quinta-feira, 4 de julho de 2013

Elogio da Loucura

Título: Elogio da Loucura
Autor: Erasmo de Rotterdam
Páginas: 125

O livro, apesar de pequeno, exigiu bastante do meu parco conhecimento. É um clássico, claro, que usa uma linguagem específica e possui amplas referências a personagens da história, mitologia, etc. Felizmente traz bastantes notas de rodapé, comentando justamente os trechos que pessoas com pouco conhecimento, como eu, ousam desconhecer.

A história em si é bem simples: como o título diz, faz-se um elogio à loucura. Segundo o autor o responsável pelo prazer e a alegria do homem nada mais é que a loucura. Apesar de todos buscarem a razão, a verdadeira felicidade está na existência da loucura.

Trechos interessantes:

"Ainda que os homens tenham o hábito de manchar minha reputação, e eu saiba muito bem como sou malquisto entre os tolos, tenho orgulho em vos dizer que esta Loucura é a única que pode trazer alegria aos homens e aos deuses." (pág. 15)

"Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo." (pág. 16)

"Já escreveu sensatamente alguém que ser deus consiste em favorecer os mortais." (pág. 21)

"Assim é que se verifica que todo semelhante ama o seu semelhante." (pág. 24)

"Segundo a definição dos estóicos, sábio é aquele que vive de acordo com as regras da razão, e louco, ao contrário, é o que se deixa arrastar ao sabor de suas paixões." (pág. 28)

"Finalmente, a felicidade consiste, sobretudo, em querer ser o que se é." (pág. 34)

"Creso, rei da Lídia, foi o homem mais rico da terra. Tendo um dia perguntado a Sólon se não era ele o mais feliz dos mortais, o filósofo respondeu-lhe: 'Majestade, vós me pareceis muito rico, tendes um grande reino; reservo-me, porém, para responder à vossa pergunta quando fordes muito feliz'." (pág. 54)

"[...]Mas não penseis que não encontrem quem os aplauda, pois toda tolice, por mais grosseira que seja, sempre encontra sequazes." (pág. 62)

"[...]a loucura tem uma força maior do que a razão, porque, muitas vezes, aquilo que não se pode conseguir com nenhum argumento se obtém com uma chacota." (pág. 73)

"Quantas lindas lorotas não vão esses doutores impingindo a respeito do inferno? Conhecem tão bem todos os seus apartamentos, falam com tanta franqueza da natureza e dos vários graus do fogo eterno, e das diversas incumbências dos demônios, discorrem, finalmente, com tanta precisão sobre a república dos danados, que parecem já ter sido cidadãos da mesma durante muitos anos." (pág. 82/83)

"A loucura de Deus é melhor que a sabedoria dos homens." (pág. 108)

"Eu jamais desejaria beber com um homem que se lembrasse de tudo." (pág. 116)

sábado, 25 de maio de 2013

O ladrão de arte

Título: O ladrão de arte
Autor: Noah Charney
Páginas: 314

O livro, como não podia deixar de ser, passeia por obras de arte, galerias, leilões, museus e por aí afora. Pela sinopse pensei que seria mais interessante, mas achei a história bastante confusa e não tão atraente como imaginava.

Mas, pelo menos as explicações acerca de obras de arte foram interessantes: descrição de quadros, estilos de pintores, comportamentos num leilão, ou seja, alguma coisa foi proveitosa e a leitura, além de passatempo, foi instrutiva.

Trechos interessantes:

"Mas a pintura é igualmente bem-sucedida se provoca raiva por parte daquele que a vê, que pode dizer, afrontado: 'Como isso pode ser arte? Eu podia ter pintado isso!' Em resposta a essa exclamação, se alguém realmente parasse e tentasse pintar exatamente isso, acabaria descobrindo que é impossível. As texturas, os tons, a despeito da paleta monocromática, são profundos e sutis." (pág. 18)

"-[...]Que tipo de acadêmico não tem diplomas e não trabalha na academia?
-Do tipo rico - respondeu Lesgourges. - Quando se tem um château, não se precisa de escola, e quando se tem seu próprio vinhedo de Armagnac, em Armagnac, então não se precisa tomar leite de caixinha na lanchonete." (pág. 29)

"Pessoas não encomendam o roubo de obras de arte que nunca viram ou que tenham visto apenas uma vez. Elas se apaixonam por obras específicas e querem passar a possuí-las." (pág. 57)

"No topo de sistemas de castas, o crime ligado à arte era socialmente aceitável, e até mesmo considerado prestigioso e fascinante. Era o único crime sério em que o público tendia a ter empatia com os criminosos. Mas o público não tinha consciência de como os crimes no mundo da arte financiavam outros crimes mais sinistros, como o tráfico de drogas e armas, e até o terrorismo. O cidadão comum se sentia bastante distante e até ameaçado pela arte. Considerada de difícil compreensão e território de uma elite, era algo além de sua capacidade mental e, portanto, para muitos, algo assustador." (pág. 75)

"Uma escultura bizarra e particularmente pouco atraente surgiu para ser leiloada. Meu Deus, pensou Delacloche, isso é horrível. Mas se um comprador acredita que aquela merda vale alguma coisa e está disposto a pagar por ela, então seu valor será tão alto quanto o que ele aceitar pagar. A questão é que se uma pessoa pensa que aquilo é maravilhoso, então outros vão atrás." (pág. 84/85)

"O preço de venda nada tem a ver com o fato de a obra de arte ser boa ou não. Tem a ver com quanto as pessoas se dispõem a pagar por aquilo em determinado momento." (pág. 85)

"'Escola de...' significava que a obra era influenciada pelo artista em questão, nesse caso, Malevitch, e talvez fosse o trabalho de um aluno copiando o estilo de um mestre. 'Círculo de...' significaria que o estilo se aproxima do de Malevitch, mas por vários motivos a obra não era considerada dele. 'Atribuído a...' teria significado que alguém, em algum momento, pensou que a pintura fosse de Malevitch, mas por alguma razão o especialista da Christie's não se sentia confortável ou seguro com essa atribuição, mas não tinha nenhuma alternativa específica para propor. 'Estilo de...' quer dizer que parece com um Malevitch, tem cheiro de um Malevitch, mas quem diabos pode garantir? Existiam algumas variantes para esses termos, mas o princípio por trás deles continuava firme: não dê um alerta falso." (pág. 91)

"-Bem, não gosto da facilidade com que as medidas de segurança são neutralizadas, mas isso não é meu serviço, acho. Meu trabalho não é prevenir, e sim resolver. [...] Ladrões custam mais barato do que a arte que roubam." (pág. 163)

"Lógica e observação são as duas ferramentas universais que ninguém se dá conta de que possui." (pág. 195)

"Não tinha se dado ao trabalho de amarrar o cadarço do pé esquerdo, o qual, ao se arrastar pelo chão, tinha acumulado novas amizades na forma de fragmentos de folhas, um novelo branco de sujeira e um longo fio de cabelo preto." (pág. 257)

"Pela minha experiência, inspetor, aristocratas não são nem mais gentis nem mais compreensivos do que as outras pessoas, são melhores apenas em disfarçar o que realmente pensam." (pág. 259)

"A Christie's me explicou a coisa em termos simples, já que sou um urso com o cérebro pequenininho, e palavras compridas me incomodam um pouco. Sim, essa é do Ursinho Pooh, acho." (pág. 287)

"Começar uma palavra-cruzada, pegar no sono e acordar para encontrá-la toda preenchida não é meu conceito de satisfação. Mas parece que as autoridades constituídas se contentam com milagres e não precisam se preocupar em como eles foram realizados. Então, estamos novamente lidando com uma igreja. O trabalho deles é se darem por satisfeitos com milagres, e nunca perguntar 'como'. Um ditado sobre dentes e um cavalo dado de presente me veio agora à mente, mas não consigo lembrar o que diz." (pág. 299)

terça-feira, 9 de abril de 2013

Barro blanco

Título: Barro blanco
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 234

Os livros de José mauro,em sua maioria, ambientam-se na selva bruta, geralmente nas regiões de Pará, Mato Grosso e Goiás. Esse foge à regra e retrata a cidade de Macau, no Rio Grande do Norte. Muda-se o cenário, mas a ideia central é a mesma: a dificuldade enfrentada pelo homem simples, seja ele um pescador, um roceiro, um garimpeiro...

Neste livro José Mauro nos apresenta as salinas do Rio Grande do Norte e como elas conseguem destruir o ser humano. Chicão, um homem forte e trabalhador, é expulso do sertão pela seca que assola a região e vai acabar nas salinas onde, pouco a pouco, vai perdendo a alegria e a saúde. Não seria preferível ter ficado no sertão, mesmo com a seca?

Trechos interessantes:

"Mas seu marido não queria nada com o trabalho honesto. Era malandro debaixo de toda a luz do dia e por cima de toda a escuridão da noite." (pág. 40)

"Margarida Papo Amarelo saiu do banho. Enxugou o corpo. Começou a se vestir. Penteou-se. Arrepiou os cabelos que eram quase negros à custa de Juventude Alexandre. Jogou sobre o corpo um vestido verde. Um verde perereca. E saiu.
Margarida Papo Amarelo num vestido verde perereca, numa demonstração de patriotismo brasileiro, passou pela sala e falou para as meninas.
-Filhinhas, ajeitem-se. Ajeitem-se que hoje vai ser um grande dia." (pág. 44/45)

"O sorvete ia ser vendido por toda parte. Tabuleiros de cocada, rolete de cana, peixe frito, batata doce assada, de tapioca, seriam espalhados por todos os cantos e vendidos de noite à luz acesa do bico de acetileno. Aquele cheiro de carbureto entraria pelos narizes, sem consideração alguma e ninguém estranharia. Aquele odor era característico das festas pobres do Norte." (pág. 56)

"E no dia seguinte, nas folhas sociais de 'O Clarim', viria a fotografia estampada com bonitas palavras:
'NUM PRÉLIO RENHIDO E DISPUTADO FOI SAGRADA RAINHA DO ESTRELA DO PROGRESSO, A SENHORITA (ali todas as moças eram senhoritas. Podia ser casada, viúva, solteira, amancebada, sendo moça, era senhorita. Mas isso não sai no jornal.) FULANA DE TAL, QUE VENCEU AIROSAMENTE AS SENHORITAS BELTRANA E SICRANA, CLASSIFICADAS CONJUNTAMENTE EM SEGUNDO E EM TERCEIRO LUGARES'..." (Pág. 62)

