segunda-feira, 16 de julho de 2018

300 dias de bicicleta



Título: 300 dias de bicicleta
Autor: Sven Schmid
Páginas: 216

O livro relata a aventura do engenheiro alemão Sven Schmid, partindo de Buenos Aires e fazendo todo o percurso de bicicleta até chegar ao Canadá. Mostra os problemas encontrados, diferenças climáticas e de terrenos, dificuldades com o trajeto, problemas com a língua e a cultura, enfim, toda a diversidade de situações que poderiam surgir num percurso desta natureza.

O livro tem um peso especial para mim, pois, além de adepto do cicloturismo e me identificar com as situações enfrentadas pelo viajante, ele, o livro, foi presente de minha filha Karenina que, sabendo do meu gosto, soube muito bem o que poderia satisfazê-lo. Sendo assim me sinto duplamente felicitado. Parabéns ao autor pela façanha e à minha filha pelo bom gosto.

Trechos interessantes:

“Como ciclista, você se aproxima muito das pessoas, torna-se palpável e muitas vezes começa a conversar com agricultores, motoristas de caminhão, policiais, vendedores de quiosques, trabalhadores rurais, crianças. Quase sempre é a curiosidade das pessoas que nos aproxima; começam sempre perguntando de onde venho, para onde vou, quanto tempo dura a viagem. No início, custa alguma superação abrir-se e se envolver com as pessoas. Mas depois de dar este passo, vivemos as histórias mais bonitas e mais incríveis com pessoas desconhecidas e provenientes de uma cultura diferente da nossa, vivenciamos a verdadeira hospitalidade e recebemos a maravilhosa oportunidade de, por um momento, participar da sua vida.” (pág. 11)

“Quando finalmente penduro os alforjes nos bagageiros e sento no selim, um círculo de taxistas, seguranças e passageiros se formou a meu redor. “E para onde vai?”, perguntam e ficam pasmos quando simplesmente dou de ombros em resposta. “Por que não viaja de moto ou de carro?” Minha resposta faz as pessoas balançarem a cabeça: “Acho muito mais divertido pedalar do que ficar sentando num veículo motorizado”. Parece que na América do Sul só anda de bicicleta quem não pode comprar carro. Que logo eu, um europeu “rico”, use este meio de transporte, é algo que eles realmente não entendem.” (pág. 18)

“Já conheci muita gente simpática, mas encontros com outros ciclistas são muito especiais. É como encontrar irmãos de alma, pessoas às quais nos sentimos ligados de um modo particular, independente de nacionalidade, idade, profissão ou visão de mundo.” (pág. 31)

“O que eu mais gosto no esporte, especialmente no ciclismo, ou melhor, na viagem de bicicleta, justamente esta mudança de percepção e o fato de passar a valorizar pequenas coisas do cotidiano. Muitas pequenas coisas do dia a dia, como poder fazer uma refeição quente, ganham um novo sentido, e as impressões e sentimentos são vividos com muito mais intensidade. Para o meu paladar, tudo funciona como um intensificador do sabor – com a vantagem de não ter efeitos colaterais.” (pág. 43)

“A estrada passa por Salinas Grandes, um imenso lago salino seco situado a 3450 m de altitude. Entro por um caminho estreito e, por alguns minutos, pedalo sobre a crosta de sal. Em algumas partes ela é macia e difícil de passar, em outras partes, dura como concreto. Naquela altitude, o ar é gelado. Ao mesmo tempo, o sol a pino brilha sem nenhum filtro no céu azul cobalto. A superfície de sal, lisa como um espelho e branca como a neve, reflete a luz também de baixo para cima. Meu corpo não sabe se congela ou transpira, é uma sensação muito desagradável.” (pág. 52/53)

