdade não acreditamos nisso. “Somos todos imortais enquanto estivermos vivos”, nos lembra o romancista americano John Updike.” (pág. 13)

“Mesmo materialistas linha-dura como o físico teórico inglês Stephen Hawking (1942) e o físico americano Steven Weinberg (1933) borrifam seus escritos com argumentos sobre a possível natureza de um Deus em que não acreditam. Hawking nos diz que podemos na verdade estar perto de conhecer a mente de Deus, enquanto Weinberg, mais imparcial, afirma que “a ciência não torna impossível acreditar em Deus. Simplesmente torna possível não acreditar em Deus”. “ (pág. 17)

“Em 2006, Stephen Hawking escreveu que a grande esperança da espécie humana de sobrevivência no futuro seria abandonar a Terra e procurar um novo mundo. Mas, enquanto isso, pode ser uma boa ideia ter um Plano B.” (pág. 20)

“Todos os objetos no sistema solar situados além da órbita de Netuno são chamados objetos transnetunianos.
Plutão, antes considerado o menor planeta do sistema solar, agora é definido como planeta anão. Plutão tem órbita excêntrica que o leva mais perto do Sol que Netuno, mas também muito além da órbita máxima de Netuno. Descoberto em 1930, Plutão deixou de ser um planeta em agosto de 2006, quando foi rebaixado a planeta anão e recebeu o número 134340. É o equivalente astronômico, não se pode deixar de pensar, de ser mandado de volta para o fundo da sala de aula. Quando este livro estava sendo escrito, o verbete Plutão na enciclopédia on-line Wikipedia estava bloqueado por causa de vandalismos. Parece ter havido tentativas de recuperar seu status planetário.” (pág. 39/40)

“Cometas são feitos de pó e gelo. Alguns, como o Halley, têm órbitas excêntricas que os aproximam do Sol. Nesses períodos, emergindo das profundezas geladas do sistema solar, parte do gelo é derretida pelo calor do Sol e vista da Terra como uma cauda. Embora chamemos de cauda, a “cauda” de um cometa é um vapor expelido pelo fluxo de partículas que emanam do Sol chamadas de vento solar. Por isso está sempre apontada para o lado oposto do Sol, quer o cometa esteja se aproximando ou se afastando do Sol.” (pág. 40)

“O filósofo e teólogo santo Agostinho (354-430) acreditava que o tempo era uma experiência subjetiva: “Se ninguém me perguntar, eu sei; mas, se eu quiser explicar a alguém que me perguntar, eu não sei”.” (pág. 69)
“O que sabemos de Pitágoras vem de relatos contraditórios escritos duzentos anos após sua morte. Hoje se sabe que não foi ele quem descobriu o teorema que leva seu nome, nem a relação entre os intervalos musicais e os números simples, também atribuída a ele.” (pág. 84)

“Estamos mais dispostos a aceitar a ideia de um lugar que contenha tudo do que um lugar que, de forma simétrica, deveria conter uma noção do que é o nada. O espaço contém tudo, mas onde está o nada?” (pág. 126)

“Hawking e Hartle afirmam que não há sentido em perguntar como o Universo começou, pois não havia nada parecido com o tempo na época. “No princípio” não é o princípio dessa história, porque o tempo se torna uma dimensão do espaço em altas energias.” (pág. 189)

“A natureza provisória da ciência é a sua força, não uma fraqueza. Chamar algo de teoria não significa que seja apenas uma ideia: a teoria é a forma mais avançada da explicação científica. A ciência segue um caminho provisório; é a sua natureza.” (pág. 214)

“Se estivermos certos quanto à teoria do Big Bang, temos que acreditar que 23% do Universo é formado por uma matéria que não conseguimos ver, 73% estão na forma de energia escura, e só 4% são de matéria normal. Por outro lado, toda essa matéria que falta pode ser uma prova de que a teoria do Big Bang está desmoronando. No entanto, a teoria do Big Bang tem sido tão bem-sucedida de tantas formas que poucos cientistas duvidam de sua capacidade para descrever a maior parte do que o Universo contém. De qualquer forma, não temos uma alternativa à teoria do Big Bang, e em última análise nosso desejo é de que nossas teorias fracassem para podermos encontrar teorias melhores. É descobrindo o que há de errado numa teoria que a ciência avança. A atual teoria pode ser corrigida ou substituída, talvez por uma teoria com uma abordagem radicalmente diferente.” (pág. 223)

“O primeiro requisito para encontrar outro exemplo de alguma coisa, seja o que for, é termos entendido o que na verdade é essa alguma coisa. Não é difícil reconhecer outra bola quando vemos uma, mas para entender o que poderia ser outra Terra, primeiro precisamos saber o que fará esta Terra parecer especial; só então saberemos o que procurar em outra Terra.” (pág. 236)

“Parece provável que a vida na Terra não tenha começado do zero. Moléculas sofisticadas que se transformaram em vida se formaram no espaço cósmico muito antes de a Terra existir. Quando nos perguntamos onde encontrar vida alienígena, talvez estejamos procurando no lugar errado. Nós somos vida alienígena. Viemos lá de fora e pode haver outras vidas alienígenas (provavelmente bacterianas) aqui na Terra que ainda não foram descobertas.” (pág. 241)

“A espécie humana surgiu por acaso a partir da vastidão do passado remoto e da multiplicidade de formas de vida que evoluíram. Nesse sentido, a história da complexidade evolutiva do Universo não tem nada a ver conosco.” (pág. 289)

“A natureza não seleciona pelo mais cerebral, mas sim pelo mais apto. Nem mais apto significa o mais forte: significa mais capaz de se adaptar ao ambiente em que habita. O psicólogo britânico Nicholas Humphrey (1943) escreveu sobre uma espécie de macaco inteligente o bastante para partir uma noz muito difícil de abrir. Mas o interior da fruta por azar se revela venenoso. Nesse caso, os macacos mais aptos dessa população são os que não são inteligentes para conseguir chegar até o fruto.” (pág. 302)

“A ciência e a religião aliviam o sofrimento no mundo, mas também aumentam o sofrimento no mundo. Se a religião com frequência é motivo para guerras, é a ciência que fornece formas cada vez mais sofisticadas de matar pessoas.” (pág. 316)