"Tinham deixado a criança ali perto do Rancho de Pedro Azevedo, porque sabiam da fama de bondade do fazendeiro. Descobririam o menino e tomariam conta dele. É muito mais fácil se ter pena de uma criança do que de uma pessoa grande. Mesmo na seca esses sentimentos não mudam." (pág. 82)

"Para que estudar? Perder um tempo enorme, três horas por dia, cansando a bunda num banco de pau da escola e ouvir a voz esganiçada de Dona Maria da Penha, retinindo no ouvido? Para quê? Quando lá fora, havia um sol danado. O açude que estava cheio d'água, cheio de marreca?" (pág. 84)

"Pedro Azevedo falara uma vez para ele:
-Mas, compadre Venâncio, essas meninas trabalham demais. Deixa essas meninas descansar...
-Num vê que não, cumpade Pedrinho. É melhó que elas trabaie muito, mode de noites elas drumire bem e num ficare viçando...
Pobre compadre Venâncio que não queria que as filhas viçassem." (pág. 102)

"A miséria humana se desenvolveu tremendamente enquanto o sertão minguava, a ponto de expelir a gente que nascera ali, para outras partes. Os homens ressequidos, as mulheres cadavéricas, as crianças barrigudas e amarelas, invadiam as cidades. Estendiam as mãos ossudas e pediam mais vida do que esmola. E os olhos do povo da cidade se enchiam mais de nojo que de piedade. Aquela miséria não comovia o coração, mas incomodava os olhos." (pág. 104)

"A história dos trabalhos das salinas é muito simples. Num instante se decora. Parecida com a saúde que, num instante, se acaba." (pág. 156)

"Depois, as almas caridosas trouxeram uma rede e colocaram o homem podre dentro. Arranjaram um pau que nem um 'calão' e colocaram nos punhos da rede. Encaminharam-se para o cemitério. De vez em quando, como o corpo pesasse muito, paravam. Descansavam o cadáver no chão. Cortavam varas no mato e davam surras no corpo enrolado. Era crença de certos sertanejos, que o corpo pesava demais por causa dos pecados que levava. E que com aquelas pancadas, os pecados seriam purgados.
Era tudo aquilo, obra do sal. Obra do sol." (pág. 175)

"Alguém tinha dito ou fora ele mesmo? Estava se confundindo. Alguém dissera que de fome ainda se pode morrer, mas de sede, não há quem deixe de enlouquecer." (pág. 218)

sexta-feira, 29 de março de 2013

A travessia

Título: A travessia
Autor: William P. Young
Páginas: 238

O livro segue o mesmo ritmo de "A cabana". Um mega empresário, que nunca pensou em ninguém alem de si mesmo, está às portas da morte e, durante o coma, tem uma visão de como sua vida tem sido e, com o auxílio celestial, tem a oportunidade de mudar alguma coisa, se for de seu interesse,

A história é interessante, traz muitos momentos de reflexão e vai tocar, sem dúvida, os mais emotivos. Mas, mesmo com tudo isso, tive a impressão de ser um "Cabana 2" e aquela sensação de "já vi isto em algum lugar" esteve sempre presente. Mas, resumindo: se você gostou de "A cabana", vai gostar deste: o estilo é o mesmo.

Trechos interessantes:

"As características negativas dos pais haviam sido apagadas pela saudade que sentia dos dois. Guardava como um tesouro aquela fotografia desbotada, a última tirada antes de um adolescente irresponsável perder o controle do carro e transformar glória em escombros." (pág. 19)

"Não havia certo e errado, assim como nenhuma verdade absoluta, apenas normas sociais regidas por leis e comportamentos gerados por algum sentimento de culpa. A morte, tal como ele a concebia, significava que nada realmente importava. A vida era um suspiro evolucionário sem sentido, a sobrevivência temporária do mais inteligente ou engenhoso. Dali a mil anos, se a raça humana sobrevivesse, ninguém saberia que ele havia existido nem se importaria com a maneira como levara sua vida." (pág. 28)

"Ele balançou a cabeça diante do completo absurdo daquela experiência, mas logo perguntou-se: um acontecimento que não é real e jamais será lembrado pode ser chamado de experiência?" (pág. 50)

"-Filho, você vem morrendo desde o dia em que foi concebido. Embora a morte seja um mal monstruoso, os seres humanos passaram a imaginá-la como algo muito mais poderoso do que ela realmente é. Na verdade, é como se uma luz estivesse projetando as sombras da morte em proporções terríveis, gigantescas, no cenário de sua existência, e agora você estivesse com medo até dessas sombras." (pág. 61)

"-Grande parte do que você precisa perdoar nas outras pessoas, e especialmente em si mesmo, é a ignorância que machuca. Não é só de propósito que as pessoas magoam umas às outras." (pág. 70)

"-Você está me perguntando algo que só pode ser conhecido pela experiência. Que palavras são capazes de comunicar as sensações de um primeiro amor, de um pôr do sol inesperado, do perfume de jasmim, gardênia ou lilases? Quais as palavras para descrever os sentimentos provocados  em uma mãe que segura o filho pela primeira vez, os momentos em que você é surpreendido pela alegria, por uma música transcendental, ao atingir o topo de uma montanha que escalou, a primeira vez que provou mel direto da colmeia... Ao longo de toda a história, temos buscado palavras que possam conectar o que conhecemos àquilo pelo qual ansiamos, mas o que vemos agora é apenas um reflexo obscuro." (pág. 130/131)

"Os amigos de verdade o apunhalam pela frente. -Oscar Wilde" (pág. 137)

"-Não entendo. Por que rosas têm espinhos?
-Para que você as manuseie com cuidado e carinho." (pág. 172)

"-Tony - ela respondeu -, nunca conheci alguém que fosse completamente ruim. Em grande parte, sim, mas nunca completamente. Todo mundo já foi criança um dia, e isso me traz esperanças. As pessoas só podem dar aquilo que têm, e fazem as coisas por determinados motivos, mesmo que não tenham consciência de quais são. Às vezes é difícil descobrir, mas sempre existe um motivo." (pág. 181/182)

"O perdão é o perfume que a violeta espalha sobre o pé que a esmagou. -Mark Twain" (pág. 222)

domingo, 24 de março de 2013

Aléxandros - o sonho de Olympias

Título: Aléxandros - o sonho de Olympias
Autor: Valerio Massimo Manfredi
Páginas: 310

Este é o primeiro livro da trilogia que narra a história de Alexandre, o Grande. Este volume apresenta o nascimento e a infância de Alexandre, seus amigos, seu encontro com Aristóteles, seus sonhos e desejo de seguir o exemplo do pai, o rei Filipe.

Apresenta as articulações de sua mãe, a rainha Olympias, para colocá-lo no poder, tendo em vista a existência de outros possíveis sucessores. O livro termina com a morte do rei Filipe e a ascensão de Alexandre como o rei da Macedônia.

É um livro de caráter histórico, mas de leitura agradável e vocabulário moderno, pois, como afirma o autor, os termos típicos da época foram substituídos por termos modernos para agilizar o entendimento da leitura.

Trechos interessantes:

"Somente o homem, entre todos os seres vivos, pode elevar-se até quase alcançar as moradas dos deuses, ou descer abaixo dos animais irracionais. Tu já viste as moradas dos deuses, moraste na casa de um rei, mas achei oportuno que também visses o que de pior pode reservar a sorte para um ser humano. Entre aqueles infelizes há homens que um dia talvez tenham sido chefes ou fidalgos, e que de repente o destino precipitou na miséria." (pág. 50)

"É aqui, na corte, que aprenderás a ser rei, não no campo de batalha; a profissão de um soberano é a política, não o uso da lança e da espada." (pág. 135)

"Lembra-te disto, meu rapaz: eu nunca combato pelo mero prazer de lutar. Para mim, a guerra é apenas política feita com outros meios." (pág. 143)

"Nada podia ser mais aflitivo para uma família do que saber que o corpo de um filho tombado em batalha jazia insepulto, à mercê de cães e abutres, desprovido das honras funerárias." (pág. 160)

"-[...]Diógenes acha que somente prescindindo de tudo aquilo que é supérfluo o homem pode livrar-se de todo desejo e, portanto, de qualquer tipo de infelicidade.
-Uma teoria um tanto estranha - interveio Calístenes. - Prescindir de tudo não para alcançar a felicidade, mas sim apenas a imperturbabilidade: parece-me um exercício um tanto bobo, além de um desperdício. Seria como queimar madeira para vender as cinzas, não acha?" (pág. 175)

"-Salve, Diógenes. Quem está na tua frente é Alexandre da Macedônia. Pede-me o que quiseres e eu serei feliz em te dar.
O velho abriu a boca desdentada:
-Qualquer coisa? - perguntou com voz estrídula, sem nem mesmo entreabrir os olhos.
-Qualquer coisa - confirmou Alexandre.
-Então sai daí, que estás a fazer-me sombra." (pág. 176)

"Alexandre recobrou a calma, assumindo uma expressão sombria como se as chacinas e os lutos evocados pela mãe pesassem de repente, e todos juntos, na sua alma.
-Está escrito no destino que isto aconteça - rebateu. - Está escrito que o homem tenha de suportar feridas, doenças, dores e mortes antes de se precipitar no vazio do nada. Mas agir com honra e ser clemente toda vez que lhe for possível está ao seu alcance e é escolha sua. Esta é a única dignidade que lhe é concedida desde que ele vem ao mundo, a única luz antes das trevas de uma noite sem fim..." (pág. 247/248)

"Parou diante da fachada do grandioso santuário de Apolo e olhou as palavras esculpidas em letras de ouro:
Conhece a ti mesmo
-O que achas que significa? - perguntou Cratero, que nunca se propusera problemas de natureza filosófica.
-Parece-me claro - respondeu Alexandre. - Conhecer a si mesmo é a mais difícil das tarefas, pois tem que ver diretamente com a nossa racionalidade, mas também com nossos medos e paixões. Quando alguém consegue de fato conhecer profundamente a si mesmo, também saberá entender os outros e a realidade que o cerca." (pág. 257)

"Percebia estar ao lado de uma deusa, e nenhum mortal pode pedir coisa alguma a uma deusa: só pode ficar agradecido por aquilo que recebe," (pág. 289)

sábado, 16 de março de 2013

A vida em tons de cinza

Título: A vida em tons de cinza
Autor: Ruta Sepetys
Páginas: 240

O livro narra a trajetória da jovem Lina Vilkas, uma lituana de 15 anos que, com a mãe e o irmão são deportados pelo governo de Stalin para os campos de trabalho forçado na Sibéria, devido ao engajamento político do pai, um professor universitário.