“Encostado na parede de uma casa, fico um tempo sentado na rua tentando me acalmar com ajuda de alguns pedaços de biscoito de chocolate derretido e alguns goles de Coca-Cola quente. Corro a vista pelas ruas do vilarejo que tem telhados de grama seca. Os tijolos de barro não cozidos usados nas paredes das casas não devem ser impermeáveis; nas casas mais antigas, vê-se que as paredes são mais finas e que o barro lavado pela chuva se acumula em montinhos ao lado da parede. Muitas das casinhas não têm janelas, ou apenas janelas muito pequenas; vidraças é algo que nem todos os moradores devem conseguir comprar. E eu sentado aqui reclamando, com meu equipamento supereficiente, que certamente vale mais do que o patrimônio de muita gente neste povoado. Na verdade, com todas as garantias que possuo, como cartão de crédito, plano de saúde, previdência privada e uma profissão segura e entre as mais bem pagas, eu deveria me envergonhar de reclamar do meu problema desimportante e que, certamente em questão de poucas horas, vai deixar de existir. A situação em que estou exemplifica muito bem o fato de que as pessoas norteiam suas exigências pelas próprias possibilidades e pelo grau de dificuldade dos seus problemas cotidianos. Quanto mais tranquila e despreocupada a vida, mais rápido as pessoas se afligem com pequenas dificuldades.” (pág. 65)

“Sendo parte do trânsito, especialmente quando se locomove de bicicleta, você obrigatoriamente coloca seu destino nas mãos de centenas de pessoas cuja consciência pode estar sob influência de álcool, drogas ou cansaço.” (pág. 80)

“Parece que a criatividade do ser humano não conhece limites quando se trata de tirar dinheiro dos turistas. Pessoas de trajes típicos acenam de longe quando atracamos, inundando-nos com os sorrisos mais gentis, e jovens mulheres nos dão seus bebês para segurar. Mas se você deixar a ilha sem comprar o bordado de 25 dólares com a inscrição I love Puno de um lado e a etiqueta Made in China do outro, esse sorriso simpático e gentil se transforma em um olhar mau de desprezo.” (pág. 83)

“Vejo os rostos tristes das pessoas em seus casebres miseráveis, as montanhas de lixo. Quais as chances de uma pessoa nascida naquele fim de mundo não terminar a vida amargurada e triste? Face aos lucros que saem dessas minas, as pessoas aqui deveriam ser prósperas, mas a maior parte dos lucros sai do país junto com as matérias-primas extraídas, deixando para trás pessoas empobrecidas e malformadas em um ambiente venenoso e poluído.” (pág. 100)

“’Queria saber e entender o que as pessoas pensam, como organizam suas viagens e o que as motivou’, diz Lucho quando tomamos uma cerveja e eu lhe pergunto por que resolveu abrir o albergue. Lucho fala de um amigo de longa data da Alemanha, Heinz Stucke. Heinz é um ícone para os viajantes de bicicleta, uma espécie de líder da nação dos ciclistas. Começou sua viagem era 1962 na localidade de Hovelhof, na Renânia do Norte-Vestfália, nunca mais tendo voltado para a Alemanha. Desde então pedala incessantemente mundo afora. Nos últimos 50 anos, percorreu mais de 600.000 km, quase tudo na mesma bicicleta. Já se hospedou algumas vezes no albergue de Lucho. Na parede do corredor há várias fotos de sua viagem.” (pág. 103)

“Diante de um bosque, Georgy para abruptamente e manda; “Joguem o lixo na mata.” Não consigo acreditar quando olho para os dois tonéis cheios de copos e garrafas de plástico e latas de conserva. Como é possível? “Isso mesmo, os dois latões, é só virar e despejar, sempre deixamos nosso lixo aqui.” Com o coração pesado eu sigo as ordens e deixo o conteúdo dos latões cair ao lado da estrada, onde já há lixo de plástico, metal e vidro. Mal consigo acreditar na selvageria que estou cometendo. Para mim, europeu ocidental, esse ato equivale a um crime, mas se eu não cumprir a ordem, Georgy executará a tarefa com as próprias mãos, como parece ser o hábito aqui.” (pág. 112)

“...com uma taxa de criminalidade relativamente baixa, a Costa Rica é considerada um dos países mais seguros da América Central. Um fator que certamente foi bastante significativo para isso foi a decisão do presidente José Figueres Ferrer, em 1949, de dissolver o exército através de um ato constitucional e de investir as verbas nos setores da saúde e da educação. É de se lamentar que outros países não tenham seguido essa ideia. Certamente o mundo de hoje seria bem diferente.” (pág. 150)