Lina e sua família procuram retratar todo o povo da Lituânia que sofreu nas mãos de Stalin, povo este humilhado e exposto a todo tipo de sofrimento, violência e humilhação, mas que nunca perdeu a dignidade e a esperança. É um relato forte, mas sincero tocante.

Trechos interessantes:

"[...]
- Eu não mereço nada. É preciso defender o que é certo sem esperar gratidão nem recompensa, Lina. Agora, termine o dever." (pág. 16)

"[...]
- Lina, querer fugir disto aqui é perfeitamente compreensível. Mas, como seu pai disse, temos que ficar juntos. Isso é muito importante.
- Mas como eles podem simplesmente decidir que somos animais? Eles nem nos conhecem - falei.
- Nós nos conhecemos. Eles estão errados. E nunca deixe que ninguém a convença do contrário. Entendeu?" (pág. 53/54)

"Lembrei-me de papai contando como Stalin havia confiscado as terras, as ferramentas e os animais dos camponeses. Era ele quem lhes dizia o que produzir e o quanto iriam receber. Eu achava isso ridículo. Como Stalin podia simplesmente pegar uma coisa que não lhe pertencia, algo pelo qual um agricultor e sua família trabalharam a vida inteira? 'Comunismo é isso, Lina', dissera papai." (pág. 80)

"Sussurrando em seu ouvido, mamãe lhe contou sobre a proposta de trabalho do comandante.
- Mas Elena, você poderia ter conseguido um tratamento especial - disse a outra mulher. - E provavelmente mais comida.
- Um pouco mais de comida nao vale uma consciência pesada - disse mamãe. - pense nas exigências que eles fariam naquela sala. E pense no que poderia acontecer com as pessoas. Não preciso carregar esse peso. Vou dar duro como todo mundo." (pág. 90/91)

"Estávamos nos aperfeiçoando rapidamente na arte de roubar migalhas. Jonas saía de fininho todas as noites para pegar restos de comida no lixo da NKVD. Insetos e vermes não intimidavam ninguém. Bastavam um ou dois petelecos e a comida desaparecia goela abaixo. Às vezes Jonas voltava com embrulhos que Andrius e a Sra. Arvydas escondiam no lixo. No entanto, tirando esse presente ocasional, havíamos chegado ao mais baixo nível da cadeia alimentar e sobrevivíamos comendo coisas sujas e podres." (pág. 132)

"Agora eu sabia como Edvard Munch se sentia. 'Pinte o que vê', dissera ele. 'Mesmo que o dia esteja ensolarado e você só veja escuridão e trevas. Pinte o que vê'." (pág. 152)

"Os homens pareciam não ligar nem um pouco para nós. É claro que não. Nossos corpos magros tinham um aspecto quase andrógino. Fazia meses que eu não menstruava. Nada em mim parecia feminino. Um pedaço de carne de porco ou uma cerveja com colarinho seriam mais atraentes para aqueles homens." (pág. 184)

"Na Sibéria só havia dois desfechos possíveis. Sucesso significava sobrevivência. Fracasso significava morte. Eu queria sobreviver." (pág. 224)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Deus protege os que amam

Título: Deus protege os que amam
Autor: Johannes Mario Simmel
Páginas: 240

Este livro não me agradou tanto como outros de Simmel que tenho lido. Achei a história um tanto simplista, com o desenrolar e o desfecho totalmente previsível.

Paul Holland é um jornalista que vive perambulando pelo mundo em busca de reportagens, mas que encontrou em Sibylle, uma mulher que mora na Alemanha, a razão de sua vida. Ele vai ao Brasil a trabalho e, ao retornar, descobre que Sibylle desapareceu. Ao tentar localizá-la, descobre que ela não era a simples pessoa que ele imaginava. E por aí vai...

É um bom livro, mas nem de longe se compara à qualidade dos outros de Simmel.

Trechos interessantes:

"-Frankfurt am Main, Parkstrasse, 12.
Um bom endereço, como qualquer outro. Parkstrasse 12 era o endereço do hotel Astoria, onde tinha um apartamento alugado por todo o ano. Nele eu tinha uma fotografia de Sibylle. Um guarda-roupa cheio. Alguns livros e uns manuscritos velhos. Na verdade tudo o que possuía no mundo. Não era muito. De resto, era muito pouco." (pág. 26)

"Enquanto isso eu pensava: por acaso o amor entre duas pessoas era mais forte que o ódio de Mao Tsé-tung, Foster Dulles e Bulganin? Existe amor a longo prazo neste século? E existe justiça para gatos, mudos e judeus?" (pág. 30)

"-Conheci o doutor Ehrlich no ano passado em uma conferência. Disse uma frase que nunca mais esquecerei.
-Que frase?
-Querer bem é mais importante que amar." (pág. 90)

"Os empregados usavam libré e os crupiês vestiam-se de maneira impecável. Também em Salzburgo partia-se do princípio de que o jogador perde seu dinheiro mais alegremente num ambiente mais luxuoso." (pág. 108)

"De todos os jogadores, contou-me certa vez um velho crupiê, os que estão mais em perigo são aqueles que temem alguma coisa, como a vida, a velhice, uma posição econômica insegura, doenças e morte. Os homens que estão perto dos cinquenta e as mulheres por volta dos quarenta temem a chegada do fim da plenitude da vida. São essas pessoas que numa sala de jogo se perguntam: 'Para que a prudência? Para que dar importância ao dinheiro? Para quem conservá-lo? Não importa mais'. Os cassinos vivem desses jogadores e não dos turistas temerosos e tampouco dos jogadores empedernidos que deixam milhões nas bancas mas levam outros milhões." (pág. 110/111)

"O incompreensível se torna mais lógico, mais suportável, mais tangível também, quando sai da nossa mente e o vemos escrito sobre o papel. Um pesadelo que contamos de manhã não nos amedronta mais; chega mesmo a parecer divertido e absurdo." (pág. 114)

"[...]Talvez ele tivesse acreditado por mais tempo em Stálin do que eu em Sibylle: isso era provável. Mais tempo, sim, porém mais do que eu, não. Não se pode amar mais ou menos. Só se pode amar, ou não." (pág. 143)

"Ao que parece, a distância que há entre o ódio e o amor é muito curta. Mas só se pode amar ou odiar aquilo em que se acredita. O próprio ódio pressupõe uma crença." (pág. 144)

"Os homens abandonam as mulheres, e as mulheres enganam os maridos. As relações normais entre os sexos estão degenerando. Eles já não tem muito que se dizer. A culpa talvez caiba às grandes invenções do século XX, à evolução da física ou à política, que agora penetra na vida privada dos indivíduos. Os homens transformam o mundo. As mulheres deixam de ser interessantes. Além disso, há muitas. As mulheres não são mais um problema, nem quando se corre atrás delas nem quando se as abandona. A bomba de hidrogênio é um problema, o Canal de Suez é outro, e também a coexistência pacífica. As mulheres já não são mais um problema. Ou a gente as aceita, ou a gente as deixa de lado, como melhor convier." (pág. 206)

"Naquela noite rezei. Pensei comigo mesmo que era vergonhoso e indigno fazer as pazes com Deus em um momento onde não se encontrava saída para a minha situação, mas pensei também: 'Se Deus existe, há de ser uma vitória para Ele que eu implore Sua ajuda exatamente agora que meu raciocínio não pode me ajudar'." (pág. 220)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Precisamos falar sobre o Kevin

Título: Precisamos falar sobre o Kevin
Autor: Lionel Shriver
Páginas: 464

Este livro já me despertou o interesse a começar pelo título. Li a sinopse e confirmei meu interesse. Terminada a leitura pude comprovar a minha suspeita inicial. Achei-o fascinante: desde a maneira de se contar a história até o desfecho final. Faz você realmente pensar sobre o seu papel e sua influência (de verdade) na vida de seus filhos.

Kevin é um jovem de 15 anos que comete um massacre numa escola dos Estados Unidos. A história é contada na forma de cartas que a mãe do garoto escreve ao pai. Nessas cartas toda a vida de Kevin é esmiuçada, desde antes do nascimento até a tragédia, tentando encontrar um motivo ou justificativa para o ato insano.

Trechos interessantes:

"É justamente quando ela menos merece que mais a criança precisa do nosso amor." -Erma Bombeck (pág. 7)

"Além disso, por mais que eu almeje o anonimato, não quero que os vizinhos se esqueçam de quem sou; quer dizer, querer, eu quero, mas o esquecimento não está disponível. E este é o único lugar no mundo onde as ramificações da minha vida podem ser inteiramente sentidas, e, para mim, no momento, importa mais ser compreendida que amada." (pág. 13)

"Poucos anos mais tarde, eu teria pago um bom dinheiro para usufruir de uma reunião normal e alegre em família, durante a qual a pior coisa que as crianças conseguiriam aprontar seria grudar chiclete no cabelo." (pág. 25)

"Na cadeia, e ele fez questão de que eu soubesse, não era nenhum delinquente mequetrefe, e sim um bandido notório por quem os jovens companheiros sentiam o maior respeito." (pág. 56)

"Eu permitiria que a procriação influenciasse nosso comportamento; você queria que ela ditasse nosso comportamento. Se isso lhe parece uma distinção sutil, é tão sutil quanto a noite e o dia." (pág. 67)

"Segundo a tradição, as mulheres não tinham direito à propriedade até por volta dos anos setenta, em alguns estados. Tradicionalmente, no Oriente Médio, nós andamos na rua dentro de um saco preto e tradicionalmente na África eles arrancam fora os nossos clitóris como se fossem um pedaço de cartilagem..." (pág. 77)

"O que estou querendo dizer é que, quando eu era criança, os pais davam as cartas. Agora que sou mãe, são as crianças que fazem isso. O que significa que a gente se fode indo ou voltando." (pág. 130)

"Eu saíra de casa não tanto pelo espírito de aventura, e sim para marcar território, para provar que minha vida não tinha mudado, que eu continuava jovem, curiosa, e livre - mas acabei demonstrando, para além de toda e qualquer dúvida, que minha vida de fato mudara, que, aos quarenta e um anos, não era mais nem remotamente jovem, que tinha saciado por completo uma certa curiosidade fácil a respeito de outros países e que existia um tipo de liberdade da qual eu não poderia mais me valer sem, com isso, afundar a única minúscula ilha de permanência, significado firme e desejo duradouro que eu conseguira anexar neste vasto e arbitrário mar de indiferença internacional." (pág. 144)

"[...] a pior coisa que pode acontecer numa viagem é dar tudo certo [...]" (pág. 144/145)

"Nada é interessante se você não estiver interessado." (pág. 145)

"E acho muito difícil que consigam fazê-lo se envergonhar. Você só consegue afetar quem tem consciência. Só pode punir quem tem esperanças para serem frustradas ou laços a serem cortados; quem se preocupa com a opinião dos outros. Você, na verdade, só consegue punir quem já é pelo menos um pouquinho bom." (pág. 170)

"'Kevin, eu já não disse para parar com isso? Não espirre mais água nem uma vez nesses rapazes simpáticos que estão aqui só ajudando a gente, e agora é sério.' Naturalmente que só consegui dar a entender que, da primeira vez, não era sério. Uma criança inteligente leva esse cálculo de 'agora é sério, de modo que da outra vez não era' até o limite e conclui que todas as advertências da mãe são besteira." (pág. 179)

"'Quando ele pensa no que fez, sente algum, tem algum...'
'Remorso?', completei secamente. 'Mas do que ele haveria de se arrepender? Agora ele é alguém, não é mesmo? Ele se encontrou, como costumávamos dizer no meu tempo. Agora não precisa mais se preocupar em saber a que tribo pertence, se é freak, geek, skatista, nerd ou esportista. Não precisa mais se preocupar se é gay. Ele é um assassino. Isso é maravilhosamente cristalino. E o melhor de tudo', tomei fôlego, 'ele se livrou de mim.'" (pág. 197/198)

"Outra coisa que eu queria era que ingressasse na primeira série à frente dos colegas, por isso tentei lhe ensinar o básico, 'Vamos ver os números!', propunha eu.
'Pra quê?'
'Para você ser o melhor da classe em aritmética, quando entrar na escola.'
'Pra que serve aritmética?'
'Bem, você se lembra de ontem, quando a mãemãe pagou as contas? Você tem que saber somar e subtrair, para pagar as contas e saber quanto dinheiro ainda tem no banco.'
'Você usou uma calculadora.'
'Bom, mas você precisa saber aritmética para ter certeza de que a calculadora está certa.'
'Então pra que usar, se nem sempre funciona?'
'Sempre funciona', concedi a contragosto.
'Então não precisa de aritmética.'" (pág. 225/226)

"É desagradável admitir, mas a violência doméstica tem suas utilidades. De tal sorte que, quando desencadeada em estado bruto, rasga o véu de civilização, que tanto se interpõe entre nós quanto torna nossa vida possível. Um mau substituto para o tipo de paixão que gostamos de exaltar, talvez, mas o amor verdadeiro possui mais em comum com o ódio e a raiva que com a cordialidade ou a polidez." (pág. 232)

"Quando se é pai, ou mãe, não importa qual seja o acidente, não importa a que distância você se encontre e o quão pouco possa fazer para evitar, a desdita sempre vai parecer culpa sua. Você é tudo que seus filhos têm, e a convicção deles de que você saberá protegê-los é contagiosa." (pág. 334)

"'Pensei que conseguiríamos levar a coisa adiante até que as crianças saíssem de casa.' Sua voz soou grisalha. 'Cheguei até a pensar que, se fôssemos tão longe assim, talvez... mas ainda faltam dez anos, e são dias demais. Os anos eu consigo encarar, Eva, mas os dias, não.'" (pág. 403)

"Uma das coisas que eu não consigo aguentar nesse país é o descompromisso com a responsabilidade. Tudo que os norte-americanos fazem e que não funciona muito bem tem que ser culpa de outra pessoa. Quanto a mim, eu respondo pelo que fiz. Não foi ideia de ninguém, só minha." (pág. 410/411)

"Eu dispunha de poucos pedaços dessa história quando entrei com uma guinada no estacionamento da escola, mas teria pela frente anos de reflexão contemplativa para montar calmamente esse quebra-cabeça, assim como Kevin teria anos de carpintarias mal-equipadas em que desbastar, lixar e polir suas desculpas." (pág. 429)

"Era possível ser um bom pai, investir em fins de semana e piqueniques e histórias na hora de dormir, e com isso criar um filho forte e decente. Estávamos nos Estados Unidos. E você tinha feito tudo certo. Logo, aquilo não podia estar acontecendo." (pág. 450)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pollyanna moça

Título: Pollyanna moça
Autor: Eleanor H. Porter
Páginas: 208

Me aventurei a ler "Pollyanna moça" antes de ler Pollyanna "menina". Aconteceu de me chegar às mãos e, acabei lendo. Mas não acho que seria necessário ler antes o "menina" para entender a história. pelo que pude perceber, o segundo não é consequência do primeiro, mas uma espécie de "novas aventuras".

O livro, para o que se propõe (literatura infanto-juvenil), é perfeitamente adequado. Trata-se da história de uma moça alegre, cheia de vida e felicidade, que consegue contagiar as pessoas com sua felicidade, sendo por isso adorada por todos. Enfim, uma história fácil de ler e de cunho educativo.

Trechos interessantes:

"E é aborrecido quando a gente é muito procurada, não sobra tempo para coisa nenhuma. Em compensação, é agradável saber que os outros precisam da gente, não acha?
Não houve resposta, talvez porque Mrs. Carew, pela primeira vez em sua vida, estivesse a cismar se porventura haveria alguém no mundo que dela necessitasse." (pág. 24/25)

"Ia sorrindo para todos os passantes e se desapontava, embora não se surpreendesse, de não receber nenhuma retribuição. Já se acostumara àquilo em Boston, terra de gente que não ri. Mas insistia. Podia ser que de repente o procurado sorriso aparecesse." (pág. 39)

"Eu queria encontrar uma pessoa que se sentisse solitária, como eu. Que estivesse sozinha. Todos que vejo por aqui estão acompanhados.
-Compreendo - respondeu a moça recaindo no seu alheamento. -Mas, boa menina, é muito triste que você haja percebido isso tão cedo...
-Isso o quê?
-Que o mais solitário lugar do mundo é justamente no meio das multidões." (pág. 46)

"Além disso, se a gente não passa fome de vez em quando, não pode saber como é gostoso um copo de leite [...]" (pág. 65)

"-Eu sei. Há muitas senhoras boas assim, que dão 'filantropicamente'. Há sempre mãos dadivosas estendidas aos que perderam o pé na vida. Está direito. Não vejo mal nisso. Só me admira é que não ajudem as pessoas antes do naufrágio. Se olhassem para as desamparadas antes que elas caíssem, dando a tantas meninas aquilo de que elas tanto precisam, o mundo não estava cheio de... Mas... Deus do céu? Que estou dizendo?" (pág. 95)

"-Eu sei. É assim que Mrs. Carew falava. Ela dizia que isso estava acima da minha compreensão; que... que seria 'pauperizar' o mundo, e 'pernicioso' etc. Qualquer coisa assim. Mas, seja lá como for, o que não compreendo é que alguns tenham demais e outros tenham de menos. Se eu tivesse muito, daria sem medo aos que têm pouco, pauperizasse e pernicionizasse o mundo ou não." (pág. 105)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O afegão

Título: O afegão
Autor: Frederick Forsyth
Páginas: 382

Em se tratando de espionagem e intriga política não há, na minha opinião, ninguém melhor do que Frederick Forsyth para descrevê-las. Ele consegue fazer um assunto árido se tornar atraente e ainda chamar a atenção para pequenos detalhes, que se juntam para tornar a trama mais interessante. Criar um romance, tendo como base a história real é uma arte.

O livro nos fala de uma conspiração (da qual não se sabe os detalhes) do povo muçulmano contra os Estados Unidos. Para evitá-la, os governos americano e britânico se unem para infiltrar um espião no exército talibã e descobrir mais detalhes. Fingem libertar um prisioneiro afegão que está em Guantánamo - daí o título - enquanto, na verdade, mandam o espião no lugar dele. O livro demora a "engrenar", a primeira metade é praticamente montando o pano de fundo e caracterizando os personagens. Na segunda metade é que a história em si começa a ficar empolgante.

Trechos interessantes:

"-Eu me considero um bom muçulmano, mas não um muçulmano obsessivo - disse Razak. - Não como carne de porco, mas também não vejo mal nenhum em dançar ou em fumar um bom charuto. A proibição dessas coisas é uma das características do fanatismo talibã com o qual não concordo. E quanto às bebidas à base de uva, ou até de grãos, tomava-se muito vinho durante nossos primeiros califados. Se um dia chegar ao Paraíso, serei repreendido por uma autoridade mais alta que todas, e então rogarei clemência ao todo-poderoso Alá. Enquanto isso, não me encha a paciência." (pág. 20)

"Mike Martin pensou em como aquilo parecia com uma cena de seu filme favorito de todos os tempos. T.E. Lawrence ofereceu dinheiro a Auda Abu Tayi para juntar-se a ele no ataque a Aqaba. Martin se lembrou da resposta genial: 'Auda não cavalgará até Aqaba pelo ouro britânico; ele cavalgará até Aqaba porque isso lhe agrada'." (pág. 72)

"Não houve nada de extraordinário na criação do menino. Quando pôde engatinhar, ele engatinhou, e quando pôde correr, correu furiosamente." (pág. 86)

"Assegurar bons guias com as unidades mujahedins nas proximidades da passagem Khyber não era problema. Como na época do Raj, algumas peças de ouro abriam muitas portas. Havia um aforismo que dizia que não era possível comprar a lealdade de um afegão, mas era possível alugá-la." (pág. 91)

"Está provado que, durante uma emergência instintiva, uma pesoa geralmente dá uma guinada para a esquerda. É por isso que dirigir no lado esquerdo da rodovia é mais seguro, embora restrito a alguns poucos países. Um motorista em pânico sai da estrada para o acostamento, evitando uma colisão frontal." (pág. 104)

"Todos os 19 homens-bomba do 11 de Setembro tinham conseguido passar despercebidos porque pareciam e agiam como seus personagens. O mesmo ocorreu com os quatro homens-bomba de Londres; aparentemente rapazes normais, que frequentavam a academia de ginástica e jogavam críquete, eram prestativos, um deles era professor de portadores de necessidades especiais, e sorriam constantemente. E o tempo todo estavam planejando um atentado. São pessoas assim que devem ser vigiadas." (pág. 176)