“A hospitalidade é enorme. Sinto-me um pouco mal ao ganhar um presente tão grande, sem poder retribuir. Ser tão bem e generosamente tratado por pessoas estranhas é uma experiência especial e muito marcante. Quando pergunto como posso retribuir, Laurie diz: “Não precisa devolver para nós, basta ser gentil com outros, assim tudo se compensa a longo prazo. Nós ganhamos muitos presentes na vida e tampouco pudemos retribuir”.” (pág. 203)

“Mal posso acreditar quando leio numa placa que ciclistas estão proibidos de circular na estrada entre 11h e 16h. É bem típico dos EUA, penso. Carrões, ônibus e vans têm prerrogativas que as bicicletas não têm.” (pág. 205)

“Como habitante de um país da Europa ocidental com chances e possibilidades quase ilimitadas tendemos a considerar quase natural coisas como bem-estar, educação, paz, segurança e justiça. Esquecemos como são valiosas essas conquistas e o que significam para a qualidade de vida – até o momento em que nos confrontamos com gente que vive numa sociedade sem nada disso. O que torna mais impressionante, portanto, a coragem e a força das pessoas que tocam as suas vidas com meios próprios, conservando, mesmo assim, um olhar positivo para a vida. Elas nos mostram que é possível lidar de várias formas com situações e que há vários caminhos que levam ao mesmo fim.” (pág. 210)

terça-feira, 3 de julho de 2018

Do universo à jabuticaba



Título: Do universo à jabuticaba
Autor: Rubem Alves
Páginas: 256

Este é um livro de textos curtos e pequenas histórias (algumas com apenas poucas linhas) sobre os mais diversos assuntos. As histórias estão separadas por temas, tais como: Criança, velhice, reflexões, vida e morte, música, natureza e assim por diante. Cada tema apresenta vários textos com ensinamentos, reflexões e discussões mostrando a visão do autor.

Vários são os assuntos recorrentes, principalmente os relacionados às áreas de especialidade do autor, como a teologia e a educação. Cada assunto é abordado de uma maneira direta, simples, às vezes até cômica, facilitando a compreensão e possibilitando ao leitor a oportunidade de se aprofundar sobre o tema. Em resumo, uma ótima leitura.

Trechos interessantes:

“Há ruídos que não se ouvem mais; o grito desgarrado de uma locomotiva na madrugada; os apitos dos guardas-noturnos; os barbeiros que faziam cantar o ar com suas tesouras; a matraca do vendedor de cartuchos; a gaitinha do afiador de facas. Todos esses ruídos apenas rompiam o silêncio. E hoje o que mais se precisa é de silêncios que interrompam o ruído...” (pág. 12)

“Meus sonhos? Sonho em ter tempo para curtir as montanhas e cachoeiras das Minas Gerais. Sonho em ter tempo para vagabundear. Sonho em ter tempo para brincar com minhas netas. Sonho em escrever uns livros que estão na minha cabeça e que não consigo por falta de tempo.
O que tenho sentido? Beleza. Nostalgia. Tristeza. Cansaço. Urgência. A curteza do tempo. Um enorme desejo de passar uns tempos num mosteiro, longe de cartas, telefones, micros, viagens, e-mails, curtindo a solidão e a ausência de obrigações.” (pág. 16/17)

“O que tenho pensado? Penso tanta coisa que não é possível dizer o que tenho pensado. Penso que o tempo está passando. Penso que o mundo está cheio de beleza. Penso que não quero morrer. Penso que quero morrer. Penso que, se Deus tivesse pedido meus conselhos o mundo seria melhor.” (pág. 18)

“Ele chegou na hora certa. Aluno da Unicamp, me pedira uma entrevista. Eu não sabia o que ele queria saber de mim. Assentados, ele com prancheta e caneta na mão fez a grande pergunta: ‘Eu queria saber como foi que o senhor planejou a sua vida para chegar aonde chegou...’. Compreendi imediatamente. Ele gostava de mim. Me admirava. Queria ser como eu. E queria que eu lhe revelasse o segredo, o mapa... Fiquei triste por ter de desapontá-lo. Minha resposta, absolutamente verdadeira, foi: ‘Eu estou onde estou porque tudo que planejei deu errado...’ .” (pág. 26)