"As estradas afegãs são tão esburacadas que o lugar mais plano para se dirigir é pelo canteiro entre as pistas. Como se considera efeminado desviar porque alguém está vindo na direção contrária, a quantidade de fatalidades é impressionante." (pág. 197)

"O islã pode condenar o uso de narcóticos, mas apenas para os muçulmanos. Se os infiéis do Ocidente querem se envenenar e pagar bem por esse privilégio, isso não é da conta dos verdadeiros servos do Profeta." (pág. 205)

"Com o combate corpo a corpo praticamente extinto, a maioria dos homens morre não pelas mãos dos inimigos, e sim pelo computador deles. Eles são explodidos por um míssil disparado a um continente de distância ou de algum ponto sob o mar. Eles são exterminados por uma bomba 'inteligente' despejada por uma aeronave em uma altitude que não pode ser vista ou ouvida. Eles morrem porque alguém dispara uma bala a dois bairros de distância." (pág. 324)

"Para o terrosismo, a internet e o espaço virtual haviam se tornado armas de propaganda extremamente úteis. Na visão deles, é bom quando uma atrocidade é comentada num teleornal, mas é maravilhoso quando ela é vista por milhões de jovens muçulmanos em 70 países. É assim que nascem os novos recrutas: jovens vendo acontecer e desejando imitar." (pág. 337)

"Até agora o navio de passageiros estava recebendo a bordo apenas os participantes de nível inferior: estenógrafos, secretárias, diplomatas juniores,consultores especiais e todas as formigas humanas sem as quais os grandes e poderosos do mundo não poderiam discutir fome, pobreza, segurança, barreiras comerciais, defesa e alianças." (pág. 357)

"Não existe amor maior do que dar a vida pelos seus amigos." (pág. 382)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Um presente de Natal

Título: Um presente de Natal
Autor: Mary & Carol Higgins Clark
Páginas: 206

Para terminar o ano, nada como uma leitura sugestiva, relacionada ao período natalino. Leitura simples, de caráter infantil, com final previsível, mas perfeitamente lógica para a ocasião.

Sterling era um homem que nunca fez nada importante na vida. Morreu e aguarda "uma eternidade" nos portões do Paraíso. O Conselho Celestial decide que, para ele entrar, deve retornar à Terra e fazer uma boa ação a alguém. Assim ele retorna e procura um pessoa que precisa de ajuda, e por aí vai...

Trechos interessantes:

"...Reconheceu para si mesmo que adotara o lema de Scarlett O'Hara: 'Pensarei nisso amanhã'." (pág. 11)

"A NorNor sempre dizia que, se ela não estivesse lá todas as noites, o restaurante iria falir.
-É a minha sala de estar - dizia a Marissa. - A gente não convida pessoas para a nossa casa se a gente não vai estar lá." (pág. 20)

"Sterling nota que o lugar está lotado, e é evidente pela forma como Nor conversa com todo mundo que todos são clientes frequentes. Todos parecem gostar muito de falar um pouco com ela. E ela é boa nisso. Sterling ouviu-a perguntar sobre a mãe de um, o filho de outro, os planos de férias de um outro, e cumprimentar um rapaz e uma moça que haviam ficado noivos havia pouco.
O Conselho Celestial jamais dirá que ela não presta atenção aos outros, pensou Sterling. Isso é certo. Pena que eu não tenha sido mais assim." (pág. 77)

"Mas ele realmente dirige como uma lesma com dor nas costas. Sterling concordou plenamente com o pensamento impaciente de Marissa: 'Vamos lá, acelere. O treino vai estar terminado quando chegarmos lá'." (pág. 114)

"Mais uma vez, amaldiçoou o dia em que, 15 anos antes, os irmãos Badgetts foram até o escritório que mantinha sozinho no Queens e lhe pediram que os representasse na aquisição de uma cadeia de lavanderias a seco. Como eu precisava do dinheiro, não me informei o bastante sobre eles, pensou. Na verdade, eu não queria as informações. Bom, agora eu as tenho." (pág. 118)

"Com a cabeça baixa, ajoelhou-se ao lado de Billy, que acendera uma vela num altar lateral.
Ele está rezando por seu futuro na Terra. Eu estou rezando pelo meu futuro na eternidade. Ah, estar no céu nem que por apenas uma hora no dia de Natal... Sterling sentiu lágrimas nos olhos e sussurrou:
-Por favor, ajude-me a completar a minha missão na Terra para que eu possa começar a merecê-Lo." (pág. 124)

"-Nem pensem em me agradecer. Só usem o tempo de vocês aqui na Terra com sabedoria. Acreditem, ele passa muito rápido." (pág. 193)

"-Fazer outras pessoas felizes é uma das grandes alegrias da condição humana - disse-lhe o monge. - Você aprendeu a lição além do que imaginávamos." (pág. 204)

domingo, 23 de dezembro de 2012

O rancho

Título: O rancho
Autor: Danielle Steel
Páginas: 444

Mary Stuart, Tanya e Zoe eram colegas de escola e, depois de formadas, cada uma seguiu um caminho diferente. A primeira casou-se com um importante advogado, a segunda tornou-se uma celebridade da música e a outra tornou-se uma importante médica. Apesar de todos os compromissos, Tanya consegue um período de licença num rancho e convence as amigas a irem com ela. Lá elas revivem os tempos antigos e discutem abertamente os dramas e relacionamentos pessoais.

Apesar de ser um romance "novelesco" tradicional, o livro apresenta as personagens e seus dramas pessoais de uma forma envolvente: a mãe que perdeu o filho e não consegue se ajustar à vida novamente; a pessoa famosa que, mesmo que queira, não pode sair dos holofotes e a pessoa que tem que conviver com o drama da AIDS. Em suma, fazem a leitura mais interessante do que o romance em si.

Trechos interessantes:

"Os caras com quem joguei golfe essa manhã fizeram um estardalhaço. Aliás, alguns deles acharam que era um bocado engraçado ter uma esposa processada por assédio sexual. A maioria reclama que suas esposas nunca querem dormir com eles." (pág. 41)

"Um momento mais tarde, Bill desapareceu no banheiro e saiu de pijama. Nem pareceu notá-la ou ao vestido que usara, ou como estava bonita. Era como se ela tivesse deixado de ser mulher no momento em que seu filho morrera." (pág. 78)

"O casamento não tem a ver com se manter à distância. Ele tem a ver com compartilhar. E eles haviam compartilhado. Compartilharam alegria durante cerca de vinte e um anos, e um sofrimento sem fim no último ano. O problema é que não compartilharam realmente o sofrimento.Tinham sofrido em silêncio cada um em seu canto." (pág. 85)

"Às vezes ela pensava consigo mesma se era a isso que tudo se resumia. Tudo tinha a ver com dinheiro, ganância e negócios. Os agentes, os advogados, as pessoas vendendo histórias sobre ela, aqueles que queriam ser pagos para não processá-la, o número sem fim de pessoas que pensavam que ela lhes devia pelo seu sucesso porque fora mais afortunada do que elas." (pág. 102)

"Ser uma celebridade era um negócio difícil, apesar do que as pessoas pensavam. Do lado de fora, parecia maravilhoso, de dentro, era um profissão cheia de sofrimentos profundos." (pág. 110)

"Conseguira chegar até o topo, para descobrir que não havia nada lá que qualquer pessoa quisesse." (pág. 111)

"-[...]Ninguém vai me convidar para sair, a não ser algum maldito cabeleireiro, só para depois poder dizer que saiu comigo. Sou como o Everest. Ninguém quer morar lá, mas o mundo todo quer poder dizer que o escalou." (pág. 208)

"É engraçado como no momento em que você pensa que sua vida acabou, tudo começa outra vez. A vida sempre nos engana, não é? Quando você acha que está com tudo, perde tudo, e quando você acha que perdeu tudo, encontra algo infinitamente preciso." (pág. 263)

"Quero ajudá-la a ficar viva, quero trabalhar com você, Zoe... eu amo você e Jade... por favor, deixe-me amá-la... há tão pouco amor nesse mundo. Se eu achei algum, vamos compartilhá-lo. Não o jogue fora. o fato de você estar com AIDS não muda nada, não faz com que eu pare de amá-la. Só quer dizer que o que temos é ainda mais precioso. Não deixarei que você o jogue fora. Significa demais para mim..." (pág.315)

"Eu costumava ficar imaginando quem é que falava de mim, mas acho que todos falam. Os policiais, a imprensa, as enfermeiras, os motoristas de ambulância, os cabeleireiros do mundo todo, os turistas, os corretores e, às vezes, até os amigos. Não tem jeito. Todos fornecem um pequeno pedaço de informação e então eles o trasformam numa faca e a esfaqueiam com ela, bem no coração." (pág. 417)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Mequiel - o caçador de sonhos

Título: Mequiel - o caçador de sonhos
Autor: Beth Valentim
Páginas: 214

Mais um livro de autoajuda que me caiu às mãos. Como já disse, esses livros não são o meu forte, mas não tenho nenhum problema quanto a lê-los. Se bem não fizer, mal também não fará. Mas a história em si é interessante, bem simples, mas interessante.

Mequiel é um físico, que eu diria, já com a vida arrumada. Tinha um bom emprego, uma namorada, mas era também um sonhador. De repente, encheu a cabeça com um sonho inalcançável e, sem avisar nada pra ninguém, abandonou tudo para seguir esse sonho. Depois de 20 anos retorna, sem nada ter conseguido, para descobrir que havia destruído a vida de todos aqueles que se preocupavam com ele.

Trechos interessantes:

"O tempo não tem segredo, apenas sabe esperar. E as verdades aparecem. Ele quer acomodar a maturidade, desfazer mal-entendidos. É humilde mas verdadeiro, certeiro. Impõe-se, mostrando o que de real aconteceu, sempre. Ninguém escapa... Os trechos da vida, antes incompreensíveis, passam a ter sentido." (pág. 2)

"-E quando uma pessoa se acha um herói, nem percebe o quanto precisa de alguém... Vira as costas e sai derrubando tudo que está a sua frente." (pág. 34)

"O herói antigo não tinha o direito de recusar um desafio. O de hoje estuda-o com cautela. Não teme, mas nem por isso perde facilmente o que adquiriu ao longo do tempo. O herói de ontem era aplaudido pelos tantos que matava. O de hoje pelos que consegue salvar. Mas antes de salvar alguém, salva-se." (pág. 42)

"Meu amigo, pedir ajuda não é ser fraco, é ser o mais esperto, no bom sentido... É estar atento à vida." (pág. 71)

"Falava sobre o perdão, de maneira contagiante. Enfatizava que perdoar, de forma alguma, significa concordar com a ofensa nem com a injustiça sofrida. Que ser humilde não é ser bobo, mas ter um coração terno e aberto para escutar o que o outro tem a dizer. Ao menos dar a chance de falarem. Que as pessoas crescem quando estão mais disponíveis para perdoar." (pág. 124)

"Ter paz é saber usufruir da vida de maneira simples, obter tranquilidade. É ter intimidade com esse sentimento. A paz desespera as pessoas, que querem obter resultados de qualquer maneira." (pág. 174)

"A compulsão de viver no heroísmo fez com que não saísse à procura de seus desejos mas, sim, de coisas que pudesem tapar os buracos de sua vida. Desejo se cuida. Não se deixa escapar facilmente. Do que correu atrás eram só quereres. Existe diferença entre desejo e querer. Obtém-se o desejo, quando se está completo. Quando se tem o conhecimento de si próprio. Assim as escolhas são viáveis." (pág. 177)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A pedra da bênção

Título: A pedra da bênção
Autor: Barbara Wood
Páginas: 546

O livro narra a trajetória de uma pedra azul, que teria se formado no início do universo até os dias atuais. Esta pedra passou pela mão de inúmeras pessoas, desde os primeiros habitantes do planeta, sendo considerada milagrosa e abençoada por muitas dessas pessoas: uns a usavam como amuleto, outros como enfeite, outros como pedra da sabedoria, outros como castigo, e assim por diante.

A autora consegue fazer uma viagem através da história, na qual a personagem principal é um cristal que durante a sua trajetória será perdido, encontrado, esquecido, roubado, vendido, presenteado, influenciando - de uma maneira ou outra - a vida de todas as pessoas pelos quais ele passa, seja no homem das cavernas, na Roma Antiga ou no oeste americano.

Trechos interessantes:

"Os humanos evoluíram de coletores para predadores. O pensamento nasceu e com ele as perguntas, e com as perguntas veio a necessidade de respostas. E assim havia espíritos, tabus, certo e errado, fantasmas, e a magia nasceu." (pág. 55)

"Ao contrário do sol, que brilhava inutilmente durante o dia quando já havia luz e cuja face era brilhante demais para ser encarada, uma pessoa podia olhar para a lua horas e horas sem ficar cega. A lua, dependendo das suas fases, fazia com que as flores se abrissem à noite, os felinos caçassem, as marés enchessem. A lua era previsível, reconfortante como uma mãe." (pág. 75)

"Ele prosseguia para oeste quando podia, mas quando encontrava litorais e via-se à orla de mares sem praias do lado oposto, movia-se rumo ao norte, sem saber que estava traçando rotas que oito milênios depois seriam seguidas por homens chamados Alexandre, o Grande, e São Paulo." (pág. 160)

"O horizonte continuava a chamá-lo, tal como na sua infância, só que agora ele o seguia não para ver o que havia do outro lado, mas sim porque não tinha mais para onde ir. E na sua necessidade irracional de pôr cada vez mais chão debaixo de seus pés, em lugar nenhum encontrou outro assentamento igual ao seu na nascente perene." (pág. 160)

"-Por que ficam na mesma casa?
-Para tomar conta do vinhedo.
-Têm de tomar conta do vinhedo?
-Foi o que eu disse.
-Se não tomarem conta as uvas não vão crescer?
-Oh, as uvas crescerão.
-Então por que tomar conta do vinhedo?
-Para evitar que outros peguem as uvas.
-Por que evitar que outras pessoas peguem as uvas?
-Porque elas são nossas.
Bodolf trocou olhares com os outros.
-Então quando estrangeiros aparecem a uva não é para eles?
-Isso mesmo.
-Por que não? O fruto está na parreira.
-Mas meu abba plantou as parreiras e portanto as uvas são dele.
Eskil franziu o cenho.
-Se o seu abba morresse, as uvas também morreriam?
-Bem, não.
-Então como é que elas são dele?" (pág. 173)

"Nós mulheres carregamos filhos dentro de nossos corpos, os alimentamos com nosso fôlego e nosso sangue, nossos batimentos cardíacos bombeiam a vida neles, e por quase dez meses a criança e a mãe são um único ser. E então chegam as dores do parto, o dilacerar da carne e o fluxo de sangue, a agonia de impelir a nova vida para o mundo. Porém para você, jovem pai, não há dor nem sangue. Um momento de prazer e, nove meses depois, você bebe vinho, joga dados e decide o destino do recém-nascido." (pág. 214)

"Para um romano o dia não podia começar sem que antes não fosse determinado se era um dia auspicioso para tratar de negócios, para se casar, para fazer molho de peixe. E entre todos os instrumentos de augúrio, desde os nós dos dedos às folhas de chá, o voo dos pássaros era o mais importante - até mesmo a palavra "auspicioso" derivava de auspicium, que significava adivinhação por meio do voo dos pássaros." (pág. 214)

"O adultério era uma coisa estranha. Tudo dependia de quem o cometia, e com quem. Entre as classes baixas, a traição conjugal era quase um esporte nacional e uma grande fonte de piada para o teatro. Mas a nobreza se pautava por um padrão diferente, e uma esposa transviada era vista como traidora não só pelo marido, mas também por toda a classe social a que pertencia. Como Lucilla, a linda viúva de um senhor famoso, lhe dissera uma vez despudoradamente, o pecado não era o adultério em si, mas sim a adúltera ser flagrada." (pág. 226)

"Depois que a apóstola chamada Maria partira, naquele memorável dia da epifania de Amélia, ela havia perguntado a Raquel como poderia obter esse perdão que Jesus pedira para seus torturadores e ficou atônita ao saber que a pessoa não tinha de pagar taxas a um templo nem sacrificar um animal. Nem teria de recorrer a um intermediário como um sacerdote ou uma sacerdotisa. 'Basta falar diretamente a Deus', Raquel dissera, 'peça o perdão Dele, conserve isto no seu coração e será perdoada'." (pág. 257/258)

"Ela notou pela primeira vez que ele começara a pentear o cabelo de trás para a frente. A calvície não era admirada em Roma, era de fato considerada um sinal de fraqueza. Os homens portanto se submetiam a grandes sacrifícios para compensar, os mesmos homens que ridicularizavam suas esposas por gastar tempo demais com seus cabeleireiros." (pág. 258)

"Talvez,pensou, quando falou sobre o fim do mundo, Jesus não quisesse dizer que o fim chegaria para todas as pessoas de uma vez, mas sim para cada qual em seu tempo, à medida que alguém morresse e uma nova vida começasse. Para mim, esta noite, o mundo chega a um fim." (pág. 288)

"Asmahan conteve a língua, achando que seria cruel demais deixar a garota saber que aqueles artigos eram tão insignificantes que ninguém quisera ficar com eles (...). Isto confirmava o velho adágio de que uma pérola para um valia menos que um seixo para o outro." (pág. 398)

"Eles nunca haviam imaginado uma terra tão vasta, um céu tão ilimitado. Sentiam as almas se expandindo a cada quilômetro vencido, como se tivessem vivido sua juventude comprimidos num sótão e agora estivessem sendo arejados num varal ensolarado." (pág. 505)

"Deus pode ter nos dado a dor, mas também nos dispôs dos recursos para aliviá-la." (pág. 508)

"-Claro que casarei com você, meu querido Matthew, pois formamos um par perfeito: parteira e agente funerário. Ajudo a trazer pessoas ao mundo e você as escolta para fora dele." (pág. 542)

domingo, 25 de novembro de 2012

Kuryala: capitão e carajá

Título: Kuryala: capitão e carajá
Autor: José Mauro de Vasconcelos
Páginas: 336

José Mauro é um dos meus escritores preferidos, pois a maioria de seus livros fala de coisas da minha terra. Seus livros são quase todos ambientados na região Centro-Oeste e região Norte e neles os mesmos personagems se entrelaçam formando uma teia, constituindo-se partes de um grande "todo". As selvas, os rios, os índios, os garimpos, tudo isso é retratado com a linguagem própria da região, criando uma riqueza de detalhes e fazendo o leitor se sentir parte disso tudo.

Este livro é especificamente sobre os índios carajás. Mostra as crenças e tradiçoes desse povo, através do relato de um índio que cresceu para ser o capitão da tribo. Mostra a invasão do homem branco que explora e aproveita-se da vida simples do índio, contribuindo para sua extinção ao introduzir o álcool e as doenças. Mostra também a tristeza e decepção do índio que, devido a uma doença, foi capitão por pouco tempo e foi esquecido e abandonado por todos.

Depos da leitura nos perguntamos: Que é o selvagem: o índio ou o homem branco?

Trechos interessantes:

"-Esqueça-se disso. Tudo isso é muito grande, muito bonito e é dos carajás. Vai demorar muito tempo para que os brancos cheguem por aqui.
-Dizem que os brancos são muitos.
-Mas nem tantos quanto as estrelas do céu." (pág. 24)

"-Dói, sim, filhinho. Todos os homens passam por isso. Um dia também fizeram comigo e meu pai Birirroa também me deitou em seu colo e soprou a minha dor." (pág. 36/37)

"-Meu filho bonito! Meu filho que já é um homem!
Só disse aquilo. E aquilo resumia todo o seu amor e o mistério da sua maternidade. A dor do seu parto. E todos os momentos, todos os dias, todas as suas alegrias, todas as suas angústias. E mormente tudo aquilo que lhe seria roubado no outro dia." (pág. 41)

"-Você ouviu?
-Ouvi. É o nome da jadomã que eu lhe contei.
-É. Nosso filho está ficando homem mais depressa do que a gente pensa. Logo eu preciso viajar com ele. Fazer aquela viagem que meu pai fez comigo e que todos os pais gostam de fazer com os seus filhos." (pág. 59)

"Quanto á barganha com os carajás, aquilo se tornou um bamburro, um negócio rendoso. Pois ali se encontrava o maior e mais rico celeiro de artesanato indígena. Por uma coberta, por uma panela, escolhia aquilo que bem entendesse. Sendo o primeiro descobridor de uma indústria que exploraria sempre os índios mais tarde." (pág. 67)