“Visitando uma reserva florestal no estado do Espírito Santo, a bióloga encarregada do programa de educação ambiental me disse que é fácil lidar com as crianças. Os olhos delas se encantam com tudo: as formas das sementes, as plantas, as flores, os bichos, os riachinhos. Tudo, para elas, é motivo de assombro. E acrescentou: ‘Com os adolescentes é diferente. Eles não têm olhos para as coisas.Eles só têm olhos para eles mesmos...’. Eu já tinha percebido isso. Os adolescentes já aprenderam a triste lição que se ensina diariamente nas escolas. Aprender é chato. O mundo é chato. Os professores são chatos. Aprender, só sob ameaça de não passar no vestibular. Por isso quero ensinar as crianças.” (pág. 46)

“Sonho com o dia em que as crianças que leem meus livrinhos não terão de grifar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não será objeto de exames vestibulares: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.
Não avalio as crianças em função dos saberes. São os saberes que devem ser avaliados em função das crianças. E isso que distingue um educador. Um educador não está a serviço de saberes. Está a serviço dos seus alunos. ‘Aquele que é um mestre, realmente um mestre, leva as coisas a sério – inclusive ele mesmo – somente em relação aos seus alunos’. (Nietzsche).” (pág. 50/51)

“As crianças jamais desejam ser aposentadas de ser crianças. O terrível e mortal é quando o homem se aposenta. Não estou me referindo simplesmente ao momento em que não é mais necessário comparecer ao trabalho. Estou me referindo àquele momento quando um homem ou uma mulher atracam o seu barco e se entregam à tola ilusão de, finalmente, ter paz. Mas paz, precisamente, é o que a alma não deseja. A alma deseja o perigo, o desconhecido. A alma é uma águia que ama as alturas, as montanhas geladas, o mar desconhecido, os abismos. A alma é guerreira: ‘Pugno, ergo sum’ – luto, logo existo. É preciso que  haja sempre uma batalha a ser travada.” (pág. 58)

“Chamar a velhice de ‘melhor idade’ é o mesmo que chamar as gestantes de ‘virgens’ e as pessoas com dificuldade de locomoção de maratonistas...” (pág. 61)

“Parar de fumar aos poucos é o mesmo que parar de ser infiel à esposa aos poucos...” (pág. 84)

“Diabetes não tem cura. É doença crônica. Doença crônica é uma doença que requer cuidados até a morte. Mas não se apoquente. A vida também é doença crônica que exige cuidados até a nossa morte. Todo dia você tem de comer, beber, respirar...” (pág. 94)

“O que meu coração deseja não é navegar para o futuro. O futuro é o desconhecido. E por mais que eu dê asas à minha imaginação não consigo amar o que não conheço. Pode ser que ali se encontrem as coisas mais maravilhosas – mas, como eu nunca as tive, não posso amá-las. Não sinto saudades delas. A saudade é um buraco na alma que se abriu quando um pedaço nos foi arrancado. No buraco da saudade mora a memória daquilo que amamos, tivemos e perdemos: presença de uma ausência.” (pág. 108)

“Posso prometer atos: proteção, companhia, cuidado. Não posso prometer sentimentos. ‘Sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar...’ É lindo, mas não é verdade. Atos futuros podem ser prometidos. Sentimentos só podem ser cantados no presente.” (pág. 111)

“Tenho tristeza pelos pecados que não cometi... Eram pecados tão inocentes... Estou até desconfiado de que se Deus está me castigando, ele está me castigando porque eu não pequei o tanto que ele queria que eu pecasse.” (pág. 137)

“Há a fantasia de que ‘ela é areia demais para o meu caminhãozinho’. Claro que há sempre o recurso de se fazer duas viagens, se houver gasolina para tanto. Mas a assimetria continua.” (pág. 164)

“Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: ‘Veja!’ – e, ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. O seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente. E, ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria e dar mais alegria – que é a razão pela qual vivemos.” (pág. 232)

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Números de azar



Título: Números de azar
Autor: Anne Holt
Páginas: 216

História policial ambientada na cidade de Oslo, envolvendo atentados que sempre acontecem aos sábados onde há muito sangue, mas nenhuma vítima e também estupros envolvendo principalmente imigrantes. Em meio a tudo isto está a detetive Hanne Wilhelmsen com a difícil missão de solucionar os casos.