"-Com a força do Uomã (machado) a gente vai derrubar esse bonito pau de landi. Vamos cortar todos os seus galhos. E ele vai chorar quando cair. Seus galhos grandes vão abraçar os outros paus para não cair. Ele vai gemer até cair. Quando cair com o barulho no chão e se soltar do pequeno tronco aí seu coração morreu e ele não chora mais. Então precisamos cortar todos os seus galhos. Deixar só um grande tronco todo reto. Porque daí vai nascer a sua primeira e bonita canoa, Kury." (pág. 99)

"Mas ao mesmo tempo se perguntava porque o rio ficava tão grande e tão largo no tempo das chuvas. Não queria desrespeitar Kanansiuê que era tão bom e tão amigo. Mas ele e muitos outros índios não sabiam e perguntavam por que Kanansiuê não tinha feito o Bêérokan (Araguaia) diferente. Um lado que descia e outro que subia. Assim ajudava a vida de todo mundo..." (ág. 105)

"A dificuldade em fabricar uma canoa era o que tornava o índio cada vez mais seu amigo. Não tão importante como o seu filho, mas significando muito mais do que seu cão. Um índio podia bater no seu cão amigo, entretanto, jamais maltrataria sua canoa." (pág. 109)

"-Ela nunca vai mandar em você. Quando a mulher gosta do homem que escolheu, nunca manda, você adivinha e faz. Gostar muito é mais bonito do que tudo." (pág. 117)

"Um dos visitantes deixou escapar uma piada trágica.
-Dizem que cearense é que chega primeiro em qualquer parte, pra mim a cachaça chega primeiro." (pág. 169)

"-Será que quando a gente chegar no Xingu vai encontrar os índios assim tão estragados?
-Não. Lá é lugar melhor. Nem todo mundo pode entrar lá. Só os privilegiados. Só as pessoas que interessam. Os índios são fortes, bonitos, bem tratados, estão nus, têm bons dentes... É um ponto de turismo muito preservado. Pra mim, é como se fosse um zoológico para a curiosidade dos civilizados... de certa posse." (pág. 170)

"O homem olhou a enfermeira com raiva e enfiou o chapéu de palha na cabeça. Seus olhos brilhavam como relâmpagos.
-Um dia a senhora paga.
Cuspiu de lado e lançou a praga.
-Um dia a senhora vai arder nas fornalhas do inferno.
Dóttie riu.
-Ih! Moço, eu já estive por lá e não é tão quente assim..." (pág. 236)

"Qualquer branco naquele momento teria se vingado e destamparia um desabafo cruel. Ele, não. Um índio, um selvagem, um bugre, apenas virou as costas para não escutar as palavras de agradecimento. Apenas se apiedara de uma criatura desgraçada e torturada pelos seus semelhantes." (pág. 263/264)

"Veio a lembrança das frases desbocadas de Canário: -na vida, a gente muitas vezes tem que fritar um pedaço de merda para tentar fazer um torresmo..." (pág. 264)

"Índio nunca fora muito de dizer adeus. Adeus só para quem vai viajar numa viagem de sombras, acompanhadas de manlioca, banana e batata-doce. Só quem vai ser enterrado do outro lado do rio, no uabdé de terra, de silêncio e de mistério. Adeus justamente era para se dar a quem nunca mais poderia responder. Só." (pág. 270/271)

"Poderia até perdoar um carajá que vendesse escondido a qualquer branco uma máscara de Aruanã. Se ele precisasse de dinheiro pra comprar remédio para um filho doente ou para cobrir a nudez do corpo da sua mulher e o seu. Esconder a sua vergonha dos brancos. Mas não. Eles venderam as máscaras por Krukujé (cachaça). Por safadeza. Eles levaram as coisas mais sérias de um índio, as coisas mais sagradas, para que tori (branco) risse e caçoasse." (pág. 293)

sábado, 10 de novembro de 2012

O senhor March

Título: O senhor March
Autor: Geraldine Brooks
Páginas: 304

O senhor March é um capelão do exército americano na Guerra de Secessão (abolicionista por idealismo) convivendo com as agruras da guerra e assolado constantemente pela saudade da mulher e das quatro filhas. No seu ofício reencontra uma escrava que conhecera quando ele era jovem, trazendo-lhe agradáveis lembranças e reafirmando o seu desejo de liberdade para os negros.

A história em si é ótima, mas achei sensacional a ideia por trás do livro: a autora se baseou num clássico da literatura americana (Mulherzinhas, que eu, sinceramente, não conheço, mas pretendo ainda ler um dia) que conta a história de uma mãe e quatro filhas, enquanto o marido está na guerra. Como nada é falado sobre o marido, a autora usou a ideia para romancear a vida do personagem ausente. Fantástico.

Trechos interessantes:

"Escrevo na mesa dobrável que você e as meninas tiveram o carinho de me dar, e, embora tenha derramado e perdido meu estoque de tinta, não se incomode em me enviar mais. Um dos homens me mostrou uma receita engenhosa para um bom substituto deste produto, feito das últimas amoras-pretas da temporada. Graças a ele, posso lhe enviar, neste momento, palavras 'amorosas'!" (pág. 11)

"-Quem me contrataria para corromper as mentes de suas filhas? E, ainda que me contratassem, não domino aquilo que gostaria de ensinar. Não escalei a montanha do conhecimento, mal a toquei. Se galguei certa altura em meu aprendizado, foi apenas como um gavião que encontra uma brisa favorável, que o leva para cima por um momento." (pág. 77)

"Não dormi naquela noite. Embora fosse muito cedo para uma visita matutina, fui à casa dela, sendo recebido por uma carrancuda senhora Mullet - talvez ela soubesse do vestido em estado comprometedor -, e, no devido momento, conduzido até o escritório de seu pai, onde cumpri a formalidade de pedir-lhe aquilo que já tinha tomado." (pág. 102)

"Se um homem deve perder sua fortuna, é bom que já tenha sido pobre antes de adquiri-la, pois a pobreza exige aptidão." (pág.127)

"Se há um tipo de pessoa em quem nunca confiei é alguém que não tem dúvida." (pág. 135)

"Como dizia Heine: 'Não temos a ideia. A ideia é que nos tem... e nos leva à arena para defendê-la como gladiadores, que combatem, queiram ou não." (pág. 139)

"Observei esse detalhe e o registrei como mais uma das injustiças da vida: o homem que já foi rico e perdeu tudo é tratado com mais civilidade do que aquele sujeito que sempre foi pobre." (pág. 142)

"Será que existem duas palavras mais intimamente relacionadas que coragem e covardia? Penso que não existe um homem que não queira possuir a primeira, mas tema ser acusado da segunda. Enquanto uma é considerada o apogeu do caráter de um indivíduo, a outra pode ser vista como o seu nadir." (pág. 185)

"Um lar, ainda que na escravidão, é sempre um lar, e não é fácil abandoná-lo sabendo que tal ato será irrevogável." (pág. 192)

"Um sacrifício como o dele é considerado nobre pelo mundo. Mas o mundo não me ajudará a consertar o que a guerra destruiu." (pág. 230)

"Como era fácil dar conselhos sábios, mas como era difícil segui-los." (pág. 269)

"Apenas lhe peço que entenda que, ao cairmos, a única coisa a fazer é levantar novamente, prosseguindo com a vida que nos aguarda, tentando fazer o bem na medida do possível às pessoas que aparecerem em nosso caminho." (pág. 292)

domingo, 28 de outubro de 2012

13 Histórias de Arrepiar

Título: 13 histórias de arrepiar
Autor: Alfred Hitchcock
Páginas: 250

Não se deixe influenciar pelo título, a única coisa sensata é que as histórias são em número de treze, o resto é só para chamar a atenção.Novamente, mais uma compilação de histórias de suspense, de qualidades variadas, algumas boas, outras nem tanto. No geral o livro está acima da média para o gênero, pois, na minha opinião, seis (talvez sete) histórias são boas.

Como curiosidade temos uma história ambientada no Brasil, incluindo os personagens com nomes comuns no Brasil, o que é raro de se encontrar nestas histórias. Entre as que considero boas, destaco: "Uma questão de Ética" (esta, a ambientada no Brasil) e "A última autópsia".

Trechos interessantes:

"Não tenho a menor ideia do que há com os Estados Unidos da América que faz com que as festividades se desvirtuem, ao chegar às nossas bandas." (pág. 9)

"Deem a uma criança um dos chamados brinquedos pedagógicos. Se a criança tiver um mínimo de espírito, irá destruir rapidamente o brinquedo e encontrará coisas interessantes e variadas para fazer com a caixa que o continha." (pág. 12)

"Manuel permitiu-se uma risadinha, a caminho do centro da cidade. Se alguém salva sua vida, pensou ele, então você lhe deve uma vida em troca. E se alguém paga por uma morte, então você lhe fica devendo uma morte pelo dinheiro que recebeu." (pág. 43)

"Ele sempre procurava manter uma aparência calma e comum na presença dos serviçais. Camareiros, garçons, recepcionistas de hotel, todos possuíam uma capacidade irritante de se recordar de certos pequenos maneirismos dos fregueses, ao serem interrogados posteriormente." (pág. 54/55)

"Do ponto de vista da punição, os assassinatos só ocorriam se os outros descobriam. Mas ele não ia sair pela rua a dizer a todo mundo que assassinara a esposa. Ela também não contaria nada a ninguém. E a única coisa que o velho relógio de pé diria seriam as horas." (pág. 71)

"Em seu ofício, ser reconhecido pelos amigos significava ser, mais cedo ou mais tarde, localizado pelos inimigos." (pág. 82)

"Era como a piada do londrino que dormia com as batidas do Big Ben, durante anos a fio. Mas na noite em que o relógio quebrou e as badaladas não soaram, o londrino acordou sobressaltado, gritando: 'O que aconteceu?'" (pág. 94)

"Não nos conhecemos uns aos outros, Roy. Mas conhecemos ainda menos a nós mesmos. Estou absolutamente convencido disso." (pág. 199)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O enigma do oito

Título: O enigma do oito
Autor: Katherine Neville
Páginas: 678

Romance histórico com dois eixos paralelos, o primeiro de 1790 e o outro de 1970. As linhas são interligadas, sendo a segunda, consequência da primeira. Durante o transcorrer da história várias figuras célebres fazem parte da mesma: Voltaire, Robespierre, Napoleão, Benjamin Franklin, etc.