Li o resumo na capa do livro e pensei que a história seria interessante, mas me decepcionei. Achei que foi muito barulho por nada. A história não conseguiu prender minha atenção. Acho que há muita enrolação e pouco desenvolvimento. Os números mencionados no título, pouco ou nada ajudam na história. Mas, claro, esta é a minha visão. Leia e tire suas próprias conclusões.

Trechos interessantes:

“A mulher de 24 anos sentada de frente para ela, olhando para baixo, era a 42ª vítima de estupro de que a investigadora Hanne Wilhelmsen teria que cuidar. Ela mantinha a contagem. O estupro era o pior crime de todos. Homicídio era algo diferente, ela podia, de certa forma, compreender.
Um insano e furioso momento de violência e instabilidade, talvez um traço de agressão reprimido durante anos. Isso até entrava na cabeça dela. Mas não o estupro.” (pág.  33)

“– O que você faria se alguém me estuprasse? – ela perguntou de repente.
– Estuprasse você? Por que alguém a estupraria? Você não é tão descuidada assim para ser estuprada.
– Sinceramente, querida. Você precisa repensar isso. Nunca se é estuprada por descuido.
– Ah, não? Por que nenhuma de nossas amigas foi estuprada até hoje então? Por que o jornal constantemente noticia que as garotas foram violentadas nos locais mais suspeitos da cidade, nas horas mais propícias? Se você tomar cuidado, não será estuprada.” (pág. 74/75)

“Nove dias e oito noites. Ela não tinha falado com ninguém. Houve, naturalmente, a troca esquisita de palavras com seu pai, mas ainda parecia que eles estavam cheios de rodeio. No fundo, cada um sabia muito bem o que o outro queria dizer, mas como começariam, como continuariam, não tinham ideia. Não conseguiam quebrar ou vencer a barreira que os aproximava, mas que ao mesmo tempo impossibilitava que se comunicassem.” (pág. 123/124)

“Ele merecia morrer. Ela não merecia o que ele tinha feito com ela. Ele era um ladrão e um assassino. O pai dela não merecia sofrer daquela maneira. Quando finalmente se acalmou, passou a saborear uma espécie de satisfação apaziguadora, pois uma atitude seria tomada; ela ficou atônita. Isso era loucura, pura e simples. Você não pode simplesmente matar pessoas. Mas, se alguém tinha que fazer isso, seria ela.” (pág. 156)

“Kaldbakken suspirou profundamente, e ela pôde ouvir o chiado em seus brônquios muito cansados.
– Mas, no geral, tem sido bom trabalhar na polícia – ele comentou, contemplando o ambiente. Quando você vai para a cama à noite, sabe que é um dos mocinhos.” (pág. 166)

“Finn Haverstad não estava preocupado em ter que se livrar da culpa pelo assassinato do homem que estuprou sua filha. Ele queria garantir que realizaria seu propósito em paz. Depois, passaria algumas horas com Kristine antes de se entregar à polícia e contar o que tinha feito. Ninguém o condenaria por isso. É claro que ele receberia uma punição por um tribunal de justiça, mas ninguém realmente o condenaria. Ele jamais se condenaria. Seus amigos certamente não fariam isso. E, quando não houvesse mais o que fazer, quando a situação ficasse crítica, Finn Haverstad não dava a mínima para o que os outros fossem dizer. Matar era essencial para ele. Isso era justiça.” (pág. 172/173)

domingo, 24 de junho de 2018

Subindo pelas paredes



Título: Subindo pelas paredes
Autor: Alice Clayton
Páginas: 278

Caroline muda-se para um novo apartamento e descobre que, ao contrário do que esperava, suas noites não serão nada calmas. Devido às paredes finas do apartamento, ela consegue ouvir e sentir tudo o que se desenrola no apartamento vizinho. As atividades sexuais do seu novo vizinho a deixam desconfortada, principalmente pelo fato dela estar sozinha ultimamente.

Diante da situação decide reclamar diretamente ao vizinho e, como era de se esperar, descobre que ele é o homem dos sonhos de toda garota. Daí pra frente é fingir que não quer nada com ele e, ao mesmo tempo, insinuar que deseja. O final é previsível e, tratando-se de um romance erótico, apresenta uma linguagem apimentada e tudo mais que se espera de livros desse gênero.