O enredo em si é simples: um jogo de xadrez criado por Carlos Magno possui poderes mágicos e se encontra enterrado na abadia de Montglane. Ao saber que o tesouro está ameaçado, a abadessa resolve esparramar as peças pelo mundo. O resto da história é todo mundo (há os vilões e os mocinhos, é claro!) correndo atrás para reagrupar as peças e descobrir o segredo escondido.

Mesmo sendo um livro repleto de ação (armadilhas, fugas, disfarces, perseguição, etc) achei a história muito longa.

Trechos interessantes:

"A primeira mulher a fazer qualquer coisa nunca encontra facilidades. Seja você a primeira astronauta ou a primeira funcionária de lavanderia chinesa nos Estados Unidos, terá de aprender a aceitar piadinhas, insinuações, cantadas e olhares compridos na direção de suas pernas. Além disso, você deve se preparar para trabalhar mais do que os outros e receber um salário menor." (pág. 30)

"As mulheres controlavam a França, como ele sabia melhor do que ninguém.
Embora a lei não permitisse que uma mulher assumisse o trono francês, elas obtinham o poder por outros meios e selecionavam os candidatos ao mando de acordo com critérios muito particulares." (pág. 63)

"-Se você chama de 'discreto' o ato de encher toda a França de filhos ilegítimos, enquanto finge que é padre e sai por aí dando extremas-unções, eu gostaria de saber o que você considera 'devasso'." (pág. 65)

"A Rússia é atrasada em tantas coisas, pensou a abadessa. Um país regido por um calendário, uma religião e uma cultura totalmente diferentes." (pág. 121)

"-Como disse Sherlock Holmes, 'é um erro crucial teorizar antes de se obterem todos os dados'." (pág. 145)

"-'Morri pela beleza, morri pela verdade' - citou ele. - Todo mundo tem uma causa qualquer, pela qual acredita que seria capaz de dar a vida. Mas nunca ouvi falar de alguém disposto a morrer só por um dia de trabalho desnecessário na Consolidated Edison!" (pág. 171)

"Por que a plebe tem sempre que parecer tão plebeia?, pensou a embaixatriz. As intermináveis horas que já passara, trabalhando duramente em intrigas políticas, gastando parte de sua considerável fortuna em subornos e propinas com os burocratas certos... Tudo aquilo para o bem de gentinha miserável como aquela!" (pág. 188)

"-A matemática é música - retrucou Bach. - E a recíproca é verdadeira. Não faz diferença que se acredite que a palavra 'música' deriva de musa, ou de mute, que significa 'a boca do oráculo'. Se você achar que 'matemática' deriva de mathenein, que quer dizer 'aprendizado', ou de matrix, o útero de toda a Criação, não faz a menor diferença..." (pág. 204)

"Sempre fora um homem sem família, nunca experimentara a necessidade de outro ser humano. Talvez fosse melhor assim, pensou, com amargor. Quem não ama, não pode perder o objeto do amor." (pág. 236)

"Tática é saber o que fazer quando há o que fazer.
Estratégia é saber o que fazer quando não há nada a fazer. (Savielly Tartokover - grande mestre polonês)" (pág. 247)

"Fora tudo como se alguém tivesse destampado por instantes o vaso finíssimo que continha a civilização, para que ela pudesse dar uma breve olhada no horror da bestialidade humana, sempre oculta por um verniz muito tênue." (pág. 299/300)

"-Segundo isto aqui, Tikjda fica a apenas cinquenta quilômetros de onde estamos, e a ponte é logo adiante!
-É, mas os mapas só mostram as distâncias na horizontal... Lugares que parecem próximos em duas dimensões podem ser bem distantes, na realidade." (pág. 389)

"-Ele e eu somos nahnu malihin, pessoas obrigadas a dividir o sal. No deserto, repartir o sal com alguém vale mais que dar ouro de presente!" (pág. 396)

"Se um homem pudesse dizer e fazer o que pensa,seria capaz de se transformar." (pág. 447)

"Ah, Courtiade, como o rio das possibilidades se congela depressa no inverno da vida!" (pág. 529)

"-Nem sempre uma mulher bonita é inteligente - comentou Napoleão. - Mas as mulheres inteligentes são sempre bonitas!" (pág. 583)

"-Monsieur - disse-lhe o corso, um dia, ao café da manhã, à frente de toda a corte -, o senhor não passa de um monte de merda num par de meias de seda." (pág. 670)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O sol por testemunha

Título: O sol por testemunha
Autor: Patricia Highsmith
Páginas: 276

Tom Ripley é um cidadão que vive de chantagear as pessoas, alegando fraude no imposto de renda. A sorte lhe bate à porta quando é abordado por um pai de um antigo colega de escola, cujo filho está na Itália, e está procurando alguém para convencê-lo a voltar para a América. Tom aceita a missão com a esperança de conhecer a Europa às custas do seu benfeitor.

Apesar da história já conhecida e de críticas positivas de todas as partes, não sou muito adepto de livros desta natureza. A história é interessante e prende a atenção, sem dúvida, mas me deixa a impressão de que o autor quer fazer crer que o crime compensa.

Trechos interessantes:

"Greenleaf era um sujeito tão decente, que para ele todo mundo de repente se tornava decente também. Quase esquecera que ainda existia gente assim." (pág. 14)

"Não consigo me decidir se gosto de homens ou de mulheres, portanto estou pensando em desistir dos dois." (pág. 82)

"Queria poder dizer em Majorca, Atenas ou Cairo, ou onde quer que se achasse: 'Sim, moro em Roma. Mantenho um apartamento na cidade'. 'Manter' era a palavra usada quanto a apartamentos, entre a alta sociedade internacional. Mantinha-se um apartamento na Europa como quem mantém uma garagem na América." (pág. 129)

"Sentia-se só, mas não solitário." (pág. 134)

"Não há nada como ter orgulho de quem se ama, não é mesmo? Não conversamos uma vez sobre isso?" (pág. 172)

"Agradou-o o fato de não haver carros em Veneza. Tornava-a mais humana. As ruas eram como veias, pensou, e o povo era o sangue circulando por toda parte." (pág. 185)

"Peter estava com roupas italianas da cabeça aos pés. Tom notara, nas festas e no teatro, que os homens que usavam roupas inglesas eram quase sempre italianos, e vice-versa." (pág. 219)

"Adorava possuir coisas, não em grande quantidade, mas um número de objetos selecionados dos quais não queria se desfazer. Faziam com que a pessoa adquirisse auto-respeito. Não a ostentação, mas a boa qualidade, e o amor à qualidade. Suas posses o faziam lembrar que estava vivo e amar sua existência. Era simples." (pág. 236)

"O dinheiro tornava-lhe possível agora ir à Grécia, colecionar cerâmica etrusca, se quisesse (lera recentemente um livro muito interessante escrito por um americano que morava em Roma), ser membro de sociedades artísticas e fazer donativos. Permitia-lhe, por exemplo, ler Malraux nessa noite, até a hora que quisesse, pois não precisava ir trabalhar de manhã." (pág. 237)

"[...]Como a história de San Remo. Eram boas porque as imaginava com tanta intensidade que acabava por acreditar nelas." (pág. 239)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Massacre em Estocolmo

Título: Massacre em Estocolmo
Autor: Sjowall & Wahloo
Páginas: 228

Em Estocolmo, numa noite fria e chuvosa, um ônibus é metralhado e ninguém escapa com vida. Diante dessa situação bizarra se encontram os policiais que, sem pistas à primeira vista, tentam descobrir o responsável. Após muita investigação descobre-se que a causa pode ter se originado num crime cometido há dezesseis anos.

Como era de se esperar em livros desse tipo, a narrativa é lenta e muitas vezes maçante. Todo trabalho investigativo leva tempo e tem que ser construído peça por peça e, muitas vezes, um pequeno detalhe é que faz a diferença. É um bom livro, mas nada de especial.

Trechos interessantes:

"...por que, diabo, as pessoas não iam para casa. Na categoria 'pessoas', ele incluía o chefe de polícia, o subchefe, e vários superintendentes e inspetores que, em consequência dos tumultos, felizmente desfeitos, estavam se cruzando nos corredores. Tão logo essas pessoas decidissem dar o dia por acabado e saíssem, ele o faria também, e o mais depressa possível." (pág. 15)

"Os laços entre os dois tinham se enfraquecido ao longo dos anos, e era um alívio não ter que compartilhar de uma cama com ela. Tal impressão muitas vezes lhe doía na consciência, mas, depois de dezessete anos de casado, não lhe parecia possível fazer algo a respeito, e já há longo tempo ele deixara de se preocupar com quem seria o culpado." (pág. 18/19)

"'Por que você está sempre procurando em mim os defeitos de uma criança?'
Kollberg respondera: 'Para quebrar sua casca de autoconfiança. Para lhe dar uma chance de reconstruí-la novamente. Para transformá-lo em um bom policial, um dia. Para ensinar-lhe a bater às portas'." (pág. 60)

"-Li em algum lugar - lembrou Kollberg - , que, em cada mil americanos, um ou dois são potencialmente assassinos de massa. Mas, por favor, não me perguntem agora como chegaram a essa conclusão." (pág. 100)

"-Há um latente desprezo por policiais em todas as classes da sociedade - comentou Melander -,e só é preciso uma oportunidade para que isso se manifeste.
-Oh - exclamou Kollberg, num desinteresse total -, e qual o motivo disso?
-A razão é que toda polícia é um mal necessário - explicou Melander -, e todos sabem, inclusive criminosos profissionais, que podem ver-se de repente em situações nas quais só a polícia pode ajudá-los." (pág. 108)

"-O nó da questão é, logicamente - proseguiu Melander, despreocupado -, o paradoxo de que a profissão de policial exige de quem a abraça as mais excepcionais qualidades físicas, morais, mentais e de inteligência, mas não tem nada que atraia as pessoas que as possuam." (pág. 108/109)

"Inga tinha uma fraqueza pelos clichês. Seria possível fazer uma coleção das expressões que usava e vendê-la como manual para jornalistas principiantes: 'Se Pode Falar, Pode Escrever', seria o título, pensou Martin Beck." (pág. 164)

"-Vou contar-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém - revelou ele. - É que eu lamento por quase todo sujeito que temos de prender. Eles são apenas um monte de merda, que jamais deveriam ter nascido. Não é culpa deles se tudo vai para o inferno e eles não compreendem por quê. São tipos como este que acabam com a vida. Porco pão-duro que só pensa em seu dinheiro e em suas casas e na família e em seu chamado status social. Que pensam que podem dar ordens só porque estão por cima." (pág. 225/226)