Trechos interessantes:

"– Você já viu esse cara? – Mimi perguntou, o olhar ainda fixo na parede.
– Não. Mas o meu olho mágico tem trabalhado bastante.
– Bom, pelo menos um buraco tem estado ocupado nesta casa – Sophia  murmurou." (pág. 25)

"A música parou de repente. Caí como se tivesse sido atingida. Mimi e Sophia levaram a mão uma à boca da outra, enquanto eu continuava estendida na cama e mordia o nó dos dedos para não rir. O frenesi no quarto era igual ao de ser pego fugindo depois de tocar a campainha do vizinho ou dando risada no fundo da igreja. Você não pode parar e também não pode não parar." (pág. 43)

"– Acho que consigo encontrar algo – provoquei, esticando o braço ao mesmo tempo que ele recolhia o seu. Sua mão roçou a lateral do meu seio, e ambos estremecemos. – Você está tentando me bolinar, é? – falei, sintonizando uma canção.
– Fala a verdade, você colocou os peitos no caminho da minha mão! – ele disparou.
– Acho que a sua mão mudou de direção diante da trajetória dos meninos aqui, mas não se preocupe. Você não foi o primeiro nem será o último a ser atraído para a órbita destes dois seres celestiais – suspirei dramaticamente, olhando-o de soslaio para ter certeza de que ele tinha pegado o tom de brincadeira. O canto de sua boca se espichou num sorriso, e eu me permiti um sorrisinho também." (pág. 56)

"Nunca pensei que fosse gostar de ficar sozinha, mas, ultimamente, vinha me sentindo muito bem sem um homem na minha vida. Estava só, porém não solitária. Orgasmos à parte, sentia falta da companhia de um namorado de vez em quando, mas gostava de ir aos lugares sozinha. Se podia viajar sozinha, por que não? De qualquer modo, na primeira vez em que resolvi ir ao cinema sem ninguém, achei que seria estranho - a probabilidade de encontrar um conhecido no meio de uma selva costa-riquenha era próxima de zero; já na selva de San Francisco? A probabilidade era muito maior - só que foi ótimo! E ir sozinha a um restaurante também foi bacana. O fato é que eu sou uma ótima companhia." (pág. 78)

"Eu era próxima de meus pais. Eles ainda viviam na mesma casa em que cresci, numa cidadezinha do sul da Califórnia. Eram pais maravilhosos, e eu os via sempre que podia, ou seja, nos feriados e um ou outro fim de semana. Como alguém com vinte e poucos, curtia minha independência.
Mas meus pais estavam lá para mim quando eu precisava, sempre. O pensamento de que, um dia, eu vagaria por esta terra sem minha âncora, sem sua orientação, me fez estremecer - não podia sequer imaginar perder ambos sendo uma criança de dezoito anos." (pág. 124/125)

"Uma tarde - eu tinha quinze anos -, minha avó me disse que o vestido cor-de-rosa que eu estava usando ficava bem em minha pele. Fiz uma careta e discordei:
– Obrigada, vovó, mas ontem só dormi três horas, e se tem uma coisa que estou hoje é bonita. Cansada, pálida, não bonita. Revirei os olhos como as adolescentes fazem, e ela pegou minha mão.
– Sempre aceite um elogio, Caroline. Aceite pela intenção de quem o faz. Vocês garotas sempre distorcem o que os outros dizem. Apenas agradeça e siga em frente. – Ela sorriu do seu jeito sereno e sábio." (pág. 226)

domingo, 17 de junho de 2018

Banquete com os deuses

Título: Banquete com os deuses
Autor: Luis Fernando Veríssimo
Páginas: 230

Neste livro o autor nos brinda com crônicas e textos diversos, tendo como base o cinema, a literatura e a música. Foge um pouco da característica do cronista que retrata assuntos comuns do dia a dia para se aventurar em temas mais pessoais, sem deixar de lado a ironia e o bom humor.

Claro que, com meus parcos conhecimentos, ignoro grande parte dos autores e músicos mencionados, mas nem por isso deixo de apreciar o estilo e sagacidade da escrita. Meu conhecimento sobre cinema é superficial, por isso, mesmo conhecendo boa parte dos filmes, não tenho o entendimento necessário para comentá-los.

Trechos interessantes:

"O cinema é a arte dos sentidos, não do intelecto. O drama humano pode ser contado numa sucessão de poses. E isso é ofício de narcisista. Quanto mais, melhor." (pág. 27)

"A conquista do mundo, que quase sempre significa tomá-lo de quem tem uma pele diferente ou um nariz um pouco mais achatado do que o nosso, não é uma coisa bonita de ver. O que a redime é a ideia, apenas. A ideia por trás dela: não uma pretensão sentimental, mas uma ideia, e uma crença desinteressada na ideia — alguma coisa a qual se pode amar, e reverenciar e oferecer sacrifícios..." (pág. 34)

"O que isto tem a ver com o Dom Quixote de la Mancha, Borges o que quer que seja, pergunta você? Estou surpreso de você ter chegado até o fim deste texto, quanto mais de ainda fazer perguntas. Não posso responder. Eu não estou aqui desde a terceira linha." (pág. 38)

"A minha preocupação constante é: haverá uma vida depois da morte? E, se houver, será que eles trocam uma nota de 500?" (pág. 50)

"Truman Capote era o dono da casa onde acontecem os crimes naquela comédia policial escrita por Neil Simon, cujo título, claro, só me ocorrerá quando você já estiver lendo isto. Capote, que nunca fez muito sucesso na França, porque lá 'capote' é o apelido de camisinha e o gosto francês pela ironia não vai tão longe, só podia mesmo fazer um personagem fictício. Nem ele conseguiria interpretar o próprio Truman Capote convincentemente." (pág. 77)

"Confesso que não acompanhei o envelhecimento dos Beatles com muita atenção, principalmente depois que o John parou de envelhecer. As pessoas e as coisas que têm um significado muito forte em certas fases de nossas vidas só existem depois para lembrar como tudo passa." (pág. 179)

"–O que será que estão me dando? — pergunta Sócrates.
–Se não é scotch é porcaria – sentencia Shaw.
–A última bebida que me deram era cicuta.
O rosto de Shaw se ilumina com a deixa.
–Cicuta, pra mim, é um veneno..." (pág. 196)

"O cérebro humano é uma coisa tão complexa que nem o cérebro humano é complexo o bastante para entendê-lo. Era só o que eu queria contribuir para o desânimo geral destes dias, obrigado." (pág. 227)

domingo, 3 de junho de 2018

Meu reino por um cavalo

Título: Meu reino por um cavalo
Autor: Ivan Pinheiro Machado (org.)
Páginas: 150

Como afirma o próprio subtítulo, trata-se de um livro de citações, aforismos e frases célebres. São frases de poetas, cientistas, políticos, filósofos, pensadores, etc., algumas delas amplamente conhecidas, sendo a maioria com o sentido humorístico ou sarcástico.

As frases estão divididas por assuntos (amor, tempo, dinheiro, poder, etc.) acompanhadas de ilustrações que as representam ou satirizam. Sendo um livro de citações, apenas a frase e o autor são mencionados, sem qualquer tipo de comentário  ou esclarecimento.

Exemplos de frases:

"Você diz que ama a chuva.
Mas quando ela cai, você fecha as janelas.
Você diz que ama os peixes.
Mas corta-lhes a cabeça.
Você diz que ama as flores.
Mas corta-lhes a haste.
Então... quando você diz que me ama,
tenho medo!" (Marcel Rioutord) (pág. 15)

"Não existe vingança maior que o esquecimento." (Baltasar Gracián) (pág. 18)

"Mesmo no amor, é puramente uma questão de fisiologia. Os moços querem ser fiéis e não são; os velhos querem ser infiéis e não podem." (Oscar Wilde) (pág. 21)

"Nenhum homem rico é feio!" (Zsa Zsa Gabor) (pág. 31)

"Só se morre uma vez. E é por muito tempo." (Molière) (pág. 37)

"Podes exigir que eu busque a verdade, mas não que eu a encontre." (Denis Diderot) (pág. 49)

"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana: mas quanto ao universo, ainda não tenho certeza absoluta." (Albert Einstein) (pág. 75)

"Errar é humano. Mais humano ainda é atribuir o erro aos outros." (Anton Tchékhov) (pág. 76)

"Prefiro o paraíso pelo clima e o interno pela companhia." (Mark Twain) (pág. 93)

"Minha vida está cheia de grandes desgraças. Muitas das quais nunca aconteceram." (Montaigne) (pág. 102)